04.10

Ita

Equipe Ludopédio

Mais do que reconhecido, o futebol feminino ainda precisa ser apresentado ao Brasil. Para além da Seleção Brasileira, as meninas e mulheres vivem em um cenário repleto de histórias, contradições, injustiças, vitórias e derrotas. Confira estas e outras questões nesta primeira de uma série de entrevistas dedicada ao futebol feminino que publicaremos nos próximos meses. Iniciamos com a polivalente Ita – jogadora, treinadora, dirigente e professora que circula há mais de vinte anos pelo futebol amador de São Paulo.  Aproveitamos também para agradecer aos colegas da equipe de pesquisa do Museu do Futebol pelas dicas e sugestões.

Ita é destaque de jornal em campeonato de futebol amador. Foto: Equipe Ludopédio.

 

 

Primeira parte

Conte um pouco sua trajetória. Como foi seu primeiro contato com o futebol? Quando começou a gostar?

Meu nome é Ita. Não é bem Ita, mas sou mais conhecida assim. O nome completo é Edinei dos Reis. O Ita é um apelido que meus irmãos me deram quando criança. Acabou pegando e continuei usando o nome. Estou com 42 anos, ainda na ativa, disputando campeonatos como o Campeonato Paulista, com a equipe de Mogi das Cruzes, os Jogos Abertos (que este ano serão disputados em Mogi das Cruzes) e os Jogos Regionais. Desde meus 11 ou 12 anos, nas brincadeiras de criança na rua, comecei a gostar de futebol. Isso ainda na Bahia, onde vivi minha infância. Por volta dos meus 12 anos, fui com minha família para Goiás. Depois de três anos, fomos para Minas Gerais. Posteriormente, retornamos para Bahia e Goiás. Foi em terras goianas, mais precisamente em Santa Helena, tive oportunidades. Morava um ou dois quarteirões próxima ao estádio municipal e eu sempre acompanhava os jogos. De tanto ir, fiz amizade com o roupeiro da equipe principal da cidade. Hoje ele é, inclusive, profissional da primeira divisão. Este roupeiro começou a fazer um trabalho com as meninas. Naquela época era muito difícil. Juntar 15 meninas era uma dificuldade. Havia muito preconceito. Tínhamos esse pequeno grupo, no máximo 15, e começamos a fazer jogos entre a gente mesmo. Ele marcou também jogos com equipes masculinas formadas pelos meninos e jovens da região. Nesse processo, fui tomando gosto. Nessa época, quatro cidades da região tinham equipes: Rio Verde, Jataí, Quirinópolis e Santa Helena. Eram cidades próximas, com 200km ou 300km entre elas. Na capital, tinha também a equipe do Ponto Frio. Conheci algumas meninas da região que fizeram parte desta equipe. Como só tinha as quatro equipes, a cada trimestre eles faziam um torneio. Cada vez em uma das cidades. Depois de três meses, faziam um novo torneio em outra cidade. Na maioria das vezes, o Rio Verde era campeão, pois tinha a equipe mais forte e experiente.


Você ainda era bem nova nessa época…

Eu tinha 15 ou 16 anos. Eu tenho uma foto desta época nestas pastas aqui. Morei por lá durante 4 anos e depois retornamos para a Bahia. Meu pai quis voltar. Alguns anos depois, decidi vir para São Paulo. Eu tinha alguns primos aqui. Tinha muita vontade de vir. Eu nasci e morei em uma cidade muito pequena da Bahia. Cheguei a São Paulo em 1991. Já no ano seguinte, em 1992, conheci o clube Elite Itaquerense. Fui apresentada ao Wilson, treinador da equipe de futsal. Ele me convidou para participar da equipe. Era um grupo reduzido, de no máximo 10 meninas. Começamos a participar de campeonatos pela Federação Paulista de Futebol. Foi uma época maravilhosa. Eram mais de vinte equipes.

Foto oficial do time feminino. Foto: Arquivo pessoal.

Você já morava em Guaianases e ia treinar em Itaquera?

