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Clara Azevedo e Daniela Alfonsi

Equipe Ludopédio

Inaugurado em 2008, o Museu do Futebol, localizado nas entranhas das arquibancadas do Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho (mais conhecido como Estádio do Pacaembu) em São Paulo, está prestes a alcançar a incrível marca de 1.000.000,00 de visitantes. No Museu, a história brasileira no século XX é pensada a partir do futebol, fenômeno catalisador e articulador de práticas, comportamentos, símbolos e representações de uma identidade brasileira. Saiba mais sobre este trabalho de preservação e valorização do futebol como patrimônio cultural nesta entrevista com as antropólogas Clara Azevedo (diretora do Museu do Futebol) e Daniela Alfonsi (coordenadora do Núcleo de Documentação, Pesquisa e Exposição).

Foto: Museu do Futebol (divulgação).

Primeira parte


Quais diretrizes orientaram a seleção do conteúdo do projeto, comandada por Leonel Kaz, curador do Museu?

Clara: A principal diretriz foi contar não só a história do futebol, mas também a história do Brasil. Sem dúvida, esta foi a força motriz, orientada por Leonel Kaz, o curador. Inicialmente, o projeto baseou-se em três eixos: emoção, história e diversão. Três grandes vertentes que se entrecruzam na construção da narrativa e que pontuam o percurso com maior ou menor ênfase. A Sala das Origens mostra muito a tônica que se desejou dar ao futebol, ou seja, a de que falar de futebol é também falar do Brasil. Essa sala traz um pouco da formação de um Brasil do final do século XIX e início do século XX a partir do futebol. Uma das ideias do curador era a de mostrar o quanto o futebol, a princípio esporte das elites, foi apropriado pelas camadas populares – negros, pobres, imigrantes,– e que, reinventado, se transformou em uma das práticas em que o povo brasileiro teria sido vitorioso.

Daniela: O percurso da exposição de longa duração, em sua narrativa e sua expografia, evidencia como o futebol permeia a vida social no Brasil. Inicialmente, isto é apresentado pelo que te pega pelas vísceras, a emoção presente na lembrança de um gol que te marcou, Sala dos Gols, nas narrações do rádio, na lembrança de alguns dos maiores jogadores, ou ainda na Sala da Exaltação, um lugar inesperado para o visitante….

Clara: Nas entranhas da arquibancada…

Daniela: para chegar ao eixo histórico que encaminha o visitante para o Brasil que deu no certo por meio do futebol. O visitante passa pela Sala das Origens, centrada na formação de um Brasil mais urbano e industrial, com as novidades do século XIX até o final dos anos 1920. O foco está nos tipos sociais presentes nas cidades, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro, incluindo os frequentadores de estádios, atletas do futebol, remo e outros esportes. Inicia-se uma discussão de como o futebol foi importante para marcar certa identidade brasileira gestada por uma política de Estado, principalmente durante o governo Getúlio Vargas, , para depois desembocar na era das Copas do Mundo (de 1930 até hoje). A Sala das Copas traz uma grande linha do tempo. Esse percurso narrativo foi pensado para pegar o visitante pela emoção e afirmar que o Brasil que deu certo é o país do futebol, ou como o futebol fez o Brasil dar certo para o mundo. É uma coisa muito importante, pois o estrangeiro também se identifica. Ele reconhece o Brasil, ou conhece um pouco mais sobre a história do Brasil, por causa deste caminho.

Clara: E o Museu do Futebol tem uma configuração específica. É difícil ter um Museu com um percurso único, tal como aqui. Estamos mais acostumados com Museus que apresentam possibilidades de trajetos variados, com salas que podem ser visitadas sem necessariamente uma ordem pré-determinada etc. No Museu do Futebol, é um pouco diferente. Por conta da configuração do espaço físico do estádio do Pacaembu, foi criado um percurso único que ajudou na construção desta narrativa descrita pela Daniela. Até por isso os três eixos, antes mencionados, funcionaram bem. Primeiro o visitante é envolvido, fisgado, através da emoção, chegando ao clímax na Sala da Exaltação – que traz uma experiência emocionante da paixão dos torcedores pelo futebol. Depois entra em um eixo mais histórico e na construção desta narrativa do futebol como uma marca do Brasil vencedor, para então chegar a salas mais lúdicas, como a Sala dos Números e Curiosidades, a Sala Dança do Futebol e a Sala Jogo de Corpo.

