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Gilmar Mascarenhas

Equipe Ludopédio

Professor de Geografia Urbana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e professor visitante na Université Michel de Montaigne Bordeaux III, Gilmar Mascarenhas trabalha com as temáticas da cidade, cotidiano, espaços públicos e planejamento urbano. Em 2001, defendeu a tese de doutorado “A Bola nas Redes e o Enredo do Lugar: uma geografia do futebol e de seu advento no Rio Grande do Sul” na Universidade de São Paulo, voltou-se a uma geografia dos esportes e uma geografia do lugar, abordando questões relacionadas à difusão do futebol no Brasil e aos aspectos da configuração socioespacial do Rio Grande do Sul que auxiliaram na entrada e consolidação da prática futebolística nos campos e planaltos riograndenses. Nos últimos anos tem realizado pesquisas sobre política urbana, territorialidades, estádios de futebol, legados e impactos na cidade a partir de estudos sobre os megaeventos esportivos no Rio de Janeiro.

A entrevista foi realizada durante o I Simpósio Internacional: Futebol, Linguagem, Artes, Cultura e Lazer, realizado em setembro de 2013, na cidade de Belo Horizonte.

Boa leitura!

 

 

Gilmar Mascarenhas durante o I Simpósio Internacional: Futebol, Linguagem, Artes, Cultura e Lazer. Foto: Sérgio Settani Giglio.

 

 

Primeira parte

 

Gilmar, em seu mestrado você trabalhou com questões relacionadas à cidade, sociabilidades, territorialidades, espaço público. No doutorado, voltou-se a uma geografia dos esportes e uma geografia do lugar, abordando questões relacionadas à difusão do futebol no Brasil. Conte como iniciou o seu interesse acadêmico pelo universo futebolístico.

Acho que o ponto de partida é o mesmo para quase todos nós. Primeiro, a gente gosta de futebol, joga futebol, se apaixona, aí depois, mais tarde, vai pensar em como conciliar essa paixão pelo futebol com nosso trabalho acadêmico. Então o ponto de partida é a vivência do futebol, o prazer que o futebol traz. Sendo geógrafo, no começo parecia muito difícil ou impossível trabalhar com futebol, porque no Brasil não existia nenhuma geografia do futebol. O que existia eram alguns trabalhos sobre futebol de várzea em São Paulo. Trabalhos da professora Odete Seabra e do professor André Martin, ambos do Departamento de Geografia da USP, que fizeram teses sobre bairros operários e fizeram menção ao futebol de várzea. Mas são menções muito rápidas. No Rio de Janeiro, Márcio Piñon, professor da UFF, fez uma dissertação sobre a Fábrica de Tecidos Bangu e incluiu o clube de futebol do bairro, mas repito: o futebol comparecia de forma muito rápida e marginal na obra destes pesquisadores. Para quem é da área de História, Antropologia ou Sociologia, o futebol está muito mais próximo. Existe alguma tradição de estudos. Na Geografia não. Por isso foi mais tarde, em 1995, que eu conheci o trabalho do geógrafo John Bale. Primeiro, houve uma motivação especial, que foi a criação do Núcleo de Sociologia do Futebol na UERJ, instituição onde eu atuo. Iniciativa do professor Mauricio Murad, que criou o grupo em 1993 e fez um evento em 1994, celebrando 100 anos de futebol no Brasil. Fui assistir, conheci o Mauricio Murad e ele me encorajou: “Claro, é possível fazer sim uma ligação entre geografia e futebol”, e no ano seguinte, em uma viagem à Londres, encontrei trabalhos do John Bale, como o livro Sport, Space and The City. Bom, então percebi que era viável. No mestrado eu havia realizado uma pesquisa sobre as feiras livres, porque eu sempre tive um grande interesse por estudar a rua, o espaço público e a vida pública. O próximo passo era pensar o futebol. Fui fazer na USP porque a professora Odette Seabra, que já tinha um trabalho sobre futebol varzeano, acolheu muito bem a proposta.


Como você disse, o futebol estava muito presente em sua vida. Em algum momento você tentou ser jogador e seguir outra geografia pelos campos brasileiros?

