20.50

Breiller Pires (parte 2)

Equipe Ludopédio

O mineiro Breiller Pires é daquelas figuras que te permitem resgatar o clichê da ‘alma’ hospitaleira do brasileiro. Recebeu nosso convite para a entrevista com muita disposição e nos abriu as portas da redação do El País para uma hora de bate-papo que foi muito além das pautas do jornalismo esportivo. Como ele mesmo disse, o “o jornalismo no esporte não se resume ao campo, aos campeonatos e ao que acontece no jogo”. E não é por acaso: Breiller carrega na bagagem reportagens sobre a política da FIFA, escândalos de pedofilia no futebol e o encontro com ex-goleiro Bruno. Boa leitura!

Jornalista Breiller Pires. Foto: Acervo pessoal.

Você falou sobre estudar para entender como lidar com pessoas jovens que passaram por traumas, isso deve ter sido algo que te exigiu bastante. Tem uma entrevista que a gente queria saber: como foi conversar com o ex-goleiro Bruno? Como você se sentiu já que em sua fala há muito comprometimento que você tem com o seu ofício. Você estava diante de algo que não te deixava neutro. Como foi isso? Como se deu o contato?

A decisão de entrevistar o ex-goleiro Bruno partiu do momento em que ele foi anunciado como uma contratação de um time, o Montes Claros. O clube disse: “contratamos o Bruno e ele vai jogar”. Como o cara vai jogar se ele está preso? Condenado por um crime hediondo. Nós decidimos que era preciso não só contar se ele pode ou não jogar, mas ouvir dele porque mesmo depois de ser condenado por matar uma mulher, ele se vê no direito de exercer a profissão. E ali a gente enxergou uma discussão muito complexa. O Bruno não havia sido condenado em segunda instância, ele tinha um recurso para ser julgado. Esse recurso estava há mais de quatro anos na justiça. Ele era um preso provisório. Então, aí levanta uma discussão sobre os milhares de presos provisórios que o Brasil tem e sem a mesma visibilidade do Bruno. O Bruno pelo menos tinha advogado.

Na prisão, existem pessoas que não foram nem julgadas em primeira instância e estão presas. Então, por isso resolvemos entrevistar o Bruno. Para lançar uma discussão muito maior do que o futebol ou qualquer outra coisa.

O pedido de entrevista foi muito complexo, dependia de autorização e negociação com os advogados. Nesse tipo de entrevista, geralmente, quando é para a televisão costumam até cobrar cachê. E o Bruno estava precisando de dinheiro. Ele já não tinha mais dinheiro para pagar advogado. E ele cobrou cachê de uma televisão japonesa e logo a gente estabeleceu que não pagaríamos pela entrevista. Deixamos claro que queríamos lançar essa discussão e uma das nossas garantias foi fazer a entrevista de uma maneira respeitosa, entendendo que ele tinha sido condenado por um crime grave, mas que ele tem o direito de falar. Por mais que ele esteja preso por ter cometido um crime bárbaro, ele continua sendo um cidadão que tem direitos. A gente não vive na Idade Média. Oferecemos o espaço para o Bruno. Eu tentei ser respeitoso mesmo sendo firme com ele, perguntando sobre a Elisa [Samudio] o que havia acontecido com ela. Além de toda repercussão midiática do caso Bruno, eu não conhecia, mas eu fui muito próximo dele. O Bruno é de 1984, eu sou de 1985 e ele jogava no mesmo time que eu em Belo Horizonte. Chama Santa Cruz, um time de várzea que tinha categorias de base. Era um time bem reconhecido na várzea de Minas Gerais e eu conhecia o Bruno de nome porque ele era muito falado. “Pô, tem um goleiro muito talentoso no 84”. Talvez eu tenha até chegado a treinar com ele, não me lembro. Mas eu enxergava ali uma pessoa em que eu poderia ter me tornado: talvez um jogador de futebol, uma pessoa que veio de periferia.

