10.10

Centro de Referência do Futebol Brasileiro – CRFB

Equipe Ludopédio

O Centro de Referência do Futebol Brasileiro – CRFB, do Museu do Futebol, é hoje um dos principais espaços de acervo, pesquisa e produção de conteúdos sobre futebol no Brasil. Inaugurado em outubro de 2013, o CRFB é composto por uma biblioteca, midiateca e base de dados para acesso online, que abrigam livros, fotos, referências sobre a prática do futebol na cidade de São Paulo, entrevistas e informações sobre instituições, torcidas, clubes amadores e profissionais. Todo o acervo e demais conteúdos são gerenciados e coletados por uma equipe multidisciplinar, muito entrosada e que veste a camisa (como bem demonstra a foto da capa). 

A própria entrevista revela como se faz um trabalho em equipe. Iniciamos o bate-papo com o bibliotecário “enciclopédia” Ademir Takara. Porém, conforme a prosa se desenrolava, outros membros do time CRFB – Camila Chagas Aderaldo, Pedro Felipe Rodrigues Sant’Anna e Aira Fernandes Bonfim – também se juntaram à entrevista.

Agradecemos à diretora de conteúdo Daniela Alfonsi e a toda a equipe do CRFB, incluindo as simpáticas Dóris Régis e Bruna Santos Gottardo, pela calorosa acolhida.

Boa leitura! 

Ademir Takara enverga o manto do CRFB. Foto: Enrico Spaggiari.

 

 

Ademir, como surgiu seu interesse pelo trabalho com livros a acervos de futebol?

Ademir Takara: Sempre gostei muito de futebol, desde pequeno, mas não tenho um lance ou um momento que me fez despertar para o futebol. Lembro que me perguntaram para que time torcia, e acabei falando São Paulo, porque não tinha um time que representasse a colônia japonesa, assim como as colônia italiana e portuguesa. Daí escolhi o time que tem o nome da cidade. Lembro da escalação do São Paulo campeão paulista de 1985: Gilmar; Zé Teodoro, Oscar, Dario Pereyra e Nelsinho; Falcão, Silas e Pita; Müller, Careca e Sidney, que ficou conhecido como “Menudos do Morumbi”, porque tinha muitos jogadores recém-saídos da base. E quase todos foram convocados para o período de preparação para a Copa de 1986. Foi a última Copa em que o Brasil teve um período tão longo de preparação. Em fevereiro foram convocados 29 jogadores, e daí em diante, todos os dia, os jornais não pararam mais de falar de seleção brasileira. Lembro muito das matérias de jornal. Eu tinha o hábito de cortar a página de esportes e guardar. Fiz isso durante muito tempo. Nem faço ideia de quantos jornais eu tinha. Muita coisa que eu sei é dessa época, pois eu tinha muito tempo para ler os jornais, apreciar e memorizar as histórias. Depois tive de jogar quase tudo fora, porque mudamos de casa, aí para recomeçar foi meio estranho, foi quando percebi que não precisava guardar tudo, poderia selecionar aquilo que realmente fosse interessante e assim evitava de acumular tanta coisa. Hoje tenho jornais e revistas guardados, separados por tema, mas nada catalogado, principalmente porque não tenho mais tempo para cuidar disso.

E como você depois articulou esse interesse com sua formação e trabalho?