Daniela: Quando realizamos uma visita mais técnica para determinados tipos de visitantes, centramos a fala sobre o Museu até a Sala das Copas, e depois continuamos de uma forma mais solta ou o visitante continua sem o acompanhamento. O eixo central da exposição de longa duração vai até aquele momento. É uma discussão mais densa. Pode-se até discordar do modo como é abordada, mas ela tem este papel de mostrar a importância do futebol no campo esportivo, cultural e social no Brasil. É um período muito curto da nossa história…

Clara: Um século…

Daniela: Se pensarmos que o futebol se profissionalizou a partir da década de 1930, temos 80 anos de história. Nestes 80 anos, o Brasil conquistou cinco títulos mundiais e uma posição mundial de destaque hoje. Uma penetração grande na sociedade em um período histórico muito curto. Agora, voltando às perguntas sobre as diretrizes que mobilizaram a curadoria, acho que teve um princípio muito feliz de não se apegar às histórias clubísticas ou depoimentos vinculados somente a um determinado clube, mas sim ao fato de como o futebol, no Brasil, criou uma singularidade… é o esporte brasileiro por excelência. Mesmo que você não pratique ou não assista, as pessoas sabem falar sobre futebol, pois lhe pertencem de alguma maneira. Foi esse o grande eixo da exposição de longa duração. É o que nos difere de outros centros de memória ligados ao esporte, como os memoriais de clube, que têm outro papel. Mas faltava um espaço que congregasse a discussão sobre a importância do futebol. Podemos fazer outra adaptação ou alteração na exposição, mas esse eixo vai permanecer.

Clara: Essa é uma ideia central: mostrar o quanto o futebol nos toca e nos diz respeito. Percebemos, por exemplo, que o que mais toca o visitante estrangeiro são aqueles lances, jogadas ou acontecimentos de grande carga emocional que permeiam a experiência do futebol e que, parece, já carregam uma interpretação quase universal. Ouvi várias vezes: “eu sei o que é sentir isso”. A pessoa pode não ter vivido o momento ou não conhecer a jogada, mas sabe o que é viver e experimentar este sentimento – de alegria por uma bela jogada, de tristeza por uma derrota… Acho que por isso o Museu consegue tocar e mobilizar as mais diferentes pessoas. Para grande parte do nosso público, o tema é muito familiar. Esse é o nosso grande trunfo. Qualquer pessoa, mesmo não gostando tanto de futebol, convive com isso diariamente: é futebol no noticiário, na pelada no meio da rua, no vocabulário corrente e em interpretações da vida, na camisa vestida pelos amigos de trabalho em dia de jogo ou depois de vitórias, nas eternas e às vezes exaltadas discussões sobre se a bola entrou ou não.

Foto: Museu do Futebol (divulgação).


Como vocês tratam o período de 1950, considerado o momento do Brasil que não deu certo por meio do futebol? Tendo em vista que a proposta é evidenciar o que deu certo…

Clara: A exposição trata esta época como um grande rito de passagem (é até o nome da sala), um intervalo ou um momento dramático do futebol no Brasil. Como um momento fundamental para a construção das vitórias posteriores. Uma Copa realizada no Brasil, num Maracanã construído para o evento e num contexto em que todos esperavam que o Brasil ganhasse…

Daniela: Precisava só de um empate…

Clara: E o Uruguai faz o segundo gol no final do jogo. O nome da sala expressa bem a ideia da curadoria: de como foi necessário este momento, quando o futebol brasileiro estava crescendo mas, de maneira dramática, não acontece em 1950. Um marco simbólico que vai, na sequência – e a exposição procura mostrar isso – fazer com que surja um futebol-arte brasileiro e vitorioso.