Sim, ia até Itaquera. Foi um grupo bem legal. Ficamos lá até 2001. O Wilson ficou até 1996. Hoje ele é árbitro e apita jogos da Liga de Futsal. Eu passei a tomar conta das categorias de base, trabalhando as meninas menores, e depois comecei a tomar conta também da equipe principal. Quando tínhamos as competições, entrávamos sempre com as duas equipes: a principal e a juvenil. Na principal, eu dirigia e era jogadora. Na época, começou a aparecer o campeonato de campo. Surgiu o Moreno, nosso diretor de esportes e que virou nosso treinador. Ele deu a ideia de jogar o futebol de campo. As meninas gostaram, pois a maioria gostava mais de jogar o futebol de campo. Jogavam salão porque não tinham opção. Primeiro, participamos de um festival no antigo campo do Ferrolho. Tinha troféu, trouxeram outra equipe. Fizeram a brincadeira e ganhamos. Tomamos gosto. Sempre que tinha algum festival, íamos disputar, bem como campeonatos. A coisa foi dando certo. Até surgiu a ideia do primeiro Campeonato de Suzano. Logo no primeiro ano, já nossa equipe foi campeã. Depois, um torneio no Horto Florestal. Chegamos entre os quatro primeiros. A coisa começou a crescer. Veio novamente a Copa Suzano e a nossa equipe foi campeã. Fomos vice da Copa Itaqua. Depois veio a Copa Kaiser, e ganhamos a primeira. Vencemos também a segunda. O cenário já começou a mudar. As faculdades passaram a disputar estes campeonatos. Elas tinham mais estrutura, treinavam, conseguiam trazer mais meninas. Assim, foi difícil acompanhar o trabalho deles. Mas ficávamos sempre entre os quatro primeiros. Na verdade, não tínhamos um time de campo, não treinávamos. Tínhamos uma base adulta e uma mais jovem no futsal. Juntávamos as duas e fazíamos o time para o campeonato. As meninas eram dali mesmo, trabalhadas no próprio clube. Em meados de 1997, num desses campeonatos, houve um convite por parte do Corinthians, quando iniciou a Paulistana em 1998. Um rapaz me convidou para fazer um teste no Corinthians. Sempre gostei de jogar futebol de campo. Fiquei no Corinthians durante o campeonato de 1998. Fui reserva, joguei poucas partidas. Naquela época era difícil para mim, pois tinha lá a Roseli, Márcia Honório, Taffarel etc. Na época, o Corinthians tinha sete ou oito jogadoras da Seleção Brasileira. Ficava difícil jogar na minha posição, de segunda volante. Fiquei na equipe até a final da Paulistana.

Liberação concedida pela Federação Paulista de Futebol. Foto: Arquivo pessoal.


Para quem via de fora, parecia que havia uma grande divisão entre aquelas que estavam na seleção e as jogadoras que estavam fora da seleção, enfrentando muitas dificuldades. Era difícil ter uma renovação na Seleção. Existia essa divisão?

Todas as equipes, em torno de 20, participavam desta mesma liga de futebol de salão. A base da Seleção estava no futsal. Quando existia convocação, buscavam as atletas de um mesmo grupinho, dos melhores times, principalmente da Sabesp.


Então, a mesma geração que ficava por muito tempo?

Isso. Agora, com o surgimento da Marta, a Seleção deu uma renovada. Mas a Andrea está lá ainda, mais de uma década, embora eu ache que existem várias meninas com um ótimo potencial e que poderiam estar no lugar dela. Algo que acontecia antes. Os treinadores da Seleção nem olhavam para as outras equipes na década de 1990, só observavam as jogadoras da Sabesp. Fechavam as portas com o grupo inteiro e levavam embora. Poderiam ter aberto um pouco o leque, dado uma observada. Algumas meninas de fora conseguiam aparecer, principalmente as que vinham do interior. Meninas que até hoje estão por aí, como a Formiga, naquela época uma “moleca”. Hoje já tem mais de 30 anos. Mas como a renovação é pequena, ela consegue se manter. Seria interessante os treinadores observarem mais os Jogos Abertos, pois têm muitas equipes com meninas desconhecidas, com grande potencial, mas que não conseguem sair de suas cidades, como Franca. Se não participam do Campeonato Paulista, ficam só jogando os torneios regionais. Quando ocorre os Jogos Abertos, reúnem-se os campeões e vices de cada região do Estado. Assim é possível observar com mais clareza, pois o nível técnico é muito bom. Infelizmente não acontece como deveria acontecer.