Todas as crianças sonham com futebol, eu sonhei, mas a partir dos 10 anos percebi que definitivamente não era possível. Tenho um irmão mais novo que chegou até as divisões de base do Botafogo (sou de uma família 100% alvinegra), quer dizer, treinou em uma das escolinhas, ali perto do Méier, onde morávamos. Ele tinha uma condição muito melhor do que a minha. Com 10 anos eu já sabia que o futebol era uma ilusão superada. Até lembro agora daquela fala do Eduardo Galeano, que diz assim: “quando era criança ele fazia gols de bicicleta e gols memoráveis , mas só de noite, enquanto dormia”.


Você descreveu um momento em que havia muito preconceito em relação ao futebol ser um objeto de estudo da academia. Contudo, podemos dizer que hoje isso já diminuiu. Quais eram os principais desafios nos estudos iniciais sobre a temática esportiva, principalmente sobre o futebol, quando a produção bibliográfica ainda era incipiente no Brasil?

Eu creio que quem vivenciou nos anos 70 e 80 o meio acadêmico, percebia que se tinha pela frente um muro. O futebol estava completamente alijado da universidade, inclusive por conta do próprio uso que o regime militar fazia deste esporte. O pouco que se escrevia na época era sobre o futebol enquanto manifestação política, instrumento de alienação. Joel Rufino dos Santos publicou o livro Futebol e Política, da coleção Tudo é História, se eu não me engano, em 1980. Quando se falava mais academicamente de futebol, era como uma máquina política de controle e alienação das massas. Até aparecer a iniciativa do Roberto DaMatta, que foi fundamental, e antes dele o trabalho da Simoni Guedes, com uma dissertação de mestrado de 1977. Imagino que o Roberto DaMatta, vendo o belo trabalho da Simoni, pensou, “bom, é possível”, e deu aquele passo no sentido de organizar um livro. Para ser respeitado como tema de estudos, o futebol precisava de alguém que já tivesse uma posição na academia, e ele já tinha um certo renome nos anos 70 e 80, já tinha escrito ‘Carnavais, Malandros e Heróis’. Ele então lança a coletânea “Universo do Futebol” em 1982. Enfim, são pequenos movimentos, quase que pregando no deserto, que foram pavimentando o caminho que temos hoje. Quando chegam os anos 90, o Mauricio Murad organiza o Núcleo, um núcleo permanente, consegue juntar um acervo bibliográfico, e eu tive acesso a esse acervo. Mesmo naquele instante ainda havia, principalmente na Geografia, algo do tipo: “você tá louco? como é possível isso?”.

Gilmar Mascarenhas possui Doutorado em Geografia, cuja pesquisa é voltada ao futebol. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Você passar a compor o Núcleo como integrante?

Não propriamente. Na época eu tinha uma vida atribulada. Eu tinha filhos pequenos e trabalhava ao mesmo tempo na UERJ e no Colégio Pedro II. Conciliava os dois trabalhos e não tinha muito tempo para participar. Mas era um simpatizante do grupo.

E quais temas, questões e aspectos dentre a produção brasileira sobre a temática esportiva ainda precisariam ser pesquisados de forma mais detida?

Agora não me vêm muitos exemplos, mas há certamente. No caso da Geografia, o futebol no Rio de Janeiro tem uma trajetória peculiar. Até 1975, quando houve a fusão dos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, além do Campeonato Carioca ocupar grande parte do calendário no ano, havia um lugar cativo para os clubes suburbanos São Cristóvão, Bonsucesso, Madureira, Campo Grande, Olaria, Bangu. Os clubes sabiam que durante seis meses do ano, além de participarem em certos momentos da competição nacional, que havia se expandido naquele momento, tinham o prestigiado campeonato carioca. Em 1975, a fusão começa a trazer lentamente os clubes do antigo do Estado do Rio, como Campos, Macaé, Saquarema, Cabo Frio, Nova Friburgo, Resende, Volta Redonda, que vão tirando o espaço dos outros clubes. Esse é um tema a ser estudado. O impacto da “fusão” no futebol suburbano, que quase desapareceu, bem como os estádios desses clubes. O São Cristóvão ainda teve um último lapso de vida quando o Ronaldo Fenômeno jogou alguns meses ali. Esse é um tema: o futebol suburbano do Rio de Janeiro. Outro tema, ligado mais à história social do futebol, são as ligas suburbanas que existiram. O Engenho de Dentro, bairro dos ferroviários, teve uma liga de futebol. O bairro das oficinas ferroviárias, onde hoje está o Engenhão. Tinha uma população muito numerosa, que depois se juntou num conjunto habitacional dos ferroviários na década de 1960. Há uma história silenciosa sobre o futebol suburbano. Por exemplo, fala-se muito sobre o Vasco e a Revolução Vascaína: “o Vasco é o primeiro time grande a escalar negros…”. O Vasco era um time suburbano. A classificação era essa, e enquanto tal, acolhia jogadores de origem humilde, o que significa reunir também mulatos e negros. Clubes de elite eram Flamengo, Botafogo e Fluminense; os clubes suburbanos que não tinham essa distinção e por isso eram permeáveis a mulatos e negros. A maior façanha do Vasco foi ter dinheiro, por conta de um grupo de comerciantes portugueses que estava interessado em reforçar a imagem de um grupo empreendedor no contexto antilusitano da Primeira República e que viu no Vasco a possibilidade de mostrar sua capacidade enquanto colônia na cidade. Então, esse grupo de comerciantes faz uma espécie de “seleção suburbana” no Vasco, que ganhou o campeonato de forma incontestável em 1923. Há muito o que estudar, como os estádios, tema que me ocupa agora. Com relação a todas as demais modalidades esportivas, as lacunas são profundas…

