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Flavio Gomes (parte 2)

Equipe Ludopédio

Torcedor da Lusa e colecionador de carros antigos, o jornalista Flavio Gomes tem uma longa trajetória dedicada à cobertura do automobilismo e do futebol. Foi repórter e editor da Folha de S. Paulo, editor da Placar e trabalhou no jornal Lance!. Foi apresentador e comentarista de Fórmula 1 da Rádio Jovem Pan AM, fez parte da equipe de jornalismo da Rádio Bandeirantes e das rádios ligadas à ESPN (Eldorado/ESPN, Estadão/ESPN e Capital). Foi comentarista e apresentador dos programas Limite, Bate-Bola e Pontapé Inicial na ESPN Brasil. Atualmente é comentarista e apresentador dos programas Fox Sports Rádio e Fox Nitro da Fox Sports. Criador da agência de notícias Warm Up, dedicada à cobertura do automobilismo, e do site Grande Prêmio, Flavio também atuou como professor de Jornalismo na FAAP.

Foto: Max Rocha

Flavio Gomes. Foto: Max Rocha.

Segunda parte

Um assunto recorrente nas entrevistas com jornalistas esportivos é o seguinte: o fim dos anos 1970 é um momento importante do “Jornal da Tarde” também, por conta da pirâmide invertida, do new jornalism, de a “Placar” dialogar com isso, mas depois perder o fio da meada. O que você lia além disso e como você vê essa discussão hoje do jornalismo literário?

Eu comecei a ler jornal nessa época quando voltei a São Paulo, em 1975. Aos 11 anos, eu engolia jornal. E meu jornal era o “JT”, porque a edição de esportes do “Jornal da Tarde” era brilhante. Os jornais que eu lia eram: “JT”, “Gazeta Esportiva” e “Popular da Tarde”. Quando fui à entrevista da “Folha”, eu falei para eles: “Eu não leio a ‘Folha’. Acho os títulos ruins, as legendas também, tudo uma merda”. Não queria trabalhar lá. Quando saí da entrevista, pensei: “Esses caras não vão me contratar, e eu vou trabalhar na ‘Placar’’. O “Jornal da Tarde” realmente era um bom jornal, tinha bons textos. O Roberto Avallone escrevia pra caralho, o Alberto Helena Júnior também, o Celso Kinjô e uma porrada de gente… A “Placar” era uma revista que primava pelo texto e pelas grandes reportagens. Minha formação intelectual e geográfica é “Placar”, sabe? De ler “Tabelão”, de saber a capital dos Estados, os times todos… Eu sei desenhar os escudinhos de todos os times do Brasil. Era uma coisa de louco mesmo. E o “Jornal da Tarde” era uma coisa que complementava isso em minhas leituras, com hard news, boas análises, notas, atuações, desenhos do Gepp e Maia… Pô, era sensacional!

Teve uma quebra de paradigma, que foi muito interessante na época e que rendeu muitos Prêmios Esso ao “JT” nesse período. Isso mudou com o tempo, é claro. Foi uma mudança do jornalismo em geral. Você se imaginava sendo esse cara do textão, o cara do texto que hoje se chama de jornalismo literário, mas que já se fazia tempos antes? Como você vê isso naquela época e como faz para sobreviver isso hoje? Porque a “Placar” hoje…

Não, a “Placar” não existe. Essas coisas deixaram de existir. Os bons textos hoje de esportes não estão em jornais. Não tem nenhum, rigorosamente nenhum jornal tem relevância hoje como fonte de informação e reflexão sobre esporte. Naquela época tinha, porque era o que existia. Isso hoje você encontra realmente na internet, sei lá no “Impedimento”, quando tinha, em alguns blogs de uma molecada muito boa… Tem bons espaços hoje para bons textos de futebol, para contar grandes histórias. A maioria dos jornalistas que trabalham com esporte hoje está em TV a cabo e, com algumas exceções, não pratica mais esse jornalismo. Na ESPN Brasil, na época do Trajano, bastante, agora não mais. A SporTV ainda faz bastante coisa. A “Revista ESPN” tentou. A revista impressa é muito na contramão do tempo que a gente vive… A gente se lembra de poucas reportagens recentes. Se a gente voltar para os anos 80, a Máfia da Loteria foi um megatrabalho de reportagem, do Sérgio Martins. A “Placar” tinha muita relevância nisso.

