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Emerson Leão

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Daniela Alfonsi

40 Anos da Copa de 1978:

Depoimentos de jogadores da Seleção

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Emerson Leão durante a entrevista no Museu do Futebol.

 

Nota Explicativa

Esta série é parte integrante do projeto “Futebol, Memória e Patrimônio”, desenvolvida entre os anos de 2011 e 2012, com o apoio da FAPESP. A pesquisa foi realizada em parceria pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), equipamento público vinculado ao Museu do Futebol/Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Nesta seção, serão apresentadas as edições de 10 entrevistas concedidas por atletas brasileiros que estiveram presentes na Copa do Mundo de 1978, na Argentina, a décima primeira edição do torneio organizado pela FIFA. São eles: Emerson Leão, Oscar, Edinho, Carlos, Valdir Peres, Reinaldo, Zico, Nelinho, Zico, Rivellino e Polozzi. O propósito dos depoimentos, com base em sua história de vida, método caro à História Oral, foi rememorar as lembranças dos futebolistas acerca de sua participação na competição, de modo a destacar os preparativos para o Mundial, os jogos e a volta ao Brasil, após a conquista do título inédito. O depoimento a seguir foi concedido no dia 7 de outubro de 2011, no Auditório Armando Nogueira, Museu do Futebol, em São Paulo. Para assistir ao vídeo com a gravação completa, acesse aqui.

Entrevistadores: Bernardo Buarque (FGV/CPDOC) e Daniela Alfonsi (Museu do Futebol); Transcrição: Jonas Dias da Conceição: Edição: Pedro Zanquetta

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Emerson Leão. Ilustração: Xico.

Emerson Leão

Emerson Leão nasceu no dia 11 de julho de 1949, na cidade de Ribeirão Preto – SP. Aos catorze anos, mudou-se para São José dos Campos. Disputava partidas de várzea e, em seguida, começou a jogar pelo time da Esportiva. Em 1966, tornou-se atleta profissional pelo São José. No ano seguinte, atuou no Comercial de Ribeirão Preto. Em 1968, o Palmeiras comprou seu passe e passou a ser considerado uma jovem promessa. Na Copa do México, foi convocado como terceiro goleiro. Nos anos 1970, assumiu a condição de titular da Seleção. No Palmeiras, conquistou o bicampeonato brasileiro, em 1973 e 1974. Defendeu a equipe nacional em 81 jogos. Foi titular na Copa da Alemanha de 1974, ocasião em que o país obteve o quarto lugar. Foi novamente titular na Copa de 1978, na Argentina. No ano seguinte, foi contratado pelo Vasco da Gama. Em 1980, transferiu-se para o Grêmio, time pelo qual foi campeão gaúcho e campeão brasileiro. Foi reserva na Copa de 1986, no México. Encerrou a carreira no Sport, aos 38 anos. Desde então, atua como treinador de grandes clubes e chegou a ter breve passagem pela Seleção Brasileira em 2000.

 

Depoimento

 

Peço que você se apresente e fale o seu nome completo, o local e a data de seu nascimento.

O meu nome é Emerson Leão. Nasci no dia 11 de julho de 1949, na cidade de Ribeirão Preto. Tenho pais e avós italianos. Logo cedo, descobri que o futebol ia fazer parte da minha vida. Sem procurar, descobri. Se quer ser profissional, você necessita de algumas coisas além do normal. Praticar esse esporte no Brasil, todo mundo faz, principalmente sábado e domingo. Precisa de algo a mais, que no meu caso estava fadado a acontecer. 

Conte um sobre a sua família. Você tem irmãos?

Sou de uma família de três irmãos, os outros dois são médicos. O meu pai era alfaiate, meus irmãos estudaram medicina muito cedo e eu  comecei a jogar bola. Em Ribeirão Preto, tínhamos dois grandes clubes: o Comercial e o Botafogo. Eu torcia pelo Bafo e ia sempre ao campo no sábado e domingo. Era tão novo que não podia assistir o jogo noturno, não pela rivalidade, mas pelo perigo – eu precisava ir a pé de um bairro ao outro.

Quando você começou no futebol?

Logo cedo, praticava nas esquinas, nos colégios, aprendendo e mostrando ao meu pai que podia jogar e estudar ao mesmo tempo – que fazia parte do mesmo sangue dos irmãos que iam se tornar médicos.

Um dia, formamos um timinho de esquina e nos reunimos, cada um carregando uma enxada na mão. Subimos num bairro que hoje é populoso, mas, antigamente, não tinha nada e fizemos o nosso próprio campinho. Jogávamos, treinávamos e gostávamos daquilo. Interagíamos e era maravilhoso entre crianças. Isso aos dez ou 12 anos de idade. Aos14 anos, meus pais, por questões de negócio, mudaram a convite dos irmãos deles para montar uma padaria em São José dos Campos, no Vale do Paraíba.

Havia um padeiro que jogava futebol de várzea no sábado, após o trabalho. Nessa idade, eu media 1,82 ou 1,83 metros de altura, assim sendo, ele perguntou ao meu pai se eu não sabia jogar bola. O meu pai sugeriu que ele me perguntasse. O padeiro disse: – “Você joga futebol?”. Respondi: – “Mais ou menos”. – “Você joga de quê?”. – “De goleiro, quando deixam. Senão, vou no ataque ou em outra posição”. Ele convidou: – “Você não quer jogar amanhã? Vamos jogar aqui perto, no outro quarteirão. O início é duas horas da tarde. Se você estiver aqui, vem conosco”. – “Está bom”.

Levei uma chuteira na minha mala, almocei e fiquei aguardando. Saímos em uma turma andando e o campo ficava a 500 metros de onde estávamos. Ficava atrás do estádio da cidade, um campo pequeno, quase de várzea. Seria um segundo quadro que jogava às duas horas. O primeiro jogava às quatro. Claro, já que tem que sofrer no sol, sofra o do segundo quadro, não é? [Risos]

Joguei, nosso time perdeu de dois a um e consegui fazer algumas defesas. Voltei ao vestiário, agradeci a ele e pedi: – “Só gostaria que você me informasse de que jeito chego na minha casa pois não sei ir”. Ele falou: – “Não. Você não irá voltar à sua casa agora. Vai jogar no primeiro quadro também”. Joguei nos dois, acabou e eles me deixaram em casa. O meu pai perguntou: – “Como foi?”. Comentei: – “Ah, legal. Mas o campo é ruim”. Me acostumei a jogar em campos melhores em Ribeirão.

Para a minha surpresa, logo depois, apareceu um senhor querendo conversar com o meu pai dizendo que me viu  jogar e se eu poderia fazer um teste no profissional do São José dos Campos. O meu pai disse que não, pois eu tinha apenas 14 anos. O visitante disse: – “Ele tem só 14 anos? Nós pensamos que ele tivesse 18 ou 20”. Meu pai: – “Não, ele tem que estudar, já matriculei ele”.

Dez dias se passaram, começou a semana do aluno e havia um torneio. Fui convidado a jogar futebol de salão. Fiquei no gol do meu colégio e, por coincidência, participava também o treinador do profissional do São José, um professor de educação física (posteriormente, ele veio a ser técnico até do São Paulo, chamava-se Diede Lameiro[1]). Me viu jogar e voltou a me convidar. Eu não tinha interesse nenhum. Num belo dia, insistiram e aceitei: – “Vou lá”. Aos 14 anos, fui treinar nesta equipe profissional de quarta divisão. Eles gostaram, fui aprovado, meu pai teve que assinar um documento e me tornei atleta profissional, ganhava dinheiro.

Fiquei ali durante um tempo grande e não tive chance de regressar a Ribeirão Preto, que tanto gostava. Deixei muitos amigos jogando no infantil e no  juvenil do Comercial. Passaram-se quatro ou cinco anos e o time acabou por falta de dinheiro, em compensação, ganhou a quarta, a terceira, a segunda divisão e subimos todos juntos. Passei a ser um profissional. Pensei: – “Quer saber de uma coisa? Vou até Ribeirão ver os meus amigos”. Conversei, fiz a seleção de novo, fui aprovado e me transferi. Frequentava a escola à noite, treinava à tarde e fazia o tiro de guerra de manhã.

Fiquei um ano. Neste período, me observaram e o grande Palmeiras me contratou durante três meses de experiência. No final, compraram o meu passe. Fiquei definitivamente vinculado ao Verdão, me convocaram para a seleção brasileira e, em 1970, foi a minha primeira Copa. Se observarmos, de 1964 a 1970, são seis anos. Aconteceu muita coisa sem eu esperar.

Sua família, pouco a pouco, se rendeu e aceitou a ideia de que você seria jogador?

Exatamente. A minha família entendeu que eu podia estar presente nas duas coisas. Ou melhor, não só a família, entendi que era possível trabalhar jogando futebol e estudar. Não tínhamos uma disputa dentro da minha casa. Os meus dois irmãos acabaram entrando na medicina. Precisava correr atrás deles, sou o caçula da família. Em São José dos Campos, terminei a escola e passei na faculdade. Tive a oportunidade de ingressar e mostrar à minha família que também poderia e iria terminar. Coisa que ocorreu.

O meu pai, como todo bom italiano, não torcia pelo Palmeiras e sim pelo Palestra Itália. Falava dos goleiros do clube demonstrando uma paixão louca e, sem querer, viu o filho dele lutando para ser o goleiro titular. Isso foi bom e o acalmou. [Risos] Me deu, financeiramente, um lastro de responsabilidade profissional. Ganhei dinheiro cedo. Não o monte de dinheiro que ganham atualmente, mas ganhei. E me tornei adulto, responsável muito precoce.

E precoce também fui a uma Copa do Mundo onde, sem imaginar, fomos campeões. Aí, o meu mundo veio abaixo. Eu estava no andar de cima, pude contemplar, de uma maneira pessoal, o que aquilo poderia projetar nos próximos anos e não ficar tão envaidecido, tão bobo e tão metido por ter alcançado precocemente um reconhecimento popular. O início da minha carreira evoluiu muito diferente do que a maioria pensa.

Quando você entrou no time, a sua ligação já era de torcedor palmeirense por seu pai ser palestrino?

É e me causou um problema: o meu pai era muito palestrino, contudo estava em stand by. Adormecido, não torcia mais pois éramos de Ribeirão Preto, mudamos para São José e ele perdeu um pouquinho o vínculo de torcedor do Palmeiras. Quando viu o filho dele naquelas condições, voltou com tudo. Lembro das lições que ele me dava falando do grande goleiro do Alviverde que viu jogar, o Oberdan Cattani[2]. O Oberdan tem 92 anos, um excelente goleiro. Meu pai contava que ele era magnífico, que pegava a bola usando apenas uma mão. Eu brincava dizendo que parecia fraco, pois deveria usar as duas mãos.

