07.1

Elô e Janete

Equipe Ludopédio

Eloisa Firmino da Silva (conhecida nas quebradas como “Elô”) e Janete Alves Portas jogam bola há tempos… mais de trinta anos. Desde quando o governo brasileiro proibia o futebol praticado por mulheres. Moradoras de Guaianases, bairro da zona leste de São Paulo, Elô e Janete foram jogadoras, organizaram times, disputaram torneios e lutaram – e ainda lutam – pelo que mais gostam de fazer: jogar futebol.

Nesta entrevista, as duas relatam como começaram a jogar, as dificuldades, as pessoas envolvidas, rememoram momentos marcantes, falam sobre preconceito e contam estórias… quantas estórias. Boa leitura! 

Moradoras de Guaianases, bairro da zona leste de São Paulo, Elô e Janete contam suas histórias no futebol feminino.Foto: Enrico Spaggiari.

Primeira parte


Elô, Janete… vocês sempre moraram em Guaianases?

Janete – Faz quarenta e dois anos. Moro na Vila Etelvina.

Elô – Eu passo por cima: faz quarenta e seis.


E vocês nasceram aqui mesmo?

Elô – Aqui mesmo! Nesse quarto que hoje é meu. Quarenta e seis anos aí.


Não tinha o campo de futebol do São Francisco ainda?

Elô – Era o Olaria… Olaria que fazia tijolinho de barro…lá em baixo! Entendeu? Sempre tinha um espacinho assim pra gente…

Janete – É, tinha um espaço onde a gente colocava uns pauzinhos.

Elô – E ficava assim de pé, né Janete?


E você Janete, nasceu aonde?

Janete – Eu nasci no Alto da Vila Maria. Na praça Clovis Morano. Aí fui pro interior, do Paraná. Com minha mãe, meu pai, com todo mundo. E voltei pra cá com 17 anos.

Janete lembra histórias sobre sua vida no futebol. Foto: Enrico Spaggiari.

Elô menciona os mais de 30 anos de futebol feminino. Foto: Enrico Spaggiari.

Vocês se conheceram antes do futebol?

Janete – Antes… antes.

Elô – Porra, desde berço.

Janete – Na verdade, nós se conhecemos numa igreja evangélica. Eu fui lá pra entregar uma oração pro meu filho e lá tava a Elo com a família dela, com a mãe dela. Ela era bem novinha.

Elô – Com uns dois ou três anos, por aí.

Janete – Foi daí, quando nós se conhecemo. E enquanto as pessoas falavam de religião nós falava de futebol (risos).


E como era Guaianases na época? Mudou muito?

Janete – Muito!

Elô – Muito! Hoje parece uma cidade. Parece a Avenida Paulista! Era rua de terra, tudo escuro, você não enxergava nada. Nossa lamparina era o vagalume. Nós catava, coloca dentro dum saquinho, e nós saia. Nosso banho era nesse fogão de lenha que a nossa mãe colocava essas latas de tinta que hoje muito usam pra encher de concreto, encher de areia. Aí a gente tomava banho ali mesmo, esquentava a água. E era uma bacia e começava dos menor. Quem se lascava era os maior, por que tomava banho naquela água suja … “Pode ir um, dois… quem tem seis anos? Quem tem sete?” Tá entendendo? A coisa era loca, fio. Se na boca da noite a gente não fosse catar vagalume pra ficar até um pouquinho mais tarde, nós já tinha que entrar pra dentro… e aqueles lampião, aqueles esqueirão de querosene . A gente ia dormir e a mãe da gente apagava, tudo mundo apertadinho, né Janete? Você entendeu, meu filho? Sei que aqui era crítico, viu? E pra escola você tinha que ir de chinelinho e passar a semana toda com ele. E meu chinelo meu pai fazia, era amarrado de barbante… você tá entendendo? O vestidinho era um rosinha, lembro até hoje! Seca que parecia um palito de dente. Aquele vestidinho não podia sujar. E as dificuldades financeiras que minha mãe tinha, eu não gosto nem de lembrar. Sei que isso foi um passado já. É um passado que de repente…

Janete – Passou!

Elô – Passou, mas é uma coisa que às vezes até convém você contar a sua historia, pra você se vê hoje e vê o que você já viveu no passado.

Janete – Verdade.