Mas a realidade do Bruno era bem diferente. Tinha família desestruturada, ele ia para o clube para fazer uma refeição porque ele não tinha em casa, e o clube oferecia. O clube e até o presidente se tornaram a família do Bruno. Eu até comentei com ele sobre o Santa Cruz na entrevista, e ele falou da época em que jogou. Mas esta relação que eu tive com ele me deixou ainda mais espantado de como o futebol é uma máquina de moer seres humanos. E o caso do Bruno foi visível porque um goleiro que chegou ao estrelato, chegou à seleção brasileira, era cotado para disputar uma Copa do Mundo e cometeu um crime bárbaro. Mas imagina as pessoas que ficam pelo caminho, que não conseguem chegar ao status que o Bruno chegou e que têm a vida destroçada porque apostaram tudo num sonho que só se torna realidade para uma ínfima parcela da população. Para mim, ter entrevistado o Bruno foi uma experiência até edificante mesmo sabendo que ele tinha cometido um crime bárbaro. E ali a gente cumpria função do jornalismo que é dar voz às pessoas, independentemente do que tenham feito e permitir que elas apresentem a sua versão. A partir da matéria que a gente publicou gerou discussão sobre se o Bruno poderia jogar ou não. E o recurso dele acabou sendo indeferido, mas a gente conseguiu ultrapassar essa barreira do campo e levar para um público de futebol uma realidade do Brasil que é essa a de presos provisórios, do tratamento dessas pessoas através de uma personalidade que tinha se destacado no futebol.

Você atua no El País e na ESPN. Nos últimos anos, a ESPN passou por mudanças editoriais bem visíveis. Como é a diferença entre trabalhar com a escrita e trabalhar na televisão? E como tem sido essas mudanças ocorridas na ESPN?

Eu sempre fui mais da escrita. Nunca pensei em trabalhar para a televisão, nunca me preparei para isso. Foi algo totalmente acidental. Eu gosto mais de escrever, mas acredito que a televisão também propicia essa abertura de um campo, de levar um conteúdo melhor e um conteúdo mais aprofundado para mais pessoas. Acho que na ESPN, mesmo com toda a mudança editorial que aconteceu, isso é fato, ainda dá espaço para discussões aprofundadas. O próprio programa Linha de Passe é para muita gente, principalmente, depois de uma derrota da seleção ou derrota de um time ele quer ligar nesse programa porque sabe que ali vai ter um posicionamento crítico. Um olhar diferente que, talvez, ele não assista ou não encontre em outros canais de televisão aberta ou fechada. Então, acho que ainda a ESPN cumpre esse papel de ser crítico, de ser combativa, de ter isso como parte de uma linha editorial. Mas houve uma mudança e uma aposta para tentar se readaptar aos novos tempos. E não é só a ESPN, são todos os canais. Em quais hoje a gente encontra uma programação que não seja o ao vivo, a discussão do factual? Praticamente um, não conheço outro.

Então, é uma mudança que tem passado o jornalismo, mas eu acredito que existem muitas pessoas interessadas em ler boas histórias, em assistir um documentário mais aprofundado como a ESPN fazia no passado. Essas pessoas têm sido direcionadas, especialmente, para canais alternativos, para canais de Youtube que têm oferecido bons conteúdos. Então, acredito que o que a televisão deixou de oferecer foi parar em outro lugar. Mesmo a gente aqui no El País consegue contar essas histórias que têm apelo, têm audiência e até no Mundial feminino que a gente contou várias histórias e cobriu com a devida atenção teve um retorno de audiência até melhor do que a cobertura de Copa América. Acredito que há muitas pessoas, por mais que seja um jornal de nicho, não seja um jornal tão popular, temos muitas pessoas interessadas nesse tipo de conteúdo e interessadas, principalmente, numa visão crítica e num jornalismo combativo que consiga organizar de alguma forma tanta informação no meio desse caos de acontecimentos que a gente vive, de eventos e até um caos de futebol. A gente tem futebol a todo momento na televisão. Se você não é fanático pelo seu clube, você se perde em uma semana sem acompanhar. Essas pessoas têm se direcionado para além da televisão fechada que antes cumpria esse papel.

Como que funciona a elaboração de pauta no El País? Quais são os critérios para encontrar estas histórias? Existe uma orientação para encontrar histórias pouco conhecidas? Como é o critério da relevância da notícia, especialmente, voltando ao assunto das mídias digitais? Do volume de informações que as pessoas recebem diariamente.