O próprio Xico Sá. Apesar de não estar voltado para o esporte, ele foi um cara que fazia grandes reportagens, né?

Sim. O Xico Sá foi repórter “meu” quando era editor de Esportes na “Folha”. Grandes coberturas, eu punha o Xico para fazer. Teve uma época que eu era editor adjunto. Na final do Campeonato Paulista de 1988, entre Corinthians e Guarani, decidido com o gol do Viola, nós fomos para Campinas e eu coordenei uma grande equipe: Fernando Gabeira, que ficou com uma máquina fotográfica dentro da Gaviões da Fiel, Clóvis Rossi, Andréa Fornes, Matinas Suzuki… Nossa edição desse título de 88, que eu tenho um puta orgulho de ter fechado, tinha umas vinte pessoas assinando matérias. Não sei se o Xico Sá fez uma dessas, acho que o Bob Fernandes, talvez. A gente fez uma edição em que em nenhuma foto daquele caderno de esportes aparece bola. Para nós, os personagens do futebol eram as pessoas. Tinha os caras da torcida, os jogadores, técnicos, juiz, mas não tinha bola. Era um negócio genial, mas se mandar hoje alguém folhear o jornal, ninguém vai perceber isso. A gente fazia esse tipo de coisa, tinha essa preocupação com o texto, em fazer grandes reportagens, fazer um jornalismo diferente mesmo. Era um pouco na linha do “JT”, que já não o fazia mais. No fim dos anos 80 e início de 90, começou a decadência do “Jornal da Tarde”.

Então, esse espaço para grandes reportagens, para contar grandes histórias, está na internet. Eu só não sei que alcance ele tem, mas sei que a repercussão inexiste. Qual grande reportagem de esportes a gente se lembra recentemente? Nenhuma. Aquele menino Guilherme Roseguini, do SporTV, que é oriundo de jornal, da “Folha” fez grandes matérias para jornal impresso. Mas, de uns dez anos para cá, em jornal impresso não tem nada, nada, nada relevante. Nada! Nada que você fale: “Nossa, você viu aquela coisa que o ‘Lance!’ deu?”. Não. Ninguém mais vê… Eu fico espantado: lá na Fox Sports ninguém lê jornal. A maneira de se informar é outra. Essa preocupação de fazer um jornalismo literário com esporte, ao estilo de Norman Mailer, não tem mais. O Gay Talese fez um texto sobre Nascar que é uma coisa linda, maravilhosa. Existe hoje gente fazendo literatura esportiva, sim, livros, mas não se vê nada hoje na imprensa. As revistas perderam completamente a importância. Alguém fala da “Placar”?

Como foram os anos de “Folha” do ponto de vista da liberdade, da autonomia?

Eu dei sorte de trabalhar na “Folha” na melhor fase da história da “Folha”. Eu peguei um pouco do rescaldo do Movimento das Diretas Já, quando a “Folha” ganhou importância nacionalmente, em 1984. Eu cheguei em 86. Pegamos o período Collor, que foi muito rico do ponto de vista da imprensa, porque ela criou a pauta política do país, com o impeachment e tudo mais. No esporte, eu sempre tive total liberdade. Nunca houve restrição a nada que a gente fizesse a não ser restrição do tipo: “Ah, a gente acha isso mais legal do que aquilo”, discussões normais, editoriais. Censura, não. Na “Folha”, a gente trabalhava num ritmo muito pesado, a pressão era muito grande, a concorrência era muito forte. Tinha quatro grandes jornais no Brasil: a “Folha”, o “Estadão”, o “Jornal do Brasil” e “O Globo”, e as comparações eram diárias. Eu chegava à sede do jornal às 6h e às 7h já tinha lido todos. A gente ficava muito ansioso para saber o que os outros estavam publicando para não tomar furo e tal.

