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Djair Miranda Garcia

Equipe Ludopédio

Neste mês, a seção Entrevistas traz uma edição especial com preparadores físicos brasileiros que atuam em clubes estrangeiros. Duas trajetórias, diferentes experiências, muitas histórias…

A segunda entrevista é com Djair Miranda Garcia, ex-jogador de futebol, formado em Matemática e Educação Física, que trabalhou em alguns clubes brasileiros e que nos últimos anos trabalha como preparador físico no futebol da Índia.

Para entrar em contato com Djair, clique aqui e acesse o perfil dele no Ludopédio.

Boa leitura! 

 

Djair na estação de trem em Nova Deli. Foto: Arquivo pessoal.

 

 

Djair, sua primeira graduação foi em Matemática no início dos anos 1980. Como chegou ao Amparo Atlético Clube? Como foi a sua trajetória no futebol?

Na verdade, minha trajetória no futebol se iniciou na zona oeste da capital paulista, mais precisamente na Vila Anastácio pela S.E.R.V.A – Sociedade Esportiva Recreativa de Vila Anastácio, no ano de 1973. Com 12 anos de idade fui levado pelo “Quincas”, um volante, outro jogador que morava no meu bairro – a Vila Jaguara – e mais tarde veio a jogar na Portuguesa de Desportos. Depois de alguns anos, em 1976, do meu bairro eu levei o Sidney para jogar comigo, que se transformou em um dos Menudos do Morumbi do técnico Cilinho. O Sidney foi um ponta-esquerda da geração famosa do São Paulo FC nos anos 80 com um ataque arrasador (Muller, Silas, Careca, Pita e Sidney). Mas como era de família humilde, meu pai, senhor Garcia (mecânico de automóveis – in memoriam), e minha mãe, Dona Luzia (empregada doméstica), sempre me falavam: “Filho, se preocupe em estudar!”. Estava jogando no dente de leite e estudando na escola quando fui fazer um curso de aprendizagem de Ajustador Mecânico no SENAI, no bairro da Lapa. Concluí o curso e comecei a trabalhar numa empresa de engrenagens na Vila Leopoldina. Na escola sempre tive ótimas notas em Matemática. Concluí o colegial também e fui prestar o vestibular em Matemática na Faculdade Osvaldo Cruz na Barra Funda no ano de 1979.

Em 1975, o primeiro clube: S.E.R.V.A. Foto: Arquivo pessoal.

Trabalhava de metalúrgico. Um dia, quando estava de férias, fui fazer um teste na Portuguesa de Desportos e fui aprovado. Cheguei em casa todo feliz, pois o treinador Luis Boccuci Neto, o Boca, me queria para integrar o juniores. Mas veio a grande decepção com minha realidade. Meus pais não aprovaram eu ter que fazer aquela mudança radical em largar o emprego e me dedicar somente ao futebol. Eles não tinham condições de me manter e a Faculdade também. E acabei deixando para trás. Mas nos fins de semana lá estava eu nos campos de futebol, na região de Pirituba, pois eu jogava pelo E.C Comercial de Pirituba (uma equipe amadora da zona oeste, de grande número de torcedores). Meu treinador se chamava senhor Jaú! Eu também jogava pelo Corinthians da Vila Piauí, outra equipe famosa da zona oeste.

Djair com camisa do Comercial de Pirituba na India (2009). Foto: Arquivo pessoal.

Foi quando no início do ano de 1981, este treinador do E.C Comercial de Pirituba assumiu como supervisor do Amparo Atlético Clube, equipe da Divisão Intermediaria, chamada na época, da cidade de Amparo (125 km da capital) e me levou um dia para fazer um teste. Faltei uma sexta-feira no serviço e era momento de férias na Faculdade, início de janeiro de 1981. Eu já com 19 anos de idade estava entrando no último ano na categoria de juniores. Conversei com meus pais e disse que iria tentar o meu sonho de ser jogador de futebol! E para minha felicidade fui aprovado. Mas como tinha idade de juniores os diretores queriam que eu ficasse no clube. Tudo parecia que estava destinado, pois quando disse aos diretores que estudava Matemática em São Paulo, eles me disseram para não me preocupar, pois o presidente do clube poderia arrumar uma bolsa de estudo e eu não iria pagar a Faculdade, e teria ainda uma ajuda de custo todos os meses.

