07.2

Elô e Janete (parte 2)

Equipe Ludopédio

Eloisa Firmino da Silva (conhecida nas quebradas como “Elô”) e Janete Alves Portas jogam bola há tempos… mais de trinta anos. Desde quando o governo brasileiro proibia o futebol praticado por mulheres. Moradoras de Guaianases, bairro da zona leste de São Paulo, Elô e Janete foram jogadoras, organizaram times, disputaram torneios e lutaram – e ainda lutam – pelo que mais gostam de fazer: jogar futebol.

Nesta entrevista, as duas relatam como começaram a jogar, as dificuldades, as pessoas envolvidas, rememoram momentos marcantes, falam sobre preconceito e contam estórias… quantas estórias. Boa leitura!

Moradoras de Guaianases, bairro da zona leste de São Paulo, Elô e Janete contam suas histórias no futebol feminino.Foto: Enrico Spaggiari.

Segunda parte


Então, a gente falava do preconceito…

Janete – É, então, começou o preconceito das menina que tinha namorado, né? Aí se casaram. Aí fica difícil. Por que fica difícil? Já é marido, aí não quer que vá. Aí o time parou um tempo. Parou um tempo, umas meninas desandou, umas meninas se mudaram. Aí fica difícil, ficava difícil você chamar alguém pra jogar bola. Principalmente quem já conhecia a posição da gente, que vivia uma vida de homossexualismo e os pais não deixava. Dizia que a gente ia desandar as menina. Só tinha uma menina que casou, que continua jogando com nós. O marido dela depois chegou até ser diretor nosso. E até hoje ele não teve assim uma ajuda. Se não ele tava com o time feminino até hoje…

Isso ocorre até hoje? Os técnicos, diretores, a maioria era homem?

Janete – Homem! No time nosso, eu era diretora, mas ninguém sabia. Porque eu era fundadora, junto com os diretores. E se o pessoal soubesse, não deixava eu jogar: “que!? É dona do time”. Sabe? Eu mesma não era dona. Você tá entendendo? Se tornou difícil. Aí a gente ficou jogando pra um, pra outro.


E há quanto tempo tem esses times? Por que aqui, em Suzano e em Ferraz têm times fortes. Quais eram os principais times?

Janete – Eu não sei o nome do time. Acho que era São-Paulino de Poá. Era da Dona Paula. Tinha o Itaquá, que era bem forte. Nós fomos jogar lá.

Elô – Inclusive o estádio tá aí no álbum de fotos. Aquela coisa linda.

Janete – Na realidade, foi o último jogo que nós fizemos juntas. Depois não jogamo mais junto, né? Foi o Itaquá. Eu tive uma briga com a Batata no vestiário. Mas aí já não participava diretamente do time. Eu tenho uma memória muito boa, pela minha idade. Por que lembro, é verdade! Eu lembro assim cada detalhe, sabe? O time ali da Dona Vera mesmo, esse Pérola Negra. Joguei muita vezes pra eles. Jogamo muito contra o Zé Carioca, muito forte em São Miguel, lá no Jd. Helena. Só que era um adversário gostoso de se jogar! Porque é bom você jogar com quem sabe. Difícil é jogar com quem não sabe. Porque daí você sai toda arrebentada do campo. Porque eles são muito paulera.

Equipe de futebol feminina. Foto: Enrico Spaggiari.

Elô – Se você pegar num adversário que tem noção fica mais fácil dividir a bola. Se você pegar um adversário que não tem noção, muitas vezes você vai pegar na bola até com medo. Porque ela já conheceu teu futebol. Puta, aquela vai me quebrar, porque eu não sei dribá ela. Ela vem não que na maldade, sem noção! Será que eu posso bater aqui? Será que eu posso entrar de carrinho de frente ou de trás? Então, não tem noção! Se você pega um adversário que já compete com você, que entende de futebol, fica mais fácil. Então você pega se quiser.

Janete – Tinha o Rotativa. O Rotativa tirava a gente muito no começo. Depois a Elô foi pra lá, foi um monte de menina pra lá. Na realidade, era assim: nós tinha umas estrelas. Era bem fraquinho ainda na época. Só que eu conhecia a dona do time. Tinha uma amizade antiga com a dona do time do Rotativa. Porque ela tinha um poder aquisitivo menor do que a gente. Só que eu conhecia muita gente que jogava bola. Aí eu vinha aqui [palmas]: “Elô, vamo buscar um time assim? Com umas menina?” “Vamo!” Aí a Elô falou assim: “Eu conheço umas menina!” “Ah eu também conheço”. E foi buscar a Nildinha, a Ruth, a Cris. Como é que chamava a…

Elô – A Sheilinha.

