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Flavio Gomes (parte 4)

Equipe Ludopédio

Torcedor da Lusa e colecionador de carros antigos, o jornalista Flavio Gomes tem uma longa trajetória dedicada à cobertura do automobilismo e do futebol. Foi repórter e editor da Folha de S. Paulo, editor da Placar e trabalhou no jornal Lance!. Foi apresentador e comentarista de Fórmula 1 da Rádio Jovem Pan AM, fez parte da equipe de jornalismo da Rádio Bandeirantes e das rádios ligadas à ESPN (Eldorado/ESPN, Estadão/ESPN e Capital). Foi comentarista e apresentador dos programas Limite, Bate-Bola e Pontapé Inicial na ESPN Brasil. Atualmente é comentarista e apresentador dos programas Fox Sports Rádio e Fox Nitro da Fox Sports. Criador da agência de notícias Warm Up, dedicada à cobertura do automobilismo, e do site Grande Prêmio, Flavio também atuou como professor de Jornalismo na FAAP.

Foto: Max Rocha

Flavio Gomes. Foto: Max Rocha.

Quarta parte

Como você está vendo a discussão política dentro da editoria de esporte ultimamente? Como você lidou com isso ao longo de sua carreira?

Eu trabalhei para os Frias, para os Mesquita, de certa forma, indiretamente, trabalhei para a Disney, quando fazia cobertura para jornais trabalhei para o jornal do Quércia, da família real brasileira, do Antônio Carlos Magalhães… Enfim, direta ou indiretamente, eu trabalhei para toda a oligarquia da comunicação do Brasil. E agora eu trabalho para uma empresa que é reconhecidamente de direita e tudo mais. No esporte, na Fox, nesse caso específico da gente ali, não é um assunto discutido. Simplesmente, não se fala nesse assunto. A gente não tem um viés político no canal como a gente tinha na ESPN, que era comandado por gente de esquerda e que fazia essa relação de esporte e do resto do mundo. Essa relação do esporte com o resto da vida social do planeta não é feita na Fox, não existe. Por exemplo: torcida única. Esse é um tema que você pode politizar ou não. É possível tratar essa discussão sem partidarizar. Eu tenho a minha opinião politizada de todos os assuntos, mas a abordagem que a gente usa na Fox é despolitizada. Então, quando a gente vai discutir torcida única, não vamos discutir qual foi o governo que impôs a torcida única.

Alguém já pediu para eu não falar tal coisa? Não, não aconteceu. Aliás, é gozado que isso incrivelmente em minha carreira, que é longa, só foi acontecer uma vez na Jovem Pan. E eu saí. A situação foi besta. Eu apresentava um jornal, a “Hora da Verdade”. Eu era âncora do jornal. Sei lá, o prefeito de São Paulo era o Celso Pitta. Num certo dia, eu esculhambei o Pitta. Aí o Maluf ligou para a rádio. Esses caras fazem isso direto, direto, direto! O Renan não recebeu um telefonema do Octavinho Frias? E o Maluf mandou me tirarem do ar. Aí o diretor da rádio me chamou: “Porra, você falou tal coisa?”. Falei, respondi. “Mas você não pode falar.” “Mas o que eu falei é verdade.”. “Eu sei que é verdade, mas você não pode falar.”. “Claro que posso falar, tudo que for verdade eu posso falar. Se eu estiver falando mentira, você me tira do ar. Verdade, eu falo.”. “É mas o Doutor Paulo ligou e não sei quê…”. “Foda-se o Doutor Paulo!”. Dois meses depois, eu estava na rua… Porque eu não parei de falar, nem pararia de falar. Para parar de falar, eu sairia da rádio por minha conta. Como não parei de falar, me mandaram embora. Então, nunca houve em nenhum desses outros lugares censura nesse sentido.

O que há muitas vezes, e isso o tempo todo acontece, são orientações editoriais. Por exemplo: Marin foi preso. “Gente, não vamos esticar esse assunto”. Se o programa tem duas horas e nós vamos falar um minuto da prisão do Marin e uma hora e cinquenta e nove minutos do Corinthians, é uma decisão editorial do canal. Tudo bem, a gente só não esticou o assunto. Pessoal e editorialmente falando, eu acho um equívoco. Agora, eu preciso respeitar a visão que o canal tem do esporte. O canal acha mais importante falar do Corinthians do que falar do Marin? Ótimo, paciência. Falo mais do Corinthians do que do Marin. No dia que eu tiver um canal, falarei mais do Marin do que do Corinthians. Isso é uma decisão soberana da empresa. Não é assim: “Não pode falar que o Marin é tal coisa”. Isso pode, posso falar.

