15.3

Daniela Alves

Equipe Ludopédio

A paulista Daniela Alves iniciou a carreira na Portuguesa, onde começou a jogar com apenas 13 anos. Atuou em equipes do exterior: passou pelo futebol da Suécia, disputou a Liga Norte-Americana. Foi jogadora da seleção brasileira entre 1999 a 2008, disputando Copas do Mundo e Olimpíadas. Conquistou a medalha de ouro nos jogos Pan-Americanos de 2007, quando também foi a artilheira da competição, com seis gols. Conquistou a medalha de prata nas Olimpíadas de Atenas, em 2004. Em 2007, foi eleita a melhor jogadora da primeira edição da Copa do Brasil. Encerrou precocemente a carreira devido a uma lesão no joelho.

Daniela Alves: Foto: Max Rocha

Daniela Alves: Foto: Max Rocha

 

Dani, conta para a gente o que é ser uma atleta olímpica?

Um sentimento inexplicável! Eu tive a oportunidade de ir com 16 anos à minha primeira olimpíada, realizada em Sidney. Participei de três seguidas, e tive o grande privilégio de ser uma das primeiras, ou a primeira, a ganhar medalha olímpica na minha modalidade que é o futebol feminino. Participei de três olimpíadas, e dentre essas três ganhei duas medalhas, um feito histórico. De Atlanta eu pouco soube, pois na época eu tinha uns onze ou doze anos, e foi somente em 1997, que eu comecei a jogar com as meninas, acabei jogando com aquelas que acabariam indo à primeira olimpíada. Um feito histórico de ver hoje, eu tenho um filho de dois anos e ele vê passando a reprise e fala: “olha a mamãe, olha a mamãe jogando!” Então não tenho como explicar isso, você ter participado tão nova, ter ganho medalha, e depois ter uma olimpíada na sua casa e seu filho está vendo você jogar em uma reprise na televisão. Um feito histórico, ainda pelas lembranças especiais das duas medalhas.

Você se lembra dessa primeira convocação?

Ah lembro, eu tenho em um quadro na minha parede os nomes que foram convocados, não tem como esquecer. Foi mágico porque eu fui convocada, eu comecei digamos, com 13 anos a jogar profissionalmente, e dois anos depois eu já ter sido convocada para a seleção. Foi tudo meteórico, comecei cedo, eu sai daqui do Acadêmico Cidade Dutra, e fui fazer testes como no Juventus, onde acabei não ficando por ser muito longe e eu ser muito jovem. No Palmeiras, que na época se localizava ali em Amparo, era impossível de estudar e eu também não quis ficar. Já na Portuguesa, meu primeiro clube onde fiquei cinco anos, foi assim, em primeiro lugar não queriam que eu fosse já que eu era muito nova e o regulamento do campeonato só permitia a partir de quinze anos, eu tinha recém feito treze, eu não podia participar e o treinador não queria que eu fosse, já o meu treinador na época, o  Jabá, insistiu que me levasse só para eu ir, como uma espécie de excursão digamos assim. No treino o treinador da Portuguesa acabou gostando de mim e eu fiquei por lá mesmo. E foi lá que eu iniciei, ele tinha medo de me colocar para jogar desde que eu era muito nova, mas eu sempre fui forte e alta comparada as outras, então ele tinha esse medo de me colocar, mas depois que me pôs para jogar pela primeira vez, nunca mais sai. Foi assim que começou, fiquei na Portuguesa por cinco anos, me destaquei e chamei a atenção do treinador, o finado Zé Duarte, na época técnico da seleção, gostou acabou me convocando e foi nunca mais deixei de estar lá, foram onze anos só na seleção.

Nessa primeira edição olímpica em que você vai, quais são as suas recordações da competição, da vila olímpica. Não sei se foi a primeira saída para um outro país, me diz como que foi isso?

Não foi a primeira vez que fui para fora do país, pois em 1999 eu fui convocada para o Mundial. Estava no grupo treinando e quando chegou o regulamento da FIFA eu fui cortada, porque eu tinha 15 anos e só podia a partir dos 16, então tive que fazer um gato ao contrário ficar mais velha. Para mim foi uma frustração, pois já estava com o grupo e não poder participar da minha primeira competição com a seleção por causa da chegada repentina do regulamento e eu ter sido cortada, por causa da minha idade, já que era um ano mais nova que a idade estipulada. Para mim foi um baque, fiquei sem chão, imagine você com quinze anos e passar por isso, chorei muito, mas não desisti.  Depois houve o torneio no Estados Unidos, depois do Mundial, fui convocada e consegui participar, então não era a primeira viagem. Fui para Sidney para a minha primeira Olimpíada e foi mágico. A minha primeira recordação boa sobre as Olimpíadas em Sidney foi sobre tudo, foi um momento lindo, a cidade era linda, a organização, para mim era tudo novo, tudo o primeiro. Guardo muitas coisas, ainda tenho o edredom que de lá eu trouxe como recordação, tenho também material que eu guardo para mostrar ao meu filho. Para mim foi um momento mágico e único. A Olimpíada da Grécia, foi marcante porque a nossa seleção não tinha crédito nenhum, e chegou o Renê Simões, que nunca tinha participado e nem conhecia a modalidade feminino só a masculina, mas um excelente profissional. Foi quando nós da seleção conhecemos o profissionalismo, e onde focamos no nosso objetivo e onde entramos para a história juntamente com ele, como não lembrar, mudamos totalmente o foco, nós eramos somente atletas, porque antigamente tínhamos várias coisas fora do campo e isso prejudicava muito, e com a chegada do Renê e sua comissão passamos a ser somente atleta, focamos no jogo e no nosso objetivo. Saímos daqui em busca de uma medalha todas focadas, sabíamos que iríamos trazer uma medalha, só não sabíamos a cor. Chegar em uma final e a bola bater na trave e não entrar, e saber que nós fomos melhores o jogo inteiro, mas é futebol é assim, em uma falha a bola entra e acabamos que não trouxermos a medalha de ouro. Eu considero essa prata como um ouro branco.