Elô – Você tá entendendo, fio? Você concorda comigo? Poxa vida, antes a minha mãe procurava algo, um pão pra dar pra mim. Eu graças a Deus não passei por isso. Na década que nos encontramos hoje eu tive capacidade de lutar, guerrear, trabalhar, chegar aqui 1h, 1h30 da madrugada, pegar a última condução pra chegar no dia seguinte, deixar a mistura e deixar o dinheiro pros meus filho comer pão. E eu naquela década tinha que ir pra escola, levar um vidrinho de xarope, desses xaropes antigo e lá era um copo de chocolate Nescau que bebia. Eu tinha que tomar aquela e pedir pra tia. Chegava na cozinha: “tia, dá mais um pouquinho”? Na realidade meu estômago tava roncando. A tia pensava que aquele pouquinho era pra mim. E eu mantinha sigilo comigo mesmo, que aquele pouquinho era pro meu irmão caçula. E na hora da janta – minha mãe criou dezoito sozinha – era farinha que nós comia. Eu não tenho vergonha de falar isso não. Quando não dava, meu filho, a gente inteirava. Era farinha com açúcar a janta da gente. Na época era a farinha grossa, era a única que vendia. Não tinha farinha fina igual hoje. Minha mãe, com aquele monte de criança, servindo; “ai mãe eu quero mais”. Não tinha, não podia; porque no dia seguinte o que fazia? Recolhia no dia seguinte um copo de água pra cada um pra inteirar, enchia e completava com água. Tive um passado já bem feio, meu filho. Graças a Deus tô viva aqui até hoje. Mas com o tipo de vida que eu tive, eu graças a deus, consigo dar outra espécie pros meus filhos. Por que eu ganhei, eu criei meus dois filhos sozinha, quando o pai deles partiu. A menina tinha uns quatro anos, meu filho tinha uns cinco. Graças a Deus criei, corri atrás… Vitória!

Janete – Criada no carrinho, dentro da beira do campo…

Elô – Você entendeu, meu filho? Eu não tive nada.

Dupla relembra com saudade o tempo em que atuavam nos campos de Guaianases. Foto: Enrico Spaggiari.

Eu queria que vocês falassem onde vocês começaram a jogar.

Elô – Na rua mesmo!

Janete – Na rua!


E com que idade vocês começaram?

Janete – Eu já tinha uns 7 anos. Eu já jogava bola, assim, beira de campo . Eu seguia muito o meu pai, como eu tava te falando. Seguia muito! Todo lugar que ele ia jogar, ele jogava mesmo, e ele foi até o amador do Corinthians. Em compensação não sou corintiana (risos).


Bom, então eu vou encerrar a entrevista por aqui (risos).

Janete – Sou completamente diferente. Aposta!


Palmeiras!?

Janete – Palmeiras! (risos) .


Elô, você é santista?

Elô – São-paulina. Vou ser sincera mesmo. Eu nunca torci pra time nenhum. Mas por incentivo do meu filho e do meu netinho eu pago um pau pro Santos. Você tá entendendo? Então quando o Santos vai jogar, independente do time que for: se for Palmeiras, se for São Paulo, eu to torcendo pro Santos. Por incentivo do meu incentivo do meu filho. Quando o Santos faz gol aqui, ali em Guarulhos, nossa! “O filho! Você viu meu filho!?”. Domingo passado mesmo, aqueles três gols que o Santos fez, que o Neymar fez, eu tava aqui, com a mulher aqui, eu quebrei a garrafa no balcão! Eu peguei e [pow!] Vibrando por causa do Santos! Não que eu sou assim, fanática, nunca fui, de time nenhum. O meu hobby, vou falar pra você, não gosto de ver ninguém jogar, eu gosto é de colocar a bola no meu pé e brincar. Minha vontade é de estar lá, invadir lá. Dá vontade de entrar lá e brincar com eles, você tá entendendo?


E você começou a brincar num campo desses quando você era criança?

Elô – Pivetona ainda

Janete – Pivete ainda. Na realidade, tinha um campo limpo aqui, nós acabamo colocando duas traves feitas de eucalipto. Colocamo. Tinha um pessoal aqui no Etelvina que também gostava muito da gente, de ver a gente jogar. Um chamado Seu Celino…

Elô – Falecido já…

Janete – …um dia fez um multirão lá no Etelvina: “vamo lá fazer o campo?” “Vamo!” Cada um pegou uma enxada. Quem não aguentava carpir, capinar ia catar as pedras e fizemo o campo.

