06.2

Édison Gastaldo (parte 2)

Equipe Ludopédio

A entrevista desse mês é com o antropólogo Édison Gastaldo, mestre em Antropologia Social pela UFRGS, doutor em Multimeios pelo Instituto de Artes da Unicamp, pós-doutor em Sociologia pela University of Manchester e em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ. Professor do Departamento de Letras ae Ciências Sociais da UFRRJ e torcedor do Internacional de Porto Alegre, Gastaldo tem trabalhado na interface entre Antropologia e Comunicação, em diversas temáticas: futebol, publicidade, Copa do Mundo, identidade nacional, ritualização e formas de sociabilidade. Confira abaixo a primeira parte da entrevista com o autor do livro Pátria, Chuteiras e Propaganda (Ed. Unisinos, 2002).

Édison Gastaldo é autor do livro “Pátria, Chuteiras e Propaganda “(Ed. Unisinos, 2002). Foto: Arquivo pessoal.

 Segunda parte

Como surgiu sua ideia de desenvolver um projeto com o objetivo de filmar as ruas em dias de jogos da Copa do Mundo?

A ideia de produzir vídeo como resultado de pesquisa em Antropologia veio da minha formação em publicidade. Na faculdade, fiz muitos roteiros de vídeos publicitários, sempre gostei de fazer isso. No Doutorado em Multimeios, cursei várias disciplinas de roteiro e produção de vídeo. Era basicamente um curso de cinema. Foi um curso que me agradou muito por ensinar e discutir essa parte de cinema e produção audiovisual, e ao mesmo tempo me deixar livre para fazer minha pesquisa em Antropologia da Comunicação. É muito bom fazer vídeos durante a Copa do Mundo, pois é um evento muito visual, as pessoas se vestem com as cores nacionais, enfeitam suas casas, etc. Existem muitos signos externos de alinhamento com o sentimento da Copa. Comecei, primeiro, fazendo fotos. Saía para a rua e fotografava a cidade, os vendedores de cornetas e chapéus, os outdoors, enfim, a cena visual de cidades brasileiras durante a Copa. No supermercado, você vê que a pipoca vira ‘A Pipoca da Copa’; bandejas de ovos viram ‘Os Ovos da Copa’. Você vê mascotes vestidos com a camisa da Seleção Brasileira. Tem essa onipresença dos signos da Copa do Mundo. São coisas muito visuais, facilmente perceptíveis. A ideia de fazer um vídeo vem disso: aproveitar esse momento em que a ligação entre futebol e nacionalidade fica tão evidente para falar sobre o tema. Eu chamei este primeiro vídeo, Ritos da Nação, de “videopaper”. Ele é resultado de pesquisa, como um artigo, mas apresentado em vídeo, com trilha sonora original. Antropólogos geralmente gostam de vídeos com planos longos e abertos, edição sem corte, som direto. No meu filme não tinha como fazer isso, pois é impossível aproveitar o som direto obtido com microfone aberto no meio de 10.000 pessoas. O som da situação de campo é basicamente ruído e, na hora do gol, os gritos das pessoas, foguetes e cornetas – mais ruído. Por causa disso, optamos fazer tudo com narração off e trilha sonora original. Um colega do doutorado e grande amigo, Marquinhos Scarassati, que é compositor, fez toda a trilha do filme, sonorizou e editou o som. A narração off foi gravada pela Adriana Braga, que, além de locutora profissional, captou várias imagens e participou em todas as etapas da produção. Juntamos imagens enviadas por colegas produtores de vídeo que foram a campo em várias cidades do Brasil. Editamos no estúdio de TV da UCS, em Caxias do Sul, com meu amigo e professor de telejornalismo Álvaro Benevenutto. Achei que ficou bom, tenho orgulho do resultado.


Como é acompanhar o jogo do Brasil a partir desses olhares, sem a imagem do jogo em si?