Daniela: Expograficamente, ela tem um lugar muito importante, pois sai da Sala das Origens (que marca do fim do século XIX para o final dos anos 1920) para uma sala que vai discutir como futebol e pensamento social brasileiro estão juntos na criação de símbolos nacionais (que é a Sala dos Heróis). Se nas décadas de 1930 e 1940 o futebol ganha uma importância nacional, em 1950 isso não vinga. E isto é apresentado em uma narrativa mais dramática, inclusive com um tratamento acústico diferenciado na sala, para trazer esse eixo da emoção, para chegar numa linha do tempo das vitórias. Então, expograficamente ele também se situa num momento de inflexão da própria história. O futebol cresce como um eixo importante de nacionalidade e identidade, mas isso fracassa em um determinado momento, mas nem por isso deixa de triunfar depois. Acompanhando os visitantes do Museu, é possível perceber quanto quem é mais jovem – e que, portanto, não viveu a época – fica atento. As pessoas realmente param e assistem ao vídeo. A sala cria uma concentração. Pessoas que viveram a década de 1950 saem emocionadas. Uma história dramática do futebol que teve uma continuidade feliz.

Clara: E tem curiosidades interessantes sobre essa sala. A equipe de pesquisa, na época de concepção do Museu, não encontrou nenhum registro em vídeo aqui no Brasil desse último jogo da Copa de 1950. Assim, os vídeos que temos em exibição no Museu são da cinemateca uruguaia. Veja só! É sintomático dessa dor provocada. O desaparecimento de vestígios desse momento – no caso, das cenas fílmicas do jogo – parece uma tentativa de apagar este momento dramático.

Foto: Museu do Futebol (divulgação).


Há a possibilidade de um aumento de salas e de ampliação da própria exposição permanente?

Clara: A exposição permanente não é algo definitivo e eterno. Tanto que o termo que usamos para defini-la não é ‘exposição permanente’, mas, ‘exposição de longa duração’. Ela deve ter um tempo longo de existência, pois nosso pressuposto é que muitas pessoas que não conhecem a exposição ainda vão passar pelo Museu. Algo entre sete e dez anos é um tempo médio para este tipo de exposição, ou seja, um período razoável para permanecer com a mesma exposição sem necessariamente fazer modificações. Por outro lado, o fato de utilizarmos muitos recursos audiovisuais abre possibilidades de alteração desse conteúdo, a princípio mais estático. A nossa idéia é, durante este longo período de vida da exposição, rechear o conteúdo já existente com algumas novidades, seja na Sala dos Gols, com novos depoimentos; ou na Sala dos Rádios, com novas narrações. No caso da Sala dos Gols, é possível inclusive mudar o enfoque. Não temos, por exemplo, um torcedor anônimo falando. Embora todos que falem lá também sejam torcedores, foram selecionadas personalidades conhecidas do grande público. Assim, é possível, sem mudar a exposição, ampliar o enfoque. Dá para colocar um juiz falando da jogada, de um gol inesquecível, ou o próprio jogador falando do gol, por exemplo.

Daniela: Dá para contemplar gols de times não representados, pois há uma concentração de times da região Sudeste. A Sala dos Gols é um dos poucos lugares da exposição que permite ao visitante buscar coisas do seu time. É um espaço que permite explorar essa diversidade de clubes e buscar novos depoimentos a partir deste critério.

Clara: E as pessoas querem percorrer o Museu dessa maneira, em busca de elementos da história de seu time. Na Grande Área tem alguns elementos que ajudam: vários símbolos que retratam os vários times. Na Exaltação tem também. Uma diversidade de clubes que só será retomada no fichário de clubes, na última sala. O visitante busca isso, principalmente o visitante-torcedor.

 
Como surgiu a ideia de utilizar as arquibancadas do Pacaembu dentro na sala dedicada ao torcedor?