Janete – Isso! Reforçamo o time. Vamo jogar! Passaram até em frente da minha casa tirando um barato. “Aê timinho de merda. Tiramo um lazer mesmo!” Aí eu falei: “ah, depois do futevol nós vê!” E era um festival! Valia troféu. Aí entramo em campo. Um fardamento azul e preto. Lembra? Eu fui buscar de última hora. Lembra que eu te falei?

Elô – Emprestado.

Janete – Emprestado! Mas tava semi-novo! Entramo e eles tirando o maior lazer da nossa cara. Beleza. É com vocês. Entramo em campo. No primeiro tempo que nós fizemo contra eles, deram uma sarrafada que ficou um reboco. Aí eu falei: “Beleza! Mas eu não vou sair não”. Saí, meti um curativo. Sabe o que era, né? Era só uma faixa, porque não tinha nada pra por. Era álcool mesmo. Que gaze o que? Era só a faixa pra jogar bola.

Elô – Hoje a mulecada pega spray, ceda na hora.

Janete – Às vezes não era que eu jogava muita bola, que eu jogava com muita força, que eu sempre fui muito pequenininha. Mas eu tinha velocidade e malícia. Como eu entrava muito pra área, eu cavava muito pênalti, muita falta. Encostar e já era. Porque eu tinha muita malícia pra cair. Lembra lá em Itaquá? (risos) Nós ganhamo o jogo por um pênalti que não existiu! Não existiu! Mas eu tomei o pênalti! Tanto que a minha torcida, a torcida que saiu daqui, foi pra lá pra torcer pra gente, olhou pra mim e falou: “tá louca?”, “Tô louca? Tô louquinha pra ganhar o jogo!”. Eu vi o juiz aqui. Eu correndo aqui com a bola. A hora que essa menina levantar o pé eu caio. Eu sabia que eu não ia alcançar a bola. Era um pernão comprido, sabe? A hora que ela vacilou, que ela jogou o corpo, que pôs o pé, ele deu o pênalti. Mas eu me joguei. Eu me joguei, tinha consciência disso! Fiquei lá a hora que ele apitou. Fiquei de boa. Até que quem bateu o pênalti foi a Paula. Lembra da Paula!?

Elô – Lembro!

Janete – E esse jogo do Rotativa nós ganhamo deles. Entendeu? Com toda grana, carrão, mas não tinha futebol! O Onze Estrelas sozinho não tinha. Era umas menina que não trabalhavam, só treinavam. No Onze Estrelas eu tive uma briga com a diretoria. Assim, a gente ia treinar; treinamos, e, no treino, eu e uma das menina, saímo no braço. E a menina era bem grandona. Eu saí no braço com ela, aí a diretoria me suspendeu e suspendeu ela. Certo? Aí falou “vai ficar um jogo sem jogar”. Ah, beleza. Se é pras duas, beleza. Só que no próximo sábado o Onze Estrelas ia jogar em Minas. Aí eu falei, “não vou, mas ela também não vai”. Certo? Eu descobri que ela foi. Ela foi e jogou. Beleza. Não vamos criar caso com as menina não. Quando foi daí uns vinte dias, o mesmo time que jogou lá, que jogaram lá contra elas, veio pra cá jogar aqui. E eu tava meio afastada porque eu não quis jogar aqueles dias. Eu falei “não, agora eu vou jogar também quando eu quero; vocês põe quando vocês querem…” Eu acho que a punição era minha, e era dela. Tá? Beleza. Aí marcaram um jogo com as minera. As minera chegou, era umas sete horas da manhã, ninguém foi atender as meninas. E eu fiquei sabendo que elas tinha chegado. Eu fui lá e comecei a atender as meninas: “Opa, vocês que são adversária… blábláblá, blábláblá”. Eu falei pra elas: “eu não to jogando aí não”, elas falaram “Que legal! Nós viemos faltando uma!”, “Você não joga pra nós não?”, eu falei “Jogo” (risos). Vão pagar o que eles fizeram pra mim.