Pronto, era o que precisava para voltar a São Paulo e ter o consentimento dos meus pais e deu certo. Como diz na gíria, me mudei de mala e cuia para Amparo-SP, deixei meus irmãos (somos eu e mais três), minha mãe e meu pai na capital paulista. Fui viver minha vida, longe de todos, buscando meu sonho e o sonho de minha mãe, que era um dia me ver formado em uma Faculdade. Nesta equipe, pelo profissional, jogava o pai do Luisão (que jogou pelo Cruzeiro, SL Benfica e seleção brasileira) e Alex Silva (São Paulo FC, Hamburgo SC, Flamengo e agora Cruzeiro), jogadores de renome hoje do futebol brasileiro. Engraçado que no dia em que o Luisão nasceu, nós estávamos treinando e um diretor gritou: “Amaral, seu filho acabou de nascer”.

Djair com Amoroso e Luizão em 1995. Foto: Arquivo pessoal.

Em 1982 assinei meu primeiro contrato profissional e joguei junto com Elzo, que jogou uma Copa do Mundo pela seleção brasileira. Fiquei no Clube até o final de 1984, quando a equipe se retirou dos campeonatos. Restava mais 6 meses para concluir a Faculdade de Matemática e fui jogar em uma cidade próxima a Amparo, 17 km, a Cidade de Serra Negra, em 1985, pelo Serra Negra EC, na Terceira Divisão de profissionais do futebol paulista. Outro fato curioso que me aconteceu neste ano foi que eu como tinha muita amizade com o pai do Luisão, o Mario Luiz, conhecido na região como Amaral, também foi jogar comigo no Serra Negra EC.

Um dia tinha saído depois do treino para ir à Faculdade a noite em Amparo-SP. Ele me pediu para ficar em casa, pois “amanhã de tarde vamos fazer um jogo amistoso contra o juniores do Guarani FC e você volta comigo para Serra Negra”. Neste ano o Luisão já tinha 4 anos de idade. Eu dormia na sala quando ele me acordou de madrugada dizendo: “Batata (meu nome de jogador), fica aí com o Anderson (Luisão) que vou levar a Arlete para o Hospital, pois o nenê está para nascer (era o Alex Silva). De tarde, jogando contra o juniores do Guarani, tivemos a notícia que mais um menino do Mario Luiz (o Amaral) tinha nascido. Em julho de 1985 foi a festa da minha formatura em Matemática, com a presença de toda minha família vinda de São Paulo e minha noiva, hoje minha esposa Célia, para Amparo-SP.

Djair com o uniforme do time profissional do Amparo A.C. Foto: Arquivo pessoal.

Nesta mesma equipe, do Serra Negra, se destacava um jogador que veio a se tornar famoso também e ainda hoje brinco com ele: um fazia os cruzamentos e outro fazia os gols. Ele, Paulinho Mclarem (jogou no Santos, Portuguesa, FC Porto), e eu fomos no ano seguinte, 1986, para o União Agrícola Barbarense FC de Santa Barbara D´Oeste, indicado pelo treinador, também famoso por revelar vários jogadores no Corinthians, senhor Adailton Ladeira, meu treinador na época. Trabalhei com Valter Zaparroli e nesta equipe comigo jogava o Flavio Trevisan, que depois ficou famoso como um dos mais conceituados preparadores físicos do futebol brasileiro. Casei-me em 1986 na cidade de Amparo, onde fixei residência até hoje.