Na tese de doutorado, você teve como proposta definir os aspectos da configuração socioespacial do Rio Grande do Sul que auxiliaram no advento do futebol nos campos e planaltos rio-grandenses. Porém, quais aspectos iniciais – antes mesmo de iniciar a pesquisa – o levaram a escolher o Rio Grande do Sul como objeto de reflexão? Como foi esse fluxo migratório: um carioca estudando em São Paulo e tendo como objeto o futebol gaúcho?

É uma boa pergunta. Quando comecei a trabalhar com futebol, minha ideia inicial era fazer uma geografia urbana, pensar os espaços do futebol na cidade. Mas depois, lendo a história social do futebol, percebi que havia uma lacuna imensa que seria geografizar essa história do futebol. Seria interessante fazer uma geografia histórica do futebol, um projeto muito ambicioso, mas eu estava com vontade de fazer isso. Por ocasião de eventos acadêmicos, entre 1995 e 1998 estive em Manaus, Fortaleza, Natal, Recife, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo, Curitiba, Florianópolis. Visitei os principais centros de futebol do Brasil. O primeiro trabalho que apresentei sobre futebol, em 1997, no Encontro Nacional de História do Esporte, foi sobre a difusão desse esporte no Brasil, comparando várias cidades do Brasil inteiro, tentando mostrar que cada local tinha uma velocidade diferente, um tempo próprio no processo de adoção do futebol, conforme as circunstâncias. Abordava a rede urbana, o sistema urbano nacional, para entender por onde o futebol chegava; as cidades portuárias e as cidades industriais eram os principais pontos de adoção do futebol, o ritmo tinha a ver com o dinamismo que cada cidade tinha. Comecei assim a trabalhar numa escala nacional. Ao estudar o Brasil inteiro é que fui descobrir a precocidade impressionante do Rio Grande do Sul, que é muito mais do que ter o esporte clube Rio Grande, clube mais longevo do Brasil. Muito mais do que isso. Porque São Paulo tem clubes que nasceram antes. Mas é o fato de que o primeiro estado brasileiro a ter um campeonato estadual com uma cobertura territorial abrangente foi o Rio Grande do Sul. Enquanto São Paulo estava montando um campeonato que abrigava cidades como Santos, São Paulo, Campinas, Jundiaí e Sorocaba, que exigia deslocamentos curtos, o Rio Grande do Sul já tinha um campeonato que juntava toda a fronteira sul, Uruguaiana, Bagé, Livramento, Pelotas, Rio Grande, Porto Alegre. Ou seja, um sucesso de adoção e difusão do futebol impressionante. Falei: “vou estudar isso aqui”. A conclusão a que eu cheguei é que as vantagens do Rio Grande do Sul eram basicamente duas, muito importantes: uma era o fato de ser vizinho do eixo do Prata – -Uruguai e Argentina., berço do futebol sul-americano. O primeiro confronto de seleções nacionais é Inglaterra e Escócia. O segundo deveria ser Inglaterra x Irlanda, Inglaterra x Bélgica, ou algo do tipo. Mas o segundo confronto entre seleções é, de forma surpreendente, Argentina x Uruguai. Isso é um dado impressionante. O Rio Grande do Sul, mais do que vizinho, é um irmão, porque havia a região do pampa, da campanha gaúcha, de planície, da agropecuária, que era quase uma só região. O Uruguai nasce em 1830, a República Oriental do Uruguai, por uma questão de disputa portuária e econômica com a Argentina. Mas o Uruguai nasce sobre um espaço que é um conjunto só, o espaço do gaúcho. Essa identidade platina é muito forte, culturalmente falando. Existia uma fronteira, mas existia também um trânsito impressionante para todos os lados. Vizinhos que adotaram o futebol antes da França e de outros países europeus, e com os quais o RS tinha uma relação intensa. Esse é um fator muito importante. Outro fator é a base esportiva alemã. O futebol, quando chega às cidades no final do século XIX, causa um grande estranhamento, porque realmente é um esporte muito esquisito. Colocar homens adultos e de distinção social de bermuda para correr atrás de uma bola, chocar um com o outro, cair sentado; ainda mais quando comparado a esportes mais tradicionais, já consolidados, como a esgrima, arco e flecha, remo, hipismo, nos quais o esportista se reveste de uma elegância, de uma destreza. No futebol você se expõe ao ridículo. Na França, por exemplo, o futebol chega pelo porto de Le Havre, um dos mais próximos da Inglaterra, e as primeiras exibições dos ingleses ali são consideradas como coisa de “palhaços de circo”. O futebol causava muita resistência no começo, uma impressão estranha. Além disso, no caso do Brasil, um país que não desenvolveu uma cultura de ginástica, como tinha a Alemanha, Suécia e outros países, que acreditavam que a atividade física era benéfica. O Brasil, ao contrário, tinha uma sociedade escravocrata, na qual o esforço muscular era extremamente mal visto. O Victor Melo mostra isso: a grande revolução do Remo foi a de dizer: músculo pode ser algo bonito, pode ser uma nova estética do homem burguês. Nesse país avesso à atividade física havia mais uma resistência. No Rio Grande do Sul, os alemães, logo que chegaram, criaram seus clubes. Não é a toa que o E. C. Rio Grande, o mais antigo do estado, é fundado por alemães e ingleses, sendo que estes estavam por todo o Brasil. E o Grêmio de Porto Alegre também foi fundado por alemães, em 1903. Então, essa base esportiva alemã, juntando com a platinidade, foram os fatores que levaram a esse êxito precoce do Rio Grande do Sul em relação a qualquer outro estado do Brasil, mesmo São Paulo.