Janete – Aí eu “Beleza, sem problema. Só que eles não podem ver eu trocar”. Falou “Não, você troca dentro do ônibus, eles nem vê, nem vê você”. Eu falei “Eles não podem ver não, que eu não quero ficar mal com as meninas”. Atravessei assim, no meio da diretoria, e fui lá falar com as meninas; já tinha combinado com elas aqui, entendeu? E fui, passei no meio de todo mundo, do pessoal. Eu falei “eu vou cumprimentar as adversária”, falei pras menina, colega minha de jogo! Cheguei lá e as menina: “Entra aí, entra aí!”. Entrei lá pro fundo do ônibus das menina de Minas. Coloquei o fardamento. Não fiquei na reserva nem nada, que faltava menina. Deu uma confusão pro meu lado daquelas! Todo mundo queria me caçar em campo. Todo mundo. Eles perderam aqui de um a zero, e quem ajudou fui eu. Eles ficavam loucos.

Elô – Eu não tava nessa não, ainda bem! (risos)

Janete – Eles ficaram loucos da vida! O Onze Estrelas perdeu em casa de um a zero e fui eu que fiz o gol. Entendeu? Porque elas fizeram questão disso também. Porque dava pra menina fazer, cara a cara com o gol. Eu passei pra ela, né? Não vou fazer gol no meu time. Ela passou de volta, meu! Passou de volta. Se eu não quisesse, as menina ia falar o que, pô, você não veio pra ajudar. Só encostei o pé assim. Nossa, a diretoria queria me matar, meu. Tava valendo troféu (risos). Aí fomos pra casa do diretor. Eu não quero falar o nome dele, porque a gente não gosta muito dele hoje não. A gente descobriu uns negócios aí… Fomos pra casa do diretor. Eu já tava com ele por aqui. Ele disse que ia servir um almoço pro pessoal de Minas. Eu sentei e as meninas me servindo (risos). Eles queriam me derrubar do time! Mas eu era do time… Só que como nós montamos uma diretoria, eu respeitava o máximo. Você entendeu? Só que eu achei desaforo. Se suspendeu eu, se suspendeu você, não joga nem eu nem você.

Elô – Esse campo que ela acabou de falar pra você, tem até uma foto, um terrenão que é fechado agora, o campo parecia um tobogã. Uma ladeira! Uma ladeira assim, ó! Você mais corria, você não podia tocar pra baixo, só pra cima, na hora que a bola ia passar pro lado de baixo, você catava a bola na linha do trem aqui. A Radial Leste era linha do trem, nós ia pegar a bola aqui! Nós marcava amistoso lá, com adversário de fora, só pra não ficar sem jogar bola. Tô mentindo, amiga?

Janete – Não!

Janete lembra histórias sobre sua vida no futebol. Foto: Enrico Spaggiari.

Elô – Descia! E o campo marcado, bonitinho, só que era assim, fio. Porque na hora que as meninas lançava, ixi, não tinha como ali não. Dava briga, briga feia pra jogar ali.

Elô menciona os mais de 30 anos de futebol feminino. Foto: Enrico Spaggiari.

Vocês jogaram até recentemente… com quantos anos?

Janete – Você vê, essa Copa Kaiser foi há dez anos, porque eu tava com 47 anos, 12 anos atrás, eu vou fazer 60 agora. Um ano depois eles fizeram uma brincadeira aqui, ó, tem um futebol feminino nesse campo. E tinha uns rapazes aí que ia dar umas medalha e tal. Eu ganhei como melhor jogadora em campo com 48 anos. Foi o dia do meu aniversário, que é 7 de setembro. Eu tenho essa medalha, guardo ela que nem ouro. Talvez até pela minha idade, né, eles acharam que eu fui uma das melhores em campo. Eu, com 46 anos, eu fiz um futebol de salão ali, em José Bonifácio, que tem também um time muito bom, tinha, na época, que é o Jardim São Pedro, e tinha outro, do bairro dos Pimenta, as Menina de Ouro, chamado As Menina de Ouro, muito bom, muito bom, nossa. Você vê, assim, o time lá era pedrera pra ganhar deles. Tanto que tinha lá uma menina chamada Filha do Vento, na época, ela tinha o apelido de Filha do Vento, e ela tinha quinze anos. Colocaram ela pra me marcar, porque eu corria muito. Muito, muito. Tinha, aqui no Jardim São Pedro, um senhor – hoje eu acho que já é até falecido, porque ele era bem de idade – que é meu fã, ele sentava aqui no banquinho, pro lado de dentro do campo, porque ele era diretor. Parecia que ele não via mais ninguém lá, sabe? Ele nem sabia meu nome: “Vai 7! Vai 7!” (risos).

Elô – Só pela posição ele já sabia.