Essa identificação perdurou quase 15 anos, se contarmos a temporada que trabalhei no clube nas funções de atleta e técnico. Ao todo, tenho 24 anos na função de jogador, 20 e poucos de treinador e 47 anos de futebol. Sou filho desse esporte, um produto do meio. É bom saber e agradecer, porque muita gente conquista e esquece disso. Não reclamo de nada, só agradeço.

Tanto em Ribeirão Preto quanto em São José dos Campos, como aconteceu sua relação de torcedor? Você acompanhava o Campeonato Paulista e seleção brasileira?

Na época, quase não havia televisão. Lembro que, garotinho, torcia pelo Comercial. Tínhamos uma turminha de esquina de bairro que íamos aos estádios. Quando chegávamos lá, pulávamos o muro para assistir. E, quando terminava a partida, pulávamos o alambrado com a finalidade de andar ao lado dos atletas, ídolos indiscutíveis. Aguardávamos ansiosamente até irmos ao campo no domingo.

Antes, você podia andar junto a um torcedor do outro time normalmente, tínhamos isso dentro da turminha. Íamos e voltávamos a pé. Andávamos quilômetros, quilômetros e não sentíamos nada, de tanta alegria juvenil. Passei a fase de adolescente rapidamente e sem notar. Fiquei sério depressa. O pessoal fala que sou bravo e sério até hoje, não sou nada disso. Quando estou trabalhando é que tem que ser, entendeu?

Ribeirão Preto sempre será o meu porto seguro. Não sabia que era possível me tornar um jogador profissional. O tempo passou, ainda estou presente, sou treinador e o relacionamento que tenho é estreito. A seleção brasileira é um grande elenco que passou a ser motivo de alta responsabilidade. Na medida em que você começa a fazer um fã-clube, a penetrar nos lares, a fazer parte da conversa do almoço e do jantar de uma família, você precisa se preocupar. Fiz e continuo fazendo isso.

Como você se descobriu goleiro? Atuou primeiro em outras posições?

Na realidade, não me descobri goleiro, eles que me descobriram. Dificilmente jogava no gol. Eu chutava forte, jogava no meio dos adultos e sempre no ataque, driblando e correndo – tinha uma saúde extra. Um dia, o gol me fascinou. É uma prática coletiva, não adianta você ser uma estrela solitária. Vi no goleiro uma coisa diferenciada, uma individualidade. Pensei: – “Pô, que coisa legal. Onde todo mundo chuta, ele pega com a mão. Todos querem fazer gol e a função dele é não deixar”.

Percebi que o goleiro podia fazer sucesso e ser notado, pois fazia tudo ao contrário do que todo mundo pensava. Você vai ao estádio ver o êxtase do gol. Eu iria trabalhar  contra esse êxtase, era o anti. Todo mundo usava a mesma cor de camisa, o goleiro usava uma diferente. Aquilo me fascinou.

Sou uma pessoa assim: elástica, arrojada, agressiva e de personalidade. Percebi que, a fim de conduzir aquilo, você precisava ter brilho próprio. Despertei este meu outro lado sozinho. Mesmo autodidata, pois antes não existia treinador de goleiro. Acabei me descobrindo, fui para o gol e me senti perfeitamente. Só achava muita ingratidão o que acontecia aos goleiros. Até hoje é difícil, você tem que trabalhar muito. Mas, uma vez que gostava, não me arrependo.

Você possuía referências e ídolos no futebol?

Tinha referências, do mesmo jeito que toda criança. A minha esbarrava na distância. Eu via o futebol carioca somente quando ia ao cinema. O Niemeyer[3] fazia aquelas propagandas antes de estrear o filme e, então, vi o Maracanã cheio. Nem conhecia São Paulo. Os meus maiores ídolos eram os locais do Comercial e Botafogo.

Naquele tempo, eu torcia pelo Bafo, mas não deixava de admirar alguns jogadores do Botafogo. Gostava de um goleiro do Botafogo, um marco de atleta regular e de estilo, chamava Machado[4]. Procurava vê-lo e imitá-lo. Ele nem sabe disso. [Risos] E as coincidências… Estudei num colégio em Ribeirão Preto que a inspetora, por incrível que pareça, era a mulher do Machado. Eu estava sempre perto e ela não sabia o porquê. Foi pelo marido dela, que eu era excessivamente fã.

Os meus ídolos do passado foram aqueles que estavam próximos. Depois, na Copa do Mundo – aí tem um lastro grande, a convivência junto dos grandes goleiros mundiais –, me tornei amigo deles e virou tudo igual.

Ainda morando em Ribeirão ou São José, via os jogos do Palmeiras?

Não. Dependendo, o meu pai nos permitia assistir aos jogos. São José era tão próximo a São Paulo, mas ele não me deixava ir com os meus amigos para ver na capital. Não tinha muito acesso, sabia através de rádio, do jornal e de escutar falar. Os grandes ídolos de São Paulo eram um negócio indescritível para mim… Poder olhar um jornal estampando uma fotografia deles. Aquilo me cativou, me levou até a sonhar alguma coisa.

Quando eu jogava em Ribeirão Preto, meu primo falou: – “Olha, não quer ir a São Paulo? Você não está trabalhando, é domingo. Vamos assistir a uma partida da seleção brasileira no Pacaembu.” Iam jogar contra a Rússia, o goleiro deles se chamava Yashin[5], o Aranha Negra (ele se vestia todo de preto). Então, falei: – “Ah, com imenso prazer. Assim vejo o Aranha Negra jogar”. Ele estava quase se despedindo.

Nós fomos de carro, peguei carona. Sentamos na arquibancada. O Brasil ganhou de dois, o Yashin tomou dois frangos. [Risos] Uma decepção. Mas sabia que aquilo poderia acontecer. E eu, sozinho, pensando na arquibancada: – “Aquele goleiro do Brasil podia machucar e o cara falar: ‘Olha, quem na arquibancada sabe jogar no gol, desce aqui’”. Imaginei: – “Qualquer hora vou jogar nesse gol”. Conclusão: cansei de jogar no gol da seleção brasileira. [Risos]

Quando digo que não sei mais jogar futebol, os caras brigam:- “Como você não sabe?”. Não sei. Eu soube até o dia em que parei. No dia seguinte, não sabia. Fiz as coisas com tanto carinho e empenho que não sinto saudades. Tudo o que fiz me deu muita alegria. Não volto atrás para jogar. Quando me convidam, costumo dizer: – “Olha, sou ex-atleta”. Ex é ex, não é veterano. Quem é continua jogando. Semana passada, encontrei o Ademir da Guia: – “Poxa, você precisa jogar conosco”. Respondi: – “Fazer o quê? Não sei, Ademir”. Ele deu risada.

Qual é sua lembrança mais remota de Copa do Mundo?

Não sei… Comecei a entender Copa do Mundo em 1966. Lembro que o meu irmão mais velho ia ao cinema, pois não queria escutar o jogo, tinha medo do Brasil perder. Ele ficava sabendo o resultado quando saía. Via aquele movimento em casa, em Ribeirão Preto. Pouco significava.

Gozado que em 1970, eu estava na Copa. Para você ver o quanto a coisa ocorreu de uma forma rápida, um estopim muito pequeno. Tínhamos que correr. Posso dizer que caí do céu, sendo a primeira vez que a seleção brasileira levou três goleiros[6]. Existia uma igualdade e eu era o mais jovem. O Ado era o segundo e o Félix, o mais velho (querendo parar). Eu e o Ado fomos convocados na classificatória. Trocaram o treinador Saldanha[7] – que convocou dois garotos – e colocaram o Zagallo, que trouxe o Félix. Deixamos de ser titulares e ele começou a jogar por ter experiência e ser mais velho. Isso não quer dizer que seja o melhor. Acabou jogando, fomos campeões e deu tudo certo.

O primordial é que foi um aprendizado intenso, observava tudo, tinha um sabor de quero mais. A coisa mais bonita que um jovem pode ter é esse sabor. Vivia sempre buscando. Se pudesse dormir tendo a bola do meu lado, eu dormiria. Convivi perto dos grandes craques, inclusive no mesmo quarto do Pelé, escutando aquele negrão tocar violão e cantar mal pra caramba. [Risos] Percebi que, quando a Copa do Mundo terminasse, o gol do Brasil estaria vago, pois aquele que jogou não voltaria à próxima Copa. Percebi: – “Tenho que me empenhar cada vez mais”.

Eu e o Ado fizemos um pacto meio infantil. Falei: – “Olha, nós dois, hein. Vamos ver quem será o titular da próxima Copa”. Voltei ao Palmeiras, batalhei, batalhei e acabei na Copa de 1974 de novo. Sem o Ado ao meu lado, que era meu amigo e acabou ficando por circunstância particular. Ele jogava numa grande equipe – o Corinthians –, um grande goleiro, dez vezes mais simpático do que eu e um carisma fora do campo muito maior do que o meu. Mas ficou pelo caminho em razão de algumas coisas que aconteceram. Se iludiu um pouco, não é? Tive pé no chão e um porto seguro, a minha família, que me dava um lastro de tranquilidade.

Em 1972, aconteceu a Minicopa[8] no Brasil, eu fui titular e nós ganhamos. Aquilo, foi um diferencial maravilhoso, não posso e não vou esquecer. Enquanto ainda sou treinador, vou passando isso em frente. Tem gente que nem sabe que existe dificuldade no futebol.

Como houve o primeiro contato no São José? Você mencionou que o seu pai precisou assinar. Teve muita resistência? Precisou fazer a cabeça dele?  

Antigamente, nenhum menor de idade poderia assinar contrato profissional de futebol sem a autorização do pai e da mãe. Aos 14 anos, eu parecia um bebezão grande. Fui aprovado e me ofereceram um dinheiro mensal para jogar: – “Pô, tudo que eu gosto e ainda me pagam? Ótimo”. [Risos] Conversei com o meu pai, ele entendeu a situação – antes, o jogador era muito mal visto. O garotinho se metendo nesse meio perigoso. O meu pai conduzia. Todo ano me davam um aumento. No quinto ano, ao invés do aumento, me deram o passe, pois não tinham como pagar, o clube faliu.

Não parei de estudar. Era um garoto que não costumava frequentar as concentrações de terceira, ou quarta divisão. Afirmava: – “Só isso que eu não faço. Durmo na minha casa, a minha cama é melhor e não vou a lugar nenhum. Vou comer bem, fico na minha casa”. Já namorava. Vivia uma vida do interior, saudável. Aprendi muito. Obrigado a quem me ensinou.