O segredo é não olhar o jogo, mas as pessoas vendo o jogo. É muito mais interessante. Tem que ter uma câmera, um tripé e conseguir um lugar confortável para filmar, ou seja, que as pessoas aceitem que você fique ali filmando. Vários nos interpelaram, pois as pessoas não gostam de ser filmadas. Aí se explica: “é um vídeo para a universidade, sou professor, estamos fazendo um documentário”. Com essas palavras-chave – documentário, professor e universidade – as pessoas se acalmam. Quem estava perto tentava escutar a explicação quando alguém perguntava sobre nossa presença ali. Eu falava bem alto para todo mundo ouvir. Assim as pessoas ficam tranquilas com a sua presença. Dá pra ter tranquilidade para movimentar a câmera, escolher ângulos, e tem tempo para isso, pois uma partida dura praticamente duas horas. Sem contar que é impressionante ver uma jogada de gol pelos olhos das pessoas. As pessoas vão se levantando todas juntas, é lindo de ver. Todos levantam os braços ao mesmo tempo. É bonito ver o sentimento, o sofrimento, a alegria, raiva, emoção à flor da pele, as pessoas se entregam ao jogo de bola. Sem contar que o consumo de álcool potencializa esta emoção, se bebe muito antes, durante e depois do jogo. É um potlatch, um fato social total.

Édison Gastaldo no Instituto Moreira Salles. Foto: Sérgio Settani Giglio.


A Copa do Mundo hoje continua ter a mesma importância de períodos anteriores? A identificação com a Seleção Brasileira e com a própria Copa do Mundo diminuiu? Se sim, quais seriam as razões?

Ela muda. Não sei dizer se diminuiu ou aumentou. Mas ela está diferente. O Ronaldo Helal escreveu, acho quem 2002, um artigo, “O declínio da pátria de chuteiras”, argumentando que o vínculo forte entre futebol e pátria estaria enfraquecendo. Tendo a concordar com ele, em parte. Acho que essa patriotada acabou em 1994, na verdade, por pura sorte. Foi quando o Taffarel pegou dois pênaltis, Baggio errou o pênalti dele e os brasileiros fizeram seus gols. Nem lembro quem foi. Essa seleção ficou tão marcada pelo 0x0 que nem sabemos de quem foi o gol da vitória. Foi o erro do Baggio que deu o título, foi um não-gol que deu ao Brasil o tetracampeonato e a supremacia mundial. Quando nos comparamos com a Argentina, por exemplo, nós sempre apontamos: “nós temos cinco títulos mundiais, mais do que qualquer um”. Foi essa garantia do tetracampeonato que deu estabilidade ao nosso lugar simbólico de “país do futebol”. Se o Baggio tivesse feito o gol, ou o Taffarel não tivesse pegado os pênaltis, e a Itália fosse tetracampeã em 1994, nossa moral iria ficar muito baixa, ainda mais depois de 24 anos sem chegar a uma final, e novamente contra a Itália. A Copa de 1970 foi uma decisão sobre quem era melhor, pois Brasil e Itália eram bicampeões. Quem vencesse levaria a Jules Rimet para sempre. Nós levamos (e depois deixamos que roubassem e derretessem). A Copa de 1994 valia para desempatar de novo, resolvendo a questão: “quem é o verdadeiro país do futebol?”. E isso acaba sendo a prova dos nove de que nós somos “realmente” o país do futebol: nós temos mais títulos que os outros. Mas naquele momento não tínhamos, e foi uma decisão por pênaltis, qualquer um poderia ter ganhado. Então quem seria o país do futebol? Não sei, porque não aconteceu. E, em seguida, oito anos depois, nós ganhamos novamente. Abrimos duas Copas de vantagem. Como a Itália ganhou em 2006, aproximou-se, está no nosso encalço. Para a FIFA foi muito bom, pois se o Brasil fosse hexacampeão, com o dobro de títulos de seus concorrentes mais próximos, o torneio iria perder muito de seu interesse. Como um campeonato por pontos corridos que ao final do primeiro turno já tivesse um campeão. Não tem graça jogar quando um time é campeão com 17 rodadas de antecipação. O interessante é acompanhar até o fim e saber o vencedor só no último jogo. Então, se o Brasil abrisse muita