Ademir Takara: Na verdade, não foi nada planejado, embora muito desejado. Viver de futebol sem saber jogar. Muitos conseguem isso, principalmente dentro de campo hoje em dia… Mas é muito engraçado pensar em quando tudo começou. Um passatempo que tenho, desde sempre são as fichas de jogos da seleção brasileira. Uma vez li na Folha de S. Paulo que a seleção da Iugoslávia tinha marcado o milésimo gol de sua história. Fiquei impressionado: “Nossa, mil gols! Quantos a seleção brasileira fez?”. E fui buscar na minha pilha de jornais velhos a resposta. Descobri que cada jornal dava um número diferente. Se o Brasil ia enfrentar o Chile, o jornal informava: o Brasil enfrentou o Chile tantas vezes. No Estadão saía um número e na Folha um número diferente, e eu não entedia o porquê. Comecei a correr atrás dessas informações em jornais e revistas para descobrir qual o problema. Foi quando descobri, criança ainda, as bibliotecas da Vila Nova Manchester, atual Lenyra Fraccaroli e a Paulo Setúbal. Ia atrás de jornais, revistas, livros que me ajudaram a entender as diferenças entre jogos de seleção olímpica, pré-olímpica, principal, jogo amistoso, jogo treino. Acho que isso me ajudou a ter essa vocação para a pesquisa, de tentar entender como tudo funciona, qual a relevância do jornal, a importância do livro.Mais tarde, quando comecei a fazer o curso de História na USP, uma das principais “descobertas” foi a biblioteca da Escola de Educação Física. Sempre que podia, ia para o prédio da Educação Física. Aliás, era uma coisa que sempre achei estranha: não encontrava nada sobre futebol na biblioteca da História. Porém todos falavam sobre futebol na História. Como assim? Como as pessoas separam essas coisas? Futebol é lazer e não deve ser estudado? Uma das origens dessa busca bibliográfica foi assim. A partir do momento em que você começa a encontrar os livros, você começa a pensar: quais as fontes desses livros? As primeiras buscas eram baseadas nas bibliografias desses livros. Buscava também na Biblioteca Mário de Andrade, da biblioteca de Escola de Educação Física. Comecei a descobrir Thomaz Mazzoni, Leopoldo Sant’Anna, Antônio Figueiredo, Mário Filho, ler sobre Charles Miller e a origem do futebol. Quanto mais descobria, mais queria saber.

Ademir, como o destino te trouxe para o Museu do Futebol?

Ademir Takara: Era bibliotecário no Centro Educacional Unificado (CEU) Quinta do Sol, vinculado à Secretaria Municipal de Educação. Gostava muito de lá, mas meu sonho mesmo era criar uma biblioteca especializada em esportes ou futebol. Umdia recebi um e-mail de alguém, que até hoje não sei quem é, informando sobre a vaga. Conversei com o pessoal do CEU e eles me incentivaram a ir. Detalhe que tinha acabado de terminar o estágio probatório de três anos, ou seja, era funcionário público concursado com estabilidade garantida. Fiz o currículo e coloquei o título do meu TCC: “Produção bibliográfica sobre futebol no Brasil (1906-2006): análise bibliométrica”. Tinha aquela sensação de que a vaga deveria ser minha, mas ao mesmo tempo, poderia aparecer alguém com mais experiência, mais capacidade, que entendesse mais desse negócio de futebol. Mas deu tudo certo, fiz a entrevista e fui chamado. Uma coisa que eu não queria era ficar na segurança do serviço público, estabilidade garantida, mas ficar até o fim da vida frustrado pensando que poderia ter me arriscado, e até ter quebrado a cara, mas tentado. Bem, tentei, consegui. Saí da Prefeitura e vim para o Museu do Futebol. E está dando certo até o presente momento.

Antes de terminar gostaria de contar uma historinha sobre destino: sempre fui ligado ao futebol profissional, pouco sei sobre futebol amador e de várzea. Mas acabei acompanhando os pesquisadores do CRFB algumas vezes ao universo da várzea paulistana, e um dos melhores momentos foi a final da Copa Kaiser de 2012, disputada no Estádio do Pacaembu. Vim ajudar no que fosse possível, e foi incrível acompanhar a torcida chegando. Eram mais de vinte mil pessoas. O plano inicial era acompanhar o jogo da tribuna da imprensa. Mas acabamos entrando, indo parar no gramado do Pacaembu. Em um jogo profissional isso nunca seria permitido. Mas nesse dia, estava seguindo uma das pesquisadoras e de repente me vejo dentro do gramado, acompanhando uma final de campeonato entre os bancos de reservas dos times. Consegui até ver um pênalti sendo cobrado atrás de um dos gols!E agora eu posso falar: eu pisei no gramado do Pacaembu! No intervalo, é claro. Quando eu penso lá no início, quando ficava recortando jornal, imaginando que aquilo era o que eu curtia, e trinta anos depois estou aqui, no Museu do Futebol, e ainda pisei no gramado do Pacaembu. É a realização de um sonho… e com bônus!