Você falou isso do atleta ser mal visto. Era mal visto pela associação à malandragem e as origens sociais saídas das classes mais pobres…

Jogador de futebol era sinônimo de mau elemento, mau caráter, bandido, safado. Se você passasse na frente de uma casa e uma garotinha bonitinha te olhasse, a mãe fechava a porta. Agora, escancaram. [Risos]. Isso eu passei. Depois de um tempo, vão vendo quem você é. Estava chegando da cidade. Conheceram os meus pais. Eu sempre ia direitinho à escola.

Às vezes, íamos jogar em outro interior mais forte. Íamos numa Kombi, o nosso treinador dirigia. [Risos] Almoçávamos rápido e entrávamos em campo. Ganhando ou perdendo, saía briga e eu era o único que podia tomar banho, colocar a roupa e sair. Muitas vezes, via uma briga, ficava de lado olhando – do lado da torcida brava – e nem percebia que eu acabara de jogar ali.

Essa coisa de preconceito, no passado, tinha demais. Individual, familiar, profissional, escolar. Uma vez, faltei em uma prova e o professor de português, bravo pra caramba, me deu zero. Foi a primeira vez que o contestei: – “Por que o senhor está me dando zero?”. – “Porque você faltou na prova”. – “O senhor sabe os motivos pelos quais faltei na prova?”. – “Não. Não sei. Se você me falar, posso saber”. Respondi: – “Legal. Quando alguém representa alguma coisa superior a nós, qual é a escala de perdão?”. – “Superior a nós, total”. – “Fui representar a cidade de São José dos Campos e tive que faltar a aula”. Ele perguntou: – “O que você faz?”. Eu disse: – “Jogo futebol”. – “Você está de brincadeira?”. Expliquei: – “Não. Atuo no profissional, assim, assim”. Ele: – “Sabe que você tem razão. Não levará zero, estude que, na semana quem vem, fará a prova”. Finalmente, o futebol compensava. Mas, os preconceitos existiam. 

E como foram as condições de treinamento e material esportivo nessas séries inferiores?

A pior coisa do mundo e a maior maravilha que alguém pode passar. O dia a dia não havia limite. A semana e o fim de semana não tinham rotina. Eu me divertia mesmo, era um CDF, caxias pra caramba, rabugento. Conheci todo o interior de São Paulo. [Risos] Um garoto tão inocente que via coisas acontecerem dentro do vestiário e depois ia perguntar ao meu irmão que estudava medicina. Você imagina o ambiente… Eu, um garoto de 14 anos. – “Pô, o que é isso? O que esse cara está tomando? O que está fazendo? O que está massageando?”. Isso foi maravilhoso, um mundo à parte. Passávamos por cima disso, sabíamos que na frente tinha algo mais. O Shangri-la estava lá. O duro foi chegar. Se tivesse bastante empenho, você chegava.

Imagino que o goleiro sofria mais. Naquela época, usava joelheira, cotoveleira.

[Risos] É verdade. Sofria na chuva, aquilo encharcava de água e ficava pesado. Mas tudo isso fazia parte. Não dava conversa e nada me distraía, me deixava raivoso. Nada. Eu ia cantando, voltava cantando e tudo bem. Se não tem arroz, vai o pão. Nunca exigi muito daquele que não podia. Sempre exigi mais de mim mesmo, pois acho o seguinte, o outro, numa quarta divisão… Aqui tem ex-atleta de time grande aos 30, 40 anos de idade. Você tem 14 anos. Precisa trabalhar para ajudá-lo.

E sua mãe, o que achava disso?

Achava bom. [Risos] Minha mãe era uma italiana maravilhosa, uma mulher loira, de olhos azuis, apaixonada pelo meu pai e vice-versa. Exemplo de situação que perdura, apesar de não estarem vivos. Sou casado há 35 anos com a mesma mulher – namorei durante sete anos. Hoje em dia, é difícil acontecer. Eu via o exemplo dentro da minha casa. Esperávamos o meu pai chegar e agradecer a minha mãe.

Diante desse preconceito em relação ao futebol, ela também…

Ela não sentia preconceito. O preconceito que todo mundo tinha em relação ao futebol, ela não possuía em relação ao filhinho dela. O caçulinha. Brinco que o protegido era o do meio, e não o caçulinha. Mãe ama todos igualmente. E a minha sempre oferecia um colo amigo, uma palavra de esperança. O meu pai sério, honestíssimo. Isso me faz um bem até hoje. O pessoal fala: – “O Leão pode ser rabugento, raivoso, bravo, mas a integridade dele é incontestável, a condição de trabalho”. É isso o que gosto de ouvir, o que aprendi em casa e vi no meu lar. Eu tenho um lar feliz.

Como foi esse momento de início de profissionalização, de sair de Ribeirão Preto, desgarrar-se da família e vir para a capital quando contratado pelo Palmeiras?

O primeiro hiato criado em termos de família, aconteceu quando saí de São José e voltei a Ribeirão Preto. Durou um ano. Logo, o Palmeiras me chamou e os meus pais moravam em São Paulo. Uma passagem de década, de ciclo e de momento tranquilo. Vi a felicidade estampada nos meus pais através dos três filhos. Eles tinham os três filhos formados, os dois médicos. Sinto, pois não pude ir ao casamento e à formatura do meu irmão porque eu tinha jogo. Naquela circunstância de momento e final de ano, tinha sempre trabalho. Felizmente, o clube sempre disputava título no final do ano. Em seguida, viriam as férias. As férias eram para descansar ou casar – no passado, jogador só casava nas férias. [Risos]

De que forma o Palmeiras te descobriu?

Aconteceu sem querer. [Risos] Eu estava no Comercial e um ex-atleta do Verdão chamado Valdemar Carabina[9], que foi treinador, jogava no Bafo. Após seis meses, parou e se tornou o treinador. Ele via em mim uma pessoa dedicada. E, naquela ocasião, o titular – um goleiro muito bom – estava suspenso. Fiz três amistosos e uma partida oficial. Graças a Deus, fui bem. No início do ano, ele ficou sabendo que o Alviverde precisava de mais um goleiro para preencher um espaço, pois o campeonato ia começar. Ele falou: – “Olha, tem um goleiro em Ribeirão Preto”. Eles disseram: – “Não. Mas esse goleiro de Ribeirão Preto está suspenso”. Ele respondeu: – “Não. Não é esse não. É um moleque. Está mostrando condição e acho que vocês deviam testá-lo”. Eles acreditaram no Valdemar Carabina.

Nesse período, eu morava num quarto de uma família junto de outros dois jogadores. Perceberam que éramos direitos e nos chamaram para morar dentro da casa deles alugando um quarto. Em um domingo, eu não tinha o que fazer, dormia até um mais tarde e acordei ouvindo um barulho. Quando abri, era o meu pai. Falei: – “O que aconteceu? O que o senhor está fazendo aqui?”. – “Você não sabe não é?”. Respondi: – “Não. Dormi cedo ontem. O que houve?”. Ele disse: – “O time está te procurando. Você foi contratado pelo Palmeiras! Preciso te levar a São Paulo”. Avisei: – “Ah, não vou. Não quero ir”. Enfim, acabei vindo. Devo a uma indicação do Valdemar Carabina. Nos tornamos grandes amigos. Mais uma vez: você está no lugar certo, na hora certa e a dedicação certa. Se eu fosse relapso, ficasse estudando, no Comercial, enganando, comendo e dormindo, ele não ia me indicar. Poderia ter indicado o outro, mas ele passou por cima e me indicou. Agradeço isso também.

Esse momento inicial, no Palmeiras: jogar num grande clube, morar em São Paulo, torcida…

Tudo tem história.  Cheguei, um frio danado em São Paulo, e falei: – “Que cidade fria é essa? O que vim fazer aqui?”. Fui dormir na concentração onde moravam os atletas do juvenil. Havia um senhor boa gente. Ele me deu um lençol e um cobertor. – “Ah, está frio. Tome”. Não dormi a noite toda, pois o cobertor estava cheio de pulgas. [Risos] No outro dia, tive que treinar. Planejei: – “Não perca por esperar”. Ele fez de propósito, parecendo um castigo ou…

Um batismo. 

Exatamente. Um batismo de boas vindas. [Risos] Ou frio, ou pulguento. Iniciei a prática e já tinha um goleiro titular. Logo no meu primeiro mês, ele se acidentou profissionalmente, não pôde jogar, e o técnico[10] – um argentino -, me colocou. Precisava justificar rápido que aquilo ia ser verdade. Começamos a conversar e a entender sobre responsabilidade. Eu morava longe demais do Parque Antártica, do outro lado da cidade, no Cambuci. Tomava dois ônibus e andava da Praça da Sé até a Praça Patriarca para pegar os ônibus. Era tão garoto, só fazia bobagem. Eu e um amigo que jogava de centroavante chamado China[11], que na verdade um japonesinho. [Risos] Ele jogava bem, se chamava Ademir Ueta. Mora em Catanduva, um cara excepcional. Nós íamos para a cidade, andávamos e chegávamos numa padaria, ou confeitaria… Éramos ajeitadinhos, então as meninas nos davam bolacha e doce. [Risos] Tudo de graça. Pegávamos um ônibus carregado de gente na maior satisfação. A alegria estava presente, fazia parte da beleza do imaginário. Surreal.

Todo dia, saía cedo, pegava o ônibus, vinha até a Praça da Sé, andava a pé até a Praça Patriarca, pegava o Patriarca, descia no Palmeiras, treinava, fazia tudo isso de volta e chegava em casa feliz. Voltei a estudar e ia ao colégio também. Não dava tempo, absolutamente.

E, logo nesse primeiro ano, você foi campeão do Roberto Gomes Pedrosa, não é?

Na realidade, o Verdão que ganhou. Eu fazia parte do grupo. [Risos] Tive uma pequena participação, que eles achavam o bastante. Não me sentia assim. Andava na rua e os caras nem me conheciam. Se eu falasse que era o Leão, eles não iriam acreditar. – “É um moleque”. Ótimo, sem saberem, eu podia passear e conhecer a cidade de São Paulo. Passei a respeitar o frio, a garoa, a neblina. Os ônibus elétricos me impressionaram. [Risos] Eu era um caipira da cidade de Ribeirão Preto que deu certo muito cedo e teve que crescer rápido.

Você era o goleiro Leão desde Ribeirão Preto?