Gilmar Mascarenhas procura examinar o processo de popularização do futebol na cidade de São Paulo Foto: Sérgio Settani Giglio.

Um dos pontos principais da tese aborda a ligação rio-grandense com as metrópoles do Rio Prata, ou seja, os fortes vínculos das cidades gaúchas – como Rio Grande e Pelotas – com os parceiros platinos, geograficamente mais acessíveis, Montevidéu e Buenos Aires. Podemos ampliar essa análise geográfica para outras regiões do país que também desenvolveram intensas relações fronteiriças com países sul-americanos?

O Brasil tem grande parte de sua fronteira na região amazônica, bastante despovoada. Depois tem outras fronteiras no Centro-Oeste que também são muito despovoadas. As fronteiras mais vivas são a que nos liga ao Paraguai pela região de Foz do Iguaçu, mas a ocupação do oeste paranaense é um dado já do século XX. Quando o futebol aporta no Brasil, no final do século XIX, a única fronteira viva e ocupada era a fronteira com o Uruguai. Para você ter uma ideia, no começo do século XX, a correspondência postada por uma pessoa que morasse na região da campanha gaúcha (Bagé, Livramento, Pelotas) ia de trem até Montevidéu e depois de embarcação até o Rio de Janeiro. Era o caminho mais rápido que tinha. Nesse sentido, o sul do Rio Grande do Sul estava mais conectado ao Rio de Janeiro que ao Paraná ou mesmo Santa Catarina. Era uma conexão intensa, via Uruguai. Como os uruguaios adotaram o futebol precocemente, os gaúchos contaram com esse intercambio fundamental.

A tese aborda diversos aspectos sobre essa geografia do lugar – entre eles, as conexões com o Império Britânico e o capitalismo, os laços com os países do Prata, o reconhecimento de outros agentes de difusão antes ignorados. Vale destacar, porém, que apesar de ultrapassar a barreira da análise esportiva, a análise não exclui o valor e as especificidades intrínsecas ao jogo, pois para adentrar numa sociedade e ser reconhecido, um elemento novo precisa demonstrar ter um grande valor. Quais eram – e são – esses atributos intrínsecos ao futebol que permitiram o sucesso da modalidade no Brasil?