Que é algo que não existe mais também. Se você pegar os grandes cadernos de esporte hoje, quem são os editores de esporte? Ninguém sabe. Quem era o editor de Esportes da “Folha” durante a Copa do Mundo no Brasil? Ninguém sabe. Naquela época, o editor de Esportes de um jornal era um cara conhecido no meio jornalístico. A imprensa escrita perdeu espaço. O que você consegue hoje publicar na internet é covardia, você publica todas as fotos que quiser, põe vídeos, áudios, podcast… O jornal está limitado ali naquele espaço. Ele foi perdendo muita importância, perdendo espaço físico, os jornais diminuíram, o papel é caro, imprimir é caro. Então, eu acho que a imprensa escrita é pouquíssimo relevante, acho que esta é a palavra mesmo. Tem uma ou outra coisa apenas… Tem uma menina na “Folha”, a Camila Mattoso, que é esperta. Destacou-se no site da ESPN Brasil indo atrás de coisas que os repórteres não vão mais, entendeu? O repórter que trabalha com esporte hoje está desacostumado de apurar, há uma geração de entrevista coletiva.

Outro dia a gente estava discutindo: “Ah, por que o Cristian está no Corinthians há um ano, ganha 500 mil por mês e não joga?”. “Alguma coisa deve estar acontecendo”, ficam falando os caras. Aí eu falo assim: “Quando eu era repórter, quando existia imprensa esportiva – e falo no ar mesmo, foda-se –, algum repórter já teria descoberto”, porque o cara ia até a casa dele, ia à porta do puteiro que ele frequenta, ia conversar com o porteiro do clube e tudo mais até descobrir o que está acontecendo com o Cristian. Ninguém sabe o que acontece com o tal do Cristian. Essas coisas investigativas existiam, hoje não tem. Os jornalistas frequentam entrevista coletiva.

Foto: Max Rocha

Foto: Max Rocha

Neste caso específico do Cristian, isso tem a ver com essa mudança do trabalho do repórter, daquele papo de sujar os sapatos, ou talvez com a forma como os clubes blindam através da assessoria de imprensa?

Com as duas coisas. Como hoje tudo é muito blindado, essa atuação do repórter de fazer plantão, pisar o barro e essas coisas não existe mais. Essa geração que está aí agora não sabe o que é isso, nunca fez. Quem tem 30 anos hoje e começou dez anos atrás entrou na cobertura esportiva já nesse esquema de entrevista coletiva, horário para falar, escolha de quem vai falar e quem não vai, de gravar e não sei quê. Não tem mais pauta, ninguém se interessa por personagens.

Os personagens continuam sendo bons, né?! “Ah, por que não tem mais um Dario, um Biro-Biro, Geraldão, Viola?”… Olha a quantidade de bons personagens que eu citei que subsistiram até os anos 90. Paulo Nunes, Donizete Pantera, Jardel… Hoje, no elenco do Palmeiras, por exemplo, deve ter um cara engraçado para você contar uma puta história, entendeu? Mas você não tem acesso a ela, porque não entra no treino e não fica mais na rodinha que tem depois, conversando com os jogadores. Aí um fala: “Pô, mas você viu o Vitor Hugo? Ele tem um porco na casa dele”. Essa conversa não existe mais. O jornalista vai lá, vê o treino – quando vê –, fica sabendo quem vai dar a coletiva e pergunta: “Vitor Hugo, o que você espera do jogo na semana que vem?”. Então, não há a busca sequer por personagem. Eles devem estar aí. Se você quiser sair hoje contando as grandes histórias do futebol, você conta.

Eu tinha um projeto que apresentei para a ESPN Brasil na época, em que queria viajar pelo Brasil por um ano. Por exemplo: quando fosse ter um Bra-Pel lá em Pelotas, passaria uma semana na cidade. Por que esse jogo mexe tanto com a cidade mesmo que ele seja válido pela segunda divisão do Campeonato Gaúcho? Em um jogo entre Campinense e Treze na Paraíba, a mesma coisa. Iriam aparecer personagens, histórias. Elas estão aí, está tudo aí. Eu queria fazer isso, produzir doze programas de televisão. Escolheria doze jogos ou doze episódios, por exemplo: contar a história daquele Portuguesa e Santos de 1973. O que aconteceu naquele jogo? Quem está vivo? O Badeco está vivo, o Zecão.. O juiz morreu, mas o bandeirinha está vivo. Agora, olha o nosso futebol dos pontos corridos pra cá. Me cita um jogo histórico do futebol brasileiro.

Corinthians e Internacional.