Não. Leão é o meu sobrenome. Eu me chamo Emerson Leão. Como a minha família veio da Itália, na realidade, seria Leoni. Mas havia um problema de guerra, e metade da família passou a se chamar Leão e metade ficou Leoni. Não é o nome que era forte, as circunstâncias que se tornaram fortes. Em casa me chamavam de Mersão, o aumentativo de Emerson. O nome Leão não pesou, só me ajudou na hora de saltar que nem um felino. [Risos]

Esse momento, entre a convocação na seleção e afirmação na posição de goleiro titular do Palmeiras, como foi?  

Tudo aconteceu nesse processo rápido. O primeiro susto enorme que tomei… Eu estava numa final do Campeonato Paulista, dois meses no clube, e quebrei a minha perna num jogo contra o São Paulo. Estávamos ganhando de um a zero. Faltando cinco minutos do final, virei a minha perna. Isso no domingo. Achava que ia jogar na quarta-feira contra o Santos, um supercampeonato. Na terça-feira, tiraram a radiografia, perna quebrada. Engessaram e me assustei: – “E agora? Daqui a um mês vencem os meus três meses de contrato, e se eles não me contratarem?”. Começou aquele dilema. Mas eu já andava conhecido no meio – até o Santos tentou me contratar nessa oportunidade –, e o Palmeiras me adquiriu de perna quebrada mesmo para me dar segurança. Isso é um agradecimento também.

Perdemos o campeonato do Santos de três a um. O goleiro não se saiu bem. [Risos] Substituíram ele na partida seguinte – contra o Corinthians – e ganhamos. O Santos empatou com o São Paulo. Não fomos campeões em razão de um ponto. Falei: – “O que vou fazer? Vai começar esse Campeonato Brasileiro. Esperei…”.

Antigamente, o Alviverde, no princípio do ano, saía de excursão à Europa. Dois dias antes do embarque, eu tirei o gesso da perna e o treinador não me levou. Fiquei bravo pra caramba. Questionei: – “Por que você não me levará?”. – “Você não pode. Precisa fazer a recuperação”. Respondi: – “Não. Eu estou bem”. Ignorância minha. Conclusão: eles foram embora para a Europa e eu fiquei. Três dias depois, o misto ia jogar em Santos, contra a Portuguesa Santista. Peguei a minha chuteira, entrei no ônibus, fiquei sentado e joguei.

O Palmeiras voltou, parou no Rio, jogou contra um time e perdeu. Chegou em São Paulo: – “Como está?”. – “O Leão está bom”. Na quarta-feira, surgi jogando. Aquele momento de alta preocupação, de medo e de indefinição acabou, ingressei titular novamente, uma beleza.

E isso de jogar fora de São Paulo, os campeonatos em outras cidades, também…

Tudo era novidade. Entrar no Maracanã e nos outros estádios. Eu não conhecia nenhum. Coloquei na cabeça, desde cedo, que havia coisas que ninguém podia mudar, a sua maneira de ser, as regras do futebol e o tamanho da bola. A bola que vou ter que pegar é igual no Maracanã, no Morumbi, no Pacaembu, na várzea… Tudo igual. Não podia me assustar com as pessoas que estavam atrás dessa bola. Procurava fingir que não conhecia. Mas, logo quando voltei da Copa do Mundo de 70, entrei na faculdade de educação física, em Santos – eu e uma turma de atletas do profissional. Entre eles, havia o Pelé. Olha o relacionamento que eu tive nessa chance! Todos os caras bons do Santos, do Palmeiras, estudavam junto comigo. Conclusão: não assustava mais. Ou era muito cedo ainda para tomar susto, ou o susto passou rapidamente. As dificuldades maiores foram lá embaixo, no aprendizado. Aqui não. Nessa boiada, eu era boi. Em seguida, passei a ser cavaleiro. [Risos]

Lembra da sua primeira convocação no Alviverde?

Penso que tudo tem novidade, tudo é diferente. Não é problemático, mas é conquistado mesmo. Fui convocado junto ao Ado pelo João Saldanha, começamos a treinar na Copa do Mundo. Logo em seguida, trocaram o treinador, chamaram o Zagallo e ele levou mais um goleiro. Três goleiros. Costumavam convocar dois. Falei: – “Um vai cair fora. Ih, meu Deus do céu”.

Eu e o Ado éramos garotos e tínhamos amizade. O Félix estava mais velho. Se o treinador chamou o Félix, ele vai. Eu falava: – “Ado, eu ou você vamos cair fora. E agora?”. – “Não. Precisamos ir os dois” – “Não podem ir os dois. É só um”. Quatro dias antes do elenco embarcar, o treinador me chamou. Separadamente, todos me elogiavam, mas falavam que era muito novo, com mais tempo para aguardar. Não aceitei, mas o que iria fazer? Eles me desconvocaram, voltei a São Paulo e a treinar de novo. Por felicidade minha e infelicidade do meu amigo, eles estavam no México fazendo um período de exercícios e um jogador se machucou.

O Rogério?

Sim. Conforme me dei tão bem nos treinamentos e o pessoal gostava realmente de mim, ao invés de chamar um no lugar do Rogério – como atacante –, eles resolveram: – “Vamos chamar o Leão que teremos três goleiros e garantimos tudo aqui sem problema nenhum”. Voltei para a seleção brasileira num voo longo até o México. Sozinho, sentado numa poltrona. Esse tal de México ficava longe pra caramba [Risos].

Teve um jornalista que veio me entrevistar, queria saber quem eu era, nem ele mesmo conhecia. Essa foi a minha vida que me levou até a cidade do México, a abertura da Copa, em 1970, e o fechamento, em 1986, no México também. Outra vez, coincidência.

Como terceiro goleiro, e muito jovem, conviveu com ídolos consagrados da era de ouro do futebol brasileiro. Nos bastidores, existia assédio de imprensa e de torcedor?

Havia assédio de imprensa, de torcedor e de tudo o que você possa imaginar, mas eu não tinha a consciência definida ainda do que significava representar um país em uma Copa do Mundo e ganhá-la. Eu estava fazendo o que fazia todo dia. Para o torcedor, devia ser um negócio fora de série, todo mundo parecia em êxtase. Eu fazia aquilo naturalmente, não percebia a quantidade de responsabilidade que tínhamos. O fruto de 1970 foi bom. Vivi um negócio interessante e pude assimilar, guardar e aproveitar.

Eu me tornei campeão mundial, me sentei perto do presidente da República no Palácio em Brasília. O ministro da Economia deu um cheque a todos nós. Voamos a São Paulo, andamos em carro de bombeiros para cima e para baixo. Todo mundo em êxtase, parando aqui e recebendo, do governador do Estado, Abreu Sodré[12], uma réplica de ouro da taça das mãos do prefeito da cidade, Maluf[13]. .

Recebi um carro, não sabia dirigir e nem tinha carteira. Me levaram em um tal de Ibirapuera, que hoje é perto da minha casa: – “Olha, cada carro tem o nome escrito”. Ganhei um Volkswagen verde, que eu devia entrar e sair dirigindo. [Risos] Acredite se quiser. Entrei e saí dirigindo. Tive algumas lições numa Kombi do meu treinador, em São José dos Campos. [Risos] Parei o carro dentro da minha casa, fechei, e o meu pai: – “Foi tudo bem?”. – “Sim. O carro está aí”. – “Quem trouxe?”. – “Eu”. – “Não acredito”. Eu falei: – “Nem eu”. [Risos] Entreguei a chave para ele e peguei quando tirei a carteira de motorista.

Eu era garotinho, bonitinho. Muito telefone e convite – convite para cá e para lá. Até demais. [Risos] Tinha a minha casa, os meus pais e os meus irmãos. Já namorava a minha mulher, comecei antes da Copa. Aquele caipira de Ribeirão Preto que usava sapato amarelo. [Risos] Caminhei a vida tranquilamente. Recebi um dinheiro que achei que nem existia e, de cara, comprei a minha casa. Para os meus pais, ficou bem legal. Não me iludi. Aumentou a responsabilidade – era fulano de tal, campeão do mundo. Em 1972, teve a chamada da seleção da Minicopa, no Rio de Janeiro. Fui o titular e fomos campeões invictos. Em 1970, eu era uma minhoca, em 1972, virei uma cobra. Não uma jibóia que não tem veneno, uma jararaca das grandes. [Risos] Fazia parte do contexto, da mafiazinha.

Você era um goleiro que intervinha, falava, gritava e orientava? Como foi a sua atuação no Palmeiras e na seleção?

Eu só entendo o goleiro quando é completo. Sou treinador e canso de avisar aos meus goleiros que, atualmente, você precisa ser o goleiro que pega a bola, comanda a sua defesa, que se torna um instrumento de precisão e não pode falhar tanto. A possibilidade de falha de um centroavante pode ser 50%, a de um goleiro tem que ser 1%. Os dois são diferenciados. Atrás do centroavante, tem um monte de coisa. Atrás do goleiro tem somente a rede, não pode falhar. Você precisa ter consciência de tudo e não se perder no meio do caminho. Esse goleiro que falo é quase uma utopia, todo dia, tem que se reciclar. Eu tinha uma consciência grande. Ás vezes, me chamavam para festas. E, dez e meia, onze horas, quando começava a pegar fogo, eu me despedia e ia embora. – “O que você vai fazer?”. – “Vou dormir, no outro dia, preciso do meu reflexo”. Eu saía, ia para casa e o pessoal não se dava conta disso. Ali nascia uma longevidade, uma responsabilidade.

Você foi titular na última partida do João Saldanha? 

O João Saldanha falou que eu seria o titular.

E, no México, houve um revezamento entre Ado, Félix e você? 

Não. O Félix era o titular porque o Saldanha saiu, veio o Zagallo e o trouxe junto. Ele ficou de titular, o Ado – por ser mais velho – começou o primeiro jogo no banco de reservas e, no treinamento, machuquei a minha mão. Não tinha condições de ficar no banco nos outros jogos. Me recuperei na semifinal e na final. Como o Ado já estava, ele continuou – e acertadamente. Nada a contestar e a reclamar. Mas, nós não fazíamos revezamento. Antes do Félix chegar, fizemos alguns revezamentos entre eu e o Ado. Cada um jogava um amistoso. Até que o Saldanha declarou a equipe titular dele. Nesse, eu fazia parte. O Pelé não. O que aconteceu? Ele caiu. O Negão jogou e eu não. [Risos]

A Copa de 70 é cercada de várias histórias relativas ao contexto político, o fato de vivermos na ditadura militar. Como o jogador vê isso?

