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Caio Vilela (parte 2)

Equipe Ludopédio

O fotógrafo Caio Vilela nos recebeu em sua casa para uma conversa muito interessante sobre as suas experiências culturais por conta de suas viagens para fotografar. Tendo viajado para 60 países esse paulistano tem muito o que contar. Nessa primeira parte da entrevista conta como se tornou um fotógrafo, dos fatos imprevistos que acontecem durante suas viagens e  de como fazer fotos sobre futebol. Caio lançou recentemente o livro Futebol sem fronteiras pela editora Panda Books e participou com inúmeras fotos na exposição Ora, Bolas! O futebol pelo mundo no Museu do Futebol. Para ver as fotos de Caio publicadas no Ludopédio acesse o perfil dele em nossa Comunidade Ludopédica.

Segunda parte

 

Como surgiu a ideia de fotografar os futebóis, principalmente amadores e informais, praticados em diferentes partes do planeta?

Foi por acaso, cinco anos atrás, quando eu estava fazendo uma matéria para a revista Ícaro no Irã. Eu tinha convencido os caras a fazer uma matéria “Irã no eixo do bem”. Era uma época em que a mídia só falava mal do Irã. Eu tinha certeza que se a gente fosse lá fazer uma experiência editorista, iria voltar falando muito bem dos iranianos, como todo mundo, desde Marco Polo ao último mochileiro que foi lá, todo mundo tem certeza que os caras são os mais hospitaleiros do mundo. E eu já sabendo disso queria fazer essa reportagem. Fui para lá para passar um mês e bati uma foto por acaso em Yazd, um centro de zoroastrismo no Irã. Tinha uma molecada jogando, eu estava comendo um sanduíche e, de repente, o jogo se aproximou de mim. Deixei o sanduíche de lado e tirei uma foto. Atrás da molecada jogando tem um monumento, cartão postal da cidade, uma fachada de arquitetura islâmica azulejada. Pensei: “e se toda pelada que encontrar eu clicar e juntar este material?”. E comecei a fazer isso depois de voltar do Irã, quando percebi que aquilo poderia render bem. No Irã mesmo, eu fiz poucas situações. Fiz uma pauta para a Placar sobre futebol no Irã. Tem uma cidade no Irã que chama Abadan, na divisa com o Iraque. É bem onde junta o rio Tigre com o Eufrates, do lado iraniano. Cidade completamente militarizada. Foi total bombardeada na guerra entre Irã e Iraque nos anos 80, e é tudo metralhado. Tem muita refinaria de petróleo, no Golfo. É um alvo. Você tira uma câmera na rua, você percebe que o negócio ficou tenso. “Quem é esse gringo?”. Só que todo mundo pira no futebol brasileiro lá. Eles trocaram até as cores do time da cidade para as cores do Brasil em 1970, quando o Brasil ganhou a Copa do Mundo. Desde aquela época, quando o Brasil muda um detalhe do uniforme, eles mudam igual. Respiram o Brasil e eles torcem. Torcer para o time deles e torcer para o Brasil é a mesma coisa. Na região, quem entende de Brasil são eles. E eu fiz uns amigos pelo Orkut. Na época não tinha Facebook. Fiz amigos pelo Orkut com os caras de Abadan e disse: “Estou a fim de ir para aí, mas estou com medo, chegar aí sozinho”. E eles: “Pode vir que a gente te leva no treino do Abadan e para ver um jogo”. Fui lá, no estádio, e fui tratado como Pelé. Eu era o Pelé chegando na cidade. Cheguei no estádio e todo mundo querendo tirar foto comigo. Deram a bola para eu fazer embaixadinha. Dei vexame. Mas o lugar ama o Brasil. E a minha nota era sobre isso: “Abadan é o Brasil”. Era o título e também o que estava escrito em toda bandeira. Todo mundo no jogo com a mesma bandeira e a mesma coisa. A torcida com camisa da Seleção Brasileira. Tem no livro o Abadan jogando. Na foto, eles estão jogando contra o time da “Iran Air”, patrocinado pela companhia aérea. Os dois são de segunda divisão. Lá eu fiz uma matéria para a Placar. Foi publicada em 2005.

Quais países mais chamaram atenção no que diz respeito ao futebol? No livro você cita o Iêmen como o país em que mais encontrou o futebol de rua, como você descreveria a prática de futebol por lá?

Em matéria de quantidade é o Iêmen. Quanto mais pobre é o país, mais futebol de rua tem. O Iêmen é páreo para a África. Na África, qualquer lugar tem futebol de rua. Na África do Sul não, pois lá a onda é rugby. Jogam futebol nos “townships”, mas nas ruas dos brancos o popular é o rugby. Mas na África inteira tem muito futebol e quanto mais pobre o país mais molecada tem na rua jogando bola. O Iêmen é o primo pobre dos países árabes. Um dado chocante: 60% da população do Iêmen tem menos de 15 anos de idade. Vários países da África têm números parecidos.