distância, simbolicamente esvaziaria a vontade da Alemanha, Itália etc., pois não teriam como superar o Brasil. Já está difícil superar. Eu diria que se o Brasil alcançar o hexa na Copa de 2014, nenhuma seleção nos alcança neste século. O Brasil vai disputar todas as Copas e vai ganhar várias outras. Nas últimas décadas, o Brasil está sempre entre os quatro finalistas. Enquanto que um país tradicional do futebol, como o México, nunca chegou ao quinto jogo em Copa do Mundo. Sempre passa para as oitavas de final e perde. O Brasil cair nas quartas de final ou semifinal é uma vergonha, é um drama. Então, não dá para dizer que essa relação é fraca, quando a cada Copa do Mundo sabemos que, contra qualquer outra seleção, o Brasil pode ser campeão. Esse é o problema do técnico da seleção brasileira. O Brasil tem jogadores talentosos para montar dez seleções competitivas. Seja com ou sem Neymar e Ganso, com ou sem Ronaldinho, Dedé, Damião… Se pararmos para pensar nos jogadores que poderiam estar no time, percebemos que dá para montar umas dez seleções diferentes com chances reais de ganhar a Copa do Mundo. Não é uma tarefa fácil escolher uma. Agora, o mercado publicitário, incluindo o mercado de imprensa – o jornal é um produto e esse produto precisa ser vendido, para ser vendido precisa fomentar a audiência, e é do máximo interesse da empresa jornalística fazer com que a Copa tenha a maior audiência possível –, vai investir pesado nesse sentimento de identidade nacional, no agendamento destes temas, vai fazer de tudo para que o caderno especial da Copa tenha audiência, até dar brindes e sortear prêmios. Por que tanta promoção? Porque reverte em audiência e audiência significa lucro para as emissoras, pois elas vendem o espaço comercial com um ágio relativo a quanta audiência aquele produto tem. Se a mídia tem alguma influência nisso, e eu acredito que tenha, ela vai usar 100% dessa influência para promover a Copa. Acho que é um evento cujo vínculo entre futebol e identidade nacional tem um combustível chamado dinheiro, verba de publicidade, veiculação midiática massiva. É um vínculo que está sendo potencializado pelo uso do capital. É um incêndio com gasolina própria. Não acho que esteja simplesmente apagando, está é mudando. Concordo com o Ronaldo Helal que as pessoas não dão mais tanta importância, mesmo. Nossa honra nacional não está mais em jogo. Nós já temos a garantia de que somos o país com mais Copas. Isso nos deixa tranquilos, não precisamos sofrer tanto pela Seleção, pois há pouco risco. No dia seguinte, a derrota de 3 x 0 para a França em 1998, um anúncio publicitário dizia assim: ‘tudo bem, ninguém ainda é tetra’. O anúncio era todo preto, com as letras brancas. Isso diz tudo: levamos uma das maiores goleadas da história das Copas, não fomos pentacampeões, mas outros também não. Esse é o consolo. O fato do Brasil ser o único pentacampeão tira essa energia vital, pois não corremos perigo. Se a Itália ganhar a Copa no Brasil, o que acho pouco provável, a Itália será penta, vai apenas empatar com o Brasil. Mesmo que tenha companhia, o Brasil continuará sendo o time com maior número de títulos. Chegamos lá primeiro, temos mais tradição. Não dá é para reduzir isso a: ‘ninguém está mais nem aí para a nação’. Porque as pessoas estão ligadas, sim. Vendem-se toneladas de bandeiras e tecidos verde-amarelos. É o único mês em que junho vende tanta cerveja quanto fevereiro; quando tem Copa do Mundo, o volume de venda de cerveja equivale ao de fevereiro, quando tem carnaval. Isso dá uma ideia do que representa isso, não só para a mídia, mas para todo o mercado de consumo nacional. Criam-se muitos empregos em fábricas de fitinhas e vuvuzelas para atender a demanda. É um fato social total, não dá para ser reduzido somente a uma coisa que as pessoas pensam ou sentem. Tem muito dinheiro, muito material, muitos negócios envolvidos.


