04.1

Domingos Antonio D`Angelo Junior

Equipe Ludopédio

Torcerdor fanático do São Paulo F.C., Domingos D’Angelo é antes de tudo um apaixonado pelo “jogo de bola”.  Membro-fundador do MEMOFUT, nosso entrevistado pode ser considerado o “José Mindlin do futebol”. Dono de uma biblioteca com mais de 1.800 livros sobre o principal esporte nacional, Domingos D’Angelo gentilmente abriu as portas de sua casa e de sua biblioteca para o site Ludopédio, concedendo um entrevista repleta de histórias, causos e muita sabedoria.

 

Domingos Antonio D`Angelo Junior é membro-fundador do MEMOFUT. Foto: Equipe Ludopédio.

 

Como surgiu a ideia de colecionar livros de futebol?

Não sei precisar quando começou, mas acho que deve ser por volta de 1962. Nesta época, li o livro “Drama e Glória dos Bicampeões”, do Armando Nogueira e Araújo Neto. Este foi o primeiro livro sobre futebol que li. O livro traz os bastidores da Copa do Mundo de 1962, relatos sobre quando o Paulo Machado de Carvalho, no dia do jogo contra o Chile, tirou a delegação do hotel, mandou comprar pão e salame, pois ficou com medo da comida do hotel. Ou sobre quando o Pelé se machucou e aí o Didi e Nilton Santos falaram: “pô, agora que o negão se machucou, o que vamos fazer?”. “Ah, o Garrincha tem que resolver”. No jogo contra a Inglaterra, o Nilton Santos falou: “Garrincha, você ouviu o que o inglês falou? Disse que você não é de nada. Disse que vai acabar com você no jogo”. Dizem que antes do jogo, o Garrincha chegou perto do Nilton e perguntou: “quem é que falou aquilo?”. O Nilton Santos apontou para o inglês que iria marcar o Garrincha. O Garrincha acabou com os ingleses. São coisas folclóricas, não dá para saber se é verdade ou se o Armando Nogueira inventou. O Araújo Neto foi um jornalista importante que morreu na Itália. Gostei muito deste livro. Não conhecia outros livros de futebol. Só fui ouvir falar de Mario Filho depois. Conhecia Thomas Mazzoni pelo jornal A Gazeta Esportiva. Tínhamos uma situação de classe média. Tinha uma banca aqui embaixo. Quando moleque, descia para pegar o ônibus para ir ao colégio, já pegava a Gazeta Esportiva e meu pai pagava semanalmente. Em 1962, li este livro e gostei. Comecei a comprar livros. Minha profissão me encaminhou a empresas como Kibon e Cosipa, então comecei a viajar, por exemplo, para o Rio de Janeiro. Visitava os sebos cariocas. Ia uma vez por mês para Belo Horizonte. Então, não sei quando surgiu. Mas quando eu estava na Kibon, a secretária fez na máquina elétrica a primeira relação dos meus livros. Num determinado momento, percebi que tinha uma boa biblioteca. Minha esposa e filhos também contribuem. Hoje é até perigoso comprar livro para mim, pois tenho muita coisa, tem o risco de repetição. Hoje em dia está uma moleza. Existe a Estante Virtual. É tranqüilo, você entra lá e acha tudo. Perde um pouco o sabor. O Jô Soares disse que você tem dois prazeres: comprar o livro e ler o livro. Na livraria, dá para olhar o livro, xeretar; com a internet, você encomenda e fica só com o prazer de ler. Tive um problema sério com este livro, o “Drama e Glória dos Bicampeões”. Eu emprestei para o meu irmão (já falecido, foi ele quem me fez são-paulino, junto com meu tio João, foram os dois responsáveis) e ele teve seis filhos. Já pensou como era para a minha cunhada administrar aquela casa? Emprestei o livro para ele e eu era solteiro na época, morava na Av. Brigadeiro. Passou uns seis meses, falei: “Luiz, cadê o livro? Qual livro? Pô te emprestei um livro”. Bom, ele perdeu o livro. Passei um tempão atrás deste livro. Vou até mostrar…este é outro problema aqui, achar estes livros…tem dia que demoro 2 horas para achar um livro…

Domingos Antonio D`Angelo Junior exibe autógrafo em um dos exemplares do acervo. Foto: Equipe Ludopédio.