Olhando para a primeira competição ainda, como que foi a campanha de vocês, o jogo a jogo, você se recorda dessa experiência?

Sim, porque depois dessa Olimpíada eu parei de jogar. Eu falei eu não quero isso para mim, fiquei nove meses sem jogar, eu não quis. Porque eu era muito nova e tinha mulheres muito mais velhas que eu na seleção, e não tinha essa coisa de profissionalismo, não tinha esse grupo, era muita vaidade, muita coisinha, e eu sempre tive muita cabeça e falei: “eu não quero isso para mim, se jogar futebol é isso, se for desse jeito eu não preciso disso”. Tive uma decepção em relação ao ambiente, ao grupo, foi assim que parei de jogar, não quis voltar, teve convocações que acabei não indo. Por insistência do Paulo Dutra, e da conversa com a minha mãe de que falei: “mãe ele está me ligando me convocando, mas eu não quero ir” ela me responde: “você já acabou o estudo, não está fazendo nada, então vai”. Por causa dela eu voltei e não sai mais. Teve esse deslumbramento com o ambiente, com o lugar, com a cidade, com tudo. Ver as atletas todas juntas, sendo todas iguais, e teve essa coisa do grupo. Mas fomos bem na competição, por ser a segunda Olimpíada feminina, em 1999, fomos bem até, ficamos em quarto lugar.

O bronze vocês perdem?

Não, eu não me lembro bem o que aconteceu. Sei que nós não disputamos o bronze, nós ficamos em quarto. Até olhando no museu eu pensei nós ficamos em quarto, mas não disputamos o bronze. Não sei o critério usado na época, já faz muitos anos não me recordo, mas ficamos em quarto lugar.

Daniela Alves. Foto: Max Rocha

Daniela Alves. Foto: Max Rocha

Na segunda competição a de Atenas, qual é a diferença para você tendo participado da primeira? Você tendo saído do futebol, voltado, o que é a Dani em 2004?

Olha entre Sidney e Atenas teve muitas coisas. Depois eu parei de jogar e voltei, não houve profissionais, como treinadores capacitados à assumir a seleção, teve muitas coisas. O campeonato mundial antes da Olímpiada, em 2003, que foi uma bagunça, pois o treinador não era um treinador, estava lá por tá, então teve tudo isso, até a chegada do Renê Simões, a seleção estava bem machucada, estava bem ferida mesmo, estava totalmente abandonada. Com a chegada do Renê Simões as coisas foram totalmente diferentes, mudança totalmente de comportamento, foco, atitudes, foi um grande aprendizado para todo o grupo. Eu lembro que a Grécia eu só fui conhecer quando acabou a competição, nós disputamos a final, ficamos um período por lá já que a passagem estava marcada. Nesse período passeamos conhecemos a Grécia, mas durante a competição era totalmente diferente. Já em Sidney não, como eu era mais nova ia conhecendo as coisas, eu colocava a rodinha no pé  e ia passear pela Vila. Na Grécia não, erámos totalmente focadas no treinamento, descanso, treinamento, foco, jogo, vencer, descanso, cuidar, tratar. Era totalmente diferente, acho que isso era o diferencial, o profissionalismo mesmo, por isso que chegamos até a final para disputar o ouro.

Como ficou o clima do vestiário, com a prata na mão e tendo a chance de ter vencido um equipe forte?

Depende da forma de olhar de cada a um,  eu detesto perder, então arrumei uma forma, para mim é um outro branco mesmo. Nossa equipe jogou muito mais, eu estava lá e corri por isso, e sei que jogamos muito mais que elas. Então por um detalhe, cansaço ou alguma coisa, não era para ser mesmo, nós não conseguimos. Mas de sair daqui desacreditadas, o abandono que estávamos, para chegar nessa Olimpíada, o Brasil parou para nos assistir, chegar até o pódio é gratificante, e depois eu parei, já faz seis anos, e eu saio na rua e as pessoas ainda me reconhecerem e brilhar o ouro de ver a medalha não tem preço. Acompanhar a mudança de todas, e a união em que estávamos onde estava uma estava todas, não era obrigatório sair juntas, mas nós gostávamos de estar unidas ali em tudo, seja no refeitório, ou para sair, fazer alguma coisa eramos todas juntas. Acho que esse era o diferencial e você ver os outros competidores ganhando a medalha, e você olhando para ela e falando “nossa vamos em busca de uma”, eu particularmente olhava a de ouro, brilhava mais. Chegar até lá e disputar e quase ganhar, está nas mãos. Tem um gosto especial essa de Atenas com certeza, por ser a primeira, por estar na história, para mim tem um gosto especial, um ouro branco mesmo.