Poderíamos dizer que embora os grandes jogadores do futebol mundial tenham salários astronômicos, que mesmo assim ganham muito menos do que deveriam ganhar ou do que geram para os seus patrocinadores?

Acho que normalmente os jogadores ganham pouco. Falando aqui do reserva do Bangu, Macaense e Friburguense como jogador profissional também. Tem gente lá jogando e recebendo salário para jogar. E normalmente ganhando pouco. Como falei, é uma carreira muito arriscada, a demanda por êxito é implacável. Não tem técnico que suporte uma sequência grande de derrotas. Nenhum fica. Eles têm que ganhar. E não dá para todos ganharem. Alguém vai ter que perder. É muita pressão, muito stress. Imagina um trabalho numa universidade em que você tenha que vencer todos editais que participa? Quem consegue trabalhar desse jeito? E por quanto tempo? É muita pressão.

Édison Gastaldo no Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro. Foto: Sérgio Settani Giglio.


Mas se olharmos para uma pequena parcela que ganha muito, como Ronaldo e Neymar, embora o valor em cima seja absurdo, podemos dizer que a quantia é pequena em relação ao que eles geram de dinheiro?

Tenho certeza que ele rende mais do gastam com ele, vendendo camiseta, chaveirinho etc. São 10 milhões de camisetas. A audiência midiática de um jogo em que está o Neymar cai pela metade se ele não estiver. Todo mundo tem interesse naquilo. Nesse caso do jogador de futebol, gosto de comparar com o fato de que ninguém fica irado que o Mick Jagger, David Bowie, Enrico Caruso ou Lawrence Olivier ganhem muito dinheiro. Ninguém fica bravo por isso. Então, vejo um certo elitismo nessa raiva do jogador de futebol ganhar muito dinheiro. Vejo um fundo elitista dizendo: “ele não teve educação, não estudou nas melhores escolas, não podia estar ganhando tanto dinheiro, está errado”. Mais ou menos a mesma coisa que dizem do Lula. “Não era para o Lula ser presidente, ele nunca estudou”. Vão acusá-lo de não ter nascido rico. Essa é a grande acusação. Eu vejo um tanto de elitismo nessa raiva que condena moralmente o dinheiro ganho pelos jogadores. É um mercado capitalista, ninguém joga dinheiro fora. Se estão pagando esse dinheiro para o jogador, é porque ele vale. Se ele parar de valer, quando virar o ano, não vão renovar o contrato dele. Simples assim. O Ronaldo Nazário estava ganhando muito dinheiro com contratos publicitários, tinha suas próprias marcas de roupa, etc. Aí entrou no escândalo dos travestis. Instantaneamente, cortaram todos os contratos de publicidade dele. Por quê? Por que não queriam aquela imagem para eles, queriam a imagem de um vencedor. Eles queriam o cara que fazia gols. Quem é que está fazendo gols agora? É um mercado, funciona assim. Ninguém se preocupa com o salário do Antonio Fagundes ou de qualquer estrela da música ou do cinema. Todos acham normal que a Angelina Jolie ou a Julia Roberts ganhem muitos milhões de dólares para fazer um filme. Quantas partidas um jogador pode jogar? Os jogadores jogam muitas partidas e campeonatos. Muito mais partidas do que atores fazem filmes. Se for pensar o jogador como um artista, e não como atleta, a coisa muda de figura. As regras do meio futebolístico são muito parecidas com as do meio artístico: contratos, empresários. O atleta se arrisca muito mais do que os astros do cinema e da música. Arrisca suas pernas, seus joelhos, sua carreira, e sem muitas alternativas. Se ele não for jogador, o que ele vai ser?

Você falou que os jogadores são mercadoria, então precisa ter um mercado. Nessa relação, sempre aparece a questão do inato. Questão que aparece acoplada ao valor dele. Pelo menos no caso brasileiro.

É grife. Vinho francês, uísque escocês, jogador brasileiro. É um estereótipo. Vou repetir o chamado aforismo de Thomas: “se as pessoas definem uma situação como sendo real, ela será real nas suas conseqüências”. Definir a situação é acreditar que uma coisa é de determinada maneira e agir de acordo com essa crença. Se as pessoas acreditam que nossos jogadores são criativos e talentosos, mas um pouco individualistas, você vai abrir um amplo mercado para atacantes brasileiros e um mau mercado para zagueiros brasileiros. Se considerarmos que o zagueiro é um função na qual o jogador tem que ter calma, que não pode ser muito criativo, que tem que ser responsável, e o que se espera do jogador brasileiro, nesse estereótipo, é molecagem, irresponsabilidade, leveza, brincadeira, toque de bola, qualidade de passe de um atacante, um meia-atacante. Se você chega e fala: ‘tenho um goleiro brasileiro’. O cara vai pensar: ‘será’? Se for um goleiro alemão, vai ser diferente, o cara vai pensar na grande estirpe e tradição dos goleiros alemães sérios e comprometidos. É uma representação estereotipada. Agora, temos o Dedé, um zagueiro brasileiro que joga muito, com responsabilidade e criatividade. O volante argentino tem essa fama de ter raça, um xerifão. Aí o Inter contrata o Guiñazu e todos dizem: “é verdade, é verdade”. Todos olham para o Neymar e dizem “esse é o verdadeiro jogador brasileiro”. Entretanto, temos o Edinho, por exemplo, que jogou no Inter e agora está no Fluminense – graças a Deus ele saiu do Inter [risos] – que também é jogador brasileiro. O Edinho é um ótimo exemplo. Como assim a qualidade do jogador brasileiro é inata? O cara é ruim, não sabe passar uma bola. O único recurso dele é fazer falta próxima à área, quando não dentro dela. Apesar de ser boa pessoa, ele joga mal, fazer o que? Todo mundo tem um – ou vários – Edinhos no seu time. Existe uma legião de jogadores brasileiros ruins (o pobre do Edinho entrou aqui como exemplo, mas qualquer pessoa que goste de bom futebol teria sua própria lista interminável de exemplos: Toró, Obina, Wilson Mathias…). Eu diria até que eles são a maioria. Mas quando surge um craque, ele confirma as expectativas imaginárias e vira exemplo. Ninguém ainda se propôs a pegar os milhares de jogadores profissionais e fazer uma média, levantar uns números. Existe o estilo nacional e a expectativa do craque brasileiro? Sim, ela existe, como representação, mas está longe de ser a regra. Quando um empresário for procurar bons jogadores, ele vai procurar volantes na Argentina, atacantes no Brasil e goleiros na Alemanha. Isso ajuda a desumanizar o jogador, faz dele um objeto de compra e venda, enfim, uma mercadoria com denominação de origem, como uma garrafa de vinho. Isso corrobora a ideia de que o jogador é um produto. O Arlei Damo chama este jogador brasileiro transformado em produto para exportação de “pé-de-obra”. A Lei Pelé só mudou o dono do produto: deixou de ser o clube e passou a ser o empresário. A Lei ainda precisa ser aperfeiçoada.