Se quiser, posso ajudar e levar para casa alguns (risos)…

Não, é difícil, mas eu acho (risos). Tenho dois hoje. Aqui, achei. Este é o segundo que comprei. Escrevi: “16 de maio de 1986, Rio de Janeiro. Após anos, a recuperação num sebo”. Em 1986, recuperei o livro que tinha perdido. Então, o primeiro livro que comprei foi que sumiu. Para comprar um segundo livro, só se for uns R$10, mais do que isso não pago. Esse livro começou a história. Depois, lembro de ter lido outro muito interessante, “Psicologia do Futebol”, do Emilio Mira Y Lopes, um psicólogo chileno. Este também foi um livro interessante, pois podia aplicar ao trabalho, recursos humanos etc. A partir daí não parou mais. O curioso é que o número de livros sobre futebol aumentou. Vocês sabem que ontem, antes de vocês virem aqui, nós fizemos uma arrumação (risos). Em maio de 2002, oito anos atrás, dei uma entrevista por telefone para uma revista de Pernambuco. O repórter fala que nessa época, em 2002, eu tinha 700 livros. Hoje tenho 1840. Ou seja, mais que o dobro.

Domingos Antonio D`Angelo Junior mostra coleção. Foto: Equipe Ludopédio.

Qual foi o último livro que o senhor comprou? Ou foram vários últimos?

Eu tenho uma mania de escrever algumas informações na folha de rosto de todo livro. Não fazia isso nos primeiros. Eu escrevo: “Tal dia, com o autor, no lançamento, tal reunião, via internet etc.”. Não saberia dizer o último. Mas recebi um ontem, uma revista da coleção Grandes Torcidas do Brasil, sobre a torcida do Botafogo. Mas não era essa que eu queria, comprei errado. Eu tenho a coleção encadernada. A do Botafogo eu não tenho, apenas a xerox. Recebi também um livro, acho que feito pela CBF, que traz imagens sobre a Copa de 2006, só imagens. Um dos últimos é especial não sei se vão vender. Este aqui, patrocinado pelo Clube dos Treze, sobre o Maracanã, organizado pelo Eduardo Bueno, “Peninha”. Uma edição muito bonita, que traz a história do Maracanã. Este eu ganhei de um amigo, que foi ao lançamento e obteve os seguintes autógrafos: 1)”Para o D’Angelo, mais um livrinho para sua estante, com abraço do Roberto Assaf”; 2) “D’Angelo, um abraço e a gratidão do Ruy Castro”. Acho que não irão vender este livro sobre o Maracanã, seria muito caro.

Livro com dedicatória para Domingos Antonio D`Angelo Junior. Foto: Equipe Ludopédio.


Por que o senhor acha que aumentou tanto a produção nos últimos anos?

Acho que descobriram um nicho. Não é um mau negócio. Evidentemente, este ano, 2010, foi um ano atípico, pois teve Copa do Mundo. Outro dia fiz um levantamento: 133 livros em 2009, 114 em 2008 e 78 em 2007. Tem uma ascendência. Acho que está crescendo. Em 2010 já foram lançados 178 livros sobre futebol. Comprei, por enquanto, 74 livros. Não dá para comprar tudo. Haja dinheiro!


Como é a organização e posicionamento dos livros em sua biblioteca?

Tem uma estrutura. Aqui, nesta parte, é sobre clubes. Nesta outra, é história de campeonatos e enciclopédias. Aqui, é mais a parte de linguagem, dicionários, essas coisas. Naquela prateleira tem coisas sobre Seleção Brasileira e Copa do Mundo. Mas preciso fazer uma reclassificação. Tenho uma lista em Excel. Aprendi a mexer no computador com um professor, o Márcio. Foi ele quem disse para fazer uma lista dos livros no Excel. Ele criou essa planilha, com as colunas: título, autor, editora, ano, cidade, número de páginas, depois coloquei uma coluna com a data de quando comprei o livro e botei uma classificação: BNH (Biografias, Narrativa e História), mas tenho que separar isso; outra é CRF (Crônica, Romance e Ficção). Essa talvez possa manter, mas tem que ter, por exemplo, uma categoria: clubes. Outra só com biografias. História, Almanaques, ou seja, uma nova classificação. Vai dar muito trabalho, afinal, são mais de 1.800 livros. E também precisa fazer uma limpeza.