Clara: Esta sala foi um encontro feliz de ideias. Inicialmente, esse trecho do percurso do Museu terminava antes dessa sala. Aquele espaço foi aberto para fazer uma prospecção das estruturas da arquibancada. De repente, descobriu-se uma caverna maravilhosa. Na época, pensaram: “temos que mostrar espaço, pois ele é maravilhoso”. Um dos projetos era abrir a parede e colocar um vidro para que as pessoas conseguissem olhar, percebessem a engenharia da época e este movimento da arquibancada se descolando do talude para formar a fachada monumental do estádio. Tanto o Leonel Kaz quanto a Daniela Thomas e o Felipe Tassara – responsáveis pela expografia, falaram “não!; não dá para ficar sem essa sala e não tem lugar melhor que estas entranhas da arquibancada para falar da torcida”. Inicialmente, a sala das torcidas era para ser no térreo, no corredor que sai do vestiário para ir ao campo, onde hoje está a sala de exposições temporárias. Este espaço era antigamente um vestiário e, portanto, parecia muito apropriado. Mas depois que descobriram aquele espaço maravilhoso, ninguém teve dúvidas. Mas o interessante é que o fato de escolherem esse local inesperado trouxe mais efeitos do que imaginávamos: tem a temperatura, o cheiro, a umidade do ar, um ambiente que parece mobilizar e emocionar ainda mais as pessoas. E isso não foi calculado. Não se esperava que este conjunto de elementos – a terra, a arquibancada, o jogo de imagens maravilhoso – fosse se transformar realmente em uma experiência que envolveria todos os sentidos.

Daniela: E o fato de começar num andar e subir para um mezanino é fundamental para provocar esse conjunto de sensações. Nesse movimento de subir as escadas rolantes em meio às imagens e sons da torcida, tivemos depoimentos de ex-jogadores afirmando que a experiência lembrava a sensação de sair do vestiário e entrar no campo. Outra feliz coincidência de trazer esta experiência sensorial: o que é sair de um espaço reservado, no caso o vestiário, e ascender ao campo com toda uma torcida já gritando e clamando por seu time. Tem, portanto, mais essa possibilidade de experiência. Não dá para ouvir a torcida na Sala dos Gols e Rádio. Só depois de passar a porta giratória e subir a escada rolante é que as sensações começam.

Clara: E tivemos um cuidado de fazer este tratamento acústico na própria porta giratória, para, justamente, propiciar ao visitante essa sensação apenas ao entrar na própria sala.

Foto: Museu do Futebol (divulgação).


Outras coisas sutis: além da rivalidade no confronto de torcidas, há uma gradação do som que parece seguir o jogo. Não é o êxtase a todo momento. É um jogo rolando…

Clara: São 16 minutos de vídeo e tem 27 clubes representados, do país inteiro.

Daniela: E tem cenas dos clássicos brasileiros. Tem Fla x Flu, Corinthians x Palmeiras, Ponte Preta x Guarani, Grêmio x Inter, por exemplo. Há uma composição no vídeo, momentos em que a torcida representada vibra com o gol ou se decepciona com a derrota. Como você disse, isso recria o ambiente de uma partida de futebol.

A opção por um projeto marcado pela arte multimídia pode ser creditada ao sucesso recente do Museu da Língua Portuguesa?

Clara: De certa forma, a experiência bem sucedida do Museu da Língua Portuguesa inspirou o projeto. Mas tem dois fatores importantes: primeiro, é uma linguagem muito contemporânea e por isso agrada, as pessoas se sentem familiarizadas, faz parte do cotidiano, facilita a interação; por outro lado, tratar a memória do futebol sem utilizar esta linguagem é quase impossível, pois como falar de futebol sem imagem em movimento, sem som? Para isso, é preciso ter vídeo e som, ter esse conjunto de dispositivos expográficos. Em certo sentido, tem uma memória do futebol que só se materializa por meio destes recursos multimídia.