No ano de 1987 fui jogar na equipe do Cruzeiro FC da Cidade de Cruzeiro, no Vale do Paraiba-SP. Em um lance de um jogo contra o Palmeiras de São João da Boavista-SP, já no final da partida, tive minha perna esquerda fraturada. Começava dentro da minha cabeça o temor de não jogar mais futebol. Enquanto fazia minha recuperação, fui convidado pelo Carlinhos da Gráfica Foca (in memoriam) para ser o técnico da equipe SEUR Peraltas no torneio do Super Galo que jogava aos domingos pela manhã no CMTC Clube, direto pela TV Record. Esta equipe amadora do interior da cidade de Amparo conquistou este título inédito de campeão e eu senti que eu tinha jeito para ser um comandante. Depois de um ano voltei novamente no final 1988 a jogar pelo Serra Negra EC e em 1989 fui para outra cidade próxima a Amparo-SP , jogar pelo Itapira AC. Eu me sentia bem. Mas em um jogo senti como se queimasse minha perna no mesmo lugar onde tive a fratura e pedi para sair do jogo. Andava normalmente e fui para o hospital tirar uma radiografia. Foi constatada uma nova fratura, mas esta por stress. E voltei para casa novamente. Não consegui ver minha filha Denise nascer no Hospital, estava de cama com gesso em casa. Fui teimoso e no início de 1990 voltei a jogar novamente em Serra Negra EC. Como treinávamos somente a tarde, no período da manhã fui contratado para ministrar aulas de Física num colégio em Amparo.

Em 1989, novamente uma fratura na tíbia. Foto: Arquivo pessoal.

O que o fez mudar para a Educação Física?

Em 1991, um supervisor que havia trabalhado na minha época de Amparo Atlético Clube, senhor Zizinho (in memoriam), foi contratado pelo Estrela EC da Cidade de Porto Feliz e levou vários jogadores que moravam em Amparo para jogar pelo Estrela e eu fui também, já com 29 anos. Tinha me recuperado totalmente, mas minha teimosia em jogar persistia. Deixei minhas aulas no colégio, minha esposa com minha filha pequena e fui para Porto Feliz, 143 km de distância de Amparo. Começamos a treinar e a jogar e não era sempre que podia ver minha família em Amparo-SP. Neste mesmo clube, depois de passado uns cinco meses do ano de 1991, houve uma mudança na comissão técnica. Dispensaram o treinador e o preparador físico e o presidente do clube promoveu o auxiliar técnico a treinador e queria dar a oportunidade de um jogador iniciar a carreira de preparador físico. O senhor Zizinho meu chamou na sala e disse: “o presidente senhor Cesar de Lucca mandou falar como você já é ‘formado’, se não queria pegar o time como preparador físico?”. Eu respondi: “eu sou formado, mas em Matemática, o senhor sabe disso, seo Zizinho”. No outro dia, minha grande surpresa: “Pela sua conduta, o Presidente mandou fazer uma proposta. Se você pegar o time, for estudar Educação Física em Sorocaba (40 km de Porto Feliz) e for aprovado no vestibular em junho, ele paga a faculdade e transporte para você”. Falei: “não acredito”. “Verdade”, disse seo Zizinho. Eu respondi: “tá fechado, vou fazer o vestibular sim”. Ah, não deu outra. Prestei o vestibular sem estudar nada e fui aprovado na quinta colocação.

Eu simplesmente estava vivendo um sonho de voltar a fazer outra Faculdade e não pagar um centavo novamente. Rapidamente dei a notícia para minha família. Meus pais e amigos e todos me incentivaram na maratona que vinha pela frente. Trabalhar em Porto Feliz, morar em Amparo-SP e estudar em Sorocaba. Sempre visitava minha família depois de um jogo no final de semana. Mas quando era na segunda de tarde eu já viajava direto para Sorocaba e de lá depois da aula para Porto Feliz, onde na terça-feira pela manhã iniciávamos os treinamentos semanais. Esta vida foi durante os anos de 91/92/93/94. E a mesma situação acabou acontecendo, como foi em Amparo no ano de 1984. Ao final do ano de 1994, a equipe do Estrela EC se licenciou do Campeonato e não iria disputar a competição. Houve problemas com a empresa do Presidente, a indústria de Borracha Neobor, o que dificultava a manutenção da equipe. No início de 1995, eu não sabia o que fazer, pois restava apenas seis meses para minha formatura em Educação Física, me encontrava desempregado e sem a bolsa de estudo paga pelo presidente do clube. Meus familiares e amigos estavam dispostos a me ajudar a concluir meus estudos. Nesta época eu estava com 33 anos de idade. Chegou o dia da primeira aula, uma segunda-feira. Arrumei minhas roupas e disse a minha esposa que não queria perder o primeiro dia de aula. Ela perguntou: “mas onde você vai ficar?”. Eu disse: “sei lá, mas vou”.