Corinthians e Internacional, este, acabou. Sendo você corintiano, o São Paulo foi campeão em 2006, 2007 e 2008. Você lembra-se dos jogos em que o São Paulo foi campeão? De um ou outro? Está vendo como que é. Agora, pergunta pra mim qual foi a final do Campeonato Brasileiro de 1986. São Paulo e Guarani, Brinco de Ouro da Princesa. O jogo foi para a prorrogação, teve um pênalti no João Paulo que o juiz não deu. Pergunta qual foi a final do Campeonato Brasileiro de 1977. Foi São Paulo e Atlético Mineiro, no Mineirão, em 1978. Foi para os pênaltis, o Valdir Peres passou a mão na bunda do Toninho Cerezo, que chutou a bola para fora.

Isso pra você é resultado da cobertura ou do formato do campeonato?

Isso é resultado do formato, principalmente… Mas também da atenção que um jogo atrai para o Brasil inteiro. Então, o torcedor do Flamengo, que ganhou o Campeonato Brasileiro pela última vez em 2009, não se lembra de quais foram os jogos decisivos dos últimos três, quatro, cinco anos, porque na vigésima rodada do campeonato ele já perdeu interesse. Não é uma coisa que ele fale: “Nossa, essa é a grande final, grande decisão!”.

Só uma correção: tem um jogo que eu acho bastante relevante, não por ser decisivo, mas por ser da morte do Sócrates, em 2011.

Sim, foi a final do campeonato, no Pacaembu, Corinthians e Palmeiras. Mas veja: foi porque morreu um cara que já não jogava mais. Então, eu acho que as grandes histórias não estão mais acontecendo no mainstream, nesse futebol de Playstation, dessa geração que tem 20 anos ou um pouco mais. Essas pessoas não viveram uma época em que o futebol gerava grandes, maravilhosas histórias. Deve ter. Por exemplo, o Santa Cruz subir da Série D para a Série A é uma epopeia. Alguém um dia teria que contar essa história, mas não vai contar mais porque não está preocupado. Está preocupado se o Cássio vai sair ou não, e quanto vai custar; se o Andrés Sanchez vai ou não pagar o estádio. O foco da cobertura mudou muito, ficou pobre, eu acho. A maneira como se enxerga futebol hoje é muito mercantil. Eu vejo torcedor do Corinthians vibrando quando o clube fecha um contrato de patrocínio ou tirando foto do placar quando sai a renda. Vai tomar no cu! Não dá para comemorar renda. As pessoas se orgulham disso, e eu realmente acho uma bosta. Não é saudosismo, porque a Champions League continua gerando boas histórias. Aquele jogo do Borussia Dortmund com o Liverpool, válido pela Liga Europa, dá um livro. O Leicester dá um livro. O que dá um livro no Brasil hoje? O Audax? Não dá um livro. Talvez o Santa Cruz. O rebaixamento da Portuguesa, sem dúvida. Se houvesse imprensa esportiva, repórteres, gente acostumada a fuçar, entrevistar, buscar, escarafunchar… Ninguém sabe o que aconteceu.

Você pode me perguntar: “Por que você não foi atrás?”. Primeiro, porque eu não sou repórter mais. Eu não sou repórter de futebol. Eu tenho um milhão de outras atribuições, mas, se eu fosse editor de esportes da “Folha”, por exemplo, ou do “Estadão”, ou do “Lance!”, naquele dezembro de 2013, eu pegaria um repórter e diria: “Você vai atrás dessa merda até descobrir.”. Antigamente, a gente fazia isso na “Folha”… Não vou me lembrar agora de nenhum caso específico, mas a gente separava um cara para levantar uma história e fazer uma reportagem legal.

Uma história dessas é aquela da volta do tetra, dos aviões carregados de produtos.

Sim, o avião da muamba. Se não me engano, quem descobriu aquele negócio foi o Fernando Rodrigues, da “Folha”, que era um repórter de política. Por alguma razão, ele foi destacado para cobrir aquele negócio ou tinha fontes da Polícia Federal. Hoje, esse caso do Cristian que contei é bobo, mas que trinta anos atrás seria descoberto em uma semana. O caso da Portuguesa é seríssimo! Acabaram com o time, vai morrer o time por causa desse negócio. E ninguém está nem aí! A imprensa não está nem aí, os torcedores dos outros times também não, porque quem tem 20 anos não sabe o que é a Portuguesa, não tem ideia do que foi, enfim não liga. É a cultura da irrelevância que a gente vive na cobertura esportiva.