Édison Gastaldo no Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro. Foto: Sérgio Settani Giglio.


Quais são os seus projetos atuais? Alguma pesquisa relacionada ao campo da Antropologia do Esporte e, mais especificamente, ao fenômeno futebolístico?

Sim. Eu estou organizando um trabalho gigantesco de pesquisa. Um projeto intitulado “Torcedores”. No momento ele está com 20 universidades, com estimativa de uns 80 pesquisadores em campo. A ideia é fazer etnografia sobre a cultura do torcer pelo futebol em cada uma das 12 cidades-sede da Copa do Mundo de 2014. A ideia é iniciar o trabalho de campo em 2012. Estamos pedindo recursos para as agências de fomento. Então, estamos aguardando os resultados dos editais. Já têm grupos de pesquisa em cada uma das cidades-sede. Em algumas delas, tem mais um, como no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. As redes foram montadas, o dinheiro foi pedido e vamos fazer etnografias, textos, fotos e filmes. Não tem outra maneira de lidar com a Copa do Mundo. E como pesquisador do esporte no Brasil, é uma oportunidade ímpar, nunca mais vai acontecer, enquanto estivermos aqui trabalhando, uma Copa do Mundo no Brasil. Não tem como pesquisar Copa do Mundo sem pesquisar grande, globalmente. O evento vai acontecer no país inteiro. 12 cidades é um ótimo motivo para compor uma amostra nacional. Isso pode nos dizer muitas coisas sobre o que é torcer no Brasil, para além da Copa do Mundo. O fato desse tema estar ganhando relevância midiática favorece para que nós aproveitemos esse momento positivo. As pessoas estão querendo saber o que fazemos. A ideia é acompanhar os torcedores. Onde eles estão, o que eles fazem, o que eles pensam, em bares, arquibancadas, torcidas organizadas, sites de internet. O que significa torcer para um time de futebol no Brasil hoje? Essa é a grande ideia. Sempre pensamos nas grandes cidades: Flamengo, Corinthians etc. Mas como é em Cuiabá? Como é em Manaus? Lá as pessoas torcem para o Flamengo, ou para o Nacional (AM) ou para ambos? Como é que se organiza isso fora dos lugares óbvios? É um projeto de três anos. Queremos continuar pesquisando durante a Copa. Para a Copa já queremos ter resultados para mostrar. Queremos fazer uma exposição com dados da pesquisa, exposição de fotos, o filme já pronto. Um dos nossos parceiros é o Museu do Futebol em São Paulo, que já nos cedeu o espaço do Museu para fazer a exposição e lançar o livro. É um projeto ambicioso, gigante, que vai dar um trabalho imenso, mas não vejo, enquanto pesquisador, como lidar com um objeto tão grande e importante como a Copa do Mundo. É uma oportunidade única. Não veremos outra Copa do Mundo em nosso país tão cedo.