13.10

Hilário Franco Jr.

Equipe Ludopédio

Historiador, Hilário Franco Jr. fez bacharelado na USP (1976), doutorado na mesma universidade (1982) e pós-doutorado com Jacques Le Goff na École des Hautes Études en Sciences Sociales (1993). Especialista em Idade Média ocidental, seus interesses estão voltados particularmente para a cultura, a sensibilidade coletiva e a mitologia daquele período, bem como para as reflexões teóricas que fundamentam tais pesquisas. Professor aposentado da Universidade de São Paulo, Hilário se dedicou também à História Social do Futebol. Publicou, em 2007, o livro A dança dos deuses. Futebol, sociedade, cultura (Cia. das Letras).

hilario1

Hilário Franco Jr. em sua residência em Paris. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Primeira parte

Hilário, você aponta que o futebol é um instrumento de socialização do indivíduo. Como isso deu na sua experiência pessoal? Qual o primeiro registro do futebol em sua trajetória?

Nesse caso, entra aquele mecanismo da memória que nem sempre é muito fiel. Há um determinado evento de que você se recorda ou alguém conta para você sobre você mesmo, e a partir daí você assume aquilo como um fato histórico. Não sei dizer se realmente é o primeiro, mas o primeiro que me recordo hoje, muito tempo depois, é a final do Campeonato Paulista de 1957. Eu não tinha nenhuma experiência de comparecer a estádio, até porque era pequeno. O meu pai não era um torcedor, gostava e simpatizava, porém não frequentava estádio e acompanhava o noticiário esportivo apenas esporadicamente. Para a final de 1957, uns dias antes eu estava na casa de uns amigos dos meus pais, eles iam ao jogo e nos convidaram: “vamos lá, o garoto vai gostar”, “não sei, mas se vocês quiserem levá-lo ele vai gostar”. E tudo aquilo me impressinou, era um ambiente mágico. Uma final, o Pacaembu lotado, bandeiras. Eu tinha 9 anos de idade, e toda aquela plasticidade do espetáculo era muito atraente, era novidade para mim, eu não sabia se olhava para o campo ou para a arquibancada. O meu pai tinha simpatia pelo São Paulo, sem ser um torcedor, mas os amigos dele eram torcedores e seu entusiasmo, claro, me contagiava. O São Paulo ganhou, então tudo aquilo me envolveu ainda mais, me transformei em torcedor naquele momento. Mas só décadas depois entendi como o futebol cria vínculos, um tipo de socialização, com muita gente que pelo menos naquele instante e naquele local pensa como você, partilha sua emoção, seu sentimento. Além dos locais e momentos habituais de socialização – em casa a família é um núcleo social, reforçado pelas festas familiares, a escola é outro, a vizinhança também – o futebol tornava-se para mim mais um, não apenas dentro do estádio,  experiência forte porém efêmera, mas depois dentro do colégio, no bairro, com pessoas com quem eu nunca tinha conversado. Já naquela época percebi – sem saber como definir isso, claro – como o futebol era um fio condutor que me amarrava a um monte de gente. Do ponto de vista social e afetivo trata-se de uma coisa sem dúvida interessante, e com o passar dos anos tornei o assunto sujeito de reflexão, fui pensando o futebol por esse viés.

Toda sua pesquisa acadêmica é centrada no período medieval e na História das Mentalidades. No entanto, seu interesse intelectual pelo futebol também é evidente, tanto pela publicação de artigos sobre esporte e do livro A Dança dos Deuses. É possível traçar uma conexão entre a história medieval e o esporte moderno? Ou são duas áreas de interesse distintos?