Daniela: Em termos de implantação do projeto, o sucesso do Museu da Língua Portuguesa, inaugurado em 2006, mostrou que esse novo modelo de Museu funciona. Foi um passo importante para conseguir recursos e viabilizar um projeto de Museu do Futebol. Agora, outros museus da cidade estão sendo pensados, reformados ou construídos dentro deste novo paradigma museológico, com uma exposição de longa duração centrada num modelo interativo, que dialoga mais com o público, que faça uso de novas tecnologias. Os museus não vão mais escapar deste modelo, principalmente os temáticos. Uma coisa importante: o Museu do Futebol não parte de uma coleção pré-existente, como o Museu Afro-Brasil ou a Pinacoteca do Estado, que possuem coleções de obras e as exposições dialogam com elas. O Museu da Língua Portuguesa e o Museu do Futebol foram pensados a partir de um tema. Como trabalhar estes temas? Não partimos de um grande acervo, seja público ou privado. Partimos de um tema – o futebol – que pode ser considerando um grande patrimônio nacional.

Clara: Agora este é o desafio: de que maneira podemos continuar patrimonializando o futebol.

Daniela: Muitas pessoas vão ao Museu e esperam encontrar troféus, faixas, flâmulas, camisas, chuteiras, bolas… Mas foi opção da curadoria e do projeto não trazer somente essa possibilidade. Fazemos de uma forma diferente, para além deste material, por meio de uma grande narrativa e de um grande número de imagens – fixas e em movimento.

Foto: Museu do Futebol (divulgação).

E receberam críticas por causa desta opção?

Clara: Existe uma visão do que é acervo muito assentada na ideia de memória material, num mundo dos objetos. Chegaram a falar, de maneira pejorativa, que o Museu do Futebol caberia num pendrive. E na verdade é um equívoco. Existe uma experiência que é criada. Além disso, não é só com objetos que se trata uma memória.

Daniela: O foco da experiência museológica não fica tanto na guarda de um acervo. Não seria a missão principal. Muitos museus hoje são depositários de acervos, com a preservação de grandes coleções. No outro paradigma de museu, a comunicação e a experiência do visitante com aquela memória é o foco principal. No caso do Museu da Língua e no Museu do Futebol, a tônica é essa. É outra experiência. Coloca-se outro processo de salvaguarda desta memória, não centrado somente na guarda de coleções doadas.


E como contrapartida a estas críticas o Museu tem as exposições temporárias…

Clara: São duas grandes frentes aqui. As exposições temporárias, que podem suprir isso, tanto que a segunda temporária do Museu, chamada “Mania de Colecionar”, trouxe mais de cinco mil objetos (como camisas e times de botão). Foi um pouco uma resposta a essa crítica, mas também um processo interno importante para equipe, de reconhecimento de um acervo significativo para memória do futebol e início de um relacionamento com diversos colecionadores de objetos. Portanto, foi tanto uma resposta a essa fixação pelos objetos que materializam a paixão pelo futebol quanto uma forma de incorporação destas coleções, não permanentemente, mas em caráter temporário. A outra frente é o Centro de Referência do Futebol Brasileiro – que estamos montando. O que faz sentido estar dentro de um Museu de forma permanente? Um troféu de um clube, nos parece, tem muito mais sentido dentro do clube de origem, de seu museu ou memorial, do que dentro do Museu do Futebol. Embora, durante uma exposição, dependendo do tema, possa fazer sentido trazê-lo, apresentá-lo ao público dentro de algum contexto. O desafio é se perguntar qual tipo de acervo tem que ser preservado ali? Talvez, objetos que não serão preservados por outras instituições e que precisam de um tipo de cuidado que o Museu pode oferecer, alguma coleção específica, enfim. Porém, certos acervos só ganham sentido no local onde eles estão, seja num boteco em Cidade Tiradentes, seja no São Paulo, no Corinthians, Juventus. Isso traz uma questão estimulante sobre o que cabe ao museu identificar e o que cabe ao museu de fato incorporar, e como incorporar.

Foto: Museu do Futebol (divulgação).