Eu escuto isso, também. Que era uma ditadura, que devia esconder tudo, que servia de ópio do povo. Eu não senti nada disso. A pressão não apareceu entre nós atletas. Tínhamos consciência de que tínhamos um grande time unido, pronto para ganhar.

Teve o problema da altitude, pela primeira vez uma Copa do Mundo era realizada nessas condições. Os jogos eram ganhos no segundo tempo. Tínhamos um preparador físico chamado Capitão Coutinho[14] – que virou treinador –, inteligentíssimo. Nos levou às montanhas e depois foi abaixando. Quando chegamos, estávamos perfeitos e tínhamos o gás necessário para o que precisasse.

O movimento político do nosso país existia. Aos 19 anos de idade, eu não percebia tanto. O mundo em que fui colocado na minha condição de atleta famoso não tinha essas restrições. Lógico que eu lia – não era um alienado –, e não chegava à conclusão do porquê e ainda não chego. E nós estamos vendo filhos, netos, políticos e sequestradores da ditadura no poder. Não pense que não sei ser político. Não me interessa. Em 1970, não foi nada. Se teve alguma coisa imposta na seleção brasileira, talvez tenha sido a saída do treinador Saldanha e a entrada do Zagallo. Dizem até que o presidente, o Médici[15], fez ele levar a paixão dele como centroavante, o Dario. Em um dos lugares que ficamos (me parece que em Guadalajara), fiz dupla de quarto com o Dadá. Tenho absoluta certeza de que ele não sabia nada de política. [Risos] É isso, não sofri. Lógico que ela se manifestou. A política, a ditadura, os conceitos militares foram fortes e acentuados, mas passaram.

Conta-se que, na Copa do Mundo de 1970, a preparação física foi muito diferenciada do que se fazia até então. O Cláudio Coutinho, o Parreira, o Chirol. E, se eu não engano, teve a primeira vez em que se treinou goleiros.

Por isso é bom ser arquivo vivo. [Risos] Na realidade, em 1970, os militares tomaram conta do preparo físico – Capitão Coutinho, tenente outro, Chirol. Com os jogadores de futebol, eles eram maravilhosos. Tanto para ensinar e a gente ávido de aprender. O Capitão Coutinho possuía um QI acima da média. Ele chegou dos Estados Unidos em 1970 (falava inglês fluentemente) e começou a usar uma terminologia que o jornalista não conhecia. Começou a falar em ponto futuro, em overlap, em teste de cooper – veio o mister cooper aqui. Umas coisas que não fazíamos igual. O objetivo e a finalidade eram os mesmos: alcançar um índice melhor. Overlap era a sensação da época. Você corria o máximo possível em 12 minutos. Hoje, o pessoal faz 30 para aquecer. Veja o quanto evoluiu o atleta profissional.

O Coutinho veio com aquilo e era maravilhoso ouvi-lo falar – a didática e a conversa dele. E eu me tornei fã do Coutinho desde 1970. Na Copa de 1974, quem não gostava do Coutinho eram os jornalistas, achavam ele metido. A coisa mais inteligente dele é que conseguiu fazer carreira no futebol sem entender nada. Fui capitão dele durante “n” tempos. Ele era tão inteligente e gente boa, que se reunia conosco para aprender alguma coisa do dia a dia, pois veio do voleibol.

Ele começou a perguntar, conversar e estudar demasiadamente sobre o esporte. Em 1974, sabidão e inteligente que era, nas entrevistas depois dos jogos da Copa do Mundo quando um repórter da Alemanha perguntava para ele em alemão, ele respondia falando alemão fluentemente. O cara perguntava em espanhol, ele respondia em espanhol. Perguntavam em inglês, ele respondia em inglês. Em francês, ele respondia em francês. Os caras ficavam “P da vida”. E o cara media quase 1,90 metros e era boa pinta pra caramba. A competição era dura ali. Ele teve muito mérito.

Inteligência deles de buscar alguma coisa no exterior. Tínhamos o melhor futebol técnico, e precisávamos de tática e preparação física melhores para a Copa do Mundo na altitude. Eles foram inteligentes e grande parte da Copa do Mundo foi ganha no segundo tempo. Isso é mérito do grupo. Eles estudaram, voltaram ao Brasil, introduziram na Seleção brasileira e executaram no México, em 1970.

Você fala que a Copa de 1970 foi boa de observação e convivência com aquelas pessoas. Na observação de outros goleiros internacionais, teve algum que te chamou a atenção?

Naquela ocasião, conhecia alguns porque começamos a jogar amistosos contra eles. A coisa mais importante foi perceber que o gol do Brasil ficaria vago. Isso é sair na frente, marcar um gol muito antes, entrar com o handicap.

Vi grandes goleiros jogarem. O melhor era o inglês Banks[16], que sofreu um acidente e ficou cego de um olho. Ele tinha uma grande envergadura. Usava luva. No Brasil, nós não tínhamos luvas. Começamos a adquirir no exterior, ou os goleiros nos davam. Passou o tempo, me tornei amigo do Sepp Maier[17], goleiro da Alemanha, e ele me deu alguns macetes. Fomos jogar contra eles em 1973, ou começo de 1974, antes da Copa… Ganhamos de um a zero, em Frankfurt. Andei do lado dele tentando conversar num inglês meio Tarzan. [Risos] Pedi: – “Deixa eu ver a sua mão. Você tem a mão tão grande, cara.” [Risos] Ele começou a dar risada: – “Uso a luva um ou dois números maiores para fazer uma pegada mais suave e tranquila. A sua é rente e a possibilidade de soltar a bola ou de rasgar a luva é bem maior”. Ele me ensinou. Passei a usar a luva maior e percebi que a defesa ficava muito mais fácil. Fazia como se fosse uma concha.

Seis meses depois, o Chirol viajou à Europa e conseguiu filmes de treinamento de saída de goleiros. Falavam que os goleiros brasileiros não sabiam sair. Que legal. Sentamos e fomos assistir, ele ainda não tinha visto. [Risos]. Aí, passou 70% do jogo entre Brasil e Alemanha. O exemplo do goleiro que sabia sair do gol, um goleiro brasileiro, que, por coincidência, era eu – ganhamos de um a zero. Pura coincidência! Vimos que as práticas eram, mais ou menos, iguais. E entrou essa comissão de 1970, maravilhosamente, para nos explicar os detalhes. É isso o que faço até hoje, explico detalhes aos grandes goleiros que o Brasil tem.

Existe esse discurso em torno do improviso brasileiro. De que forma isso se relaciona com a necessidade do treinamento? 

Existia demais o improviso brasileiro. Estamos falhos de improviso agora. [Risos] Tínhamos que voltar às nossas origens. A evolução das práticas físicas e táticas matou parte disso. Temos que continuar exercitando a habilidade, que é a fantasia e a alegria do futebol. O Brasil perdeu muito, eles aprenderam conosco a ter improviso e não aprendemos o que é jogar taticamente. O atleta brasileiro detesta jogar assim, não sabe e faz as coisas erradas. O improviso tem que prevalecer. Não toda hora, mas próximo à área, sim. É o que os treinadores brasileiros precisam fazer.

Voltando à Copa de 1970… Como estava fora, com o pulso machucado, ainda ia aos jogos?

Sou ganancioso, ávido para aprender. Íamos todos juntos no mesmo ônibus e cada um usava o seu uniforme. Ia também, se na hora acontecesse alguma coisa no vestiário, ou no aquecimento, com um dos dois goleiros, punha o uniforme e ia ao banco ou ao jogo. Eu não estava maravilhosamente bem e sim meia boca, 50%, 60% do que jogaria. Havia dor, é bem verdade, mas, ali, ia ser secundária. Cansei de jogar de dedo quebrado. Isso é secundário e dá para enganar fácil. Assim que o Maier me ensinou a usar a luva maior, ficou fácil enganar.

Mas, tinha esse ambiente…

O ambiente de 1970 era festivo. A Nação queria participar, fez uma música fantástica que contagiou a todo mundo. Os 90 milhões em ação, todo mundo queria ser um deles e ajudar a seleção. Os cantores queriam cantar, as artistas queriam nos conhecer – e nós também. [Risos] Íamos ao teatro ver as peças, ver os cômicos trabalharem. Enfim, uma só Nação.

Chegando ao México, isso acabou. Só havia trabalho e trabalho. Naquela época, era o apogeu do Simonal. Ele fechava o Maracanazinho e fazia uma coisa maravilhosa. Roberto Carlos… Eu vi Elis Regina cantar bem de perto, maravilhosamente bem. Não me esqueço dessas coisas de jeito nenhum. Elas frequentavam o mesmo ambiente que os jogadores de 1970. Nesse período, o preconceito do atleta profissional tinha diminuído muito. Quando a Copa acabou, chegamos ao patamar de igualdade. Nós nos encontrávamos nos bastidores os grandes ídolos da televisão, das novelas, os cantores, os atletas, os poetas, os chatos. [Risos] Havia de tudo.

Outra grande imagem da Copa de 1970 é da comoção da torcida mexicana pelo Brasil.

Foi o primeiro ano de televisão em cores. Você podia ver se estava direitinho mesmo, se não era cafona. Os cidadãos mexicanos amavam a gente. Na concentração em Guadalajara existia um pátio onde ficávamos em cima e o povo embaixo. Nunca cheguei naquele patamar de cima sem ter, no mínimo, cem ou duzentas pessoas embaixo pedindo autógrafos. Eles nos adotaram e retribuímos com carinho, simpatia e, principalmente, mostrando o que eles queriam ver: um bom futebol dentro do campo. Essa irmandade segue até hoje. Vamos ter o Pan agora e só se fala disso. Valeu a pena nos relacionarmos bem, viramos países irmãos.

O outro futebol continua encantando com a Segunda Academia. Como foi esse momento, entre a Copa de 1970 e a 1974 no Palmeiras?

Após essa retomada, voltamos aos clubes e a disputa se tornou fantástica, fabulosa. As grandes equipes e os seus grandes ídolos, campeões mundiais. Os jogos começaram a ficar cada vez mais interessantes.

O Palmeiras tinha um grupo definido. Chegando a chamá-lo de Segunda Academia. Em 1971, ganhamos todos os torneios e campeonatos que participamos. Foram em torno de cinco. A Academia era tão boa que, em 1974, dos onze titulares, seis foram convocados para a seleção brasileira. Ganhávamos não do Joãozinho da esquina, e sim do Santos de Pelé, Coutinho, Carlos Alberto, Clodoaldo, Edu… Todos campeões mundiais. Vencíamos o Botafogo do monsieur Paulo Cézar – ele gostava que falasse francês com ele. [Risos] Depois, o Jairzinho; o Roberto Miranda, o centroavante. O Fluminense de Félix. Do São Paulo, maravilhoso com o Pedro Rocha e Gerson.