Elô – Era um matagal, a bola caía ali, era um Deus nos acuda! Quando você achava a bola já tava dando o horário de findar. Aqui era muita treta. Hoje, hoje tá um estádio aqui pra nós. Tá um estádio. E eu comecei assim, ia tirar racha na rua com os moleques, corria pra lá, corria pra cá. Rua de terra, entrava pedra no pé, sangrava, no dia seguinte eu tava lá e minha mãe xingando. Mas sempre foi meu hobby e meu naipe foi esse. Jogar minha bola, entendeu? Aí a gente foi crescendo, foi se tornando e falando: “ah você joga bola? Você bate uma bolinha?” Era Eloísa na época; agora que começou com essa coisa de “Elô, Elô”. Aí foi envolvendo, veio intervenção. Veio a Janete. Já tinha conhecimento da Janete quando era pivetona ainda. Aí a gente foi desempenhando, aí chegava fulano, ciclano: “vamo montar um timinho?” Aí a gente foi ali se alinhando no meio.

Janete – Três anos junto.

Elô – Você tá entendendo? Era difícil na década. Hoje que tá liberado. Era crítica!

Janete fala sobre as dificuldades e o preconceito sofrido para jogar futebol. Foto: Enrico Spaggiari.


Mas como era a reação das famílias? E dos vizinhos?

Elô – Eu vou responder por mim. Agia mal. Bola era feita pra macho. Não era feita pra mulher. Só quem tinha direito de jogar bola era homem. Não existia isso daí. Naquela década nossa existia. Nossa, era um falatório. Minha mãe via: “mãe, vou brincar ali um pouquinho”; pegava a cinta e tome no lombo! E era meu hobby e é até hoje. E eu aceitava apanhar por causa da bola. Eu falei: “Eu jogando ou não, eu vou apanhar. Então eu vou jogar com os moleques!” Os moleques já ficava me esperando ali no meio da rua: “E aí, Eloisa! Vamo?” Ah, meu fio, eu vou. Minha mãe vai me bater, mas eu vou! Eu chegava, meu filho, e logo que vinha, “ah mãe, eu já brinquei, eu já curti o que eu queria curtir”. Eu era danada. E sempre fui. Até hoje eu sou. E eu não tenho medo de brincar. Quando chega fulana: “Ô Elô, vai ter um jogo”. Ela falava: “não vô. –Vou!” Então, meu filho, isso aí foi nossa perseguição. Vai no incentivo. Foi criando assim. Demorou muito tempo pra gente descobrir o que era bola.

Janete – Nós mudamos assim, no meu caso, em 70. Eu consegui montar um time em 82. Foi em 82 que a gente fez o primeiro jogo aqui contra o time que chamava “As Pioneiras”, com o José Bonifácio…


Jogo de quem?

Janete – Com os tapume de fumo, Ivone, dona do José Bonifácio. Gente finíssima. Ela também batalharam muito. Lutaram pelo pão com manteiga. Por que, na realidade, nós nunca tivemo um campo assim pra falar assim: “oh, nós temo esse horário pra treinar nesse campo”. Nunca! Até hoje!

Elô – Porque, como tinha muita crítica, ninguém abria espaço pra nós. Entendeu? E pra colocar as meninas no eixo, ia catando uma, catando outra, as mães veteranas era eu e ela. A gente sabia, a gente queria desenvolver…

Janete – Era você, a Maria Alice e eu…

Elô – Você, a Maria Alice e eu. Tinha um domínio duma bola. Toque e tudo. Aí é técnica, então, meu filho, foram três professoras em cima dessas daí. Muitas dela hoje tão aí crescidas, sabe bater um bolão e tudo. Não a gente cobrando, mas através da gente, da disciplina, saber cobrar uma lateral, saber obedecer ao professor, enfim, o que acontece dentro do campo. Mas foi muito bom!

Janete – Era difícil. Mas traz muitas lembranças boas. Era muito difícil pra gente. Crítica, horrores.

Elô – Se nessa década fosse liberado como é hoje, eu tenho certeza, pela idade que eu tenho e pela idade que ela tem, nós seríamos profissionais. E hoje já estaria aposentada. Se fosse liberado nessas décadas, anos 70. Enfim.

Elô relembra os campeonatos que disputou. Foto: Enrico Spaggiari.

Quando você fala proibido, era proibido mesmo?

Elô – Sim! Pra você ver que não era só aqui no Jardim Moreno. Era em geral. Hoje eu vejo aí o Globo Esporte falar. Puta mano, até me arrepio! Não é paia, eu posso tá até com panela no fogo eu paro pra ver os gols da seleção brasileira. Eu vibro!