Como no El País não somos um jornal que cobre o factual, a pessoa que gosta de esportes quer saber a tabela, se o time dele joga hoje, quem vai ser contratado, ele não vai ler aqui porque a gente não acompanha isso. E nem na política que é o coração da cobertura do jornal. Mas ele vai encontrar aqui como o futebol se relaciona com as outras áreas e vai ter um futebol com contexto. E é isso que a gente busca, privilegiar essas histórias e a todo momento a gente renuncia algumas pautas. A gente não consegue fazer por ter uma estrutura pequena, mas nosso grande critério é: essa história vai além do futebol? Isso daqui não se prende apenas ao campo? Isso daqui, de certa forma, reflete o país que somos ou o tempo em que vivemos?

Isso é o que a gente privilegia. E, principalmente, se a gente tem uma história boa que ainda não foi contada ou não foi contada da forma que a gente pensa que deveria ser contada. É preciso a todo momento rever a história e trazer à luz isso para mostrar para as pessoas e para tentar valorizar algo que as pessoas não aprendem na escola.

Na escola pública que é a realidade, foi onde eu estudei, eu aprendi pouquíssimo da história do Brasil, pela defasagem do ensino, mas também por essa cultura de deixar para lá e não precisar ver. E até o que aconteceu no período da Ditadura Militar em que houve sempre uma resistência enorme em contar, em tentar reescrever essa história, a gente vê que isso tem consequências graves. A gente observa isso hoje com a ascensão ao poder de pessoas que valorizam a tortura, que acham normal a censura, que defendem valores que, por muito tempo, eu achei que a gente não veria no Brasil. O pouco que estudei de Ditadura Militar na escola eu pensava: “Nossa, que barbaridade! A gente nunca vai ver isso de novo”.  Hoje a gente corre riscos pelo caos institucional do país e por ter pessoas que defendem isso e outras que apoiam justamente por não conhecer. A gente tem essa missão de utilizar o futebol, que é um ativo da nossa cultura, esporte muito popular e no El País a gente privilegia a cobertura de futebol não porque a gente não gosta de outros esportes ou que não quer dar visibilidade, mas porque a gente entende o futebol como algo popular que atinge várias pessoas. E que por muito tempo foi desvalorizado justamente por esse caráter que a gente pretende valorizar e dar o devido peso pela capacidade de transcender o que acontece no campo.

E essa crise de credibilidade se já te afetou. Se você já passou por alguma crise no exercício do seu trabalho relacionado a um tema que ficou muito popular que é sigilo de fonte. Já foi questionado sobre a veracidade da sua publicação por ter uma fonte que você não podia revelar?

Não só pela questão da fonte, mas pelo fato de as pessoas quererem brigar com a notícia. Muitas vezes você faz uma matéria, com dados, com informação e a pessoa quer fazer parecer que isso é uma opinião. Muitas vezes é a realidade nua e crua. E no futebol, especificamente, as pessoas adoram brigar com os fatos. Quando a gente dá uma matéria, por exemplo, sobre dívidas de clubes o torcedor se sente afetado por aquilo. “Não! Você está fazendo isso para prejudicar o meu time! E a dívida do outro?”. Isso acontece na política também. No futebol, a pessoa acha que esse tipo de matéria é uma ofensa à paixão dela e ofendendo o clube. “Mas por que você não publicou sobre tal clube?”. Porém, eu recebi a informação do seu clube e o que aconteceu no Cruzeiro, o escândalo envolvendo a polícia, afastamento de dirigente de desvio e lavagem de dinheiro é para servir não só para o clube se reinventar e se redemocratizar, mas para o futebol brasileiro inteiro refletir.

O que acontece com o Cruzeiro sabemos que é a realidade da maioria dos clubes de futebol brasileiros porque há pouca fiscalização. Então, às vezes, contar uma história serve para rebatermos um problema estrutural e isso ainda não é assimilado por torcedores.

Por muito tempo, o que contribui para essa visão do jornalismo como entretenimento, as pessoas acabam resumindo o que fazemos a um debate de mesa redonda. Eu entendo que o entretenimento faz parte do futebol. A pessoa liga a televisão para se distrair, quer ver uma discussão polêmica sobre o clube, mas é preciso ter o espaço e ser esse espaço cada vez mais separado do entretenimento para fazer jornalismo sério no esporte para debater federações, relações políticas, por que os clubes são tão fechados? Por que as pessoas não têm direito de voto mesmo sendo associadas desse clube? Falta isso também por parte do jornalismo de se reinventar.


Confira a última parte da entrevista no dia 9 de janeiro de 2020!

Como citar

LUDOPéDIO, Equipe. Breiller Pires (parte 2).