Janete – É, conhecia mais pela posição. Lá nos Três Maria, na Copa Kaiser, nós jogamos com a água por aqui. Era um campo no alto, mas o campo era baixo; tinha uma cerca em volta, de barranco. Não tinha nem como jogar. Nós perdemos ali pro Elite.

Elô – O Elite, da Ita. [confira aqui entrevista com a ex-jogadora Ita] Ah, meu, ela faz o futebol dela, eu faço o meu. Só que eu não gosto que ninguém queira ser mais do que nem você, nem ela, nem eu. Somos todos seres humanos. Todos nós sentimos dores; independente do que você sabe um pouquinho a mais que eu. Guarda pra você. Não humilha o adversário, ou o que seja, não precisa ser adversário do campo. Você concorda comigo? Então eu penso assim, eu ajo assim. Joguei pra caramba já, ih, já joguei, já venci barreiras por aí jogando amistoso, valendo troféu, medalha e tudo. Mas nunca arrumei uma confusão dentro de campo. Perdi? Saí com a cabeça erguida. Mesma coisa que eu faço, ganhando ou perdendo, eu atravesso o campo todinho, agradecendo adversário. E agradeço às menina também, “Opa, valeu aquele bolão que você colocou no meu pé”, “E aí, aquele gol que você fez, você viu o lançamento que eu te dei?”, meu comentário é esse. Tenho crítica como ninguém, cada um faz a sua, só que eu não gosto que você se sinta mais que eu. Já jogamos várias vezes contra o Elite, aqui mesmo, nesse campo aqui, mais pra baixo. Entendeu? Ela chegava aí toda pá; opa, “ó, gente, sabe que fulana de tal é assim, assim, assado”. Só que nós faz futebol. Ela quer fazer o gol, deixa ela fazer o gol, ela fez por mereceu. Se a gente fazer o nosso, a gente mereceu, a gente soube tocar bola também. Eu vejo de boa. Bateu de frente, se ela me cumprimentar, eu cumprimento. Por educação, entendeu? Caso contrário, tem nada a ver. Tem amistoso aí, tu tá jogando? Eu vou pra cima, eu vou sem medo, tem que mostrar meu futebol. Tem que dar de mim. E não esperar pelo futebol que ela virou o pé pra cima de mim.

Janete – Eu também nunca liguei pra isso não…

Elô- Você entendeu? Ela competiu no futebol dela, eu sou o meu, tenho que dar de mim, só porque aquele dia deu pra ela, beleza, parabéns pra ela. Aquele dia deu pra mim? Parabéns pra mim. Entendeu? Saiu do campo, opa, “beleza, fulano de tal, você jogou mó bolão hoje”, eu faço isso. Sair pro rincho? “Ah, você me capou aquele dia, eu vou te quebrar”. De boa, vocês ganhou, vocês mereceram, galera, ó, passa lá uma hora lá em casa procês tomar uma água, a gente rolar uma ideia. É assim que eu faço. É isso que você tá vendo. Fora de campo, dentro de campo. Perdendo ou ganhando. Eu perco, dou risada. Eu falo, “ah, deixa pra lá, não conversa muito no meu ouvido não”. Eu fico braba com elas. “Vocês tiveram oportunidade, não fizeram, eu pedi bola, mandei tocar a bola, não fizeram, então nada de ladainha agora, ficar chorando o leite derramado”. Quer? Quer ganhar a vitória? Vou tentar entrar em contato, a gente marca, como já aconteceu. E a gente ia pra cima e fechava. E as meninas davam o sangue e iam pra cima. Porque acontecia isso? Porque eu reunia, trocava ideia. Ah, não tá trabalhando, tem como aparecer lá? Eu tenho bola aí, tenho tudo. Bola de salão, bola de campo, eu tenho aí. Entendeu? Reunia. “Ó, sábado, parte da tarde, três, quatro horas da tarde, tem como vocês vir aqui pra gente dar uma treinada, dar uma treinadinha, pá, bonitinha?”. E as menina vinha, vinha meia dúzia, oito, opa, já era o bastante, já tava ali dando uma experiência melhor pra elas. Tudo é treinamento.


Depois, o número de jogos começou a diminuir?

Elô- Bastante!

Janete – Ah sim.