Janete – Oh, nós fizemos um jogo. Um jogo com o Paulistano. Ali no José Bonifácio, que a gente tinha um acesso. Essa senhora, dona Ivone, ela tinha muita liberdade nos campos ali , por causa que ela fazia um trabalho social. Então ela conseguia espaço pra gente jogar. O campo, uma quadra que chama Tiradentes, no José Bonifácio. E nós fomos jogar contra o Paulistano. E eu lembro da Formiga. ela tinha 11 anos e jogou contra nós.

Elô – Eu vou falar que muitas vezes eu to assim, em roda de colegas, de futebol mesmo, e me chamam: “e aí Formiga!?”. É a Formiga ou a outra negrinha lá…

Janete – Pretinha!

Elô – A Pretinha! “E aí Pretinha, você joga na seleção brasileira!?”, “pô, quem diria!” Na década que eu comecei correr, se não tivesse liberado, você pode ter certeza que eu era uma guerreira! Você tá entendendo? Muitos me chamam de Pretinha e de Formiga.

Janete – Eu fico feliz. Eu fico feliz de ver elas onde estão e ao mesmo tempo triste pela Pretinha. Porque se você ver a situação dela, mesmo na época em que nós estamos. A menina não tem onde jogar e fazer o que ela faz pela Seleção. E joga muito. E na idade que ela tá. Ela tem quarenta e dois, se eu não me engano.

Elô – Se a seleção dos veteranos desse essas oportunidades pra nós, né?

Janete – Tinha que montar mesmo um de veteranos!

Elô – Eu penso assim, eu não acho tem que ter essa liberação. Só porque é jovem, aí se tá tudo certa a idade, entendeu? Poxa! Então monta uma equipe só dos veteranos e publica ela, deixa ela também. Por que os velho também come, bebe, paga conta. Não é só o jovem que tem que ser divulgado. E a nossa? Através do nosso que foi desenvolvendo, que foi liberando. Tudo isso daí tem que ser publicado aí. Não é? Porque se não fosse através da gente, dos mais velhos, como que os mais novos chegaria? Fala pra mim. A atitude que os meus filhos tem hoje dependeu de mim, da criação, não é? O futebol também dependeu dos antigos, das antigas que somos nós as veteranas . Não é minha amiga? Acho que tinha que abrir espaço também. Não vai tacar nós pra nós jogar bola no asilo. Nós merecemos também. Por que não? Sim! Uma quadra principalmente. Meu hobby. Eu sou mais é campão mesmo. Eu gosto de espaço pra correr, pra dribá. E uma coisa que eu odeio é fazer gol de pênalti. Eu odeio. Eu gosto de fazer meu gol na raça. Odeio, odeio!

Janete – (risos)