A cada espetáculo, 180 mil pessoas assistiam, normal, cabia nos estádios. Atualmente, cabem 70 mil. Não sei o que está acontecendo. Tínhamos 90 milhões e lotávamos um espaço de 200 mil. Atualmente, temos 200 milhões e colocamos uma média de público de 20 mil pessoas. Ridículo. O nosso futebol está diminuindo. Os nossos ídolos são os estrangeiros. Tem chileno, paraguaio, boliviano, colombiano, argentino. O vulto de 1970, esse crescimento de torcedores e de aceitação de ídolos, de 1970 a 1974, foi o apogeu.

Igualmente, a construção dos estádios no Brasil. Do campeonato nacional, efetivamente…

A construção não passou em razão da euforia, mas pela inteligência política. Os campeonatos foram inchando e os políticos colocando os grupos dos Estados que não existiam na primeira divisão. Fizeram grandes estádios maravilhosos, colocaram times e o Brasil foi passado a limpo. Saíamos para jogar e parecia uma caravana. Chegávamos em Manaus e voltávamos pelo Norte e Nordeste jogando. Então, tudo cresceu.

Teve o lado ruim? Teve. O povo que nunca teve acesso ao futebol passou a ter. Quem nunca gostou, passou a gostar de assistir na televisão. Quem nunca viu os seus ídolos tricampeões do mundo pessoalmente, passou a ver em Manaus, em Belém… Cheguei a jogar em Manaus, às duas horas da tarde, 45 graus. A camisa para jogar era preta, o diabo na cruz. Valeu a pena, dávamos alegria ao povo.

Nessa época, em termos de seleção, você achou que o gol ficou vago depois da Copa, e isso se confirmou…

Se confirmou no primeiro momento. Acabou a Copa de 70 e a primeira reunião oficial ocorreu em 1972. Estávamos diferentes quanto aos goleiros do Brasil. Não eram os mesmos. Confirmou aquilo que eu pensava: o gol estaria vago. E quem demonstrasse mérito – e não político, mérito profissional – iria ser recompensado. Uma confirmação daquilo que eu, particularmente, previ que ia ocorrer e aconteceu.

O Zagallo foi o técnico na Copa de 1974 e a seleção se renovou. Quais são as suas lembranças da Copa da Alemanha?

O pessoal de 1974 se renovou porque, em 1970, estava minguando. Os jogadores tinham acima de 27 anos e, na próxima Copa, teriam acima de 30. Antigamente, consideravam velho o jogador aos 28, ou 30 anos. Acho que os novos deram conta do recado. Poderíamos não ser os melhores, estávamos numa fase de transição e fomos surpreendidos por uma Holanda giratória – o tal do Carrossel. Eles enchem os olhos, mas não conseguem o casamento, pois nunca ganham. Ficam para titia sempre. [Risos] É bonitinha, porém não é do ramo. E é o que está acontecendo de novo: – “Ah, Holanda, Holanda…”. Pode saber que não acontecerá nada. Em 1978, foi até a final e não teve nada.

Nessa época, teve uma geração demasiadamente boa, governada, dirigida pelo Cruyff, um jogador excelente, e outros coadjuvantes maravilhosos também. Mas não conquistou o título. Só não ganhamos e os eliminamos no primeiro tempo pelos erros individuais. Quando perceberam que não éramos tudo aquilo que temiam, vieram para cima. Tivemos a expulsão do Luiz Pereira e complicou mais ainda.

Dizem que o Zagallo ajeitava o time de uma maneira um pouco defensiva. Você acha que, realmente, o grupo era armado assim?

Não. Como você arma uma equipe defensivamente enquanto joga? O ataque tem Jairzinho, altamente veloz. O Paulo Cezar, um bailarino driblando. Precisa colocar eles para correr. O que existia é que jogávamos – o Zagallo sempre falava – pressão e meia pressão. Quando o adversário era muito bom, jogávamos meia pressão, quando fosse fraco, total pressão. Marcávamos lá em cima. Nas oportunidades que tivemos, devíamos liquidar o jogo, terminar o primeiro tempo em dois ou três a zero para o Brasil. Chutamos fora, paciência. O brilho não era tão grande naquele dia e perdemos a partida. Nada de covardia não. Do jeito que começou, terminou o esquema tático. Não foi tão tático assim. [Risos]

Em termos ambiente de grupo, como foi a Copa de 1974? A vivência na Alemanha, a preparação, o ambiente interno…

Precisamos entender que é necessário ter o espírito de seleção em uma Copa do Mundo. Renunciar muitos fatores. Você não podia estar concentrado se não tivesse o foco bem definido, separando os problemas em casa ou na rua. Alguns compreendiam e outros não. Naquela situação, desde 1970, ficávamos tempo demais concentrados, presos durante dois ou três meses, visando a Copa do Mundo. Algumas irritações e desencontros sempre aconteciam. Dentro do campo, passava-se tudo a limpo. Ali, você não era a estrela, pertencia a um espetáculo. E se formássemos tudo, poderíamos ter brilho. Lógico que um monte de homens juntos, durante três meses, sempre sai alguma coisa de errado. Você não sabe o limite do certo e do errado, do ponto e do contraponto. Mas, de uma forma geral, tranquilo. Perto do que acontece hoje, éramos todos coroinhas. [Risos]

E você foi capitão desse grupo? Isso aumentava a sua responsabilidade? 

Às vezes. Eu jogaria do mesmo jeito.

O seu grau de exigência era o mesmo?  

Sim. A minha ascensão era maior. Era porta-voz do meu treinador e do meu grupo. Portanto, aquilo que eu estivesse falando, era mais necessário do que sem a faixa. Sem exceder, mas falando duro.

E a sensação de voltar da Copa de 1974? Como que é a experiência da volta após a derrota? A casa do Zagalo foi apedrejada.

É uma cultura negativa do futebol brasileiro há muito tempo. Isso não é novidade. Agora, voltar aqui silencioso e cheio de críticas… O brasileiro só quer ganhar. Ele esqueceu que nós fomos a uma Copa do Mundo. Em 1974, terminamos em quarto. Em 1978, em terceiro.  Isso é feio? O Rubinho Barrichello é bi mundial… Vice. E todo mundo mete o pau nele. Sou fã. O que aquele cara sofre e continua sendo persistente, tem que tirar o chapéu. Eu não me sentia nem menos e nem mais, me sentia capaz. O suficiente para não ter pensamentos negativos ou uma queda de produção. Cheguei e, no dia seguinte pela manhã, estava treinando no meu grupo para readquirir o espírito de clube. Antes, estava no clima de seleção.

Você acha que a derrota para a Holanda de 2×0 abalou o ânimo da seleção para a disputa do terceiro?   

Não.

Inclusive, houve uma polêmica entre você e o Marinho Chagas.

Vou falar a verdade, não teve polêmica. A Holanda é falada, até hoje, pois venceu o Brasil. Perdemos de um time bom que poderíamos ter ganho. Você precisa aprender a perder também e respeitar o adversário. Fomos jogar o último jogo. O Luiz Pereira não jogou, o Alfredo estava há quase seis meses sem jogar, pesado. O Marinho – um craque, mas não de lateral esquerdo, sim para ter liberdade mais ofensiva – abandonou e foi para frente. O Havelange pediu para ganharmos aquela partida contra a Polônia, estava fácil ganhar. Se tornou difícil e perdemos de um a zero. É lógico que tivemos desentendimento tático, contudo não abalou nada. É que quarto, terceiro e segundo lugar para o Brasil, não é nada. Infelizmente.

É o traço específico do brasileiro não aceitar a derrota. Você vê assim?

Não é não aceitar, é não entender a derrota. Às vezes, você é derrotado porque o outro é superior. Por que não criticam aquele que não conseguiu chegar em primeiro lugar no revezamento, ou nos 100 metros rasos? O primeiro ganhou do relógio e o outro não. Não tem contestação. Tem que elogiar. Voltamos desse jeito. Não voltei olhando para o chão procurando moedas. O meu horizonte continuou o mesmo.

Os suecos foram vice-campeões, em 1958, e que a federação sueca ainda celebra o vice-campeonato perdido, em casa, para o Brasil.

Morei no Japão durante quatro anos. Tem um jogador lá celebrado até hoje por ter feito um gol num campeonato olímpico. [Risos] Têm cultura diferente. Nós estamos acostumados bem, a ganhar sempre. Quando não ganha, reclamamos precocemente. Infelizmente é assim, você joga noventa minutos bem, no nonagésimo primeiro, comete um erro e perde o jogo. Esquece tudo para trás.

E nessa Copa de 1974, algum goleiro te chamou a atenção?

O Maier que falei, muito criticado e toda a Alemanha queria tirá-lo do gol e não convocá-lo para 1974. O Joachim, treinador da seleção alemã, fez braço forte, convocou, ele foi o titular e o melhor goleiro da competição. Tive a minha participação, também – eles falaram um pouquinho de mim -, mas ele foi maravilhoso porque se recuperou dentro duma Copa do Mundo.

Você achou justo, o título da Alemanha? Mesmo a Holanda sendo a sensação?

Sim. Ela mereceu. A sensação passa. É sensação de frio, calor, bondade e tristeza passam. Competência não. A Alemanha foi muito mais equipe. Individualmente, também tinham maravilhosos jogadores. Pô, tinha [Overath[18]], Beckenbauer, Maier… Havia um monte que eu esqueci, de tanta gente boa, sabe? E ganharam. Saíram perdendo e conseguiram ganhar… Ah, e o Müller – um baixinho chato pra caramba,  nossa senhora –, artilheiro da Copa.

Um ano após a Copa do Mundo o Osvaldo Brandão[19] assume e, logo na Copa América, ele convoca Raul e Valdir Perez, do São Paulo. Você se sentiu desprestigiado?

Quando ele não convocou, fiquei surpreso. Eu era o titular e capitão do Palmeiras e ele o treinador. Talvez alguma represália. Pior que eu maltratava ele no time. [Risos] Ele conseguia ser mais rabugento que eu. Quando terminou, a primeira coisa que fez, foi me reconvocar. Acho que ele tinha os seus motivos errados, que eu sabia aonde iam chegar. Quando você conhece os homens, não se preocupa muito com o meio, pois precisa se definir no fim. Era, mais ou menos, assim com o Brandão.

Como foi com o Osvaldo Brandão te convocando?