Elô – Ah, eu vou falar a verdade pra você. O último time que eu toquei foi Garotas de Ouro, meu time mesmo, que eu fundei. Então teve questão de verba, entendeu? Eu arcava com as meninas aqui, e às vezes não tinha uma alimentação, às vezes muitas não tinham dinheiro pra passagem e tinha que cobrir do meu bolso. E então foi apertando do meu bolso. Aí muitas: “ah, meu marido não quer deixar hoje”, “ah, não tem com quem deixar meu filho”, “pô, gente, não faz isso não, tá marcado o jogo…”.

Elô relembra os campeonatos que disputou. Foto: Enrico Spaggiari.

Janete fala sobre as dificuldades e o preconceito sofrido para jogar futebol. Foto: Enrico Spaggiari.


Tinha alguma ajuda, o patrocínio de algum comércio?

Janete – Nunca!

Elô- Não, não! Do bolso! Por isso que eu falei, se eu tivesse condições não teria parado. Entendeu? Teria prosseguido até hoje. Das meninas chegar aqui no domingo, se ajeitar, comer, você ter reunião, procurar time em liga, botar fardamento bonitinho, jogar seis ou sete no mês, opa, eu compro outro fardamento, meião, entendeu? Alugar um micro-ônibus, ou uma perua mesmo, pra levar pra elas, pra não desgastar tanto. Chegar lá, tá aquelas meninas, um lanche, “não deu tempo de almoçar, Elô, vou jogar com fome”, depois vir embora, não ter nada pra comer, você tá entendendo? Então foi miando meu bolso. Aí muitas também “Elô, precisava disso aqui”, “Elô, você tem tanto pra me emprestar”, “Puta, não tenho…”, entendeu? Então, quer dizer, as meninas fazia correria não em outros times, mas com outras pessoas, então aí foi acabando, você entendeu? Aquilo ali foi me desanimando também. Eu falei “puta, mano, eu queria tanto ter dinheiro, chegar nas meninas, dar uma gratificação pelo menos, “ó, toma dez aí. Você fuma? A outra não fuma? Você quer tomar uma cerveja?”. Eu tenho vontade de fazer, eu tinha, tinha e tenho. Hoje, graças a Deus, tenho um espaço, porque antes era só dois cômodos. Você entendeu? Então hoje é maior, tenho meu boteco, tem a garagem aqui grandona, dá pras menina, tenho um banheirinho aqui, você tá entendendo? Pode se trocar dentro do bar, tem lugar de pôr as medalhas, troféu da gente, e hoje cadê as menina, cadê a Elô como capitã? Por isso que não prossegui.

Janete – Comigo o sistema foi o mesmo. A mesma coisa. Porque, assim, a diretoria já não queria cobrir nada pras menina, porque as menina era tudo menor, poucas trabalhavam. Aí num jogo longe, você ia levar todo mundo de ônibus, até os pais mesmo não ajudavam a dar um dinheiro de condução.

Elô – Dinheiro não tinha, pra bancar as meninas.

Janete – Não tinha, não tinha!

Elô – Então não tinha como as menina ir.

Janete – Nunca tivemos patrocínio de nada.

Elô – Aí só acompanhava quem tinha o dinheiro. Às vezes você tinha o dinheiro pra meia dúzia, aí tinha mais quatro, cinco que tava sem dinheiro, aí você não tinha dinheiro pra levar as outras cinco. Pô. Você tá entendendo? Então aquilo ali doía dentro da gente, doía.

Janete – E tinha que desmarcar… Porque ia lá com cinco jogadora, jogar conta onze? Não tinha condições de entrar em campo, entendeu?

Elô – Às vezes passava vergonha também, pedia pra passar por baixo da roleta do ônibus.

Janete – Muitas e muitas vezes.

Elô – Você entendeu? É deselegante isso aí, eu não gosto disso. Eu não gosto mesmo. Às vezes uma não tinha chuteira, você tinha que esperar a outra sair, tinha que trocar, pra ela usar um pouquinho, dá chuteira pra colega. Às vezes você jogando em campo, “puta, vou sair um pouquinho pra fulana entrar, toma aqui a chuteira”. Você entendeu? “Pô, eu queria tanto uma chuteira”. Você sendo dona do time? Pô, se você tivesse condições falava: “Não, eu não vou comprar pra todas, mas vou deixar uns três, quatro par aqui, pra quando fulana aparecer sem a chuteira, tem”. As menininha entrava com tênis, dependendo do campo, o campo aquele terrão seco, vermelhão, caindo, se machuca, menina de menor, então fica na sua responsabilidade. Era um cargo de responsabilidade que você carregava. Muitas delas a gente ia na residência, “Ô dona Maria, ô dona funala, ô dona Joaquina, deixa fulana de tal ir jogar com a gente hoje”, “Cuidado com a minha filha, minha filha não tem dinheiro, minha filha tem isso, minha filha tem…”, então você já toma aqueles cuidado, você tá entendendo? Vai pedir um lanchinho pra você, puta, mano, você quebrada da condução, a menina com fome, né Janete, você tinha que comprar, a menina fez maior presença pra você, jogou, brincou pra você, fez até aquele gol da vitória pra você, você vai virar e falar não, meu? Na hora em que você precisou ela não tava ali com você? Então é deselegante, meu.