E os livros repetidos?

Não estão somados nestes 1.800, são mais 188 livros.


Mas o senhor não troca?

Trocar, até posso trocar. Mas não vendo. Mas se você vier com alguma coisa que eu não tenha, podemos trocar. O Celso Unzelte, inclusive, quer montar um escambo no Memofut (risos). Mas teria que ter algumas regras: por exemplo, você não poderia vender, só pode trocar. Na minha lista de livros, tenho uma coluna que indica o número de exemplares, então faço um controle. Tenho uns 18 livros que são xerox, não tenho os originais. São estes aqui, por exemplo, “O Brasil na Taça do Mundo”, até escrevi: “xerox da Escola de Educação Física da USP, quebra galho, mas caro”. Inclusive está encadernado. Este, aqui sobre a Copa Rio Branco, foi o Ruy Castro que me passou. Tem até a dedicatória: “xerox do original cedido por Ruy Castro”.

A história do futebol é encontrada no MEMOFUT. Foto: Equipo Ludopédio.


E qual é o mais raro da sua coleção?

O mais antigo, é aquele “Dicionário do Futebol”, do Guy Gay, publicado pela Civilização Brasileira. Comprei em julho de 1985, mas não se sabe de quando é este livro. Fala-se que é de 1933. Recentemente fiz uma compra que doeu. Demorei uns quatro meses para comprar. Mandei um email falando: “por tanto, eu compro este livro”. Mas ele queria mais. Passava uns dois meses e eu mandava outro email. Mas fiquei pensando: “alguém vai comprar este livro e eu vou ficar sem…”. No final, paguei.

Acervo conta com dicionário do futebol. Foto: Equipe Ludopédio.


Além de livros, o senhor coleciona outras coisas sobre futebol?

Não, não tenho mania de colecionar camisas ou flâmulas. Tenho alguns vídeos de futebol. Já contei para vocês uma história com o Prof. João Batista Freire? Ele foi orientador da tese de mestrado do meu filho Fábio na Unicamp. E ficaram amigos. Quando o Fábio estava fazendo o mestrado, ele comentou com o João Batista que eu tinha livros, acho que uns 800 naquela época. O João disse para ele: “Você fala para teu pai que ele devia deixar esta biblioteca aberta, para as pessoas poderem ler, e não ficar guardando”. O Fábio me passou o recado. Pensei: “Ele tem razão, mas como vou fazer isso? Não posso colocar alguém para tomar conta, não tem como. Vou doar? Não sei se é a melhor forma”. Fiquei uns 10 dias pensando nisso. Depois encontrei com o Fábio e disse: “Você fala para o Prof. João Batista que eu sou egoísta mesmo, não vou dar para ninguém, vou morrer com eles e quando eu morrer vocês fazem o que quiserem” (risos). Faz quarenta anos que estou cuidando disto e agora querem que eu dê os livros? (risos). Não tenho certeza que o Fábio falou para ele. Até então eu não conhecia o João Batista. Depois, teve um evento na Universidade São Judas Tadeu, na Mooca, onde foram o Felipão, o João Paulo Medina e o Freire. Acho que foi a psicóloga Regina Brandão que organizou. Fiz a inscrição e fui lá. Estava lotado. Fui falar com ele que me apresentou para o Prof. Medina: “Este cara tem a maior biblioteca de futebol”. Depois, o Medina criou o Cidade do Futebol e eu ajudei a fazer a biblioteca do site. Era para fazer resenha também, mas ficou só na vontade. Só faço resenha quando gosto do livro. Se não gosto, não faço.


Destes 1.800 livros, qual é o seu preferido, o que mais gosta?