A resposta não é tão simples assim. Eu acho que há, dentro dos próprios objetos, um elo entre uma coisa e outra, pelo fato de que na Idade Média está a matriz da civilização  ocidental, tal como nós a conhecemos atualmente. Muitos dos ensaios e pontos de partida de coisas que são fundamentais e definidoras do que é o Ocidente para nós hoje, começo do século XXI, têm seus primeiros passos na Idade Média. A civilização urbana, a economia monetária, as línguas ocidentais, por exemplo. Em relação ao esporte, sem ter havido algo com o sentido que entendemos hoje por prática esportiva, havia competições, havia disputas, havia um espírito de concorrência pela habilidade e pela força física. Desde torneios de cavalaria até “antepassados” do próprio futebol. Sobretudo na Inglaterra e no norte da França. Mas o meu interesse não veio por aí. Veio  por meio de uma abordagem histórica que busca identificar e compreender os mecanismos espontâneos, as sensibilidades coletivas. O que é exatamente o mundo do futebol, o mundo da competição? O que ele envolve, o que o caracteriza, o que ele movimenta? E não só do ponto de vista material, que é meio óbvio, mas do ponto de vista psíquico, do ponto de vista emotivo. Esse tipo de mecanismo eu já conhecia razoavelmente pela História Medieval, estudando objetos da Idade Média que não tinham nada a ver com esporte: arte, literatura, filosofia, religião, vida política. Estudando estes aspectos diferentes, mas interligados, descobri que tal  abordagem é fascinante, que poderia me fornecer uma melhor compreensão da sociedade medieval como um todo. Na verdade, nunca me senti atraído pela história política tradicional, descritiva e factual, interesssada em estudar o momento em que o Rei X subiu ao trono, as tantas guerras que fez ao longo de sua vida, suas relações dinásticas, etc. Pela História Econômica eu até tive interesse no começo de carreira, escrevi algumas coisas a respeito, mas acabei por achá-la um pouco árida. Por uma série de circunstâncias acabei caindo naquilo que estava surgindo exatamente naquele momento e que se chamava História das Mentalidades. Depois de anos trabalhando com ela percebi a potencialidade que teria para objetos colocados fora da História tradicional. Pensei que poderia aplicá-la ao futebol atual. Foi então o início dessa outra aventura intelectual, verificar se o modelo existente de História das Mentalidades era cabível no futebol. Ou melhor, verificar o que precisava ser adaptado, modificado, criado, para se tornar cabível. Havia, e há, nisso tudo uma preocupação metodológica, sempre em aberto e que precisa ser mais explorada, principalmente pela geração atual, essa geração de vocês, que tem uma boa formação, motivação e tempo pela frente. É preciso pensar  em termos metodológicos, em termos teóricos, o que é estudar o esporte, para o que serve esse estudo, quais as abordagens pertinentes, e não apenas ficar descrevendo eventos e acontecimentos. Importa procurar as estruturas do futebol. Não apenas  esportivamente falando, mas também do ponto de vista psicológico, sociológico, filosófico. O que tentei fazer foi esse casamento entre a História das Mentalidades e esse campo pelo qual milhões e milhões de pessoas sempre se interessaram, mas de forma imediatista, indo ao estádio, assistindo jogos pela televisão, ouvindo e lendo noticiário a respeito. Essa superficialidade do torcedor – sem desmerecê-lo, pois torcedor não tem que ser intelectual, não tem que destrinchar o fenômeno em sua complexidade – não me satisfazia, daí a tentativa de fazer aquela junção.

No livro A Dança dos Deuses, você afirma que o São Paulo F.C. representaria a insatisfação da população paulista com a intervenção do Estado Novo na região. O Palestra Itália, diante de uma política externa varguista no contexto da Segunda Guerra Mundial, foi obrigado a mudar de nome e passa a se chamar Palmeiras. Diante desse panorama de unificação nacional autoritária e de queima das bandeiras estaduais, é possível apontar as razões pelas quais a bandeira do estado continuou presente no escudo do Sport Club Corinthians Paulista?

Nunca pensei no assunto e não saberia dar uma resposta com solidez e de imediato. Seria preciso refletir, pesquisar documentos da época, mais do que apenas a imprensa, que embora importante e interessante, é muitas vezes sobrevalorizada pelo pesquisador do futebol. Nesse caso, por exemplo, é claro que ela pode fornecer alguns dados, mas eu gostaria de ver as atas oficiais e outros documentos emanados de dentro do próprio clube na tentativa de perceber porque isso aconteceu. De toda forma, se o clube tem no próprio nome o adjetivo “Paulista”, e isso é anterior ao movimento “São Paulo contra Brasil”, parece natural que ele tenha mantido essas cores para ser coerente com a própria história,  com a nomenclatura de agremiação paulista e com o novo momento de forte sentimento regional. Para esclarecer a questão deve-se cruzar a micro-história do clube com a macro-história do estado de São Paulo e do Brasil na época.

O senhor e o professor Flavio de Campos ministraram a disciplina História Sociocultural do Futebol na FFLCH/USP, cuja primeira edição foi em 2003. Quais eram os objetivos iniciais do curso?