Embora tenha enfrentado uma resistência inicial, o futebol tem aquelas facilidades tão clássicas de improvisação. Uma modalidade com regras de muito fácil assimilação. A única regra complicada, o offside ou impedimento, é abolida do futebol informal. Então existe essa facilidade de assimilação e improvisação, já que não demanda equipamentos, nem uma bola que quique bastante, como no basquete. É possível improvisar quase tudo no futebol. Como lembra o Joel Rufino, quando o futebol chega ao Brasil, a população que é egressa da escravidão, o negro pobre, não tem trabalho, já que está concentrado nas mãos dos imigrantes; o que ele tem é o tempo, seu corpo e espaço, pois as cidades ainda não tinham esse cercamento que têm hoje. Essa população marginalizada, que abundava nas cidades no começo do século no Brasil, encortiçada, vai encontrar no futebol um meio de diversão, de copiar algo legitimado socialmente, que era tão aplaudido pelas elites. Então o futebol tem elementos que são inerentes a ele e que no caso do Brasil adquirem uma potência em função das condições urbanas e da situação social das camadas que eram ociosas, por força de uma condição de marginalização.

É possível pensar, num futuro próximo, em novos processos de integração social e cultural, pelos mais diversos caminhos e fluxos, que catalisem a ascensão de alguma modalidade possa vir a ter o mesmo destaque no Brasil?

Embora eu nunca tenha parado para refletir sobre isso, eu vou arriscar dizer que acho muito difícil num futuro de curto prazo. O Brasil se urbanizou sendo colonizado pelo futebol. Temos a força de um Brasil urbano em movimento e o futebol é um elemento dessa urbanização. Está agarrado a essa urbanização. Para quê houvesse um outro esporte só uma mudança muito profunda na sociedade e na estrutura urbana, para poder acolher de forma tão extensiva um novo esporte. O futebol, assim como o beisebol nos países da região do Caribe e o críquete na Índia, são esportes que tiveram a sorte de entrar num país num dado momento de conformação de uma sociedade e de um território, e que havia um todo um espaço a ser preenchido. Acho muito difícil imaginar qualquer outro esporte, embora outras modalidades tenham êxito hoje, como voleibol e as lutas de MMA mais recentemente, mas eles não serão capazes de colonizar as cidades como o futebol fez.


Então o futebol teve um papel decisivo para uma valorização da identidade nacional no século XX. Mas é possível que ele continue a ter?

O futebol perdeu força sociocultural no Brasil. Como um elemento constitutivo da vida social urbana, o futebol atingiu um certo apogeu no período aproximado entre as décadas de 1940 e 1960, quando o futebol, uma vez consolidado já na década de 1930, começa a chegar nas cidades pequenas e vilarejos. Em 1950, o Brasil é um país em que o futebol está em todo o território nacional. Nunca pesquisei isso, mas o que já pude observar mostra um país na década de 1950 e 1960 com uma população masculina toda engajada em clubes de bairro, clubes da fábrica. Havia um engajamento muito grande no futebol e quase um monopólio da modalidade, apesar do sucesso do basquete nos anos 60. Da década de 1970 em diante começa a ter a televisão como novo espaço de consumo do esporte, e o sucesso da Fórmula 1, do voleibol. A cultura esportiva do Brasil vai ficando um pouco mais heterogênea. Mas alguns esportes saíram perdendo. O pugilismo, por exemplo, era muito popular. Mas o futebol já gozou de maior hegemonia na década de 1960. E hoje, com essa nova economia milionária do futebol, na qual os jogadores são estrelas, começa a haver uma redução da simpatia do torcedor com o jogador. Se lembrarmos que um jogador da década de 1950 como o Zizinho pegava o bonde ou o trem para ir jogar no Maracanã. Conheci pessoas que diziam ter presenciado Zizinho pegar o trem de chinelo e com as chuteiras no ombro para ir ao estádio. Garrincha ia num caminhãozinho aberto, com seus amigos de farra e ia para o Maracanã para jogar; o jogo acabava, subia nessa carroceria aberta e ia bebendo e cantando até Pau Grande. Esses ídolos eram pessoas comuns. O Nílton Santos conta que quando era jovem morava na Ilha do Governador, na época que não tinha ponte, era barco. Era uma ilha, com pescadores, oleiros etc. Ele era jovem, jogava na rua e nos campinhos, até que chamaram para jogar futebol profissional. Ele disse: “O que é isso? Não tem como. Quem sou eu? Aqueles caras são muito bons”, “Como você sabe?”, “Eu escuto no rádio, os caras fazem acrobacias, o goleiro voa”. Ele nunca tinha ido a um jogo de futebol profissional, e imaginava performances fantásticas, que a mídia evocava. Ele achava por isso que não tinha capacidade, mas quando enfim presenciou uma partida de profissionais viu que era simples para ela, e foi um dos maiores jogadores que o país já teve. Ele conta também que gostava de vencer o Flamengo pois: “poxa, na segunda eu vou na feira com a patroa e se o Botafogo perder para o Flamengo no domingo vai ser aquela gozação”. É o homem comum, que vive na rua, que vai à feira com a esposa. E como é hoje? Jogadores têm situações completamente diferentes. Outro dia, o Jóbson, atacante que jogou no Botafogo, ganhou uma Ferrari num país árabe. É difícil construir um ídolo como foram Zico, Roberto Dinamite, Garrincha, com essa nova situação que aí está. Acho que hoje existem muito mais pessoas descrentes com o futebol. Tem aquela história de que pessoas morreram enfartadas na derrota do Brasil na Copa de 1950. Eu não consigo imaginar ninguém enfartando hoje, numa Copa aqui no Brasil, apesar do risco cardíaco ser muito maior que outrora, pelo envelhecimento da população, alimentação ruim etc. Acho que o futebol já foi muito mais uma religião do que ele é hoje. Ele perdeu espaço. O vigor patriótico associado ao futebol já não é mais o mesmo, a gente percebe isso nitidamente a cada copa do mundo.