Incomoda-me trabalhar numa empresa totalmente de direita? Não, porque esse posicionamento da empresa, da corporação Fox, nunca me afetou diretamente, nunca precisei violar nenhum princípio meu interno para poder manter meu emprego. Tem coisas que os outros pensam e eu não concordo? Paciência. O Benjamin é um cara que tem uma posição política, filosófica e comportamental completamente distinta da minha, o oposto, mas eu convivo com isso. Não tem problema nenhum. E ele também convive. “Ah, eu não vou trabalhar na Fox porque o Benjamin é um cara de direita!”. Não, em hipótese alguma. Não dá para imaginar que você vai ter num canal com 500 pessoas trabalhando todo mundo pensando igual a você. Agora, se um dia alguém chegar a mim e falar assim: “Você tem que defender o Marco Polo Del Nero”. Eu pego meu bonezinho e vou para casa, ou respondo: “Não, gente, eu não vou defender o Marco Polo Del Nero. Espero que vocês respeitem minha posição”.

Nesse momento político que o país vive, é possível dentro da crônica esportiva, mesmo com algumas restrições editoriais, como você falou, promover algum espaço de crítica? Por exemplo, o Leonardo Picciani foi um dos votou a contra o impeachment e foi agraciado com o Ministério do Esporte. Como essa informação pode ser trabalhada?

Essa é uma informação que provavelmente não vai ser trabalhada, porque para quem hoje está no comando do canal essa informação não é importante, ao contrário é irrelevante. É importante que a Olimpíada seja legal, é importante que a Copa seja legal, um bom evento, uma festa, uma alegria e tudo mais. Agora, se desabar o ginásio, é claro que a gente vai tratar isso com um grau de senso crítico necessário. Não falamos do Picciani como não falaríamos se fosse outro. Não se falou quando entrou um nem quando saiu outro. Não é um assunto que é discutido dentro da grade. A política esportiva não é assunto para a Fox.

 

Em geral, você sente que tem autonomia para falar fora da Fox o que está pensando do país?

Tenho, tanto que eu faço. Na ESPN, num determinado momento, o presidente da empresa, o German Hartenstein, por alguma coisa de Twitter, numa época eleitoral, veio falar comigo. E aí eu falei que não ia parar de fazer o que estava fazendo: “German, eu tenho x seguidores e as pessoas me seguem e querem ler o que penso sobre tudo. Eu não uso a ESPN no meu Twitter, não é algo corporativo”. Ele argumentou: “Ah, mas você tem que entender que é a ESPN”. “Não sou a ESPN”, respondi. “Sou a ESPN quando estou no ar.” Então, não mudei um milímetro meu comportamento nas tais redes sociais, no meu blog, que são plataformas de expressão de pensamento.

Por exemplo: parei de escrever de política no meu blog. Por que eu parei? Parei porque não tenho saco. Eu modero meus comentários, todos eles. Não tem um comentário em meu blog que não leia. Então, não tenho saco para ficar lendo bobagem, de gente vomitando ofensas. É chato, tecnicamente é um saco bloquear o cara. Cansa. Em meu blog, parei de falar de política. No Twitter falo, no Facebook também. Enche também o saco bloquear, mas não sei se tem grande efeito. Acho que hoje no campo de discussão política tem muita gente falando, escrevendo e se dedicando a isso. Meu trabalho é outro. Eu trabalho com esporte, basicamente com futebol e automobilismo. A discussão política cresceu tanto no Brasil nestes últimos três anos que o que eu falar de vez em quando, escrever um texto a cada quinze dias ou dois meses, deixa de ter peso. E eu quero que as coisas que eu escrevo tenham algum peso. Se eu quiser falar de política, vou ter que me dedicar a isso, parar de fazer o que faço. E vou fazer isso agora?

Onde você estava no 7 a 1?