A ideia surgiu, na verdade, dez anos antes do curso. Curiosamente, surgiu aqui em Paris. Eu estava fazendo um pós-doutorado com o Jacques Le Goff, e talvez em função das leituras e reflexões metodológicas sobre a História das Mentalidades, voltando ao que conversamos agora pouco, é que tenha me surgido a ideia de aplicar isso a outros objetos que não exclusivamente a História Medieval. Achei que o futebol, que sempre me atraiu, mereceria ser objeto de um esforço nesse sentido. Mas não naquele momento, quando estava fazendo o pós-doutorado, totalmente envolvido com a pesquisa medievalística e com uma bolsa que precisava respeitar e completar. Guardei então a ideia para quando voltasse a São Paulo. Algum tempo depois, porém, passou por aqui um amigo da USP, sociólogo, cuja tese de doutorado tinha sido sobre futebol, o Waldenyr Caldas. Ele tem um livro muito importante, baseado na sua tese, sobre o pontapé inicial do futebol brasileiro. Conversando com ele, propus elaborarmos um projeto sobre futebol, reunindo as competências do sociólogo, que tem os seus métodos de trabalho, e do historiador, com uma forma diferente de pensar e pesquisar. Pessoalmente nos damos bem, poderíamos oferecer um curso, um semestre na Sociologia, um semestre na História, e depois, como resultado dessa experiência, escreveríamos um livro. Ele gostou da ideia. Lembro bem, estávamos em um café, pegamos um pedaço de papel e começamos a esboçar grosseiramente o que poderia ser uma estrutura de um curso e futuramente de um livro. Mas eu ainda tinha mais ou menos um ano de pós-doc, não poderia pensar nisso pra valer naquele momento. Ficou decidido que em São Paulo iríamos retomar a ideia. Eu voltei justamente no meio de 1993, dez anos antes de ter surgido o curso. Mas quando você volta dois anos e meio depois, tem um monte de coisas para fazer dentro da universidade. Ela permitiu que você saísse, então é lógico, é compreensível, que tenha a cobrança posterior. Dar aulas de graduação e pós-graduação, naturalmente, fazer parte de comissões, entregar o relatório final para a Fapesp, dar pareceres, preparar publicações decorrentes daquele tempo todo dedicado à pesquisa em grandes bibliotecas, arquivos, monumentos estrangeiros. Assim o tempo foi passando, eu envolvido com as minhas coisas, o Waldenyr com as coisas dele, ele transferiu-se das Ciências Sociais para a Escola de Comunicações e Artes (ECA) assumindo novas responsabilidades. As agendas não se encaixavam e a ideia foi murchando. A partir de determinado momento já não passava mais pela minha cabeça e acredito que nem pela dele. Até que numa certa oportunidade, e nem sei te dizer porque, a ideia me voltou e fui conversar com o Flavio a respeito. Ele tinha sido meu orientando, já éramos amigos, sabia do interesse dele pelo futebol, ele estava começando como docente no Departamento de História da USP, precisava ter uma área de pesquisa dentro do departamento, e eu contei para ele essa história que acabei de te contar. Ele imediatamente abraçou a ideia. Sentamos, rabiscamos um plano, novo, agora de dois historiadores, e muito mais factível pois estávamos os dois no Brasil, a coisa poderia ser para o semestre seguinte. Montamos o curso, apresentamos na instância burocrática competente, que, diga-se de passagem, não foi receptível, como já imaginávamos: “Futebol? Uma pós-graduação sobre futebol? Existem assuntos muito mais nobres e importantes do que esse. Como é que você, que já tem uma carreira em medieval, vai fazer um negócio desse?”. Ou, para o Flavio: “Como é que você, que está começando, vai logo para um objeto de estudo desse tipo? Não vai ser bom para a sua carreira, para seu currículo”. Tudo isso já imaginávamos. Então levamos o projeto adiante e começamos o curso. Era uma tentativa, uma experiência. Vai haver um número razoável de interessados? Uma coisa é a pessoa gostar de futebol e outra coisa é seguir um curso de pós, fazer papers, participar de debates, é transformar a paixão em reflexão. Lembro, por exemplo, de um aluno, um pouco mais velho que seus colegas do curso, alguém muito simpático, muito motivado, vinha toda semana do Rio de Janeiro, muito envolvido com o tema, ele tinha alguma ligação com o Botafogo ou com o João Saldanha, não sei mais, no entanto logo ficou claro que a expectativa dele era ficar discutindo nomes, fatos, aquela coisa mais anedótica. Até que um dia o chamamos no canto e insistimos que o projeto do curso era diferente. Ele ficou, digamos assim, um pouco desiludido. Ele queria, na verdade, um espaço para conversar e falar. E acabou abandonando o curso. De fato, naquele começo não sabíamos qual seria exatamente nosso público, nem se havia massa crítica para desenvolver a proposta. Mas a primeira experiência foi bastante razoável, pelo menos o suficiente para falarmos “Vamos nessa de novo”. E aí a proposta começou realmente a deslanchar. Naquele momento, contudo, eu já estava me afastando do departamento, mas o Flavio com todo o gás e competência passou a tocar sozinho o projeto, que se tornou uma realidade consolidada graças a ele.