O “Drama e Glória dos Bicampeões”. O livro do André Ribeiro sobre a imprensa esportiva. “Os Donos do Espetáculo” é muito bom. Os livros sobre Leônidas, sobre o Telê Santana, sobre o Garrincha. Inclusive, meu nome está no livro do Ruy Castro, porque emprestei para ele um livro sobre o Garrincha. Ele falou: “pode ficar tranqüilo, o livro será devolvido”. Passou um mês, dois meses, três meses, e nada do livro voltar. Depois de quatro meses, liguei para ele. Conversamos um pouco e aí perguntei do livro. Ele disse: “Não recebeu o livro? Mas pedi para a minha filha entregar para você, como é que ela não entregou? Ela está estudando na USP. Amanhã, 8 horas, esse livro estará na sua casa”. Nossa, às 9hs. da manhã, na Av. Paulista, onde eu trabalhava, chegou a filha dele (risos). Se eu não ligo, ficaria sem o livro, pois ela poderia acabar perdendo (risos). Por isso, ele colocou os agradecimentos no livro. E é um livro sensacional. Por isso que eu gosto. Ele foi pesquisar a tribo de índios em Alagoas, de onde veio o pai do Garrincha. Então, é difícil dizer qual gosto mais. Eu gosto deste tipo de livros: biografia do Garrincha, do Leônidas, história da imprensa esportiva etc. São livros escritos com base em excelentes pesquisas. E hoje mudou um pouco, a partir deste ano. Antes, eu comprava tudo o que tinha de futebol. Agora não dá mais para comprar tudo, estou fazendo uma seleção do que comprar.

Livro sobre Mané Garrincha. Foto: Equipe Ludopédio.


E a busca nos sebos? Continua indo pessoalmente ou agora faz tudo pelo site Estante Virtual?

Hoje, por exemplo, fui num sebo. A Estante Virtual fez uma mudança. Antigamente, dava para ver o endereço da livraria ou sebo que estava vendendo o livro. Se era em São Paulo, tentava ir lá. Quando é fora, aí é só por correio. Então, continuo procurando.


Qual é a melhor livraria para buscar e comprar livros de futebol?

Para futebol, é a Livraria Pontes, de Campinas. O dono e o gerente participaram do Memofut nos primeiros anos. Acho que eles devem ter dificuldades para enfrentar a concorrência das livrarias grandes. Por exemplo: na Livraria Cultura tem desconto e dá para pagar em três vezes. Teve uma vez numa livraria destas grandes, pedi um livro sobre futebol recém lançado, a atendente disse: “está esgotado”. Eu falei que não estava, era recém lançado. O Gerente dessa livraria inclusive passou a me avisar quando chegava um livro sobre futebol. Não entendo as livrarias. Por exemplo: um livro está em oferta. No dia de autógrafos, eles tiram o desconto. Nesse dia, quando tem mais gente interessada, deveria ter mais desconto. Fiquei bravo uma vez, no lançamento de um livro do Marcelo Barreto. Reclamei com este gerente e ele me levou ao caixa e cobrou o preço com desconto. Recomendo também o site Livros de Futebol.

Domingos Antonio D`Angelo Junior conta as histórias dos livros de sua coleção. Foto: Equipe Ludopédio.


E como o senhor se mantém informado sobre estes lançamentos?

É uma “catação”. Vejo o site Ludopédio. O livro do Prof. Feijó, sobre a linguagem no futebol, encontrei lá. Inclusive fiquei amigo dele. Demorei em achar o livro do homem. Depois, descobri que ele tem um site. Um dia, tocou o telefone aqui em casa: “Domingos, professor Feijó. Passa seu endereço vou mandar o livro para você; E depois você deposita. Mas vou mandar outro como presente”. No Sabatico, do Estadão, ainda não saiu nada sobre futebol. Vou mandar um email reclamando. O Globo, no sábado, tem um caderno. A Folha de SP tem a Ilustríssima. Vou procurando em sites, busco notícias. Hoje, com a internet, ficou mais fácil. Há uns sete anos era muito mais difícil. Ficava caçando. Lendo suplemento literário da Folha de S. Paulo, do Estadão, do Globo, para achar algo sobre lançamentos de livros.


Como o senhor analisa a produção acadêmica?

Acompanho. Tenho o livro do Hilário, do Wisnik, do Bernardo Buarque etc. Aumentou a produção acadêmica, mas ainda tem pouca coisa. Existe um preconceito. Diminuiu, mas existe. Negar que o preconceito existe é sem dúvida uma tentativa de escondê-lo ou um desconhecimento do assunto. Sem dúvida ele (o preconceito) diminuiu muito, mas ainda hoje temos depoimentos de professores, com grau de Doutores, que recebem uma desaprovação de seus pares do meio acadêmico, por escrever sobre futebol. Ainda que essas desaprovações se façam de modo “escondido”, como é próprio daquele que tem um preconceito, não demonstrar. No passado (10 anos) entrar em uma livraria e pedir um livro que tratasse do futebol se recebia um olhar, que o fazia parecer alguém que acabara de sair de uma caverna, de chuteira e todo sujo de lama… Sem dúvida o preconceito diminuiu e bastante, as grandes livrarias atualmente possuem prateleiras com livros sobre futebol. Nos sebos, entretanto, principalmente aqueles dedicados a livros de maior valor cultural o preconceito ainda existe.