Minha esposa sempre trabalhou a vida toda de empregada doméstica e me ajudava muito. Cheguei na aula, contei para uns amigos minha situação , mas eu tinha na minha cabeça que iria arrumar um emprego em Sorocaba até terminar a faculdade.  Estava terminando a aula e o desespero tomava conta de mim: “onde vou dormir?”. Foi aí que um amigo de classe, o Francisco Adamecz, que hoje é professor de natação na Faculdade, me disse: “Batata, vou ligar para minha mãe e você fica em casa até arrumar algum emprego”. Fui naquela noite para casa do Chiquinho com minhas roupas: “amanhã quando acordar vou ver se consigo alguma coisa no São Bento EC ou no Atlético Sorocaba ou uma academia de musculação; algo eu vou ter que arrumar”. Saí andando pela cidade de Sorocaba. Eu não queria incomodar a família do Chiquinho e também estava com pouco dinheiro. Estava almoçando em pé em um bar quando passou um jogador do Atlético Sorocaba, me viu ali e me perguntou: “o que está fazendo aqui professor?” Expliquei minha situação. Ele disse: “Hoje de tarde vamos treinar. Porque o senhor não vai lá no treino e conversa com o Valter Zaparrolli?”. Fiquei um pouco sem graça, porque ele já tinha preparador físico com ele. Mas fui chegando lá, conversei com Valter Zaparolli, o mesmo que havia sido meu treinador no União Agrícola Barbarense FC em 1986 quando casei. O supervisor do clube, senhor Nenê, também conversou comigo, e expliquei a situação que eu passava. Deixei meus telefones de contato com ele e fui direto para a aula de noite. Terminando a aula, fui novamente dormir na casa do Chiquinho. E assim passou a semana, nada deu certo. Sexta-feira já era início de Carnaval, fui para casa ver minha família em Amparo-SP e somente voltaria na quinta-feira para Sorocaba.

Mas na quarta-feira de cinzas, durante o dia, o senhor Nenê do Atlético Sorocaba me liga e disse: “conversando com o Valter Zaparolli decidimos por você vir trabalhar no clube, mas você será um ajudante geral no clube, no campo, na rouparia, com o massagista, o treinador de goleiro, com o preparador físico; enfim, vamos te dar moradia com alimentação e uma ajuda de custo que acredito ser o suficiente para terminar de pagar seus estudos e manter sua família em Amparo-SP”. Nossa, mais uma vez as coisas caíram do “Céu” para mim. “Quero você aqui amanhã no clube!”. Fiquei feliz, minha esposa também, pois tinha certeza agora que iria conseguir terminar minha outra Faculdade. Chegando lá, acertamos tudo e comecei a trabalhar no clube, mas disse ao senhor Nenê que caso surgisse, eu gostaria de algo na área de preparador físico. Não deu três meses, fui convidado pelo Edson Ruffino, ex-preparador físico do Amparo em 1982 e na época supervisor do departamento amador do Ituano FC, a trabalhar na equipe da cidade de Itu (38 km de Sorocaba). Fui contratado para ser o preparador físico do juniores e me deram alojamento com comida, salário e transporte pela Prefeitura de Itu para Sorocaba todo os dias. Fiquei três semanas no juniores e fui promovido para a equipe principal, onde fiquei até fevereiro de 1999. E aí começou a minha andança pelo interior e outros Estados do Brasil. Em julho de 1995 foi minha formatura em Sorocaba, para a alegria do senhor Garcia, da Dona Luzia e todos os meus familiares.