Embora o pesquisador Jacques Le Goff, falecido recentemente, tenha sido a favor de se investigar os silêncios da historiografia tradicional como ele olhava para o futebol, já que não foi um tema abordado por ele do ponto de vista acadêmico?

Jacques Le Goff era daqueles intelectuais que se interessam por várias coisas sem, por exigência de rigor, tratar de todas elas academicamente. Foi assim, por exemplo, com a literatura, as artes plásticas, a música e o cinema, manifestações culturais que admirava, consumia e conhecia bem, sem no entanto ousar escrever sobre elas. Algo semelhante ocorria em relação ao futebol. Lembro que na primeira vez em que ele tocou no assunto fiquei até algo surpreso, numa reação preconceituosa inversa àquela que eu criticava: eu tinha encontrado tantas vezes intelectuais aversos ao jogo, que de certa forma tinha desenvolvido o preconceito de que intelectuais não conseguiam entender o jogo. Mas a partir de então, não foram poucas as vezes que durante nossos encontros frequentes o futebol apareceu na conversa. Se nos dias anteriores tinha acontecido uma partida importante, geralmente era por ela que começava o bate-papo. E seu olhar privilegiava dois aspectos que coincidiam com o meu, o plano estético do jogo e a organização tática. Quando publiquei A dança dos deuses entreguei-lhe um exemplar, por delicadeza, mesmo sabendo que não lia português. E duas ou três visitas mais tarde ele me fez várias perguntas sobre aquelas abordagens temáticas da segunda parte do livro (o futebol do ponto de vista sociológico, antropológico, religioso, psicológico e linguístico), mostrando que tinha folheado o livro com atenção.

Após estes dez anos e seu afastamento das atividades cotidianas da USP, já é possível fazer uma avaliação do que foi conquistado, quais campos de pesquisa foram desbravados?

Com a aposentadoria eu passei a ficar inicialmente uma parte do ano no Brasil e outra  no exterior, de forma que nos poucos meses brasileiros dar dois cursos de pós-graduação, um de medieval e outro de futebol, mesmo dividindo este com o Flavio,  revelou-se complicado. Penso que, por definição, um curso de pós tem que ser sempre monográfico, verticalizado, e com preocupações teóricas. Ora, dois cursos ao mesmo tempo com temáticas, materiais e métodos tão diferentes não seriam viáveis. Como eu tinha vários projetos de Medieval em andamento, preferi dar a cada ano um curso de pós-graduação nessa área, o que me ajudava na elaboração dos livros que estava escrevendo. Ademais, eu sabia que o projeto de futebol não iria morrer, pois o Flavio continuava a organizá-lo e ministrá-lo. Por fim, acabei me afastando ainda mais do Brasil, mas na medida do possível tento colaborar, como por exemplo na época da Copa escrevendo na coluna Pontos de Vista do portal do Ludens, ou, quando estou lá, como há meses atrás, dando uma palestra e participando de um bate-papo com os alunos. O mais importante é que o projeto não tem mais necessidade da minha presença, ele está consolidado com o grupo de pesquisadores que o Flavio reuniu à sua volta.

Quanto à avaliação, acho que quantitativamente o que foi conseguido nestes dez anos talvez seja maior do que eu imaginava. O número de mestrados, de doutorados, de congressos, debates e reuniões de trabalho, tudo é maior do que pensávamos no início. O fato é significativo, não por mero critério numérico como parece ter se instalado na universidade brasileira, mas porque é necessária uma certa quantidade para poder extrair uma certa qualidade. É muito lotérico você ter dois orientandos e os dois serem brilhantes, com trabalhos extraordinários. Você precisa ter dez, quinze ou trinta, para que do meio deles emerja um X razoável de trabalhos realmente importantes. Qualitativamente, é mais difícil eu fazer um balanço porque não conheço boa parte dessa produção. Mas sabendo do perfil com que o Ludens foi formatado e está funcionando, quero crer que da quantidade já expressiva de trabalhos estejam saindo coisas muito boas. Claro que, como em qualquer área, a qualidade deve ser desigual,  com coisas mais simples ao lado de trabalhos de peso.