Elô – No campeonato, eu falei pra você, dava vontade de chorar. Esse campeonato era quando a Vitória tava nas minhas mão cara. E o time todinho, não esqueço não. Aí você tá ligado que a capitã e a técnica chegavam lá e: “Fulano de tal!” Falava a listinha e: “você vai pra baixo!”, E eu já escondida no vestiário. Não queria nem saber. Ia atrás de mim, meu. “Não, não, por favor não faça isso comigo. Deixa eu fazer meu gol na raça”. Não é dona de palco. É que eu odeio. Eu não gosto. Desse aqui eu me sinto orgulhosa. Desse jornal aqui. Essa foto aqui. Foi bem merecedora. Com o medo, chorando. Chorei nesse daqui, oh. Chorei Janete, nesse daqui. Sei que eu chorei. Sorteou as meninas lá. E eu: “Alê, eu não vou. Não vou”. E tava ali 0x0, entendeu? “Vamo pros pênalti!” Quero ver! Era o último dia do campeonato, você entendeu, Janete? “Vamo pros pênalti!”. Aí foi fulano, foi ciclano. E eu correndo na fila pra trás, eu não queria que chegasse minha vez!E eu ali. “Aí Elô, gol da decisão”. E eu a última da fila, eu. Aquela chuva! Aquele areião no Birutão. Nossa, Janete! “Elô, 2×2, tá na sua mão”. Eu olhei pras minhas companheira assim, tudinho, oh! Dá arrepio! Eu arrepio quando eu lembro dessa cena. As menina tudo de figuinha. Cabeça baixa. Nem um piu! Você vê, eu não minto pra você, fio. É um dia inesquecível! Eu me recordo, eu acho que até morta eu vou me lembrar desse dia. Tava ali Janete, e eu: “não, chama outra! Fulano, não, outra! Já bateu, já bateu”. Era eu e a capitã do time: “Não, eu não vou, não vou!” “Você vai!” Aí eu me peguei pra Deus. Olhava pra bola, olhava pra goleira. Aí cheguei lá, peguei na mão dela. Saí da fila! E a juíza apitando pra última apontar! Peguei na mão delas e falei: “Meninas, olha todas vocês pra mim, dentro dos meus olhos. Vocês gostam de mim? Vocês me considera? Vocês sabem que eu odeio fazer gol de pênalti, mas se eu errar, vocês me perdoa? Tá tudo na minha mão agora”. “Elô! Nós confiamos!”. Aquilo ali deu um incentivo. Eu tava com medo, doendo meu pé. Não que eu tava com dor, eu tava com medo! Eu não gosto de bater. Eu olhei. Eu chorava! Chorava! Aí eu olhei pra elas e falei, “olha ali, todas vocês”. E toda minha cabeça girando. Tava um frio! Um frio de doer a bexiga. E areião! Areia você pode pegar a bola, a bola segura. Não tem como a bola correr. E as meninas ali vendo: “Eu acredito! Elô! Elô!”. Eu ali olhei. Peguei a bola assim, não olhando pra goleira, mas olhando pra elas. O gol tava dependendo de mim; a vitória. Eu arrumei a bola. Arrumei bonitinha. Eu olhava pra carinha delas tudo ali na corrente, algumas nem olhava, ficava rezando. Aí eu voltei pra trás. Dei meus passo. Aí eu olhei pra goleira, aí eu olhei pra elas. “Ai, seja o que deus quiser!” Na hora que eu chutei não sei o que Deus colocou no meu pé que eu fechei o olho assim. PÁ! Quando eu fiz “Pá!”, que eu olhei a galera em cima de mim, olhei a bola no canto. Ô meu deus! Mas como eu chorei. Eu chorava, eu chorava. Eu não acredito, eu não acredito! E as meninas me jogava. Janete, você precisa de ver! As menina me jogava, parecia que ia me linchar. Até no buraco do ouvido tinha areia. Não tinha mais lugar. Foram três horas quando eu cheguei em casa pra tirar areia. Mas nós fez uma festança, meu fio. Aí já tinha esse jornal aqui lá de Ferraz de Vasconcelos. Aí os cara já começou a invadir o campo a bater palmas. Eu tão emocionada nem vi que tava sendo filmado, que tava tirando foto, nem nada. E aí ela: “Sorria, caraio! Tão filmando, tão batendo foto!”, “E eu lá quero saber de porra de foto? Eu quero saber do meu gol!”. Aí era aquela bagunça. Porque você faz o gol da vitória, é muita emoção, nossa! Quando eu olhei meio que eu vi assim, nossa, aquele dia, melhor que filme de TV. Mas foi da hora, foi da hora esse dia.

Equipe de futebol feminina. Foto: Enrico Spaggiari.

E como é quando vocês jogam uma contra a outra?

Janete – Vive me marcando direto.

Elô – A Janete fica muito brava quando jogo contra ela, viu! Olha feio pra mim! Eu jogo na esquerda.


Ela joga na esquerda, e você?

Janete – No canto da direita. Mas é automático, sabe? Pelo conhecimento que a gente tem, é automático, parece que puxa…

Elô – Tamo jogando em certo time, problema pessoal, chega lá e tem umas menina lá. Bater futebol. Aí pá, deu aquele relance. E ela já tá meio invocada. “E aí Janete, beleza?” Aí ela bate assim: ”Então quer dizer que você vai brincar conta mim”. Aí a gente vai brincando. Sei que você vai querer me zoar e solar, tá? Sei que ela fica agitada quando tá em campo. Quando tá jogando lado a lado com ela, beleza! Agora quando joga contra, é uma fera! Uma pimenta!

Janete – (risos)

Elô – Então ela fica muito brava quando a gente joga.

Janete – Fico nada

Elô – Fica, fica.

Janete – Quando eu entro em campo é uma coisa. Aqui nós somos amigas, lá nós somos adversárias. Então a gente divide bem isso daí. Nunca brigou. Brigamos por outros motivos! E não por futebol. Porque às vezes tinha uma lá que falava da gente, não gostava gente, e queria envolver a gente na briga. Mas nunca brigamo.

Elô – Brigamo muito por aí, no campeonato lá de Itaquá.