Algum outro país? Em qualidade?

Em qualidade, fora do Brasil, eu só futebol de rua com feras na Boca, em Buenos Aires, na Argentina. Já fotografei futebol na Argentina em vários lugares e situações. Mas se você quer ver uns feras jogando bola na rua é no bairro da Boca. Naquelas quadras… Tem uma foto que entrou no livro… Lá você vê muito craque, é só prestar atenção. No Iêmen é só perna de pau, só chutão para cima. Entram vinte contra dezoito. Uma hora eu contei… No Iêmen você vê muita cena chocante de futebol de rua. Tem um lugar que é um rio seco, tinha umas vinte quadras. Adultos, crianças, meninos… todo mundo ocupando a mesma área.

A Itália é um dos casos de países que não seguiram a terminologia corrente “football” ou “futebol”. Para eles é calcio. Nestes países, os termos são parecidos com “futebol”?

Cada país tem seu nome. Alguns bem engraçados. Na antiga Birmânia é “balunga”. Mas com esse localismo visto na Itália, não lembro de ter visto. Fiz poucas viagens pela Europa. Lá não tem muito futebol de rua. Tem na Itália, Espanha, Portugal… Na Alemanha não tem… A molecada joga no parque, no lugar que pode. Já viajei muito por estes países nórdicos e nunca vi futebol de rua.

Nesse sentido, no que diz respeito a estes futebóis jogados nos espaços públicos, quais as diferenças entre países ricos e países pobres? Ou, em outra divisão, entre países do Ocidente e países do Oriente?

A diferença é na geografia do futebol e na organização. O futebol está cada vez mais popular na Nova Zelândia, país onde o rugby é muito praticado. Lá o futebol é jogado com hora marcada no parque ou no campinho que já está reservado. Só assim o futebol acontece na Nova Zelândia. Claro, se tem um cara que é fazendeiro e gosta de futebol, ele joga com as ovelhas dele, o filho dele. Na Inglaterra, Escócia, Alemanha, quanto mais rico e organizado o país, mais regra tem. Enquanto mais pobre é a região, mais futebol tem na rua. O Brasil é um ótimo parâmetro. Aqui em São Paulo, você vai em um bairro pobre e tem gente jogando. Na Bahia tem muito mais futebol de rua do que no bairro Jardins ou no Morumbi em São Paulo. Bairro rico não vai, bairro pobre vai ter. Essa é uma lógica.

Caio Vilela contribui com diversas fotos na exposição Ora, Bolas! O futebol pelo mundo no Museu do Futebol.

Caio Vilela contribui com diversas fotos na exposição Ora, Bolas! O futebol pelo mundo no Museu do Futebol. Foto: Enrico Spaggiari.

Quais bolas improvisadas chamaram mais a sua atenção?

Já vi muita bola de papel, bola de meia. Nos centros das cidades sempre tem um cara que faz embaixadinha com qualquer coisa: chumbinho, coco… exibicionismo eu já vi de tudo. Mas cara jogando futebol mesmo com bola improvisada, tem essa foto de uma bola de palha trançada na Birmânia. É até famosa por lá. Todo mundo faz. Conhece o “Pelada Movie”? Dois gringos que jogam bem futebol, acho que são ingleses, um cara e uma menina, mas que nunca atingiram o nível profissional, juntaram-se a um filmmaker, deram uma volta ao mundo e jogaram bola com os nativos de todo lugar: Tailândia, Peru, países da África… E filmaram isso. Mas o filme não é só sobre eles. Eles aparecem em 20% do filme. É um filme sobre futebol de rua. Vi o trailer e achei bem legal. Dá vontade de ver o filme. Neste filme, tem a cena de um moleque costurando uma bola na África. Depois de costurar a bola, começa o jogo.

E o futebol praticado por meninas e moças, tem espaço nos outros países?

Pra caramba. Dá para citar três. Nos Estados Unidos, o mais óbvio. No Nepal, o criquet é popular entre os meninos na escola, e o futebol é esporte de menina. Moleque não joga futebol. Criquet é sério para as crianças do Nepal. Futebol é muito popular também na Birmânia. Só que a seleção nacional é muito ruim e nunca passa da primeira fase do campeonato asiático. Isso não porque não tenham jogadores bons, mas sim porque os jogadores bons não têm a chance de participar da seleção. participa da seleção o afilhado do político. É uma coisa pesada. Mianmar, a antiga Birmânia, está sob a ditadura militar desde a década de 1960. Em 1989, uma líder democrata ganhou a eleição e falou que tudo ia mudar. Deram um novo golpe e a líder não ficou nem um dia no poder. Os políticos têm uns apadrinhados na seleção. O reflexo disso é que o futebol feminino é muito mais popular para assistir. Jogar, os dois sexos jogam. O time feminino já ganhou duas vezes a Copa Asiática. Está até na legenda da foto no livro.