Outro ponto importante e que também não tenho condições de avaliar é sobre a distribuição temática estudada. Quais áreas ainda faltam? O pouco que sei não está atualizado, é um cenário de alguns anos atrás, tendo por base o simpósio organizado pelo Ludens e pelo Museu do Futebol em 2010, quando fui encarregado de fazer o balanço final. Naquela ocasião acompanhei a apresentação de todos os trabalhos com muita atenção, anotei muitas coisas, procurei quantificar os vários tipos de apresentação. Neste quadro de 2010 – que, insisto, pode não ser o de hoje – fiquei com a sensação de que ainda há um importante desequilíbrio quantitativo, por exemplo com muita coisa sobre futebol e nacionalismo. Entendo a motivação das pessoas para fazerem isso. Entendo até uma certa “facilidade” em fazer isso, porque é uma documentação mais ou menos acessível. Mas não acho que seja um tema tão importante quanto as pessoas pensam que é. Acho até o contrário. Penso que o fenômeno futebol nos últimos tempos, e cada vez mais, é importante ao nível de comunidades e não ao nível de nacionalidades. O que quero dizer com isso? Simplesmente que clubes são mais importantes do que seleções. Claro que se pensarmos em termos de Copa do Mundo tal afirmação pode causar espanto. Seria leviandade querer esvaziar ou negar a Copa do Mundo, mas trata-se de fenômeno que tem o peso que tem porque acontece de quatro em quatro anos. E porque conta com um aparelho institucional que nenhum outro evento tem. Não me refiro só à FIFA, mas também aos países sede, que entram com todo seu peso político e financeiro. Há muito mais coisa em jogo numa Copa do Mundo do que somente futebol. Quem é que segue Copa do Mundo além do torcedor habitual do futebol? Grande parte desse público é aquele que durante quatro anos não quer saber de futebol, que talvez nunca tenha ido ao estádio. Claro que, justamente por causa da história dos nacionalismos, é legal ver Brasil x Argentina, Inglaterra x Alemanha, ou França x Bélgica, por exemplo. As grandes rivalidades territoriais, políticas, econômicas, reigiosas, culturais, linguísticas, existem séculos antes de existir o futebol, mas desembocam também no futebol, às vezes são potencializadas pelo futebol. Assim, mesmo quem não se interessa por futebol quer ver esse espetáculo.

Já o futebol de comunidade, o dos clubes, é o futebol cotidiano. O torcedor acorda e vai olhar no jornal qual a mais recente notícia sobre seu clube ou sobre o adversário do final de semana. Ele chega ao trabalho e vai conservar sobre isso com os colegas. Ele vive o futebol. Pode não ser fanático, mas uma vez por semana vai assistir os gols do Fantástico ou de algum programa correspondente. O futebol faz parte da vida cotidiana do indivíduo. Reforçando isso, fenômenos como a globalização ou a Comunidade Europeia foram esvaziando os nacionalismos futebolísticos, como se percebe no torcedor de seleção de certos países onde seu lado comunitário pesa mais que o nacional. É o caso do Brasil. Num jogo da seleção é grande a quantidade de torcedores usando a camisa de seus clubes ou levando suas bandeiras. Eles estão lá para torcer para o Brasil, mas  jamais esquecendo do clube do coração. Mesmo o maior ou menor apoio a certos atletas é muitas vezes definido pela sua relação passada ou presente com o clube do torcedor, tipo “foi formado no meu clube, jogou lá tanto tempo, ganhou campeonatos”.