Gilmar Mascarenhas enfoca determinados aspectos da presença do futebol na evolução urbana brasileira. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Frente às demais práticas esportivas, como os que você citou, por exemplo, basquete e voleibol, que por vezes ficam restritas a determinados espaços ou cidades específicas, um diferencial do futebol, do ponto de vista geográfico, é o fato de se expandir e espalhar pelo Brasil inteiro, não somente em sua dimensão profissional, mas também em suas diferentes expressões e formas improvisadas?

Um esporte para ser popular tem que ser praticado também. Quando o Emerson Fittipaldi criou um público de Fórmula 1 houve até uma boa continuidade com outros pilotos, mas é um esporte que sempre será restrito à ideia de que eles são apenas para consumo pela televisão. O próprio basquete, embora tenha crescido no Brasil, é muito limitado pela própria estrutura do país que não tem uma política esportiva, não tem quadras em todas as escolas. Essas modalidades enfrentam essas dificuldades. Um país como a Argentina, que leva um pouco mais a sério a prática esportiva, tem pessoas que praticam mais esportes do que aqui no Brasil. Não vou nem falar de Espanha ou da França, onde morei por curto tempo, e outros países da Europa. Nunca houve um apoio estatal de incentivo ao esporte no Brasil. E quando surgiu o Ministério dos Esportes em 2003, ele surge enviesado, voltado para o esporte de alto rendimento, e para produzir os megaeventos, favorecer as federações e fazer o espetáculo do esporte. Essa é uma grande lacuna na história do nosso país. Há pouco tempo realizou-se um evento na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro sobre o João Saldanha. A torcida do Botafogo levantou uma faixa assim: “Estádio João Saldanha” (em relação ao Estádio João Havelange). Essa faixa gerou debates e houve uma audiência sobre o assunto na Câmara dos Vereadores. Estava presente o filho que João Saldanha, que revelou um fato interessante. Quando o José Sarney assume a Presidência da República e o Marco Maciel é o ministro da Educação e Cultura, pasta que agregava o esporte, ele convidou o João Saldanha para ser secretário de esportes, ou algo do tipo. O João falou assim: “eu só aceito se você dizer que vai ter dinheiro para fazer do esporte uma prática comunitária nas escolas. É para isso que tem que existir uma política de esportes. É para isso que você vai me chamar? Se não for, eu não quero. O país precisa praticar esporte na escola”. O Saldanha já tinha essa visão, assim como hoje o Juca Kfouri afirma: é um absurdo um país que não pratica esportes olímpicos fazer Jogos Olímpicos. O Brasil tem uma defasagem muito grande em relação a vários países quando o assunto é a política de esporte escolar ou comunitário.


Confira a segunda parte no dia 26/03/2014!