Em outro trabalho, no livro Um mundo de crianças, você documentou curiosidades de diversas partes do mundo relacionadas ao mundo infantil. Quais imagens envolvendo crianças e futebol você destacaria?

De futebol só tem uma, essa foto do Irã que deu origem á série e que depois me fez ficar caçando mais fotos de futebol.

Quais as diferenças e semelhanças que você apontaria na sua exposição “Ora, bolas! O futebol pelo mundo”, sediada no Museu do Futebol, e as anteriores que você participou?

Essa foi a primeira exposição de futebol. O Museu do Futebol é um grande, espaço e foi muito legal expor lá. Eu já tinha feito exposições em lugares importantes, tipo Centro Cultural Citibank na av. Paulista. Mas a exposição no Museu do Futebol e o livro me ligaram muito ao assunto. A diferença é que esse é um assunto que abracei. Vários outros, eu fiz exposição sobre um tema. Fiz sobre o Vietnã uma vez. Já estive no Vietnã, fotografei em duas ocasiões, fiz exposição, mas eu não tenho como especialidade o Vietnã. E futebol meio que virou o meu tema. Essa é uma diferença. Semelhanças é que toda exposição é muita folia e pouca grana. Então, eu estou aqui para trabalhar. Acho legal fazer exposição, tomar champagne, abertura, fotos, mas crédito no banco é a prioridade hoje em dia.

Caio lançou recentemente o livro Futebol sem fronteiras.

Caio lançou recentemente o livro Futebol sem fronteiras. Foto: Enrico Spaggiari.

A união do trabalho com o prazer de viajar é extremamente positiva ou também pode atrapalhar?

É positiva. Fundamental. Vivo para isso. Eu nunca fui um cara de ficar focando no que dá grana, ou só no que me dá tesão. A busca foi sempre por fazer um equilíbrio. Fazer o que me dá tesão e ganhar um pouco de grana. Claro que assim que possível só fazer a coisa que eu morro de tesão e ganhar uma puta grana. Podia ser lindo, né? Mas eu sempre tive que abdicar um pouco da grana para fazer o que eu gosto.

Você é casado, tem três filhos. Como é a rotina quando viaja? Qual o maior tempo que ficou distante da família.

A rotina de viagens diminuiu muito desde que eu casei e tive filhos. Isso foi em 2006. A freqüência de viajar não diminuiu. Viajei tanto quanto (antes), mas o tempo fora é que diminuiu. Antes eu estava livre, mochileiro, solteiro. Fazia umas mochiladas compridas. A mais longa foi essa de seis meses na Ásia e Oriente Médio, mas depois o meu formato era três meses. Eu fiz várias viagens de três meses, cada hora focando em uma região. No mesmo molde: eu viajava para produzir matéria. A primeira viagem foi auto-pautado, não tinha compromisso com ninguém e trouxe um conteúdo que ia vender. As outras todas foram mezzo auto-pautado, mezzo pautado pelas revistas que já queriam que eu fizesse um conteúdo. As viagens desde que eu casei e tive filhos elas se limitam a um mês. Uma vez eu viajei dois meses. Uma viagem que se concentrou no Tibet a maior parte do tempo. Eu dei a volta ao mundo, mas não foi legal para os moleques. Eu dei a volta ao mudo, mas não é que eu conheci o mundo inteiro, foi a conveniência dos voos, que eu comprei via web que fez eu voltar pelo outro lado. Não que eu dei a volta ao mundo, conheci o mundo inteiro. Eu passei muito tempo no Tibet, nessa viagem, na Birmânia, a Califórnia, outros lugares aqui e ali, mas foi isso. Parte dessa viagem foi com o meu filho mais velho, que era o único nascido até então. Mas eu viajo um mês, quinze dias. Quinze dias já dá para ir para um lugar e entender o lugar. Não faz sentido você ir para um lugar muito contrastante e ficar menos de dez dias. Você não vai entender nada. Você vai ficar atordoado os três primeiros dias, começar a pegar a manha no quarto e quando você está curtindo é a hora de voltar, pois tem a maratona de volta. Já fiz muitas viagens assim e hoje em dia eu recuso. “Vamos ai, em Fiji”. Pô. Três dias no avião, três dias em Fiji, em um Resort que você não vê nada, três dias voltando. Não vou. Só se me pagar muito bem. Porque não me interessa. Só vou para um lugar que me interessa, e para ficar um tempo suficiente. Se não eu prefiro ficar com os meus moleques aqui no litoral mesmo. Estou mais na plenitude do que se estiver em Fiji por três dias.