Ademir Takara, o bibliotecário “enciclopédia”. Fotos: Enrico Spaggiari.


Qual é a proposta do CRFB? Como ele se articula aos conteúdos e serviços museológicos do Museu do Futebol, de modo geral?

Pedro Sant’Anna: A proposta do CRFB é, como o próprio nome diz, se tornar um verdadeiro centro brasileiro de referências acerca do futebol. Reunir em um só lugar a maior quantidade de diferentes tipologias de informação. Além disso, através da presença de nossas Linhas de Pesquisa, pretendemos gerar continuamente estudos e materiais sobre o futebol. Nesse sentido, o CRFB vem para cumprir um papel muito importante no que tange os objetivos e o papel do Museu do Futebol, já que é ele o responsável por trazer ao público todo aquele conteúdo que, de uma maneira ou de outra, não pode fazer parte da exposição de longa duração do Museu. Assim, junto com as nossas exposições temporárias, ele é o responsável por cobrir e entender toda a complexidade e a magnitude que o futebol possui em suas relações, sejam elas esportivas, sociais, históricas e até financeiras. É o CRFB, dentro do Museu do Futebol, o responsável por entender e buscar o futebol que não é visto, mas, sim, vivido dia após dia por cada um dos brasileiros.

Como foi o processo de organização do CRFB? E como tem sido o processo de aquisição de obras e coleções bibliográficas e iconográficas?

Ademir Takara: Posso falar da organização do acervo da biblioteca do CRFB. Quando comecei a trabalhar no Museu do Futebol, já existiam muitos livros, um armário cheio, por conta de campanha de doação de livros feito junto às editoras. E mais algum material que foi comprado de acordo com a necessidade, para pesquisas internas e como consulta para as exposições. E várias doações, principalmente de lançamentos feitos aqui no Museu do Futebol. Mas a maior parte foi comprado com verba da Finep, que financiou todo o projeto de criação e construção do CRFB. Fui o responsável por selecionar títulos, num primeiro momento pensei em escolher os mais relevantes, mas tinha muito material esgotado e nunca republicado, como Milton Pedrosa, Thomaz Mazzoni, Mário Filho, entre outros. Então passei a correr atrás de material recente, lançamento de 2011 e 2012, todos os assuntos: Copa do Mundo, seleção brasileira, clubes grandes, clubes pequenos, biografias, crônicas, treinamento, e, principalmente, muito material produzido por pesquisadores nas universidades, em especial Ciências Sociais e História, livros fantásticos. Doações são bem vindas, mas dotação orçamentária fixa para aquisições também é importante, afinal de contas são tantas publicações, e de qualidade, que não podemos correr o risco delas esgotarem enquanto esperamos os autores e editores lembrarem-se de nós. É gozado, mas conheço autores que não tem os próprios livros que escreveram. Além de livros, temos periódicos, destaque para a Guerin Sportivo e a Sports Illustrated. Originalmente não pretendíamos ter revistas, mas a Folha de S. Paulo nos ofereceu 20 anos de exemplares dessas revistas estrangeiras que tinham no acervo deles. Jamais teríamos a mesma oportunidade de novo, então aceitamos. E temos a Placar, mas desde 1999. E estamos recebendo alguns números dispersos, espero conseguir completar a coleção. Temos muito material bibliográfico digital. Por questão de espaço optamos por ter teses, dissertações, monografias acadêmicas em geral e artigos científicos somente no formato pdf. Normalmente entramos em contato com os bacharéis, mestres e doutores, solicitando os trabalhos, mas já é comum os próprios acadêmicos nos enviarem material para o acervo. Tem muito material catalogado, é só acessar o banco de dados do Museu do Futebol. E tem ainda os relatos de campo, produzidos pelos pesquisadores do CRFB, que registraram as diversas práticas do futebol na cidade de São Paulo, aliás estes relatos podem ser baixados.