Acho que o meio acadêmico produziu bastante coisa nos últimos tempos, foram feitas muitas teses. Tem até o cd do pessoal do GEFUT, da UFMG. Estou atrás de uma tese da Faculdade Santa Cecília. Eles não devem ter teses digitalizadas. Um jornalista escreveu uma tese sobre De Vaney, um jornalista antigo que tem uma grande contribuição para a história do futebol. Foi ele quem inventou a história sobre os 1.329 gols do Pelé. A tese é sobre a vida do Adriano Neiva, o De Vaney. Foi ele quem escreveu o livro “A Verdade sobre Pelé: as fantasias, os exageros, o mito e a história de um desertor”, de 1975. Escreveu depois que ele brigou com o Pelé. Em Santos, tem o Centro de Memória Esportiva De Vaney, organizado pela prefeitura da cidade.

Livro dedicado ao Rei do Futebol. Foto: Divulgação.

Na verdade, o que eu gostaria de abordar é o preconceito recíproco entre aqueles que gostam e tratam do tema futebol. Divido o grupo em duas correntes. A primeira do meio acadêmico, que entende que o pessoal que vive o dia do futebol, jornalistas, pesquisadores, etc. não fazem história com a publicação de livros com sumulas e resultados de jogos. Que saber a escalação dos clubes não é contar a história deles. Que resgatar a história é muito mais que isto, compreende levantar atas de fundação dos clubes, publicações na imprensa, resgatar a história oral daqueles que viveram a época etc. A segunda corrente, do pessoal que vive o futebol no dia-a-dia, jornalistas, pesquisadores tem um preconceito com o pessoal do meio acadêmico, por estes não saberem “escalações”, resultados de jogos, e que tais.

Gostaria muito que estas duas correntes se encontrassem e debatessem o assunto, pois entendo que as duas correntes têm um grande valor para resgate da memória e história do futebol e que estes preconceitos recíprocos só ajudam o preconceito daqueles que não gostam do tema futebol.


O senhor leu todos os livros?

Não. Depois da Bienal anterior, não esta última, já entrei em déficit. Tenho estes livros separados nestas estantes aqui. Quero retomar neste ano, ler um pouco mais. Fazia resenhas para o site Futiba. A coluna chamava “Batendo de Letra”. Pediram para eu fazer resenhas. O site Futiba era uma maravilha. O dono do site, Gilberto Gil Camargo, escreve muito bem. Ele tem um livro sobre o Corinthians que ainda não foi publicado. Esse cara é um gênio. Corintiano fanático. O site tinha várias colunas, não só a “Batendo de Letra”. Fiquei um ano fazendo resenhas mensais para o site. Com o encerramento do site, eu parei. Acho que até hoje, se você entrar na internet com a palavra Futiba dá para achar. Aliás, na seção Biblioteca do site Ludopédio, quando eu entro lá tem sempre o último livro?

É dono de uma biblioteca com mais de 1.800 livros sobre o principal esporte nacional. Foto: Equipe Ludopédio.


Sim, sempre o último que inserimos.

Ah, ainda bem que não é ordem alfabética. Se não, ficaria louco. Porque se eu esquecer de entrar uma semana, posso ver quais foram os últimos adicionados. Alguns sites a ordem alfabética, o que dificulta a busca.


Neste balanço da produção literária sobre futebol, o que precisaria ser mais trabalhado?

Sem dúvida, a parte de Sociologia, de Psicologia do Futebol. Hoje, é possível encontrar muitas coisas de clubes, biografias, almanaques, enciclopédia. Ficção, por exemplo, tem muito pouco. Romance, quase nada. O último que lembro é o livro “Segunda Divisão”, da Clara Arreguy, que traz uma história de um jogador de um clube próximo de ganhar o campeonato da segunda divisão e ter o acesso. O livro narra a situação dele concentrado, idas às boates, bebidas etc. Uma ficção bem montada.