Agora Pequim, você já é mais experiente. Com duas Olimpíadas nas costas, mais dois mundiais, com uma medalha de prata o outro branco, como você chegava em Pequim com o favoritismo, já que a seleção vinha sendo a mais favorita como é que foi isso?

Forte também, porque já vínhamos de um Mundial, onde disputamos a final, foi na própria China, então conhecíamos a cidade, o ambiente, vínhamos também de uma competição forte que é a Copa do Mundo, chegamos a final, a bola pegou na trave de novo, o time era muito experiente, como se diz jogávamos por música, todas se conheciam, não precisa falar muito, já sabíamos onde cada uma estaria só era tocar a bola que sabíamos que aquela atleta estaria lá. Eu que jogava no meio sabia que se colocasse no lado direito a Marta estaria lá entrando, do lado esquerdo a Cristiane estaria esperando naquela posição, o adversário tremia, nós paramos de ser o patinho feio e passamos a ser as favoritas, impressionar os adversários principalmente as americanas, elas perguntavam “há quanto tempo vocês já treinam, o que vocês fazem?”, não nós nos reunimos seis meses antes para treinarmos, elas ficavam espantadas “somente seis meses? Nós treinamos três anos para competições internacionais”. Elas ficavam admiradas com a nossa garra, nós fomos mesmo determinadas, um grupo muito forte e fechado, com foco também. Infelizmente bateu na trave de novo.

Quem era o treinador nessa época?

Era o Jorge Barcelos, ele tinha recém assumido no Mundial, antes era o Luiz não me lembro do sobrenome, ele estava no comando da seleção. Houve um problema interno, e o Jorge Barcelos assumiu, ficou e deu certo, ele era profissional e falava a língua do atleta, falava a nossa língua, ficando assim muito mais fácil trabalhar.

Daniela Alves. Foto: Max Rocha

Daniela Alves. Foto: Max Rocha

E essa questão do favoritismo que vocês chegam por conta dessa medalha isso pesa de alguma maneira no grupo? Por que se lá no início pouca gente conhecem vocês, vocês não tinham nada a perder, foram e conseguiram os resultados, agora as outras seleções já tinham conhecimento, até por conta do Mundial e a própria trajetória nos Jogos Olímpicos. Além disso, o grupo muda pouco, se você pegar essas edições, algumas jogadoras saem, mas a base permanece a mesma, principalmente no período em que você está na seleção. Isso pesa de alguma maneira para vocês? Nós precisamos desempenhar um bom papel, porque a gente quer essa medalha de ouro, a gente quer chegar na parte final da competição, isso gera alguma cobrança maior?

Não, porque já a Marta já vinha sido eleita três, quatro vezes como a melhor jogadora do mundo. Eu já jogava fora desde 2005, nos Estados Unidos e na Suécia, então já tinham o conhecimento do meu futebol, o da Marta nem se fala, disputou várias como a melhor do mundo, a Cristiane também jogava fora, outras atletas também jogavam fora, portanto conheciam o jeito de jogar de outras equipes, cada uma foi passando as informações, essa daqui joga desse jeito, aquela ali joga daquele outro jeito. As outras jogadoras também tinham respeito por nós, pois sabiam da nossa qualidade, do nosso diferencial que é o fato de que somos brasileiras. Por mais que elas armassem esquemas, as jogadoras vissem junto coma sua comissão técnica os vídeos várias vezes, tentar bloquear a nossa forma de jogar a Marta é canhota ela vai driblar para dentro e vai chutar com a perna esquerda e vai no lance, não conseguiam porque tinha um drible, um toque, se está fechado desse lado iríamos buscar outra maneira de jogar, íamos abrir outra porta e isso dificultava muito jogar contra a nossa equipe.

Eu chutava com as duas pernas marcava com a direita, chutava com a esquerda ou vice versa, elas não conseguiam me parar. Na marcação a gente estava tão forte também, que quando tinha uma atleta adversária com a bola chegava duas, três do nosso, e a parte física estava muito boa também. Eu particularmente quando acabava o jogo não tinha visto o tempo passar, ainda estava inteira e até falava “nossa já acabou?”. Tudo isso fazia com que a nossa equipe ficasse mais diferenciada que as outras, as adversárias não conseguiam achar um jeito de parar o nosso time. Além, da qualidade do drible que só nós brasileiro temos, então era aquele extra, o adversário não consegui parar de qualquer forma.

Confira a segunda parte da entrevista em 12 de agosto.