Camila Aderaldo: Sobre o material iconográfico, uma frente foi a pesquisa do CRFB, que produziu fotos sobre futebol amador, visitas a colecionadores, bares e torcidas organizadas, tudo fruto da pesquisa de campo. Tem outra parte, que está na exposição de longa duração, mas que não é nossa. Temos uma autorização de uso dessas imagens. Além de ter a permissão dos proprietários dos acervos – como a Editora Abril e o Instituto Moreira Salles, entre outros -, tem também os contratos de imagem. O Pelé e o Galvão Bueno, por exemplo, assinaram contratos afirmando que podemos usar suas imagens no Museu. As fotos que estão expostas têm esse lado mais delicado, de estarem amparadas por todas as autorizações. Portanto, nosso acervo iconográfico é composto por estes dois tipos de materiais. Aquilo que é produzido pela nossa equipe de pesquisa é interessante pois, de fato, somos proprietário do material. Podemos emprestar para exposições em outros lugares, por exemplo, inclusive para o Ludopédio. Mas o que está na exposição de longa duração não podemos emprestar, pois não somos o proprietário. Só podemos indicar: “Enrico, vai lá no Instituto Moreira Salles, pois só eles podem negociar com você o uso desse material…”.

Qual é a característica atual do acervo do CRFB, tanto em termos numéricos e temáticos?

Ademir Takara: Temos mais de 1.400 itens bibliográficos catalogados, entre livros, artigos, monografias e relatos de campo. Só de livros conseguimos passar a marca de 1.100 títulos. Acredito que os assuntos mais presentes são clubes e biografias. No caso das biografias, é uma característica própria da produção literária brasileira. Brasileiro adora biografias. E o de clubes é uma característica específica desse universo do futebol. De certa maneira tem uma aproximação maior com o seu clube do que com a seleção brasileira. Eu brinco que a única coisa que a pessoa escolhe mesmo na vida é o time de coração. Ela já nasce com um nome e normalmente é introduzida num mundo religioso pelos pais. Time não. Tanto que famílias que torcem para um único time são exceções. É normal ter uma disparidade, com um pai corintiano e um filho são-paulino. O pai é palmeirense, mas a mãe é corintiana. São poucos casos de gerações seguidas de torcedores do mesmo time. O perfil dessa biblioteca, em termos de quantidade, é isso. Retrata bem esse cenário de assuntos com mais títulos e mais produção. Ao mesmo tempo, aqui é possível perceber como a pesquisa acadêmica está abraçando o futebol como um fenômeno cultural. Algo que já é observado na Argentina e Inglaterra, países com grupos de pesquisa e muita produção bibliográfica. Eu mesmo não consigo arriscar a quantificar o tamanho da produção deles. Aqui no Brasil está começando a se estabelecer. No século XXI, somente em 2001 e 2007 não ultrapassamos a marca dos 100 títulos publicados. Aqui no CRFB é possível observar essa presença acadêmica. Uma coisa que tenho tentado é buscar material de times de fora do eixo Rio-São Paulo. Sair de São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Flamengo, e abordar clubes do Norte, Nordeste, Sul e Centro-Oeste. É um material mais difícil de encontrar. Às vezes, por ser de cidades menores, as próprias pessoas que escrevem esses livros não têm a dimensão de sua importância, acreditam que é só uma curiosidade local. Só que eu vejo esse livro como a preservação da memória dessas cidades. O futebol é entendido por todo mundo, mas ele é compreendido em cada região de uma maneira diferente. Acho que essa a nossa biblioteca, no seu atual estágio, procura demonstrar bem isso, ou seja: futebol não é só o jogo em si, não é só Rio de Janeiro e São Paulo, mas sim uma população inteira, observando e sentindo de uma maneira muito própria como é gostar de futebol. Além desse trabalho diário de catalogação, entram várias demandas e surpresas de última hora que exigem rapidez para responder. Do nada surge um email de um aluno da Paraíba perguntando se temos material sobre futebol de várzea no Rio Grande do Sul. Mesmo se não temos material, procuramos indicar caminhos para as pessoas. Às vezes o mínimo que você consegue oferecer já é muita coisa. Caso, por exemplo, do futebol feminino. Temos três livros sobre futebol feminino. Em compensação, é possível encontrar algumas teses e artigos. Pelo menos isso posso oferecer à pessoa. “Olha, tenho apenas três livros, mas existem artigos, sites…”.