Janete – E eu vou falar pra você, se a gente hoje tivesse um patrocínio de qualquer coisa pra manter um time, tenho certeza que nós tinha capacidade de levantar um time aqui.

Elô – Com cerveja, levantaria. As menina me cobra, ainda, me cobra.

Janete – E time bom. Porque eu falo pra você, eu até posso não jogar bola nenhuma, mas conheço todas as regras. Tanto que eu tenho um convite pra abrir uma liga de futebol feminino em Guaianases.

Elô – É a liga do Minerva?

Janete – Não, é a liga feminina. Só feminina, de esporte feminino. É, não sei se você conhece o Enzel, um japonês que entrou há pouco tempo no esporte aqui em Guaianases, na Prefeitura?

Elô – Eu já ouvi falar dele.

Janete – Ele me fez um convite: “eu monto a liga, tudinho, me responsabilizo por ela, você só vai ser a presidente da liga”. Entendeu? Eu sou cabeça da minha casa. Então não tem como você ir sem ganhar nada e a proposta que ele me fez foi muito baixa, que não dava.

Elô – É uma responsabilidade…

Janete – É uma responsabilidade muito grande. Entendeu? E minha intenção não é essa, não é tomar conta de outros times. A gente quer é um time forte aqui. Aqui. Aonde a gente mora. Sabe, não é em outro lugar.

Elô – E, licença só um minutinho, tem e nem mora na residência, meninas de fora, as de fora que tem acesso e tem horário em campo. A gente nasceu e se criou aqui e ninguém abre espaço pra gente. As meninas não cansa de me cobrar… as meninas que jogam comigo aí.

Janete – Nós temos 40 anos aqui e não tem acesso a entrar lá. A não ser que você brigue com todo mundo…

Elô – Eu, eu não posso falar isso, porque quando fundou o CEU Jambeiro eu fui uma das primeiras a fazer carteirinha pra jogar futsal. Aquelas quadras ali, eu já deitei o cabelo, deitei e rolei, nas de baixo e lá de cima, de taquinho. Já subi nas de taquinho, já brinquei muito, era duas vezes na semana lá, era quarta e sexta. Já brinquei ali.

Janete – Eu fui lá domingo, meu filho joga lá todo domingo. Ele tá participando da Copa do SESC. O Cléber joga num time aqui de cima.

Elô – Se eu falar que eu não brinquei, eu to mentido. Nossa, que delícia. Lá em cima do taquinho, rapaz!

Janete – Eu sei como que é, eu entro lá. Mas não é isso que eu to falando. Não é questão de entrar e fazer um jogo.

Elô – Eu sei, você queria horário. Montar um timinho, ter horário.

Janete – Ter horário, você tá me entendendo? Em qualquer lugar, se você tiver um horário aqui no campo, se você tiver um horário na quadra, um horário pra treino, certo? Pra treino e pra jogar. Você não vai jogar só pra fora. Nós só jogava pra fora e não tinha condições financeiras pra levar as meninas.

Elô – E outra, não é me gabando não, né Janete, mas veja bem. Você vai fazer um festival, e num festival aqui o bicho pega. Olha que lindo isso: você colocar na abertura, nem que for 20 x 20, um jogo feminino; você vai abrir um campeonato. Depois você dá acesso a pelo menos 15 dias pras mulher se representar de novo, se apresentar. É lindo isso aí, entendeu? Eu, agora, Dia das Mães, tava querendo agitar, querendo planejar dia das mães. Mas vai água a baixo, porque vai ter espaço? Ninguém dá espaço pra gente. O lugar que você nasceu, se criou, meu, todo mundo me conhece, sabe que eu já levei time, ela também. A gente sabe todas as regras, você entendeu? A gente vai ali e conversa, arruma um horário ali, pô, nem que for 30 x 30, mas deixa nós fazer uma aberturinha ali, bonitinha, pro Dia das Mães. Esses tempos, o que eu fiz, eu joguei lá, aonde nós já jogamos com o Pérola Negra, não foi? Com a Dona Vera num domingo, uma abertura, uma faixa de fora a fora no campo, e lá tem, tá começando a ter o feminino de novo, você tá entendendo? Aí, Dia das Mães, eu tive a criatividade, nós fomos lá esse domingo, abri uma faixa parabenizando o Dia das Mães, e a abertura, as mulheres, depois dava espaço pros homens. Acabou o último jogo dos homens, deixa nós, mulheres, fechar. Fechamento, de novo. É uma coisa que isso aqui bomba, o campo bomba vendo as mulheres jogar.

