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Elcio Loureiro Cornelsen (parte 2)

Equipe Ludopédio

Elcio Loureiro Cornelsen fez mestrado em Letras (Língua e Literatura Alemã) na Universidade de São Paulo (1995), doutorado em Germanística na Freie Universität Berlin (1999) e pós-doutorado em Teoria Literária pelo Instituto de Estudos da Linguagem na Unicamp (2010). Professor da Faculdade de Letras da UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais, do Programa de Pós Graduação em Estudos Literários e do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO/UFMG). Elcio vem desenvolvendo pesquisas que relacionam futebol, linguagem, artes e cultura, principalmente dentro do FULIA – Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes (FALE/UFMG), fundado em 2010.

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Professor Elcio Cornelsen fala sobre a cobertura da mídia alemã da partida contra o Brasil na Copa de 2014. Foto: Victor Figols.

 

Segunda parte

Qual era visão dos alemães sobre os brasileiros que estavam chegando na década de 1990 e também sobre o futebol brasileiro?

O futebol brasileiro desfrutava – e de certa forma ainda desfruta – de certa credibilidade e admiração. Os alemães valorizam o futebol bem jogado. A cultura do futebol alemão nos últimos 20 anos tem sido essa. A questão que eu observava assistindo aos programas esportivos na década de 1990 é que eles valorizavam muito o jogador estrangeiro em geral que se integrava ao próprio sistema. Admiravam jogadores que lidavam bem com preparação física, e também com o idioma alemão. Esse último não era um requisito, mas era algo que auxiliava. O zagueiro Julio César, por exemplo, era muito admirado, mas todas as entrevistas dele eram em italiano ou português. Outros jogadores apresentavam menor integração, como o Dunga. Diferente do Elber, que já tinha jogado na Suíça, na região alemã, então já falava relativamente bem alemão. Quando ele já se destacava na Bundesliga, nas entrevistas ele falava fluentemente, fazia até piada em alemão. Sentia um pouco essa questão da integração. Marcelinho Paraíba era idolatrado em Berlim, dentro e fora de campo, era figura extrovertida, muito querida.

Você fez algum estudo mais aprofundado sobre o material de imprensa publicado na Alemanha após o 7×1 da Copa de 2014?

Não foi bem um projeto acadêmico. Na época em que o José Carlos Marques estava organizando o livro A Copa das Copas?, ele me convidou para escrever algo sobre a Alemanha. Em 2014 eu tinha participado da organização de um dicionário bilíngue de futebol, brasileiro e alemão, juntamente com Martin Curi e Stephan Hollensteiner. Então, o José Carlos Marques me pediu para falar sobre a visão alemã do 7×1. Fiz um levantamento em vários blogs, sites e jornais. Foi muito curioso. O minuto a minuto da revista alemã Focus foi muito bacana. Quando saiu o quinto gol aos 29 minutos, teve um intervalo de tempo sem atualizações até os 36 minutos. Depois vem uma frase: “Pois é, senhoras e senhores, devagar estamos retomando aos poucos, porque o sistema caiu de joelhos”. Depois colocam: “Esses não são jogadores brasileiros, devem ser impostores”. Aos 42 minutos eles colocam: “Juizinho, vê se encerra o jogo agora, pois os brasileiros nos dão pena”. No intervalo tem uma melhor: “Nem no Playstation é tão rápido assim, deve haver algum defeito na placa-mãe”. Em um blog, apareceu a seguinte sequência: “1×0. Gooool. 2×0. Goool. 3×0. Gol. 4×0. Sorry. 5×0. Ah, que merda… 6×0. Quem foi dessa vez? 7×0. Quando vai ser o happy hour? 7×1. Ainda bem!”. Houve uma interpretação de que se a semifinal da Copa de 1970, entre Alemanha x Itália, fora a “partida do século”, esse Brasil x Alemanha foi o “jogo dos sonhos”. A Alemanha teve seus percalços na Copa, jogos complicados, como contra a Argélia; em outros jogos foi soberana. Eles enalteceram muito a vitória contra o Brasil, mas não houve algo que desqualificasse ao extremo o futebol brasileiro, reforçando a ideia do respeito.

Mas houve também o caso do zagueiro Dante, que até deixou o Bayern por causa das piadas sobre o 7×1.