Janete exibe troféus que conquistou. Foto: Enrico Spaggiari.

Bom, falamos da infância. E quando é que vocês começaram a jogar em times?

Janete – Foi assim, oh. Eu fui treinar, assim, na rua. Treinar na rua. “Aí: vamos montar um time?” Aí chamei uma, chamei outra. Vamos montar com oito mesmo. Aí vinha uma, ficava olhando. E a gente ia jogando. Jogando assim entre nós. Aí vinha outra já ficava no time. Não sabia nada! Mas ficava.

Elô – Tinha umas que ficava na cerca olhando. Aí eu já me interessava: “Aí Janete, olha lá, aquela menina tá olhando, acho que ela vai querer brincar. Vamo esperar e acabar o time”? Chegava: “Aí fia, o moça, como é que faz pra brincar com vocês”?, “Por que? Você gostou? Você quer brincar? Domingo que vem a gente vai treinar de novo. Por que a gente tá só treinando, brincando”. “Ai, é que eu tenho vergonha, que eu tenho que pedir pra minha mãe”. Com esses negócio, que a gente já tá envolvida com gente também. Aí começamo a marcar, entendeu? Reunimos todos, começamo a montar o timinho, completou.

Janete – Completou. Aí começamo a sair atrás de adversário.

Elô – Completou. Começamo a andar por aí, sem ter liga, sem ter nada. De pé! Aí passo ali na quebrada, sabíamos que ali tinha um time. Jogava um amistosinho. “Ah, mas a gente não tem chuteira!” “Que chuteira! O que?!”

Janete – Era kichute.

Elô – A gente jogava de kichute! Era uma coisa que ki-chute nós tava fidido e aí era maior política. Aí a gente foi desenvolvendo. Aí montamo um timinho em Guaianases. Aí começamo a desenvolver. Aí nesse desenvolvimento que a gente foi jogando com os adversários, que aí tinha outro timinho mais falado. Aí acabou que nós deixamos nosso time. Fomo ingressando em outros times por aí. Aí todo domingo tava naquele time, aí chegava outro time e a pessoa: “aí Elô, quer brincar?”, “Aí Janete, quer brincar?” E nisso a gente foi indo. Eu não tenho pra você o relatório do total de quantos times eu já brinquei. Você entendeu? Por que um via, outro via. É igual ao caso que eu falei pra você. Tava jogando lá no Terceira Idade. Aí tinha um olheiro num sei das quantas, só que de outra cidade. Nós tava ganhando nesse dia, já tinha feito 3 gols, tava 3×0 pro time que eu tava jogando. Aí acabou o primeiro tempo, to indo lá pra tomar uma água. Aí chegou o rapaz e falou assim: “ei, você brinca nesse time?”; “Brinco por quê? Qual o problema?”; Aí ele falou: “Não, é que eu tenho um joguinho, só que não é aqui em São Paulo, é no Rio de Janeiro”. Aí eu falei: “aí você tá de brincadeira!?” E ele: “não, eu vi seu futebol”. Mas eu falei assim: “Mas eu não posso meu querido, que eu tenho duas crianças”. “Não, quanto a isso não tem problema, porque vai ficar na hospedaria, banca seu filho, banca você, e tudo”. Então, pra mim, foi uma coisa linda! Sabe quando você tá brincando ali, de repente chegar alguém e fazer um convite pra você. Pô!! Conhecer o Rio de Janeiro. Que eu nunca sai de São Paulo. Você tá entendendo? Então pra mim foi uma vitória! Nossa! Eu sai do campo alegre. Não, mas eu não vou sozinha. A Nildinha, que bateu maior bola comigo. Ela de meio direita, eu de meio esquerda, então já fazia aquela tabelinha ali em campo, as duas. Você vê que é uma parceira minha de lado a lado. Você chegar até hoje, chamar ela pra jogar um fute, ela vai pra cima. Então montava eu e ela. Aí chamei ela. Aí, o ex-caso dela não deixou, chamei a Alê, de goleira: “oh Alê, vamo? Pessoalzinho sossegado, vamo?”, “ô Elo, vamo!” “Oh companheira, é assim, assim assado”. Tem condição dela ir? Por que naquela época era sozinha, só eu e meus filhos. Mais a bagagem, porque eu vou ficar três dias lá. Isso daí foi numa sexta-feira, eu tinha que viajar na sexta. E vem, e entra em contato com minha mãe. Minha mãe não queria, por causa dos netos. Eu falei: “não mãe, quem pariu o Mateus que se balança”. E fui pra lá, foi ótimo. Me deram todas as assistência. Meus filhos não passou fome. Tinha quarto pra mim dormi com as criança. Dentro do aeroporto do Rio de Janeiro. Nossa, foi goleada e mais goleada. Nesse dia eu lembro, nós ganhamo de 8×1! Foi 5 gol da vitória, não me gabando. Foi lindo, lindo! Cheguei aqui na segunda-feira de madrugada. Mas foi gostoso demais. Inclusive, quando eu cheguei de lá, eu tentei entrar em contato. Quando eu cheguei aqui, eu vim voando, porque tinha um horário certo de passar na TV Cultura, e, minha mãe, por ser evangélica, não assistia televisão. E eu entrei em contato com a família que tinha filmadora e tudo, porque ia passar na Cultura! Foi tanto que quando eu cheguei aqui, eles tavam assistindo e eu vi meus lance todinho. Então aquilo pra mim foi da hora! Minha mãe sendo evangélica não gostava de assistir televisão, então minha mãe, tava ali! Não foi a troco de nada, não foi a troco de dinheiro, mas foi atrás de uma coisa que eu amo, que é o futebol.