Você conseguiu integrar outras esferas do conhecimento com as quais tinha familiaridade, como a matemática? De que forma?

Eu usava a matemática nos meus trabalhos onde exigia uma maior concentração dos atletas durante a atividade física e criei algumas adaptações com exercícios físicos, usando o raciocínio lógico para os jogadores.


Ainda durante a década de 1980, você passou por diversos clubes como União Barbarense, Cruzeiro e Itapira. Como era a preparação física neste momento no futebol brasileiro?

Neste tempo não se tinha um controle fisiológico do atleta. Era na base do “todo mundo faz tudo igual”. Os preparadores físicos usam o “achometro”; quero dizer, fazendo este tipo de treino eles achavam que iria dar certo e muitos usavam aqueles métodos militares sem se preocupar com a individualidade biológica de cada um.


Nos anos 1990, seu trabalho no futebol manteve-se em movimento, percorrendo diversos clubes do interior de São Paulo, inclusive em outros estados. A que você atribui sua circulação nestes anos? A descontinuidade é uma característica da profissão no Brasil?

A falta de garantia de trabalho com a mudança de uma diretoria para outra dentro do clube, a troca de treinadores, as condições financeiras dos clubes, sendo que muitos não pagavam jogadores, comissão técnica e funcionários dos clubes.

Djair no Vila Nova FC com Scolari em 2004. Foto: Arquivo pessoal.

Dentre seus trabalhos mais longos, Ituano, Vila Nova, Barueri e Olímpia, qual você destacaria? Porque estas experiências foram mais duradouras?

Destaco o Ituano F.C. onde tinha um presidente, senhor Major Vieira, que gostava muito do meu trabalho, me incentivou tanto que no ano de 1996, logo depois que me formei, fui fazer Pós-Graduação em Fisiologia do Exercício na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, com aulas noturnas duas vezes na semana. Terminava o treino, viajava para Capital, depois da aula dormia na casa da minha mãe e no outro dia já estava logo cedo de volta aos meus treinamentos no Ituano F.C.; isto durante todo o ano de 1996. E tenho que citar também o Vila Nova F.C., um clube com o qual me identifiquei, com os jogadores, todos os 13 treinadores diferentes que passaram, a enorme e fiel torcida Esquadrão Vilanovense, que gritava meu nome quando a equipe entrava em campo. Até hoje mantenho contato com diretores, funcionários, torcedores e os vários amigos que fiz em Goiânia e em todo interior de Goiás, onde Vila Nova F.C. é muito querido.

Djair comemora o gol com os jogadores do Vila Nova no estádio Serra Dourada em Goiás (2005). Foto: Arquivo pessoal.

Fui dispensado por imposição de um treinador chamado Roberto Fernandes, que trouxe seu preparador físico e a diretoria desta vez aceitou. Sempre mudava o treinador e eu permaneci na equipe ao longo de quase 4 anos. Um fato aconteceu que logo passado 15 dias, o preparador físico que veio para meu lugar recebeu uma proposta do Brasiliense e deixou o treinador na mão. Às pressas me ligaram para voltar, mas não aceitei trabalhar com este treinador e fiquei por longos cinco meses desempregado. Até surgir o interesse do Barueri, que tinha na época o Vilson Tadei, que ouvia falar do meu trabalho e acabei sendo contratado. Em uma única temporada, tivemos dois acessos: para primeira divisão do Paulistão e para Série B do Brasileiro em 2006.

Com o Barueri conseguiu o acesso para a Série B em 2006. Foto: Arquivo pessoal.

Como foi o convite para trabalhar fora do país?