Janete – Mulheres é atração, mulher no campo é atração.

Elô – Atrai, independente de ser mulher sapatona ou não é, se tiver jeito de machão, atrai, chama. Chama bastante gente. Pô, nego mora lá em baixo, pô, tá tendo as menina que tão jogando, vão lá ver. Desce até mulher com as panela: “opa, vou tirar panela, depois eu faço macarrão, bem, eu quero ver também as mulher jogar”. Aí incentiva, vamo, vamos brincar, “você deixa, amor, também?”, aí você já vai montando o time novamente. Mas você não tem essa liberdade aqui, você não tem essa oportunidade.

Janete sente saudades da época em que jogava. Foto: Enrico Spaggiari.

Se pudesse Elô reviveria tudo novamente no futebol feminino.Foto: Enrico Spaggiari.

Do que vocês mais sentem falta de quando jogavam…?

Elô – Ah, eu sinto falta de tudo. Principalmente das apresentações, quando a gente entrava no campo. Quando era campeonato, festival, aquela emoção, a coisa gostosa, sinto muita saudade, tem hora que eu deito assim na minha cama, eu viajo… vinte, vinte e cinco anos atrás. Como eu queria que voltasse tudo… muito lindo, muito gostoso. Às vezes eu chego a ter pesadelo. Eu driblando, com as meninas “Vai Elô, vai!” e aquele gol da vitória, só via a rede balançando, dava salto e tudo. Sinto muita saudade disso. Não querendo dizer que hoje eu tô arrependida, pela idade, por eu ser mãe, por eu ter meus netos, nada disso. Porque aonde eu for eles vão comigo, então pra mim vai ser um incentivo maior ainda de quando meus filhos puderam presenciar nessa época, meus netinhos também podia hoje. Então eu sinto saudade disso, sinto muita saudade do meu futebol. E daria tudo pra voltar novamente, mesmo com a minha idade, e mesmo com o tipo de vida que eu levo hoje.

Janete – Eu acho que eu sinto saudade do primeiro jogo. Jogo com adversário. Porque ali começou tudo, entendeu, e eu faria tudo de novo… Com toda a dificuldade…

Elô – Parece uma velhinha, com cabelo branco (risos)

Janete – Poxa, começaria tudo de novo! Mas eu faria tudo de novo, não me arrependo de nada que foi feito dentro do futebol.

Elô – Muitas recordações, muitas…

Janete – Se tivesse que começar tudo de novo, se falasse “olha, você vai ter fôlego pra começar hoje e fazer tudo de novo”. Eu faria tudo de novo. Tudo.

Elô – Nem que fosse pra colocar uma bomba direto dentro do seu pulmão pra você ter aquele fogo, né…

Janete – Mesma coisa…

Elô – Aí sim! Eu vou falar uma coisa pra você. Eu deliro, chego a me emocionar, quando eu ligo a televisão só pra ver o esporte feminino, as menina batendo aquele bolão, aí eu recordo, “puta, já passei por isso”; aquelas falta louca, aqueles golaços, me emociona demais, que às vezes eu encho os olhos de lágrimas, eu mesma olhando pra televisão. Às vezes quando eu vejo a filha da mãe da Marta, vai Marta! Eu fico ali arisca “vai, vai, vai!”, e quando pensa que não, é só a rede balançando! Aquilo me emociona demais, cara. Você entendeu? Mexe, mexe, você busca aquela década… entendeu? Não desclassificando, que hoje eu não bato esse bolão! Põe eu na linha aí pra correr e você vai ver, viu!

Janete – Se eu tivesse…

Elô – A gente não tem é oportunidade…

Janete – …oportunidade de chegar até um dirigente grande, aqui do esporte…

Elô – A gente começar tudo de novo…

Janete – Logicamente não é nós que vamo entrar em campo, não é eu não…

Elô – Pode pôr que eu entro! Eu entro!