Eu fico agoniado muitas vezes no programa que faço todo dia. Às vezes, a gente fica lá duas horas falando de nada! De nada, de coisas que não tem menor importância… “O Tévez vem para o Corinthians?”. “Porra, sei lá, não vem”, entendeu? Então, não vamos discutir quinze minutos se o Tévez vem para o Corinthians porque ele não virá. Só que no décimo minuto já estão escalando o Tévez para ver onde ele vai jogar. “Ele pode jogar com o André?”… Aí eu fico ali pensando: “Pu-ta que pa-riu! Que porra nós estamos fazendo aqui?”. Acho que é também a maneira como as pessoas consomem informação hoje, que é um pouco diferente. Sei lá…

Foto: Max Rocha

Marco Lourenço e Flavio Gomes durante a entrevista. Foto: Max Rocha.

Você passou pela “Folha de S.Paulo”, pela ““Placar””, voltou para a “Folha” e foi para o “Lance!”. Como foram esses anos?

Eu saí da “Folha” em 1994 e o “Lance!” foi às bancas no final de 1997. Do pessoal que criou o “Lance!” e que estava montando a redação aqui, muitos tinham trabalhado comigo na “Folha”. Nessa época, eu já tinha minha agência de notícias que fazia cobertura de Fórmula 1 para jornais do Brasil inteiro, que montei em 94 e estreou em 95. Eu viajava, fazia tudo por minha conta, e para os caras era legal também ter um repórter fazendo Fórmula 1. Então, eles me chamaram e me contrataram. Eu mandava para o “Lance!” o mesmo material que mandava para os outros jornais. Saía diferente porque o espaço era diferente, menor e tal. Eu não posso dizer que frequentava a redação do “Lance!”. Para não dizer que não frequentava, eu ia lá uma vez por mês para levar nota fiscal e pegar o dinheiro. O “Lance!” foi uma ideia legal para a época.

Era para ser um “Olé”?

Era… acho que era. Só que o “Olé” tem quantos anos de existência pré-”Lance!”? O “Lance!” teve coisas ótimas. Em 1998, ele rodava uma edição na França durante a Copa. Do caralho! Rodava e vendia lá em português na banca. O “Lance!” nasceu antes na internet do que no impresso. Quando estreou, estreou na internet. Naquele vácuo, quando os esportes estavam diminuindo muito em termos de espaço nos jornais tradicionais, quando os jornais tradicionais de esporte estavam muito envelhecidos – a “Gazeta Esportiva” em São Paulo e o “Jornal dos Sports” no Rio –, o Walter de Mattos viu uma brecha, pensou: “Tem um mercado aí”. Apesar de ele ser um cara que sempre se preocupou com a internet, de ter nascido com a internet e tal, o carro chefe era o jornal impresso. Só que eu acho que ele não imaginava que a internet iria engolir tudo tão rapidamente. Eu não sei a situação financeira do “Lance!” hoje, mas a impressão que eu tenho é que seja um jornal quase agonizante. Eu, por exemplo, não conheço ninguém que compre o “Lance!”. Eu assinava o “Lance!”, mas depois que parei de assinar não fez falta para meus filhos, que têm 16 e 17 anos. Eles não compram, os amiguinhos deles não leem, não sei quem lê o “Lance!”! Com 15 anos, eu adorava ver fotos de jogadores, era uma coisa que não tinha naquela época. Agora está tudo na internet!

Então, meus anos de “Lance!”… passaram batido quase. Quando saí, não causou nenhuma comoção, não, na Avenida Paulista. Eu saí porque uma pessoa foi lá se oferecer para fazer de graça e tal. Como os caras estão sempre em dificuldade financeira, aceitaram. Nem sei se ele faz ainda… Fórmula 1 é uma coisa que desapareceu do jornal. E também tem isto: a internet cresceu de tal forma que publicar Fórmula 1 em jornal virou uma coisa meio desnecessária. Não cabe nada. Se você quer ler exatamente o que aconteceu numa corrida, você vai a um site, onde tem tudo, se fala de todos os pilotos, de todos os Grandes Prêmios…