Quais são as principais características de um bom observador/fotógrafo durante a viagem? O que se deve observar quando se está no campo?

Eu acho que é estar com a mente aberta para novidades, e ficar inventando moda. Você tem que ficar inventando ângulos, se não a fotografia vai ser uma mesmice. Tem que ficar inventando ângulo. Tem um buraquinho aqui, uns fios pendurados. Vai atrás. Tem que inventar. Tem que colocar a câmera em lugar esquisito. Tem que bater muitas fotos de lugares que não se alcança a cabeça inteira para ver. Tem que bater muitas fotos a cego. Ir atrás de um negócio que ninguém viu. Acho que esse é o desafio do fotógrafo. Todo fotógrafo. Quando for mostrar uma coisa… Putz, vou lá para Machu Pichu… Onde é que é aqule terraço onde todo mundo tira aquela foto que aparece as ruínas e a montanha atrás. Não é legal. Eu tenho essa foto, porque vende. Vão fazer uma matéria sobre os Andes: “Pô você não tem uma foto sobre Machu Pichu?” “Claro! É essa que você quer?”… É uma foto comercial, também tem que ser feita, mas eu acho que para fazer um trabalho autoral tem que procurar novos ângulos.

Caio Vilela aproveitou a Copa do Mundo da Coréia e Japão para fotografar curiosidades e a cultura dessas nações.

Caio Vilela aproveitou a Copa do Mundo da Coréia e Japão para fotografar curiosidades e a cultura dessas nações. Foto: Enrico Spaggiari.

Nesse sentido documentar um evento, como faz o Pedro Martinelli da Placar, como uma Copa do Mundo, dentro e fora de campo, é mais difícil? É mais difícil achar esse diferencial?

Não. Em geral, se eu fosse fotografar em uma época de Copa, em um país de Copa, ou se eu fosse mandar alguém para fotografar lá eu iria falar para outro fotógrafo “Amigo, você faz a parte de dentro do campo que eu vou fazer todo o resto. Eu acho que não é difícil encontrar pauta legal relacionada ao futebol e à Copa fora do campo. No campo eu acho que o desafio é muito maior porque todo mundo vai fazer… todo mundo… pois tem quinhentos fotógrafos e o Ronaldinho, se ele tomar um soco e voar o dente dele ele vai voar por uma fração de segundo, e quem pegar, pegou, né? Eu acho muito mais emocionante assim, você estar lá dentro. Pedro Martinelli, ele é um cara, que tem os seus 60 anos agora, que já fez tudo, em todos os formatos, então ele é um cara anos-luz na frente da minha categoria, por exemplo. Ele já clicou em ensaios para a Playboy, fez publicidade para as agências mais conhecidas de marketing… Futebol é um dos itens da carreira dele. Agora a paixão dele é a Amazônia. E na Amazônia ele é o cara mais perfeito para achar a pauta que ninguém fez. Pois ele já esteve em todo lugar e sabe muita coisa boa… boa para se fazer… Ele deve ter muitas ideias tipo “próxima vez que eu for, eu vou achar esse assunto nesse lugar”. Na Copa do Mundo, eu acho que principalmente em uma região como a África, você pode achar mil pautas interessantes sobre futebol fora do campo. Eu fiz isso na época da Copa do Japão e Coreia (2002). Fui para o Japão e para a Coreia poucos meses antes da Copa e fiz todas as pautas curiosas fora do estádio, e voltei com um monte de material que fiquei desovando aqui um tempo. Fiz uma matéria, que foi mais significativa, foi uma de capa da Revista da Folha com todas as curiosidades que eu tinha coletado. Desde coisas bestas… Não sei se você sabe, nos andares do elevador dos estádios high-tech da Coreia eles não tem o 4º andar… não tem o 3 acho… tem que olhar na matéria… enfim, pula um andar porque o nome três ou quatro em coreano quer dizer morte… é um ideograma, e os caras não querem saber… Então, curiosidades dessas é só fuçar que você acha em qualquer lugar. Quanto mais exótico for a região, mais vai ter.

Você acha que em 2014, no Brasil, vai ter muitas coisas para descobrir em relação ao futebol?

Nossa, demais. Eu acho que agora o Brasil é a bola da vez na mídia quando o assunto é futebol. Na Europa… vai chover gente aqui. Fotógrafo querendo fotografar tudo sobre futebol. Futebol de rua também. Daqui a pouco você vai ver, vai pipocar um monte nessa praia. Não só de fotografia.

Confira a última parte da entrevista no dia 30 de abril.