Sim, ocorreu isso, mas talvez seja algo específico do ambiente do Bayern. Eu me lembro de uma entrevista do Lúcio, ele disse que queria encerrar a carreira no Bayern e trabalhar nas categorias de base do clube. Mas, posteriormente, ele afirmou que, durante a Copa de 2010, recebeu um fax do clube, avisando-o que ele não permaneceria mais na equipe, e que aquilo o abalou bastante. Talvez isso seja comum no Bayern, e não teria acontecido com o Dante em outro clube. Mas entendo que nada foi por acaso. Na Copa de 1970, o Brasil poderia ter fracassado. O jogo contra a Inglaterra foi um jogo limite. Não há garantias. A não ser que haja manipulação de resultados. A Alemanha também poderia ter ficado pelo caminho na Copa de 2014, mas eles também tiveram uma ótima preparação, nos mais variados níveis. É simbólico que eles tenham construído seu próprio CT, praticamente no marco zero brasileiro. Com uma concentração aberta, se integrando com os moradores, recebendo visita de povo indígena. O blog do Lucas Podolski era atualizado constantemente com mensagens “dele” em português, num linguajar melhor que o meu. O uniforme preto e vermelho também, não por acaso, lembrava as cores do time mais popular do Brasil. Eles sabiam que o Brasil, mesmo passando por uma fase de renovação, poderia ser um forte adversário. Teriam que passar pelo anfitrião. A preparação foi redobrada, sem desgaste. Tanto que o 7×1 aparentemente não desgastou a imagem da seleção alemã. E na final contra a Argentina, muitos brasileiros não ligaram para o 7×1 na hora de escolher uma seleção por quem torcer. Alguns torceram pela Alemanha. Essa preparação é um aspecto cultural, da dedicação. O resultado que eles colhem hoje no futebol é fruto de um trabalho que eles já fazem há 17 anos. Em 1996 eles ganharam a Eurocopa, mas já não era um futebol confiável. Uma geração estava ficando pra trás e estava surgindo um vácuo. A seleção começou a naturalizar alguns jogadores estrangeiros. A Copa de 2002 levou a uma renovação, começaram a fazer trabalho de base forte. Um jogador emblemático nessa seleção é o Thomas Müller. Ele começou a jogar futebol em uma das escolinhas do Bayern do interior da Baviera. Às vezes ele até responde perguntas de jornalistas em dialeto bávaro, quando quer ironizar ou dificultar a vida dos profissionais de imprensa. Esse trabalho em escolinhas, em longo prazo, faz parte da cultura alemã. em geral, o empresário na Alemanha tem que ser muito profissional. A margem de lucro é baixa, a taxa de impostos é muito pesada. Não é como aqui, onde a ganância impera. Essa cultura de “previsão” e de profissionalismo se desenvolve nos mais diversos níveis da sociedade e tem reflexo também no futebol.

Agora sobre suas pesquisas relacionadas à Copa de 1950. O que você destacaria dentre os principais resultados de sua pesquisa sobre essa Copa?

Fiz um levantamento retomando os estudos que já existiam, mas observando mais a questão discursiva. Minha pesquisa veio reforçar essa ideia da construção do mito, de que foi tudo ressignificado a posteriori. Seria inevitável. Lembro-me das primeiras capas dos jornais, com manchetes de que um torcedor morrera do coração por causa da derrota. Diria que essa questão do mito é inevitável. Pesquisei também a cobertura alemã da Copa de 1954. Na cobertura alemã, o mito do “Milagre de Berna” vem depois. No início, eles não sabiam até como noticiar. A Alemanha precisava reaprender a lidar com seus símbolos. Depois da Guerra, a seleção só foi reintegrada pela FIFA em 1950, e o hino alemão não podia ser executado. Os alemães tinham que reaprender a lidar com uma simbologia que tinha sido contaminada pelo nazismo. O caso de 1950 é a mesma coisa. A crônica esportiva teve um peso grande nisso, principalmente Nelson Rodrigues, ao escrever que a derrota de 1950 fora a nossa “Hiroshima”. Mas é possível ler aquele momento brasileiro. Momento de um país que organizava um megaevento da época, porque havia um interesse de apresentar o país ao mundo, tal como ocorreu agora em 2014. Havia um projeto que veio abaixo. Houve essa comoção. As testemunhas, que estiveram no estádio, falam sempre do “silêncio ensurdecedor” nas arquibancadas. Isso pode ser interpretado como uma espécie de trauma. Mas procurei desconstruir os relatos. Os relatos do goleiro Barbosa apresentavam versões, os detalhes dentro das histórias mudavam. Em certa passagem, ele fala que estava em uma loja comprando material elétrico, entrou uma senhora e disse para o neto: “Esse aqui é o homem que fez o Brasil chorar”. Em outra versão, ele aparece como vendedor em algum lugar. Comecei a reparar em variações nesses relatos, que não são apenas variações de memória, são construções também. Meu interesse foi também mais no “como” se enuncia e não só “o quê” se enuncia, pois isso já tinha sido feito em outras pesquisas. A obra do Paulo Perdigão – Anatomia de uma derrota – é o acabamento disso tudo, praticamente a celebração do mito. Anatomia é o estudo do cadáver, o cadáver da Copa de 50, desde o conto que ele escreveu até a transcrição da transmissão radiofônica. Um material muito bom. Procurei analisar o desempenho do jogador Bigode, um dos acusados, através do texto da transmissão de rádio. Ele teve uma grande quantidade de disputas pela lateral. Ele efetuou vários desarmes. Sua atuação foi boa, no geral. Se houve falha de cobertura, é outra história. O Bigode foi bastante exigido, taticamente o Uruguai jogou por aquele setor. É possível extrair da pesquisa alguns aspectos que em outros estudos não aparecem tanto. O empate com a Suíça no Pacaembu revela como o futebol brasileiro se organizava na época, por conta da rivalidade Rio-SP. O time teve que ser alterado para jogar no Pacaembu. Penso que a contribuição da minha pesquisa foi discutir os discursos. Essa dinâmica é interessante. Comecei a pesquisa em 2013 e depois tive que acrescentar um capítulo extra sobre o que ocorreu em 2014, pois atingiu diretamente a imagem da Copa de 1950. Após o 7×1, alguns jornais traziam a manchete “Descanse em paz, Barbosa”, como se a derrota acachapante para a Alemanha fosse uma redenção do herói trágico. Em 2014, a derrota não foi associada à tragédia, mas sim à vergonha. As pessoas começaram a fazer piada da derrota, uma espécie de cura pelo riso. Em BH circulou a piada que a equipe de faxina, limpando o vestiário após o jogo, encontrou mais dois gols da Alemanha.

Confira a terceira parte no dia 8 de novembro de 2017!