E como é este planejamento interno? Como é a busca pelos materiais das exposições temporárias?

Daniela: O Museu do Futebol é uma instituição ainda muito recente, com três anos de vida. Fizemos várias reuniões de curadoria para pensar temas importantes. Toda exposição temporária tem que dialogar com algo abordado na exposição de longa duração. Com este princípio, ainda não fizemos exposições voltadas a um clube específico. Já declinamos de propostas que pretendiam trabalhar com este viés. São muitos temas a explorar. Ainda não temos um programa de exposições completamente desenvolvido, muito por conta do pouco tempo da instituição, mas já temos algumas diretrizes que são bastante fortes. A equipe do Museu já fez três das quatro exposições temporárias que o Museu abrigou. A primeira exposição foi produzida por uma empresa, ficou três meses e depois itinerou para outras cidades, tal como ela foi apresentada no Museu do Futebol. É uma exposição que trata do acervo pessoal do Pelé e chama “As Marcas do Rei”. Tem desde a caixinha de engraxate do Pelé menino lá em Três Corações, até a bola do milésimo gol, a camisa do Cosmos…

Clara: Cds de música da fase de cantor…

Daniela: Temos como política que as exposições são inteiramente desenvolvidas pela equipe do Museu. Isso significa que a equipe embasa o tema escolhido pela curadoria, cuida da pesquisa, e sempre tem que ter um diferencial, ou seja, trazer uma experiência de comunicação diferenciada. As temporárias buscam essa experimentação mais sensorial do visitante.

Clara: Formamos uma equipe muito boa e qualificada para isso. Como o Museu possui somente um espaço para exposições temporárias atualmente, temos privilegiado esse desenvolvimento interno, usando as referências da própria equipe, com o auxílio de alguns consultores externos. Mas temos o objetivo de abrigar futuramente exposições que venham de fora, mas sempre com um pitacozinho nosso, é claro. O fato de termos uma equipe muito qualificada e um curador muito atuante e presente, acaba tornando mais complexo o acolhimento de qualquer exposição que venha de fora sem antes nos certificarmos da qualidade e da pertinência de abrigá-la. Somos exigentes. Além disso, buscamos, sempre que possível, manter um diálogo com a exposição de longa duração.

Daniela: São exposições que foram trabalhadas de formas muito distintas. Na “Mania de Colecionar”, mesmo com objetos, a tônica foi a plasticidade das formas, a composição estética do conjunto de objetos. Ficamos dias e dias vendo qual era melhor disposição das camisas. Nosso critério de escolha focou times subrepresentados no próprio Museu, como os da segunda, terceira e quarta divisões. Os 26 estados e o Distrito Federal estavam representados nas camisas, mas o critério de escolha também foi estético: camisas com faixas, com listras horizontais ou verticais, inclusive montamos um painel de degrade de cores. Cada objeto estava individualizado, mas também fazia parte de um todo que passava por uma experiência plástica. A primeira experiência da exposição era visual, uma grande parede colorida.

Clara: Para essa primeira exposição elaborada pela equipe, convidamos a Daniela Thomas e o Felipe Tassara, que são responsáveis pela expografia do Museu do Futebol, mas não tinham participado da exposição “Marcas do Rei”.

Daniela: Na segunda exposição, trouxemos fotografias de futebóis jogados em espaços não oficiais. Todas as fotos mostravam futebol, mas nenhuma tinha times profissionais, por exemplo. Por mais que seja uma exposição fotográfica, buscamos trazer som, fizemos uma trilha sonora original, específica para a exposição.

Clara: O bacana é que fizemos uma trilha original com expressões utilizadas em campo: “passa a bola”, “deixa eu chutar”, etc. Pegamos expressões das crianças gravadas em 09 idiomas.

Daniela: Na exposição “Copas de A a Z”, a ideia foi contar a história das Copas dentro de uma casa, uma espécie de casa maluca, que brincava com pontos de vista, com as varias possibilidades de abordar histórias das copas do mundo.