A fashion Dóris Régis cataloga mais uma obra para o acervo. Foto: Enrico Spaggiari.

Ademir, uma dica para algum ladrão de livros que esteja lendo essa entrevista: quais obras do CRFB se enquadram na categoria de obras raras?

Ademir Takara: A ideia de obras raras não faz muito sentido nesta biblioteca. O objetivo é concentrar informação para poder divulgar. Então, em vez do pesquisador ter que ir ao Rio Grande do Norte procurar um livro sobre o futebol potiguar, ele pode vir pesquisar aqui. Eu não aprecio muito a ideia de ter um livro cuja a importância dele se deve ao fato, por exemplo, de ter pertencido ao Pelé. Eu busco o livro pela informação que contém e que todos possam manusear. Essa ideia de privilegiar a informação e não o suporte não me permite apreciar mais um determinado livro por sua história: “pertenceu ao fulano, gênio de alguma coisa…”. Pessoalmente, eu gosto muito dos almanaques, livros que trazem todas as súmulas de jogos. Acho fascinante acompanhar a história de um clube através dos adversários que ele o time vai enfrentando a o longo de sua existência. Nas décadas de 1910 e 1920, era praticamente um campeonato de bairros o que se disputava em São Paulo. O Campeonato Paulista de 1902 é praticamente um torneio de rua contra rua. E agora, na virada do século XXI, nossa disputa é para saber quem tem mais títulos mundiais e da Libertadores. Isso é fantástico. Sair de uma aldeiazinha, no meio do nada, e de repente estar no mundo. Gosto de imaginar como é a cabeça de um jogador; um dia ele está ali, jogando descalço na rua, e pouco tempo depois é contratado pelo Bayern de Munique. Muda tudo, mas ele continua sendo o mesmo cara que gosta de jogar futebol. De certa maneira, minha ligação com o futebol, vem dessa frustração, quando percebi: “adoro futebol, mas nunca terei capacidade técnica de jogar futebol, nem de brincadeira. Mas não vou ficar longe por causa disso”.

Paralelo ao contínuo processo de aquisição de livros, o CRFB também tem recebido muitas doações?

Ademir Takara: Sobre doações tenho um caso que gostaria de citar foi o do Lupercio Luiz de Azevedo, comentarista esportivo lá do Rio Grande Norte. Acho que o ABC de Natal veio jogar aqui em São Paulo pela Copa do Brasil no ano passado, e ele veio visitar o Museu do Futebol e perguntou se tinha algum livro dele. Por acaso tinha o “Futebol em tom menor”, livro de crônicas. Ele ficou surpreso e contente e conversamos um tempo. Um mês depois recebi outros três livros que ele escreveu e agora a biblioteca tem um bom material sobre o futebol do Rio Grande do Norte. Inclusive ele me contou a história daquela que deve ter sido a primeira mulher a apitar futebol no Brasil: a professora Celina Guimarães, que em 1917 ensinou o futebol aos seus alunos do Grupo Escolar 30 de Setembro, em Mossoró. Depois de explicar as regras do jogo, dividiu os alunos em dois times, demarcou os gols com pedras e mesmo de saia, se pôs a apontar tiros de meta e faltas. Simplesmente fantástico!