Eu estava em um apartamento alugado pela Fox lá no Rio de Janeiro, do lado do IBC. Eu fazia o programa de manhã, o “Bom Dia Fox”, das 7h às 14h, e depois saía. Não ficava lá vendo jogo com as pessoas, não ia ter muito saco para ficar torcendo pelo Brasil. Fui para o apartamento, e estávamos eu e o Sormani lá, tomando cerveja… Achei do caralho o 7 a 1! Espetacular!… É o seguinte: o futebol brasileiro é contaminado por gente da pior espécie: dirigentes, Marco Polo, Marin, essa canalha toda. A seleção brasileira ir bem em uma Copa do Mundo significa que esses caras vão se dar bem. Então, enquanto esses caras estiverem com um pé no futebol brasileiro, eu vou torcer contra sempre. Vou torcer para dar tudo errado! Como é que um boçal como o Dunga pode ser premiado pelo destino? O Marco Polo, o Marin, o Teixeira… o Felipão? O Felipão defendeu o Pinochet! Esses caras têm que se dar mal. Alguma coisa de ruim tem que acontecer com eles, que têm uma vida nababesca, com fortunas e tudo mais. Eles não podem entrar para a história com vitórias. Por isso, foi muito legal o que aconteceu… É que a história não cobra, isso é engraçado. Um mês depois estavam os mesmos jogadores jogando, os mesmos idiotas comandando, muitos jornalistas bajulando os mesmos caras, enfim estava a mesma coisa. Então, achei sensacional. Sen-sa-ci-o-nal! Não poderia ser melhor.

Para você quem deveria ocupar o lugar do Dunga?

O Tite. Ele é o melhor técnico do Brasil hoje… Mas isso não faria com que eu torcesse para a seleção brasileira, eu continuaria torcendo contra. No dia em que o Zico for o presidente da CBF, no dia em que o Sócrates – se estivesse vivo – for o diretor de seleções, no dia em que o Cristóvão Borges for o supervisor, no dia em que as pessoas de bem – e elas existem, é claro que existem – assumirem o futebol, vai ser legal. A seleção de 82 só tinha jogador legal, e o presidente da CBF era o Giulite Coutinho. Era um outro padrão de gente. Agora, como é que eu vou torcer para o Dunga, o Gilmar…

Foto: Max Rocha

Flavio Gomes. Foto: Max Rocha.

Para onde foi o Bom Senso? O Rogério Ceni, que era uma das lideranças do movimento, esteve com essa turma da CBF.

Pois é. Na verdade, a categoria de jogador de futebol é pouquíssimo politizada, delibera pouco e desiste muito fácil. Ela encontra pouco resultado do que fala, exceto a concordância de parte da imprensa, o Juca Kfouri, o Trajano, eu… Só que, como diz o Capitão Nascimento, “o sistema é foda”. Então, não basta falar, pregar determinados conceitos e princípios, indicar algumas soluções e tudo mais se nada disso é levado adiante, porque chega uma hora que eles não têm para onde ir, esbarram na hierarquia do futebol brasileiro que os impedem de passar disso. Você só consegue deliberar se for dirigente, se for o presidente da CBF. Para ser presidente da CBF, você precisa ter uma candidatura e obter os votos dos presidentes das federações. Se o presidente da CBF fosse um cara decente, mesmo nessa estrutura, chamaria o Bom Senso, aceitaria as sugestões, limparia e resolveria o futebol brasileiro. Para isso acontecer, precisaria ter um cara no topo da pirâmide que fosse permeável a sugestões e a uma mudança radical de estrutura. Todas as ideias do Bom Senso eram bacanas, todas as sugestões, pleitos, reivindicações, tudo era justíssimo, mas elas só teriam efeito, por exemplo, se os jogadores fossem capazes de parar o campeonato. Mas eles não são. As ações deles no campo mostraram para todos que eles eram atuantes, que reivindicavam mudanças, mas elas não podem acontecer na realidade. Se parassem o campeonato, tudo bem. Aí iriam mexer com a TV Globo. Tinham que falar: “Não vamos jogar nem nesse próximo fim de semana, nem no outro. Se não mudarem o calendário, nós não vamos jogar”. Agora, você não consegue essa unidade no futebol, não consegue… País nenhum consegue. O que existe é apenas um ou outro evento isolado.