Janete – Não eu. A não ser na terceira idade.

Elô – Eu na primeira, na segunda, na terceira, eu entro em todas. Pode jogar em cima, joga em cima das menininha aí de quinze, dezesseis, vinte anos…

Janete – Não, jogar também jogo também, só que…

Elô – Demorou, meu fôlego, meu pique é o mesmo, graças a Deus.

Janete – Eu vou jogar, dali a uns 20 minutos eu vou ter que parar. Eu tenho 60 anos, Elô.

Elô – Ah, a gente retorna aquele fôlego de mocidade.

Janete – Quando eu tinha 46, nem você dava conta de mim no campo (risos).

Elô – Ah! Elô sempre foi a desgramera do campo, hein!

Janete – (risos)

Elô – Até em cima dos moleque, hein! Eu não vou fechar com você não! Não vou fechar isso não. Não vou fechar não, que eu sempre fui a desgramera!

Janete – Você acabou de falar o que? Aí depois é eu que fico nervosa! (risos)

Elô – Vou fechar uma coisa com você, sabe a Pérola Negra lá, ela não tava presente, aqui em cima no Curuça. Você viu no sábado a gente conversando lá. A dona do time tava com um amistoso masculino e um feminino, de fora os dois. Aí o masculino, quer dizer, o masculino não veio, foi o feminino; você acredita, nós mulheres, eu fiz três gols em cima dos caras! Nós entramos pra quebrar, pra rachar mesmo, pra você vê o que eu tô falando! Os três gols quem fez fui eu! Você tá entendendo? Jogando contra os macho! Contra os macho.

Janete – Elô, cada um tem sua época! (risos)

Elô – Eu tava com uns 30, tava com uns 35, 34, por aí. E fechamo lá em cima. E nós pegamos foi os dois. Primeiro nós fomos por cima do adversário masculino, e nosso feminino chegou e nós fomos pra cima de novo dar em cima das menina. Foi, meu filho, foi coisa linda. Só que no dia seguinte, também, não tinha mais ninguém, né! Se você comparar o porte físico de um cara, as menininha iam pro chão. Eu não sou trouxa, os cara vem, joga no ombro, é duro os porte físico deles. Mas eu, por mais que você seja, você quer dar uma de machão, você é mais frágil… você entendeu? “Vem, vem!”, e os cara “vai, neguinha, sai fora”, eu falei “ah, então vem! Tá bom, tome!”. Os caras saíram de lá pianinho, meu filho. Vai lá, eu levo você pra você entrevistar o povo lá.

Janete – Mas você sabe quantos anos de diferença temos nós? 14 anos.

Elô – Nada não, Janete. E eu fumo também, você vê, um fumo toda hora, é um cigarro atrás do outro.

Janete – Eu também fumo toda hora (risos). Nada, é brincadeira. Ela sabe que é brincadeira.

Elô – (risos). É zuera.

Janete – É zuera, nós sempre foi assim, aqui não existe inimizade por causa de futebol não. Entendeu?

Elô – Eu faria tudo, fechando a sua página aí, eu faria tudo pra voltar tudo novamente. Faria tudo, faria tudo mesmo.

Janete – É o que eu falei, não me arrependo de nada…

Elô – Agora tem espaço pras meninas se trocar e tudo, olha que lindo hein. Fazer samba aí depois do jogo, tem um botequinho, fazer samba. Uma porçãozinha pras menina… Fazer uma saladinha de alface. Só alface, que você não vai entrar no campo com a barriga cheia. Em cima da hora já, o almoço? Almoço uma ova, fazer um bacião de alface. E aquelas condições que eu falei pra você, eu só não progredi, não segui a carreira mesmo, por causa disso aqui.

Janete – É, a situação financeira…

Elô – Se eu tivesse com um bom trampo naquela década lá, nem que fosse pra pegar meu salário todinho, meu pagamento só pra abastecer o time, mesmo passando dificuldade em casa, mas queria ver as menina ali crescer, crescer. Muitas saíram fora, se cresceram em outro lugar, como você vê essa seleção brasileira, as menina aí, entendeu? Muitas periferia como a gente, brincou com a gente e tudo, mas hoje nem lembra, né, cresce, aumenta a carreira, então esquece que um dia foi periferia com a Elô: “ô, eu já joguei contra a Elô”…

Foto: Enrico Spaggiari.

Uniformes do time de futebol feminino. Foto: Enrico Spaggiari.