Reprodução de capa de livro.


Como surgiu o grupo MEMOFUT?

A ideia de criar o grupo surgiu para fazer um intercâmbio de informações e debate sobre literatura no futebol. Isso é o que estava na minha cabeça. Um dia, falei com o Zé Reinaldo, da Livraria Pontes, e ele achou a ideia boa. Perguntei a ele se poderia me passar o cadastro dos clientes dele, mas ele disse: “Isso não posso fazer, pois é um interesse comercial meu e pode ser que meus clientes não gostem”. Então, decidi fazer um email assim: “Estou estudando a criação de um grupo, vou promover um encontro, etc. Se tiver interesse, entre em contato com Domingos D’Angelo, etc.”. O Zé Reinaldo mandou este email para os clientes deles. Um pouco antes disso, teve uma Bienal do Livro aqui em São Paulo e lá encontrei o Alexandre Andolpho. Quando contei, ele disse: “tô nessa”. Em março de 2007, aluguei uma sala de hotel no Paraíso, e lá estiveram 16 interessados. Não lembro exatamente quem, acho que o Luis Paulo Bresciani, comentou que gostaria que o grupo, além de literatura, estudasse a história do futebol, fazendo um resgate da memória do futebol. Foi uma coisa legal, o grupo topou. Ficou, portanto, assim: Literatura e Memória do Futebol. A primeira reunião no hotel teve a despesa, rateada entre os presentes. Só que o sistema do hotel era um pouco desorganizado, embora o salão fosse bom. Mas no dia da reunião não ligaram o ar condicionado. Estava um calor insuportável. Depois, ligaram o ar, mas demorou muito para ele fazer efeito. O Alexandre Magalhães ficou bravo e falou assim: “Se for fazer reunião aqui, eu não apareço mais. Eu ofereço um espaço no prédio do Ibope” (risos). E para o Prédio do Ibope fomos, onde o grupo fez suas reuniões até abril de 2009. Na segunda reunião outros interessados que não puderam ir à primeira, passaram a fazer parte do grupo, alguns participantes do GIEF.

Logo do Memofut. Foto: Divulgação.

Quais temas são debatidos nas reuniões?

O Grupo tem como objetivo promover a literatura, a cultura e a memória do futebol. Tem promovidos “Bate-Papos-Bolas” com jornalistas, escritores, pesquisadores, ex-profissionais do futebol, participantes ou não do grupo, sempre procurando seu objetivo.

Além desses Bate-Papos, tem uma atividade chamada “Pílulas do Memofut” (sugestão do Max Geringher) em que os participantes que tiverem informações históricas que não comportam um tempo maior, podem apresentá-las em 15 minutos.

Toda reunião se inicia com uma Memorabília Futebolística (sugestão do Celso Unzelte) em que os participantes podem trazer um livro, artigo ou objeto antigo ligado ao futebol.
Em 2010 o grupo promoveu em conjunto com o Museu do Futebol uma série de palestras sobre as 18 Copas do Mundo, abertas ao publico, que obteve uma presença significativa de pessoas interessadas.

Avalio, entretanto que o grupo precisaria dar “um salto de qualidade”, talvez com a discussão e publicação de conclusões sobre temas polêmicos, anteriormente aprovados pelo grupo: 1) Quem ganhou o Brasileiro de 1987: Flamengo ou Sport? 2) Copa Rio de 1951 ganha pelo Palmeiras vale como Mundial? 3) Quando o São Paulo foi fundado: 1930 ou 1935? 4) É possível estabelecer rankings sem injustiças? Qual o melhor: Folha ou Placar? 5) Robertão tem o mesmo status de Campeonato Brasileiro? 6) Quantos gols marcou Friedenreich: 556, 1239 ou 1329?”.

Domingos Antonio D`Angelo Junior durante entrevista ao Ludopédio. Foto: Equipe Ludopédio.


Como a literatura e a memória aparecem no grupo?

Acho que literatura aparece muito mais, pela divulgação dos livros. Alguns autores já fizeram Bate-Papos-Bola, em que narram como escreveram e particularidades do livro. A história aparece de informalmente nos mesmos Bate-Papos, por isso avalio que o grupo deveria fazer uma reflexão, o que pode resultar inclusive na continuação dessa forma de atuar, se assim entenderem seus participantes.