Janete – O negócio da gente é o sonho.

Elô – Foi demais!

Janete – Quando você tem um sonho na sua vida, você tem tudo.

Elô – Desde que ele seja realizado, né?

Janete – Por menor que você realize ele, você tem tudo.

Elô – Ah, eu realizei bastante.

Se pudesse Elô reviveria tudo novamente no futebol feminino.Foto: Enrico Spaggiari.

Quais foram as maiores dificuldades que vocês enfrentaram, na época dos times, pra realizar esse sonho?

Janete – Desde as financeiras, até a compreensão. Casa. Todas!

Elô – É igual hoje, sabe? Eu fiquei pensando, puta merda! Graças a Deus por me dar saúde em primeiro lugar. Sábia, que é a sabedoria. Mas se voltasse atrás e eu tivesse umas condições de vida melhor, eu mesmo tinha empenhado a minha carreira. Não só a minha, como a do meu filho também, porque ele chegou até a viajar também e foi iludido, você tá entendendo? E eu, se eu pudesse mesmo, na minha década mesmo, eu tinha corrido por mim, pra alcançar meu auge. Nem se eu tivesse aposentada hoje. Por que era o meu hobby mesmo e tudo de bom que eu tinha, ser divulgada, ser falada. Não por causa disso. Porque eu queria correr mesmo. Até hoje, com a minha idade, que eu to com 46, eu quero ver alguma menininha me catar aí, me carregar no carreirão. As mesmas coisas que eu fazia na minha adolescência. Apesar que tem o que? Deve ter uns 7, 8 ano, que eu parei totalmente. Eu topei com os moleque aí pra tirar um racha. Esvaziou o campo, já chego chegando: “e aí, vou tirar uma rachinha com vocês!”, “Epa! A Elô não! A Elô machuca!” “Epa, epa, epa”, “Ah não, eu quero jogar pro lado da Elô!”, “Ah não, não sinhô, quem vai escolher aqui sou eu, vou catar os piorzinho, tá bom?”. Aí todos quer ser o piorzinho, pra jogar do meu lado. Só que a gente brinca, tira maior onda aqui. O meu netinho tá aqui, eu tiro maior bola, levanto a bola, “oh, vó bate!” Mas é uma bolinha! A gente fala bolinha, hoje é petequinha, né? Hoje é peteca, que eles fala, né? Na nossa década se falava “vamo bater umas bolinha!”. Então, eu não parei. Eu parei de exercer assim por espaço. Não fisicamente. Eu tenho meu pique hoje. Faço meu pititis no meio de campo.


Janete, como era o cotidiano? As jogadoras levavam os filhos?

Elô – Sim!

Janete – Levava. Meu filho mesmo foi criado no meio do campo.

Elô – Os meus também.

Janete – Meu filho com 35 anos hoje, levava o carrinho. Diretoria, quem se passava por diretor, técnicos, amiga que tava na reserva, olhava a criança pra gente jogar bola. Ficava olhando as criança nossa. Pra gente poder jogar.

Elô – E quando a gente fazia gol eles invadia o campo! “Ai mãe! Mãe, mãe!” “Esse é seu, filha!”. Aí vinha o moleque cobrando: “mãe, falta o meu!” Aí tem que fazer. Dava aquele incentivo. Entrava e dominava o meio de campo! “Pô filho!”. Hoje ele tá com 25 anos e ela tá com 24. Ela é mãe já! E pra você ver que é desde pequenininho. Já tem dois fruto já. Um incentivo danado a gente tinha.