Você se sente cansado do futebol?

Sim… Gosto muito da Portuguesa, continuo vendo jogo onde tiver, Série A, B, C, tanto faz. Isso não é uma coisa que me incomoda. Sabe o que é? Quando você já viveu um período muito mais legal, você vê como é chato hoje. Ainda gosto de ver jogo, acho bacana, mas não me empolgo muito, para falar a verdade. Empolgação não existe. Gosto, trato com seriedade, vejo muitos jogos, mas não todos. Acho que se gasta muito tempo hoje na televisão, como um todo, falando de nada. O futebol brasileiro, na verdade, é fraco, é ruim em todas as esferas: técnica, tática, humanamente, para público… É muito ruim mesmo. E teve um momento muito mais legal, porque, embora a estrutura fosse igualmente ruim, deficiente, corrupta, podre e tudo mais, tinha times bons e gente na arquibancada. Tinha festa e estádio com bandeiras. Futebol era realmente uma experiência sensorial. Hoje não é. Um dia eu fui ao estádio do Corinthians e pensei: “Pô, isso aqui não é o Corinthians. É outra coisa”. Aí um grita: “Senta!”. “Não pode fumar!” Putz.

Outro dia eu e meus filhos fomos ao Maracanã novo para ver um jogo da Portuguesa, Portuguesa e Botafogo. No terceiro “Bem-vindo ao Maracanã” quando estávamos subindo a rampa, meu filho virou pra mim e disse: “Pai, eu vou dar um murro no próximo que vier falar ‘bem-vindo ao Maracanã’ pra mim!”. E o próximo era uma menina que queria vir pintar a cara dele. Aí ele falou: “Ah, pai, vai tomar no cu! Que é isso! Vocês estão loucos! Que porra é essa!”. Porque ele é acostumado a ir para São Caetano, Campinas, tomar chuva, sofrer, chorar, passar perrengue…

Essa modernização do futebol que segrega está sendo aceita por muitos, está se tornando um senso comum. Como você imagina esse cenário daqui a dez anos?

Eu acho que esse modelo que está dando certo para alguns clubes não se aplica para a imensa maioria dos clubes brasileiros. Não se aplica porque o futebol brasileiro não é o Corinthians e o Palmeiras apenas, embora boa parte da imprensa queira fazer pensar que é. O futebol é o Sport, o Náutico, Vitória, Bahia, Brasil de Pelotas, Londrina, Coritiba, Sampaio Corrêa… Essa divisão de dinheiro do Brasil é completamente distorcida, acabou com o futebol. O pior é que eles estão acabando com uma coisa que é a mais importante do futebol: ser um espaço democrático de convivência. Parece clichê isso, mas é eu sentar lado a lado do lixeiro, do advogado, do traficante, da puta, do jornalista, do engenheiro e do caralho no mesmo lugar. Talvez o futebol fosse a única arena em que se conseguia colocar lado a lado pessoas de classes sociais totalmente opostas. E isso não acontece mais… Com esses estádios novos, não acontece mais. Eles segregaram. Os caras de torcida organizada estão em um canto, no meio só fica quem tem grana, os brancos, e num cantinho fica a torcida adversária. Então, ao invés de juntar, segregaram as pessoas.

Por isso que jogo no Canindé é do caralho! “Ah, mas não tem cadeira.” Foda-se! Você não precisa ter cadeira para ver jogo de futebol. “Você é contra o conforto.” Não, eu não sou contra o conforto. Pode-se ter um espaço com cadeira também. Se uma pessoa só consegue ir ao estádio de futebol se tiver conforto, então dê um espaço para ele ter conforto. Agora, não expulse as pessoas do estádio. Aquela pessoa que só pode pagar R$10,00 por um ingresso não pode mais ver jogo de futebol hoje. O torcedor que queria ver um único jogo do Palmeiras na Libertadores ou que ficava esperando por um clássico não pode mais. Ele é obrigado a pagar R$300,00 por mês para ser torcedor. “Ah, mas gera receita.”. Ok, está bom. O que eu posso fazer?… Eu gosto? Não, não gosto. “Ah, mas é bom para o Corinthians.”. Tudo bem, é bom para o Corinthians. É bom para os torcedores do Corinthians que tinham no futebol um lazer? Não é… Mas como o Corinthians tem uma torcida muito grande, vai encher estádio toda hora. “Ah, mas ainda tem pobre no estádio.”. Quando ouço isso dá vontade de perguntar: “Mas você já foi alguma vez na geral do Maracanã em sua vida?”. Isso não é saudosismo. Eu acho que a função social do futebol é essa. Não deveria colocar no topo das prioridades a geração de receita.