Sempre que possível tento entrar em contato com os autores dos livros pedindo doações e as respostas sempre são muito boas. Não tem nenhum caso da pessoa ter recusado e em alguns casos as pessoas não respondem o email, mas de repente recebo o livro pelo correio. Além disso sempre tem muitas pessoas que querem doar livros. Um caso interessante foi de um médico que doou mais de 100 livros, muitos esgotadíssimos, nem em sebo é possível encontrar. E tem casos estranhos de gente que simplesmente deixa, livros nem tanto, mas revistas e some.

Como tem sido a rotina de visitas e procura pelo CRFB desde a inauguração em outubro de 2013?

Ademir Takara: Não existe rotina. Cada dia é diferente do outro, tem dia que aparece um pesquisador que fica o dia todo só ele e tem dia que recebemos duas classes de crianças que reviram tudo não sobra um livro no lugar e foram dois dias ótimos! Na semana do II Simpósio Internacional de Estudos do Futebol recebemos dezenas de participantes.

Já recebemos vários tipos de pessoas como aquelas que ficam encantados com os computadores, pois não tem fio, são touchscreen, e o Banco de Dados tem a versão 3D. Ou aquelas que ficam chocadas com a quantidade de livros sobre futebol. De um modo geral as visitas de grupos grandes, estudantes e famílias, aos sábados, é sempre muito caótico, sempre com muitos livros deixados sobre a mesa (orientação nossa) e é curioso notar que em meio aos livros sobre Corinthians, São Paulo ou Flamengo, de repente, vemos um livro sobre Garrincha, Leônidas ou Friedenreich. E começo a imaginar: por que uma criança de doze anos resolveu pegar um livro sobre Friedenreich? Ela achou o nome interessante ou ela conhece o jogador? Talvez eu seja exceção, talvez não. O fato do Pelé ser muito citado pelas crianças é muito significativo, pois trata-se de uma geração de troca de ídolos muito rápido. Ninguém conhecia o Neymar até outro dia. As pessoas se encantam com ele, mas quando você pergunta o que o Neymar já fez, as pessoas não sabem falar. Mas elas idolatram o Neymar, por algum motivo. Aliás, temos três biografias dele e foram publicadas quatro.

É difícil chegar a um perfil de usuário sem ter uma conversa mais profunda. Observando o comportamento deles, dois livros que fazem muito sucesso são as caixas das Bíblias do São Paulo e do Corinthians. Na verdade, são caixas de souvenirs, com réplicas de ingressos de jogos importantes, capas de jornais, foto, cartão postal. As pessoas ficam encantadas com isso. E tem um livreto. Só que o livreto é pouco lido. As pessoas curtem mais o formato, semelhante ao de uma bíblia. As pessoas curtem muito esse tocar. É tão bacana que antes perguntam para nossa equipe: “pode mexer?”. Nos museus tradicionais têm essa coisa de poder ver tudo e não poder tocar em nada. Aqui é o lugar onde as pessoas podem ter um contato com a história dos times e dos personagens. E as lembrancinhas dessas caixas reforçam o sentimento das pessoas com o time e o futebol. Por outro lado, percebe-se a frustração de santistas e palmeirenses, pois ainda não fizeram as Bíblias do Santos e do Palmeiras. E fica aquela expectativa: “mas quando vai sair?”. Por causa da Copa do Mundo as réplicas dos álbuns de figurinhas doadas pela Panini tem feito muito sucesso. Deixamos expostos e do nada surgem pessoas, adultos principalmente que entram apenas porque viram esses álbuns. É muito bacana! Outro público é formado pelos pesquisadores, que têm vindo em número menor, mas costumam ficar um bom tempo na biblioteca, sempre auxiliamos no que for possível, mesmo que não seja possível fazer o empréstimo dos livros, ainda assim conseguimos fazer muita diferença no trabalho de cada pesquisador. E cada pesquisador que vem aqui consultar o material, ajuda a divulgar mais o trabalho do CRFB.

Introspectiva, Dóris Régis acessa o Banco de Dados 3D. Foto: Enrico Spaggiari.