Foi até se dizer de uma maneira um pouco inusitada, pois me acharam em uma pesquisa no Google. O clube tinha acabado de subir da segunda divisão no primeiro semestre de 2008 e um antigo treinador do clube, de 2004, senhor Amal Dutta, dizia aos diretores que esta equipe quando atingisse a primeira divisão nacional teria que trazer um preparador físico do Brasil. Eu, desde os tempos de Barueri em 2006, resolvi criar uma página com meu curriculum em Inglês na Internet e vídeos no youtube e foi através delas que chegaram ao meu telefone de contato. Eu estava no Rio Claro F.C. e tinha acabado de disputar o Paulistão com o treinador Edu Marangon. Estava no apartamento onde morava com o treinador e às duas da madrugada toca meu celular. Uma pessoa falando em inglês dizia que gostaria de contratar meu trabalho para sua equipe na Índia. Eu, meio que dormindo, não acreditava e achava ser trote. Ele dizia “não, nós vimos seu CV, seus vídeos no youtube, discutimos entre os diretores e queremos te trazer”. Para minha sorte, eu também já sabia um pouco de inglês e entendia quase tudo o que ele dizia. Foi o senhor Rana Badio, que trabalha na empresa Chirag de Computadores, que patrocinava a equipe, quem me “achou”. No mesmo dia, um diretor, senhor Nabab, me ligou na hora do almoço fazendo uma proposta de trabalho. Depois de 3 semanas e muita conversas chegamos a um acordo e acabei por ir para Calcutá onde estou até hoje, no United Sports Club, pela quinta temporada seguida.


Como foi a chegada à Índia? Quais as diferenças entre a preparação física brasileira e indiana?

Tive uma recepção muito boa por parte dos dirigentes e da imprensa de Calcutá. O fato de ser do futebol brasileiro é sinal de respeito. As equipes não tem um preparador físico. Geralmente atribuem ao auxiliar técnico ou somente o treinador que é o “X-Tudo”, ele quer cuidar de tudo sozinho ao mesmo tempo. Neste, ponto ainda estão muito atrasados em relação a outros centros onde o futebol se vive intensamente. Acredito que nos últimos 4 anos, das 14 equipes da Liga Nacional, apenas 3 preparadores físicos estiveram por aqui. Mas eu fui o único que fiquei e estou na mesma equipe. Na última temporada recebi ofertas de várias outras equipes consideradas “grandes” (minha equipe é de porte médio em relação às outras).

Djair e o Rio Ganges. Foto: Arquivo pessoal.

Vaca passeia na praia de Goa, na Índia. Foto: Arquivo pessoal.

 
Curiosamente, hoje no United Sports Club, você tem seu trabalho mais longo. A quais motivos você justifica essa longevidade?

Acho que em qualquer trabalho emprego você vale aquilo que produz para o patrão. Tenho mostrado aos indianos a importância em se ter um profissional qualificado para esta função e os resultados apareceram rápido. Conquistamos a Durand Cup no ano de 2010 – 1 x 0 contra o JCT FC -, um dos torneios de futebol mais antigos do mundo (a primeira disputa foi em 1888). No ano passado perdemos nos pênaltis 4 x 5 para o Churchill Brothers de Goa. Também tenho feito um trabalho que pode ser dizer “social”, na recuperação de atletas contundidos, principalmente de lesão de Ligamento Cruzado Anterior. Somente nestes dois últimos anos foram mais de 35 jogadores aos quais prestei meus serviços. Fui chamado por um jornal local como o “Pai Teresa dos jogadores de futebol de Calcutta” ou “Father Teresa of Football Players”, uma alusão à Madre Teresa de Calcutá. Existem aqui excelentes ortopedistas, mas os clubes geralmente não tem um fisioterapeuta qualificado para fazer este tipo de recuperação de cirurgia com um atleta de futebol. Através da minha longa experiência no futebol brasileiro comecei a aplicar meu conhecimento e os resultados foram tão satisfatórios que os próprios médicos após a operação aconselham a me procurar. Tenho atendido também diversos jogadores de outras equipes adversárias. Já imaginou um jogador se contundir no Palmeiras e for fazer sua recuperação no Corinthians? Algo impossível, com certeza. Mas na Índia tudo é possível. Estou feliz no meu clube e com meu trabalho nestes anos.