O Corinthians precisava desse estádio aí? Gastar o que gastou para fazer essa bosta? Não precisava. Poderia ter feito um estádio, é claro. O time tem 110 anos e nunca tinha feito um estádio, coisa que até a Portuguesa fez. Mas precisava fazer isso aí? O Peñarol levantou um estádio no Uruguai, que é um país pequenininho de 3 milhões de habitantes, para 40 mil pessoas, com dinheiro próprio. “Ah, mas não tem cobertura.”. Veja a Copa América. Tem algum estádio com cobertura? O Camp Nou tem cobertura? Não tem… Veja o Náutico. O clube vai fechar. O Náutico não joga mais nos Aflitos para jogar naquele estádio no cu do mundo para 50 mil pessoas, sendo que coloca 2 mil. O clube vai fechar. É legal ter um estádio como o do Palmeiras? Porra, é legal pra caralho! Claro que é legal, desde que seja possível ir ao jogo. Tenho um monte de amigo palmeirense que não consegue ir aos jogos. O Benja, por exemplo, só vai a jogos de vez em quando. Porque ele só fica em camarote não sei das quantas. Cada vez que ele vai a um jogo, gasta R$2.000,00! Se ele acha isso legal, está bom. Eu não acho.

Para quem viu futebol como eu vi, ou melhor, como eu vejo ainda, o legal do futebol se perdeu. Quando pergunto para o Benja: “Era mais legal no Pacaembu ou em Itaquera?”. “Ah, no Pacaembu!”, responde. Também porque era perto da casa dele e ele ia a pé. Mas tem um monte de defensores. O Sormani defende isso porque acha que o modelo de esporte ideal para o sistema planetário do universo é a NBA. Cada um tem o direito de achar o que quiser. E eu acho que não é… Às vezes eu acho que tenho muita sorte de torcer para o time que eu torço, porque eu hoje como torcedor não conseguiria bancar ser torcedor do Palmeiras ou do Corinthians. Não conseguiria bancar porque não vou sozinho… Às vezes eu pego minha Kombi e encho de moleques para ir ao Canindé. É do caralho! Pago ingresso para todo mundo, custa R$10,00, tem bolinho de bacalhau, senta onde quiser… Meus moleques desde os 2 anos de idade vão ao Canindé, correm pra lá e pra cá, às vezes os perco de vista, depois acho. Quando o estádio está cheio eles gostam, quando está vazio também. É esse tipo de convivência, entende? Hoje para um pai ficar levando filho ao estádio não está fácil, não. Faz a conta de quanto custa tudo isso. Então, esse modelo expulsou um monte de gente do estádio. É uma tristeza…

O que te deixa mais preocupado: o futebol ou o Brasil daqui a dez anos?

Ah, eu estou cagando para o futebol daqui a dez anos! Se acabar o futebol, eu não vou morrer. Se acabar a Portuguesa, eu vou… Mas, o Brasil, é claro. Eu tenho 52 anos, daqui a dez anos terei 62 e não sei se estarei trabalhando ainda, se vou ter o espaço que tenho hoje na mídia. Eu me preocupo muito mais com o país, porque tinha encontrado um caminho aos trancos e barrancos, mas tinha sido a primeira vez que alguém olhou para o lado de baixo. Agora corre-se o risco enorme de não olhar de novo. Foram 500 anos para olhar. Olhou meio torto ainda, mas fez alguma coisa e tal. Teve um monte de cagadas, algumas delas estratégicas e tudo mais, só que é muito pior a perspectiva de novos governos de direita e neoliberais no Brasil do que qualquer outra coisa… Ninguém sabe direito o que vai acontecer.