Lembro rapidamente estas coisas para dizer que se estudar a relação entre nacionalismo e futebol é legítimo (na verdade não existe nenhum objeto de estudo que não o seja), não creio que ela seja essencial como sugere a quantidade de pesquisas realizadas a respeito. A contrapartida é a lacuna nas histórias de clubes. É verdade que você pode comprar hoje quatro ou cinco histórias diferentes de cada grande clube brasileiro, e uma ou duas de pequenos clubes, mas a rigor trata-se de relatos jornalísticos. E eu penso numa História de perfil acadêmico, interpretativo, que busque entender os fundamentos sociológicos do clube, o perfil das pessoas que o criaram, o que elas pretendiam com aquilo, que tipo de afirmação, de afinidade, de comportamento, de identidade grupal se desejava com a criação do clube. Como se dá e quais são as implicações da localização geográfica inicial, como ela foi se modificando, que perfis particulares o processo gerou. É a mesma coisa ser santista ou palmeirense no Nordeste ou em São Paulo? Como é que se constroem essas identidades? E, claro, a identidade no começo do século XX não é a mesma identidade no começo do século XXI. O que mudou? A História. Lógico, o clube também mudou, mas não de forma autônoma, isolado em uma cúpula de cristal. A História ao mudar leva o clube a mudar. Em alguns casos, o clube vai contribuir para a própria mudança da História, por exemplo no fenômeno da Democracia Corinthiana. Que aliás foi objeto de um estudo como estou defendendo aqui, mas é uma exceção, de forma geral continuam faltando histórias sérias, bem documentadas, analíticas. Para explicar a deficiência da maior parte das histórias de clubes costumo usar uma metáfora imagística: essas obras são uma fotografia de uma época X, não um filme. O Fluminense e o São Paulo são clubes de elite? Esse lugar-comum sem dúvida retrata uma realidade, mas qual? A da primeira metade do século XX. Se formos olhar para aquelas torcidas hoje, elas não têm perfis muito diferentes às de Vasco e Flamengo ou de Corinthians e Palmeiras. O entendimento aprofundado do que é um clube, do que ele representa, deve considerar sua trajetória, sua dinâmica histórica, os momentos marcantes de inflexão. Essa é uma tarefa que ainda precisa ser feita.

Outra coisa. Acho que o pesquisador deve lançar o olhar para fora do país. Estamos no Brasil, dito país do futebol, o material futebolístico está por toda parte, a paixão também, mas se ficarmos olhando só para o próprio umbigo vamos perder um monte de elementos fundamentais para compreender o próprio umbigo. O pesquisador tem que se abrir. Esse olhar para fora não quer dizer, evidentemente, ligar a televisão sábado e domingo e ver um ou outro jogo internacional. Significa fazer em relação a outros países o mesmo exercício de compreensão do futebol e dos clubes, para se ter o elemento comparativo que permite entender melhor uma série de coisas que podem estar debaixo de nossos olhos e não vermos.

Também acho que ainda é insuficiente a abordagem sobre futebol e cultura. De futebol e cinema, por exemplo, tem pouca coisa. Quais obras, em que momentos, feitos por quem, com qual motivação, o que havia por detrás delas, quem as financiou, que perfil ideológico elas revelam, como elas foram vistas e recebidas no momento de lançamento, qual sua trajetória posterior, etc.. Sobre futebol e literatura existe no Brasil uma produção um pouco maior, contudo ainda pequena. E qual é seu caráter? Ela não está marcada por uma relação do culturalmente pobre com o culturalmente rico? Será que a literatura ainda não olha para o futebol de cima para baixo, como uma coisa menor, que não precisa ser incorporada? Ou será que isso não é mais verdade? Não sei e talvez ninguém saiba exatamente. O mesmo vale para as artes plásticas, a música. É fundamental colocar futebol e cultura frente a frente, perceber como se dão as conexões e as rejeições.

Por fim, na base disso tudo está a questão metodológica. É fundamental, imprescindível, reconhecer que não é possível estudar futebol, ou qualquer outro objeto, se não tiver um método, uma estrutura científica para esse estudo. Não se pode simplesmente fazer entrevistas, xerocar jornais, ler livros, coletar dados enfim, sem um arcabouço teórico. Se não o resultado será uma colcha de  retalhos, bem feita ou não tão bem feita, mas uma colcha de retalhos. É preciso haver fundamentos, alguma coisa sólida por detrás disso tudo. Deve-se criar um conjunto conceitual, que evidentemente não é uma coisa nova que alguém tira da cartola. É necessário, a partir do que as ciências humanas oferecem, construir um método adequado para estudar esse objeto que é o futebol. E sem jamais perder de vista que tal método não é de uso universal e atemporal. Não se trata de criar o método que vai resolver o problema para sempre, mas em função do objeto específico de cada pesquisador do futebol, montar essa aparelhagem intelectual, justificá-la, apresentar esse método para a comunidade científica a fim de que outros pesquisadores possam utilizá-lo ou adaptá-lo para seus próprios objetos. Essa é a lacuna mais séria, pois todas as outras dependem dela.