Como o profissional brasileiro é visto na Índia?

Com muito respeito e carinho. Eles são apaixonados pelo futebol brasileiro e têm seus vários ídolos, jogadores de todas as gerações, eles conhecem bem. Na Copa do Mundo, a cidade e o país se divide em torcer para Brasil ou Argentina.

Jogo de gândulas com a camisa Brasil. Foto: Arquivo pessoal.


Existem muitos profissionais estrangeiros trabalhando com você? Como o futebol indiano se relaciona com o mercado do futebol? Existe um crescimento da modalidade no país?

Na minha equipe, esta temporada, contrataram um treinador de goleiros dos Estados Unidos e 2 jogadores da Nigéria, um da Costa Rica e outro da Nova Zelândia. Sim, existe um crescimento na modalidade, pois o esporte número 1 ainda continua sendo o Cricket! Mas agora novos patrocinadores e investidores estão vindo para o futebol e com isto trazendo jogadores de melhor qualidade para jogar a liga Nacional.


Observando as inúmeras diferenças com o Brasil, é possível falar que existe uma certa cultura futebolística quase universal em alguns aspectos, tanto dentro e fora de campo?

Isto sim. O futebol tem a mesma linguagem em qualquer lugar do mundo onde é jogado, traduzindo em emoções, rivalidades e fanatismo.


Como foram as suas relações com o(s) técnico(s)? Os técnicos se interessavam e opinavam na parte da preparação física?

Quando cheguei, acredito que o treinador Subrata Bhattacharya pensava, pelo fato de ser brasileiro, que depois de um certo tempo talvez eu viria a ocupar o lugar dele, já que os clubes não tem tradição em ter um preparador físico. Depois de passar uns dois meses ganhei a confiança dele. No passado, ele foi um zagueiro que jogou por muitos anos na seleção da Índia e no Mohum Bagan, uma das equipes de maior torcida da Índia. Trabalhei com ele durante três anos seguidos. Ele foi para outra equipe, mas vive falando para impressa e cobrando os ministrado o meu trabalho para servir a Seleção da India de Futebol.

Djair no Prayag. Fotos: Arquivo pessoal.

Djair no Prayag. Fotos: Arquivo pessoal.


Existe uma proposta interdisciplinar no futebol (ou no esporte em geral) indiano? Ou seja, de integrar as ações do técnico com a proposta da preparação física, do fisiologista, do departamento médico etc?

Nada existe, porque muitos treinadores não dão a devida importância à presença de um preparador físico na sua equipe de trabalho. Nem pensar sequer em um fisiologista, nutricionista, psicólogo etc. Geralmente, nos clubes, o fisioterapeuta é também o massagista dentro de campo.


Como é a estrutura da categoria de base do United Sports Club? No que mais se difere dos centros que trabalhou no Brasil?

Ainda não se dá uma atenção adequada às categorias de base, mas existe uma proposta de uma melhor organização. Acredito que futuramente a Índia vai ser um grande mercado de trabalho para profissionais de outros centros.

Djair aplica treinamento na Índia. Foto: Arquivo pessoal.

Quais são os seus planos para o futuro? Você pretende em algum momento tentar a carreira como técnico? Voltar ao Brasil ou buscar outro centro?

Desde quando me formei em Educação Física nunca pensei em ser treinador de futebol. Tenho como objetivo nesta temporada 2012/2013 conquistar com minha equipe o Campeonato Nacional da Índia – I League e ser lembrado para trabalhar na seleção nacional da Índia. Voltar ao Brasil somente para férias porque o futebol Brasileiro, pelo que vejo nos noticiários, atravessa um momento crítico e de insegurança para todos os profissionais, sejam eles técnicos, preparador físicos, dirigentes etc. Precisaremos rezar muito para a Copa de 2014 ser de todo sucesso para nossa conquista por que se não o futebol brasileiro vai passar por uma ‘turbulência muito grande’. Nas Olimpíadas já nos deu uma amostra do que poderá acontecer com o nosso futebol!