O Brasil foi sabotado. Quando a Dilma ganhou a segunda eleição, os de sempre sentaram e disseram: “Agora não era hora de ela ganhar.”. Porque eles acharam que o Aécio iria ganhar. “Chega, os esquerdinhas já fizeram a sua festinha. Agora vamos pegar o nosso quinhão de novo.”. E perderam a eleição. Então, no dia seguinte começaram a sabotar o Brasil. Não é possível que o país tivesse uma economia estável até o dia 20 de outubro de 2014 e no dia seguinte não tinha mais… A inflação subiu, a produção parou, as demissões começaram, o dólar subiu, tudo de um dia para o outro. Não faz sentido… Não faz economicamente falando, mas faz todo o sentido politicamente. Sabotaram o Brasil na cara dura!

E é exasperante porque não há a quem recorrer. As instituições do Brasil existem, tem lá o judiciário, o Supremo Tribunal Federal, o Congresso. É um lixo? É um lixo, mas ele está lá e respeita-se. Antigamente quando a situação era exasperante, você metia os tanques na rua e derrubava o governo, como fizeram em 1964 ou como o Fidel fez em Cuba. Mas aqui isso não vai acontecer de novo.

Eu vou dizer uma coisa que não tem nada a ver com o nosso papo: dependendo do que acontecer no Brasil… Eu nunca pensei em morar fora, e olha que já tive chance, já viajei pelo mundo durante 18 anos, tudo quanto é país e tudo mais. Mesmo assim nunca fui aquele cara que voltava e pensava: “Nossa, como a França é legal, a Itália é do caralho, a Alemanha é maneira!”. Nunca. Sei que sou daqui, trabalho aqui, fiz minha família aqui… E outra: eu vivi sob uma ditadura militar até 1985, quando tinha 20 anos. Eu não fui uma vítima da ditadura, no sentido clássico de apanhar, não poder escrever, essas coisas. Quando a ditadura acabou, eu estava começando a viver. Em 82 eu fui para a faculdade, em 84 teve as Diretas Já. Quer dizer, aí você via uma perspectiva para o país. “Porra, vai ter eleição! Esses milicos vão embora! Bacana.”.

As Diretas não passaram, mas durante minha juventude a gente passou a ter uma meta: votar para presidente. Passaram cinco anos e votamos. Aí ganhou o Collor, aquela merda. A gente de novo – os mais jovens – se juntou e queria um país de esquerda,  levou treze anos para o Lula ganhar a eleição. Ou seja, eu sempre tive motivação para viver no Brasil, apesar do Collor, do Fernando Henrique…

Sua família apoiou sua posição política e ideológica?

Pelo contrário… Não vou dizer que sou o único da família, tem o meu irmão mais novo que tem um pensamento mais humanista… Eu fiz em casa mais ou menos o que fiz em meu blog: parei de discutir política.

O que eu estava tentando dizer era o seguinte: durante todos esses anos, eu sempre tive uma motivação pessoal para morar no Brasil. Quando o Lula ganhou, eu me emocionei pra caralho, foi a vitória de minha geração. O André Singer, que foi meu chefe da “Folha”, estava lá. O porta-voz do governo era de minha turma… Aí a gente vai retroceder tudo de novo? Não que eu não tenha mais força para lutar, não é isso. Eu nunca lutei, nunca peguei numa espingarda e saí dando tiro. Não é isso. Mas dentro de minhas possibilidades lutei conversando, discutindo, escrevendo… Eu não tenho mais paciência, entende? Dependendo do que acontecer, do que virar o Brasil na próxima eleição, eu vendo essa porra toda aqui e vou para o Uruguai. Junto um dinheiro, vendo meu apartamento, meus carros, e vou pra lá de food truck, vou viver meus últimos anos num lugar civilizado, onde eu não me sinta oprimido por essa calamidade intelectual que virou o Brasil.

Por fim, qual é o jogo de sua vida?

Semifinal do Campeonato Brasileiro de 1996, Mineirão, Portuguesa e Atlético Mineiro, 2 a 2, que classificou a Portuguesa para a final. Tinha, sei lá, 95 mil pessoas no Mineirão, e nossa pequena aldeia gaulesa lá em baixo na geral com 1500 pessoas. Esse é o jogo de minha vida. Putz, lembro-me de cada segundo. Puta, foi demais!