Dentro da proposta do CRFB, qual a especificidade de um Banco de Dados em 3D?

Camila Aderaldo: O banco de dados foi imaginado nesse formato porque era muito difícil tratar o universo no qual estávamos entrando de uma forma tradicional. Não estamos falando desse ou daquele objeto. Estamos falando de práticas e saberes imersos em uma rede. Por exemplo, como o Enrico está relacionado com aquele time, que está relacionado com determinado bairro e determinada prática. A partir das ligações que são feitas na parte administrativa do banco de dados, na interface que está acessível ao público é possível ver coisas que estão relacionadas a esse material de uma forma bonita. Tem a figurinha com a imagem do Enrico e as figurinhas de todos os times em que o Enrico já jogou. Assim, é possível perceber que esse universo está conectado ao Enrico. E esses times também estão relacionados a outras coisas que te levam a mais coisas. O 3D confere uma noção à pessoa que acessa de que ela está entrando nesse universo. O Banco de Dados em 3D transmite essa sensação de conexão em rede de uma forma mais lúdica. Sensação que simples fichas não podem oferecer. O desafio era traduzir essas relações de uma forma visual.

O próprio CRFB possui pesquisadores que atuam em diferentes áreas, tais como times de várzea, torcidas organizadas, bares temáticos de futebol, colecionadores, escolas de futebol… Essas pesquisas possuem algum tipo de diálogo? No sentido de fazer parte de um mesmo projeto de pesquisa ou são independentes?

Aira Bonfim: A proposta da pesquisa do CRFB é horizontal, de mapeamento. Infelizmente não temos hoje condições de nos aprofundarmos em temas específicos, por outro lado, aproveitamos a oportunidade para que todos os pesquisadores envolvidos avançassem nas direções mais ímpares e relevantes no universo do futebol da cidade de São Paulo e aos poucos, fora dela. São produzidos materiais brutos como entrevistas, fotografias, vídeos e relatos de campo, que além de riquíssimos em conteúdo, estão disponíveis para lapidação de qualquer pesquisador interessado nos temas. Hoje, com quase três anos de implantação do projeto, levantamos temas que reincidiram nas diferentes categorias de pesquisa como: gênero, alimentação, formas de torcer, profissionalização, várzea x amador, formação de base, diferença entre os campeonatos e etc.

O coordenador Pedro Sant’Anna (o segundo à esquerda na imagem de cima) reúne a equipe do CRFB para definir quantas camisas personalizadas, iguais à do Ademir, serão enviadas aos editores do site Ludopédio. Fotos: Enrico Spaggiari.

 

A equipe do CRFB continua realizando a pesquisa?

Camila Aderaldo: Hoje o trabalho de pesquisa é mais pontual, ligado a uma exposição temporária, ou a demandas do cotidiano de trabalho que exigem um tempo que dificulta a ida a campo. Para além disso, o CRFB sempre busca realizar pesquisas em parcerias, como foi o caso do projeto “Futebol, Memória e Patrimônio”, com o CPDOC/FGV e do “Projeto de Implantação do CRFB”, com o NAU/USP. Neste ano, estamos com um projeto, novamente com o CPDOC, voltado para o universo das associações de torcedores de futebol em São Paulo. É importante lembrar também que, como o banco de dados é nossa ferramenta para registrar todo o universo da pesquisa, também se demanda um tempo para processar tudo nessa plataforma, além da constante atualização das informações já registradas anteriormente.

Já que o Museu do Futebol atualmente não é apenas um espaço de acervo e catalogação, mas também de produção de saberes, qual tem sido a articulação com outros espaços de produção de conhecimento? Seja no âmbito universitário, midiático, associativo?