Janete – Na década de 90, que eu não recordo bem a data, nós participamos da Copa Kaiser de futebol feminino. Ali nos Três Maria.

Na época em que atuava como jogadora. Foto: Arquivo pessoal.

Como foi essa Copa Kaiser, que depois não teve mais?

Janete – É, não teve mais. Foi terrível, porque a gente não tinha condições nenhuma. E quem participou foi time grande, tipo São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Elite de Itaquera e vários outros time. Nós pegamo terceiro lugar. Só que não tínhamos nada.


Qual era o nome do time?

Janete – Era o Onze Estrelas. E sabe como que era o fardamento que a gente fazia? Quem tem cartão de crédito? Achava alguém, maior de idade que tem cartão de crédito pra comprar as camisa. Comprava primeiro as camisa. Aí o mês que vem pagava as camisa. Fazia aquela vaquinha, vendia até latinha. Alumínio, ferro-véio. Comprava as camisa. Quando era no próximo mês, comprava os calção. Tendeu? Isso é quando, quando dava. Quando não dava ia com o uniforme véio mesmo.


Recentemente estive numa loja de fardamento pro pessoal da várzea. Na época, eles faziam fardamento especial pra mulher?

Janete – Não! Não, era o mesmo masculino. Chegava lá, comprava um fardamento, um shorts mesmo menores, que seja tipo do dente-de-leite, sabe? Que eram menores pra ficar justinho nas meninas, né? Sempre um número menor. Ficava enorme. Procurava com que as menina jogasse de Topper, e um shortinho mais apertadinho em baixo, entendeu? Por causa de cair um tombo, né? Essas coisas. Mas era bom! Um kichute, uns meião, às vezes até emprestado de outro time. Pra gente poder jogar. O Onze Estrela ficou treze anos consecutivos. Depois o que aconteceu? Preconceito. Porque as meninas começaram a se casar. Já num deixava jogar. Outra tinham esposo. Outras quando o time parou, com uns dois anos, várias delas desandou. Desandou pra bola, né? Esse time tem história.

Elô – Eu guardo todo o fardamento quando o time acaba. E falam: “ué, se não vai jogar mesmo, manda a camisa embora! Guardar com carinho!?”. Eu pelo menos as minhas eu tenho. Tenho mais aí! Eu não vou virar o guarda roupa aqui pra procurar, mas eu tenho. Todas eu trago e guardo. Parou o time … aí a dona Vera, não parou o time? Aí eu pergunto: “pode levar?”, “Ih pode! Leva!”. Aí meu filho catou. Outro time que eu joguei foi o Pérola Negra! Taí ela que não me deixa mentir.

Janete – Eu joguei também, ué!

Elô – Você tá vendo o fardamento? Todas posições! Eu guardo. Eu mato a cobra, mostro o pau e a cobra suja de sangue! Tá aqui, oh! Esse aqui é do mesmo que eu montei. Aqui o fardamento das meninas, oh. Esse daqui foi uma tal de Esternola. Tava se candidatando aqui em Guaianases. Ela forneceu o fardamento pra mim. As camisa tá completa. Os calção a gente tinha que se virar pra comprar, os meião. Só as camisa que ela deu completa. E riscou esse número pra poder pintar por cima. Aí nós pintamo. Passei o dia todinho pintando as camisa. Com essas numeração atrás, tá vendo? Eu guardo tudo, Janete. Se quiser um dia montar um time novo eu tenho, oh, pelo menos as camisa. Camisa, luvas, tem uns cartão aí guardado. Apito. Até o meio tava bom. Agora com calção: “ah sujou, hoje tô daquele jeito”. Sujou. Sabe? Aqueles papo? Nessa brincadeira levava o calção e eu acabei levando bica, né? Pelo menos as camisa ficou completa. Oh a posição da Batata. A camisa 11, lembra? Ah, eu guardo tudo mesmo. Esse aqui fui eu mesma que montei. As menininha correram muito nesse campo aí.

Janete mostra camisas que vestiu ao longo dos anos. Foto: Enrico Spaggiari.

 

Janete mostra camisas que vestiu ao longo dos anos. Foto: Enrico Spaggiari.

 


Confira a segunda parte da entrevista no dia 25 de julho.