Normal. Ele me convocar, foi rotina. Ele era o que me conhecia melhor, todo dia ele estava comigo de manhã, à tarde e, às vezes, até à noite, porque eu passava na casa dele para sair com o filho dele, um modelo fotográfico do Dener – costureiro antigo. Às vezes, ele me convidava: – “Leão, vamos que tem um desfile”. Eu me relacionava muito com ele. Não teve stress nenhum. Eu sabia o que ia acontecer.

A convocação era natural.

Claro. Às vezes, ele chegava invocado no treinamento e eu falava: – “Ah, vou sofrer”. Me pegava para Cristo. O preparador dizia: – “Leão, você já sabe, não é?”. Eu respondia: – “Sei. Deixa disso”. Isso é a característica de cada treinador e de cada pessoa, não podia levar a frente. Acabou aqui, até logo e vai tomar banho. Tomou, lavou e está novo.

Em 1978, eu tinha um relacionamento com o corpo diretivo. Voltaram praticamente os mesmos. Foi rotina, também, de trabalho e dedicação. Fomos a uma Copa do Mundo – aí sim, pressionada pelos militares – na Argentina, porque tinham que ganhar de qualquer jeito e ganharam mesmo – incidentes ocorreram. Saímos de uma Copa do Mundo em terceiro lugar, sem perder. Por isso que o incompreendido e inteligente Coutinho nos considerou “campeões morais”. Ninguém entendeu isso. Ele quis dizer que: primeiro, nós não perdemos; segundo, não nos deixaram ganhar. Ofereceram aquela vergonha do Peru contra a Argentina e mudaram o jogo que decidiu a final. Jogamos antes da Argentina no lugar de classificação. Nunca se fez isso, é tudo no mesmo horário. Naquele dia, não. Jogaram depois de nós vencermos a Polônia de três a um. A Argentina ganhou de seis. Precisava porque, senão, teria menos saldo de gol do que o Brasil. Se precisasse ganhar de 20, ganhava. A Argentina sabia, infelizmente.

E como foi a Copa em um país em que, ao contrário do México de 1970, não teve adesão e simpatia.

Era tudo ao contrário. Um país vizinho, o fundo da nossa casa. Outra vez, a inteligência do Coutinho teve razão. Quando fomos jogar contra a Argentina, ele chegou meia hora antes, junto da delegação, no estádio lotado. Eles até mudaram o local e puseram num lugar e numa cidade menor para pressionarem cada vez mais.

Chegamos e falamos: – “Pô, vamos ficar meia hora a mais no vestiário?”. O Capitão Coutinho disse: – “Não. Vamos subir ao gramado. Ser ovacionados, ao contrário, de tudo o que vocês possam imaginar e escutar. Damos a volta e ficamos batendo papo, nunca próximo ao alambrado, sempre para o meio do campo”. Por quê? Para as coisas que eles atiravam não nos atingisse.

E fizemos assim. Entramos, eles xingaram, vaiaram, tacaram bobina de máquina, tudo o que você possa imaginar. Certa hora cansaram e pararam. Não havia mais munição. Descemos, nos aquecemos e fomos jogar. Jogamos normalmente. Poderíamos ter ganhado e empatamos, zero a zero. Mais uma demonstração de inteligência, da qual eu referencio ao mestre Capitão Coutinho.

Nessa Copa do Mundo há um recorde seu de 457 minutos sem tomar um gol sequer. E o primeiro que tomou – nessa Copa de 1974. Na Copa de 78, você tomou um gol do mesmo jogador, o Lato.

É. Contudo, têm alguns recordes que você bate que não representam muito para você. Alguns slogans que colocam em cima de você também não. O que representa é um aspecto geral e o quadro final. Foi desagradável não tomar o gol, e ver que, logo em seguida, começou o jogo da Argentina e teve aquela palhaçada. Tínhamos capacidade, o Coutinho estava certo e, infelizmente, a Copa do Mundo, na Argentina, em 1978 , foi feita para os argentinos e para ninguém. Ganharam.

Terminada a Copa de 78, você foi um jogador muito associado ao Palmeiras – ficou dez anos no clube. Quando aconteceu o momento de romper os laços e atuar em outro time? 

Tudo tem uma hora que não está marcada, mas está quase definida. Vai se deteriorando alguma coisa. Surgiu o momento de sair do clube por circunstâncias de uma ordem de treinador. Ele não gostou do que eu realizava, falou com o diretor e resolveram me vender. Fui para o Rio de Janeiro, comprado pelo Vasco da Gama – no qual eu fiz teste em 1969. Fiquei lá quase três anos, um grande aprendizado carioca. Cheguei de botas e saí de chinelos de dedo.

Foi bom para a minha família. A minha esposa é carioca, achou divino e maravilhoso. A minha filha pequenininha, ainda, pôde sentir o que era viver o clima de praia. Eu me acostumei ao Maracanã e o povo carioca, que sempre teve aquela rivalidade grande por eu ser paulista.

Tive bons momentos e retornei à seleção brasileira. Na última hora, acabei não indo na Copa de 1982 – uma descoberta fantástica do Telê – e não sei o motivo.

Três anos se passaram e chegou a hora de dizer adeus. Fui jogar no Sul, onde me identifiquei maravilhosamente bem com o Grêmio e os sulistas. Foi legal. Rapidamente, voltei para a minha terra, São Paulo, e no Corinthians, rival dos palestrinos. [Risos]

Depois de ter atuado tanto tempo no Palmeiras, você foi recebido no Corinthians em um momento especial e diferente, que era a chamada Democracia Corintiana.

Por todos os anos em que trabalhei no Verdão, só tenho agradecimento. Faz parte da minha vida, da minha família e fazia parte do meu cotidiano e de tudo o que você possa imaginar, criei raízes. Coisa difícil de ver hoje: um jogador ou um atleta profissional, criar raízes dentro de um clube. Alguns goleiros e o Verdão têm muito disso. O Marcos é uma prova de que isso acontece.

Fiquei bastante tempo no Palmeiras, legal. Fui dar uma volta no Rio de Janeiro e relaxar, ficar moreno. Mudei para Sul e voltei a ficar branco e ter aquela tradição sulista de que tudo lá é bom e melhor. E tinha que mostrar serviço. Isso foi bom para mim. Quando não se esperava, vim para o Corinthians – o rival e arquiinimigo do time – num momento de uma coisa que chamavam Democracia Corintiana. Não corri atrás do Corinthians, eles que foram ao Sul me pegar. Voltei e entendi rapidamente que precisava jogar muito bem porque tinham acabado de ser campeão e queriam o bicampeonato com um estranho no ninho. Vamos testar? Testei a minha exigência, a capacidade e o meu outro lado, que não conhecia, de flexibilidade.

Entrei num mundo partidário, que nunca foi meu, sabia que ia ser por pouco. Precisava deixar saudades e não rastro. Então, falei: – “De que forma vou me identificar com uma torcida…”. Vim pensando no avião que me trouxe até São Paulo. Perguntei ao diretor: – “Me diga uma coisa, posso usar um uniforme diferente?”. A resposta foi democrática pra caramba: – “Pode. Desde que seja da mesma cor do time”. Perfeitamente. Muito obrigado pela resposta. Fiquei pensando e inventei a camisa listrada. Eu era uma zebra dentro da Democracia. Meias e camisa listradas de preto e branco e calção preto. Marcou, evidenciou, e o goleiro do Corinthians, antes sempre um cinzento, passou a ser notoriedade. Concorri com os grandes destaques da Democracia.

Fiquei um ano. Fomos campeões, um grupo maravilhoso. Quem conduzia o outro lado eram grandes jogadores. Encerrado o ano, eu saí de férias. Apenas solicitei ao presidente do clube: – “Há dois times querendo me contratar, o Palmeiras e o São Paulo. Faz um favor, me vende pro Tricolor. Porque no Verdão joguei dez anos. Lá, nunca joguei”. – “Está bom”. Isso de manhã. À tarde, fui vendido ao Alviverde, somente por irritação mesmo. Pensei: – “Legal, preciso mudar esse astral. Troquei o preto e branco pelo verde e branco da camisa listrada”. Até hoje, tem uma torcida que eu adoro ver, do Corinthians, listrado de preto e branco.

Quando cheguei ao Palmeiras… Por ter sido presidente de sindicato, era atualizado, sabia as coisas e percebi uma falha na lei que dizia que para obter o passe livre, precisava ter dez anos no seu último empregador e o termino do contrato. Ao invés de fazer um contrato de três anos, fiz de um ano, pois o meu último empregador, qual seria? O Verdão. Quantos anos de clube eu tinha? Mais de dez. Fiquei com o passe livre para fazer o que quisesse da vida. Fui bem no clube, quando retornei, voltei à Seleção brasileira e fomos disputar a Copa de 1986.

Voltamos da Copa e não tive vontade de jogar. O treinador do Palmeiras ainda continuava do mesmo jeito, o que eu não gostava. Evitando brigar, peguei o meu passe e expliquei: – “Faltam dois meses para acabar o ano. Vocês não precisam me pagar, ou me pagam nos dois anos. Eu não venho treinar”. Encerrava a carreira.

Nessa época, eu possuía uma casa no Porto de Galinhas, praia maravilhosa em Pernambuco. Estava lá, gordinho, e foram uns times de São Paulo me buscar. O Sport do Recife também tentou e minha mulher me pediu: – “Vamos ficar um ano aqui e observarmos o que é o Nordeste”. Topei: – “Vamos”. Emagreci,  voltei a jogar. Seis meses depois, o treinador saiu e fui convidado a substituí-lo. Aceitei e nunca mais joguei. Foi assim o meu término como jogador. Sem querer, nem saber e desejar, aconteceu. Por incrível que pareça, começou o campeonato e acabamos sendo campeões brasileiros! Logo nos primeiros seis meses de treinador. Mais um êxtase na minha vida, agradeço.

Começou aquela coisa grandiosa de problemas que todos os treinadores têm. [Risos] Vim para o grande centro, São Paulo, e continuo correndo o Brasil e o mundo. Tive a oportunidade de trabalhar de treinador no Japão, no mundo Árabe e de conhecer culturas diferentes.

Na fase final da seleção, qual a sua impressão sobre o motivo pelo qual não te convocaram em 1982, e você foi convocado, em 1986, sendo que era o mesmo técnico?

Gozado isso. Me pergunto até hoje e nunca perguntei ao Telê  que, infelizmente, já morreu. Todo mundo o chama de mestre, eu não. Ele é o treinador Telê, que aprendi a respeitar. Tenho educação. Nunca fui contestá-lo porque ele não me convocou. Apenas, estava na frente da televisão, na minha casa – no Rio de Janeiro, jogando no Vasco -, quando ele convocou pela primeira vez a seleção para uma Copa América. Ele comunicou: – “Não vou chamar o Leão porque ele é o capitão e titular da equipe e não precisa ser testado. Quando for alguma coisa oficial, no estilo da Copa do Mundo, ele será o goleiro”. Fiquei aguardando. Ele não cumpriu. Eu não o conhecia e nunca havia trabalhado com ele, mas respeitei a hierarquia e a opinião dele.