Camila Aderaldo: A princípio, é importante destacar que como pretendemos referenciar o universo que envolve o futebol, todos os seres e lugares que de alguma forma tocam esse universo nos interessa. A partir desse contato, estabelece-se a troca de conhecimentos e, por muitas vezes, ações conjuntas e colaborações, ainda que pontuais. Isso também abrange, por exemplo, organizações de eventos que envolvam o futebol, como é o caso do encontro anual chamado Estéticas da Periferia que, este ano, tem em sua programação a realização do Mundial de Futebol de Rua (Callejero) – onde pretendemos estar com nossos gravadores e bloquinhos de papel (risos)! Digamos que este momento que vivemos, o de realização de uma Copa do Mundo, tem intensificado esses contatos em diversos âmbitos, especialmente no tocante a iniciativas de projetos de exposições, de diversos lugares, que nos procuram atrás de conteúdos sobre futebol (profissional e amador). Além de, obviamente, conseguirmos realizar encontros importantes de pesquisa sobre futebol, em parcerias com instituições de ensino superior com a USP e a FGV, para o II Simpósio de Estudos sobre o Futebol.

A simpática Camila não consegue esconder a felicidade ao descobrir que dará uma entrevista ao Ludopédio. Foto: Enrico Spaggiari.

Em maio de 2014, o CRFB, em parceria com o LUDENS-USP, organizou o II Simpósio Internacional de Estudos sobre Futebol. Qual foi a proposta deste segundo encontro? E qual a avaliação geral que o CRFB faz dos trabalhos apresentados, do público presente, da participação de pesquisadores estrangeiros e de fora de SP e do desafio de realizar um evento em diferentes instituições e regiões da cidade?

Pedro Sant’Anna: A proposta era a mesma que a da primeira edição: reunir trabalhos e acadêmicos acerca do futebol. A diferença para o anterior foi o foco no caráter internacional do evento, encontrando nessa segunda edição um espaço especial para as experiências de fora do Brasil. E a avaliação foi muito positiva, em todos os aspectos. A resposta do público foi ainda maior que a do ano anterior, resultando em um recebimento de 40 trabalhos a mais e palestras com mais de 150 pessoas, em contraste com o máximo de 89 que tivemos no anterior. Os trabalhos mantiveram um boa qualidade, com a vantagem de que nesta edição tivemos a satisfação de notar uma maior variedade nos ramos de estudos, ainda que algumas concentrações de tema tenham se mantido, como o futebol como instrumento nacionalista. No simpósio deste ano pudemos entrar em contato com mais trabalhos focados em temas ainda bem pouco explorados.

A participação estrangeira foi muito boa, mas ainda pretendemos melhorar para as próximas edições. Com representantes de mais de 7 países, os participantes puderam conhecer e entrar em contato com diferentes universos e maneiras de se pensar o futebol.

O tamanho da cidade de São Paulo é sempre um desafio nesse tipo de evento. Neste ano tivemos grandes melhoras em relação a edição passada, com bem menos deslocamentos entre instituições separadas por grandes distâncias, mas, ainda assim, esse foi um dos maiores problemas. O que fica é a necessidade de buscarmos melhorar ainda mais essa questão, buscando espaços que comportem a proporção e as diferentes modalidades de atividades que temos em um evento como este.

O CRFB programará alguma atividade especial durante a Copa do Mundo?

Aira Bonfim: Não acompanharemos nenhum dos jogos dentro das arenas, mas escolhemos a cidade como palco dessa pesquisa. Nossa ideia é registrar como a cidade de veste ou se prepara ou não para esse evento. O trajeto inclui desde bairros que se transformam visualmente para incentivar a seleção brasileira ou redutos representantes de outras delegações que farão do Brasil o espaço de torcer por seu time. Além disso, temos acompanhado a região de Arthur Alvim ao longo do processo de construção do estádio de Itaquera. O bairro, assim como seus moradores, viveram uma apoteose de emoções paradoxais relacionadas à recepção da Copa do Mundo. E no mais, o CRFB encontra-se sempre de portas abertas as outras pesquisas que estão em produção dos diferentes cantos do Brasil. Gostaríamos que todos pudessem contribuir e alimentar essa “ferramenta-nó” do futebol brasileiro.

A varzeana Aira Bonfim convida todos a visitarem o CRFB. Foto: Enrico Spaggiari.