Clara: O desafio era tentar pensar a Copa do Mundo de uma maneira menos óbvia. Nesse sentido, por exemplo, ‘B’ não era ‘bola’, mas ‘bola fora’. ‘G’ era ‘granja’ e não ‘gol’. Sempre seguindo essa ideia de fazer uma casa maluca, uma casa de Alice. É importante lembrar que montar uma exposição também é um processo meio maluco. Você nunca tem ela linearmente pronta desde o início. A ideia do futebol dentro de uma casa foi sendo construída ao mesmo tempo em que outras ideias começaram a aparecer. Esse discurso pronto só fica pronto no final mesmo. Isso é o mais mágico de montar uma exposição: como ela vai sendo pensada e reconstruída o tempo inteiro. No caso da exposição Copas de A a Z, até o final fomos mudando o conteúdo das salas, inclusive chegando a mudar o significado da letra.

Daniela: A ideia original da exposição foi trazida pelo curador, Marcelo Duarte. Ele queria uma exposição sobre Copas do Mundo, “Copas de A a Z”, onde cada letra falasse sobre um tema, buscando fugir da obviedade. O processo já partia de um percurso, de A a Z. Mas como fazer isso? De que maneira abordar as Copas a partir do alfabeto? Partimos de um princípio: surpreender o visitante.

Clara: Surpreender não só no tema, como também no espaço. Salas pequenas, salas grandes, salas tortas, letras gigantes, letras pequenas, uma sala inteiramente branca, a sala ‘J’ de Jardim Irene. Não precisávamos desenvolver tudo ali, nessa exposição, pois o Museu já tem uma sala dedicada às Copas.

Foto: Museu do Futebol (divulgação).

E o público? Existe um acompanhamento dos diferentes tipos de público: criança, adulto, mulher etc.? Qual é a relação com cada público?

Clara: Na verdade, temos um grande primeiro mapeamento, uma espécie de marco zero, realizado nos meses primeiros seguintes à inauguração do Museu. Um perfil de público de precisa ser revisto, pois foi a primeira pesquisa, mas foi muito interessante. Essa pesquisa trouxe, por exemplo, que o público que frequenta o Museu aparece em mesma proporção em todas as faixas etárias.

Daniela: Foi uma pesquisa feita só com pessoas a partir de 15 anos. É o padrão de pesquisas de públicos de outros museus. As faixas eram de 15 a 19 anos; 20 a 24; 25 a 30; e assim vai, até mais de 65 anos. E a distribuição foi bem equitativa entras faixas, de mais ou menos 12% para cada. Umas com um pouco mais, outras com menos. Isso foi uma surpresa. De adolescentes de 15 anos a idosos de 60 anos, temos uma mesma frequência no Museu.


Se levasse em conta as excursões escolares, as crianças e jovens comporiam a  maioria?

Clara: Fizemos a pesquisa com o público espontâneo. O público de escola é mais fácil de mensurar. Temos cadastros. Sabemos quantas vêm de instituições sociais, quantas de escolas. O público espontâneo é mais difícil de mapear. Outro dado relevante é que o público é predominantemente masculino, 70% homens!

Daniela: Poucos museus têm esse percentual. No geral, o público feminino representa mais da metade – 55% a 60% na maioria dos museus

Clara: Outra coisa interessante, que não estava na pesquisa, mas que é percebida no cotidiano, é a interação que o público tem com o conteúdo exposto. O fato de quase todo mundo conhecer alguma coisa sobre futebol faz com que o público tenha sempre opiniões a dar, inclusive muitas críticas. Parece que todos estão ali para apontar lacunas, problemas, aquilo que falta acrescentar. Isso tem permitido um confronto de informações muito enriquecedor. Verificamos, por exemplo, alguns casos em que a informação objetiva dada em alguma legenda ou texto estava errada, que a exposição precisava ser corrigida. Por outro lado, essa participação do visitante mostra também este envolvimento emocional: “disso também sei falar e vou palpitar”.

Confira a segunda parte da entrevista em 16 de março de 2011.