O tempo passou e ele ia mudar para os Emirados Árabes. Numa entrevista que deu, ele disse: – “Treinador da seleção brasileira não pode ser sério. Então, estou saindo”. Uma declaração forte. Começaram a fazer os movimentos para a Copa do Mundo de 1986. Escolheram o Telê para ser treinador de novo porque todos que passaram não deram certo.

Quando ele chegou no Brasil, perguntou ao homem de confiança dele: – “Nós precisamos convocar, como estamos de goleiro?”. [Risos] O cara deu risada. Ele falou: – “O que houve?”. O Leão acabara de receber título de melhor goleiro e atleta do país, aos 37 anos. Não teve jeito, ele teve que me convocar. Me convocou por isso, não porque queria. Ele me deixou na reserva aos 38 anos de idade. Fui a uma Copa do Mundo novamente – o México na minha vida de novo. Revi os amigos e nunca me escalaram para jogar. [Risos] Aí, sim, revezava no banco. Me preparei direito, emagreci, treinei e me dediquei cada vez mais para receber os elogios e o mérito todo de um atleta que se dedicava. Sem contestar, também.

Infelizmente, houve uma participação horrorosa. Os dois piores anos foram em 1982 e 1986. Por coincidência, tinham o Telê. Ele é chamado de grande treinador (e deve ter sido mesmo, nos clubes), mas na seleção não aconteceu absolutamente nada. Não deixei de falar com ele e enaltecê-lo. Nunca perguntei e já não estava interessado. Defini na minha cabeça aquilo que eu queria, era um veterano. Só sinto, em 1986, ele poderia ter colocado um garoto de 19 anos para aprender, já que não ia me colocar. Paciência. Nem tudo é perfeito no futebol.

Imagino que um grande momento da sua carreira de técnico seja a passagem pela seleção brasileira.

Imaginou errado. [Risos] A minha passagem de técnico na seleção brasileira foi a pior coisa que você possa imaginar. Você acertou quando disse “passagem”. Não fui treinador, eu passei treinador. Quando entra num lugar em que você não é a preferência do dono, fica pouco tempo. Aquilo, esqueci e não quero nem saber. Não sei nem se ele existe ainda, não quero nem saber.

Uma experiência legal, para mim: treinar os meninos do Santos. Tudo garotinho de 18 ou 19 anos. Tudo safado, comendo no McDonald’s e falando uma linguagem que eu não conhecia. Às vezes escutava um som e pensava: – “Pô, espera um pouquinho, não é brasileiro que está falando”. Eram eles se comunicando. Falei: – “O que vou fazer com esse monte de moleques aqui?”. Percebi que eles sabiam jogar bola, precisava organizar e entrar na deles. Me reciclei em termos do dia-a-dia. Enquanto ensinava, eu também aprendia tudo o que eles sabiam de juventude.

Aprendi algumas coisas que nunca achei que tinha: a malandragem. Umas coisas de criança, sou pai de duas meninas e nunca tive um moleque. Percebi: – “Moleque é safado mesmo, não é?”. Eu via o que eles estavam fazendo. De acabar o treino e esconderem uma bola. Falarem uma linguagem e dizerem: – “Hoje vou passar a bola na perna daquele jogador. Apostar um McDonald’s”. Olha a aposta que eles faziam! [Risos]

Um dia, peguei o Robinho falando para um outro e interferi: – “O que você está falando, moleque? Vem aqui me falar porque não entendi”. – “Professor, o senhor viu o jogo de ontem? Pô, ele matou o beque central, driblou para cá e driblou para lá”. Respondi: – “O que houve? Você matou com ele”. E ele: – “Pois é, professor…”. Perguntei: – “O que foi?”. – “O senhor não viu? Ele entrou vestido de calças jeans”. Fiquei pensando uns três dias até entender o que significava. [Risos] O cara era tão duro que parecia que usava uma calça jeans engomada. E ele deitou e rolou. Fui obrigado a aprender esse vocabulário. Isso foi legal!

O que você pensa sobre a atual seleção brasileira e as perspectivas da Copa de 2014?

Em 2011, não trabalhei como treinador. Então, estou vendo futebol mais do que qualquer pessoa que possa imaginar. No Brasil, mesmo se você não quiser, é obrigado a ver. Quando liga a televisão, tem todo dia, toda hora e qualquer futebol: bom, ruim, de fora, de dentro e de lado. Estou a par do que está havendo no esporte e bem decepcionado. Existe uma igualdade enorme, tanto embaixo quanto em cima. A de baixo, sem competência para subir e, a de cima, não sabendo se quer ou não. Temos um campeonato achatado nas duas pontas, sem privilégio para ninguém.

Um país em que não éramos burocráticos na maneira de jogar, sem individualidade, e agora tendo alguns pseudos ídolos. O Palmeiras tem um chileno, o Internacional tem dois argentinos, o Botafogo tem o uruguaio, o Cruzeiro tem dois outros argentinos… E aí afora. Isso me assusta um pouco. Nunca houve uma invasão tão grande de estrangeiros nos clubes brasileiros tanto quanto nos últimos cinco anos. Isso é fruto da diminuição de nossa capacidade. Vendemos os nossos grandes para exterior e não repomos. Eles são ocupados pelos de outros países. Não que eles não tenham capacidade e não mereçam, acho estranho aceitarmos isso.

Em termos de Copa do Mundo, começamos na decepção. Os nossos estádios, a escolhas dos lugares, os valores que vamos pagar, as mentiras que estamos nos acostumando e a vergonha que estamos passando antes de começar. Oxalá, desejo que isso aconteça, com bom senso dos nossos brasileiros, que tratem bem as pessoas que vierem ao nosso país, se a Copa sair mesmo.

Precisamos mostrar ao mundo que também educação, cultura e segurança – temos pouca, mas temos. É um prova, mais uma vez, para o governo, que está nos devendo. Parece que a mídia, a crítica, fala e continuará falando muito do que está acontecendo e não vejo ninguém preso. Todo dia no jornal você pega e fala que um fez uma coisa. Estamos, profissionalmente e politicamente, sem importância. Ou achamos um caminho certo, ou vamos passar vergonha. Como eu não gosto de passar vergonha, vou torcer para que tudo saia bem.

No que se refere ao time, você tem esperança?

O nosso treinador está sofrendo porque está tentando mudar um ciclo de jogar futebol. As derrotas começaram a pressioná-lo para começar a convocar os veteranos e já começou. Vai entrar num lugar comum e não vamos a lugar nenhum. Tenho medo que aconteça conosco o que aconteceu em 1950. Naquela Copa do Mundo foi a autoconfiança, possuía grupo para ganhar. Eu estava nascendo, meio ou um ano de idade, nasci em 1949. Havia equipe, agora, não temos.

Temos um treinador dizendo que a nossa seleção não chegará capenga no mundial. Torço que ele tenha tranquilidade, seja verdade e esteja presente, estamos cansados de rolo e de mudança. Ele está sofrendo e continuará sofrendo muito. Mudamos a filosofia, trabalhamos e não chegamos a lugar nenhum. Vamos começar a fazer amistosos contra times de esquina. Jogar contra Gabão, Egito, Antônio, Joaquim e Manoel, qualquer um joga para resultado e ainda com jogadores mais velhos. Isso não está certo.

Ainda não entramos no trilho da Copa do Mundo. O que não quero – pelo amor de Deus – que aconteça o que aconteceu conosco: perdermos uma Copa novamente dentro da nossa casa e do nosso país. Não se esqueçam que a última Copa aqui foi em 1950, e nós estaremos em 2014. Olha quanto tempo passou e será que não aprendemos a lição? Ou, ao contrário, nos esquecemos da honestidade que tem que fazer parte do nosso dia a dia? É isso que penso do nosso futebol.


[1] Diede José Gomes Lameiro, técnico do São Paulo entre 1968-1969.

[2] Oberdan Cattani, goleiro do Palmeiras entre 1940-1954.

[3] Carlos Niemeyer, fundador do Canal 100, cine-jornal semanal exibido nos cinemas, antes dos filmes, entre as décadas de 1950-1990.

[4] Galdino Machado, goleiro que atuou no Juventus, Botafogo de Ribeirão Preto, Ferroviária de Araraquara, XV de Piracicaba e Ponte Preta.

[5] Lev Ivanovich Yashin, goleiro da seleção russa nas décadas de 1950-1970.

[6] Na Copa do Mundo de 1954, na Suíça, a seleção brasileira teve três goleiros: Castilho, Veludo e Cabeção.

[7] João Alves Jobin Saldanha, jornalista e treinador de futebol, atuou como técnico da seleção brasileira entre 1969 e 1970.

[8] Taça Independência, também chamada de Minicopa, competição realizada no Brasil em 1972 que fez parte das comemorações do Sesquicentenário da Independência. Participaram do torneio dezoito seleções nacionais e duas regionais (seleção da Concacaf e da África).

[9] Valdemar dos Santos Figueira, zagueiro do Palmeiras entre 1954-1966 e técnico do time em 1987.

[10] Nélson Ernesto Filpo Núñez, treinador argentino, criador da Academia de Futebol do Palmeiras. Foi técnico da equipe em 1964-1965, 1968-1969 e 1978-1979.

[11] Ademir Ueta, atacante do Palmeiras em 1968.

[12] Roberto Costa de Abreu Sodré, governador de São Paulo entre 1967 e 1971.

[13] Paulo Salim Maluf, prefeito do município de São Paulo entre 1969 e 1971.

[14] Cláudio Coutinho, capitão e preparador físico da seleção brasileira nas Copas do Mundo de 1970 e 1974. Em 1978, foi o treinador da equipe na Copa do Mundo da Argentina.

[15] Emílio Garrastazu Médici foi presidente do Brasil entre 30 de outubro de 1969 e 15 de março de 1974, durante a ditadura militar.

[16] Gordon Banks, goleiro da seleção inglesa nas Copas do Mundo de 1966 e 1970.

[17] Josef Dieter Maier, goleiro da Alemanha nas Copas do Mundo de 1974 e 1978.

[18] O mais próximo do que foi possível ouvir.

[19] Osvaldo Brandão comandou a seleção brasileira em 19551956, 1957, 1965, 1975-1977.