Até 1998, período quando você jogou no Corinthians, qual era a principal dificuldade para as mulheres que queriam jogar?

Falta de espaço. Não tínhamos muitas equipes, estrutura, pessoas interessadas. Ainda hoje não vejo uma evolução. Aonde eu vou, continuo vendo as mesmas dificuldades. Alguém inicia um projeto bacana, mas só consegue manter por seis meses ou um ano. Paravam por não ter apoio, por ser difícil dar sequência. As pessoas cansam de tentar, tentar, tentar… Quantas vezes o Corinthians, Palmeiras e São Paulo já iniciaram um trabalho e pararam depois de um tempo? O São Caetano iniciou um trabalho bacana e depois se afastou. Hoje, dos principais clubes, só temos o Juventus e a Portuguesa com equipes femininas.

Ita atuou como jogadora, treinadora, dirigente e professora que circula há mais de vinte anos pelo futebol amador de São Paulo. Foto: Equipe Ludopédio.

A estrutura encontrada quando você iniciou a carreira é a mesma então?

Não mudou nada. Pelo que temos visto e acompanhado, é a mesma situação. A diferença hoje talvez seja o fato do futebol feminino ter caído um pouco no gosto popular. Diminuiu o preconceito. A aceitação não é comparável com a do universo masculino, mas numa escala de 1 a 100, estamos com 10% a 20% de aceitação.


A Seleção teve um papel fundamental nisso?

Sim, teve. Mas considero que a questão da aparência ajudou muito. Se pegarmos, analisarmos e compararmos a seleção de hoje e a dos anos 90, é possível a evolução da postura e da aparência. Isso foi importante. Hoje, por exemplo, temos poucas jogadoras de cabelo curto. Deve existir hoje uma boa orientação para as jogadoras. A beleza feminina melhorou muito, com muitas meninas bonitas dentro do futebol feminino. E o melhor de tudo: jogando bola. Isso é interessante. Não só a beleza, mas também o fato de saber jogar bem.

 
Podemos lembrar um Campeonato Paulista que a seleção das jogadoras era pela beleza, pelo aspecto feminino. Essa exigência levou a essa nova situação?

Quando eles tiveram a ideia, foi inicialmente um choque. Uns aceitaram, outros criticaram. As jogadoras ficaram preocupadas. Se tivéssemos investido numa melhora da aparência desde meados da década de 1990, acredito que a evolução do futebol estaria muito melhor. Em outras modalidades, além do bom desempenho, destaca-se a beleza. Não há como negar que os patrocinadores também buscam a beleza. É uma moeda de troca. É interessante ter uma imagem do seu produto vinculada a pessoas bonitas.

Ita relembra sua trajetória no futebol feminino. Foto: Arquivo pessoal.

 
Você defende, então, que são medidas que só ajudam a melhorar o esporte?

Com certeza. Isso ficou mais que provada para quem vive o dia a dia e aqueles que estavam lá na década de 1990. Procuramos sempre comentar com as meninas essa questão da aparência, da beleza, postura e atitudes. Em outras épocas, não sabíamos dessa realidade, não nos importávamos muito. Procuro sempre passar isso às meninas com as quais realizo trabalho social.


Se a Sissi tivesse cabelo comprido e uma preocupação com a estética, ela teria sido tão grande quanto é a Marta hoje?

Com certeza. Estava assistindo a entrega da premiação aos melhores esportistas do ano e mostrou a elegância da Marta. Mostraram as meninas da ginástica e na TV fizeram questão de comentar a elegância e beleza de uma moça ginasta. Depois mostraram a Marta e fizeram essa comparação. Não se referiram à Marta do mesmo modo que se referiram à ginasta. Mas ela não deixou nada a desejar. Fiquei analisando essa comparação. Mostrou para as pessoas que independente da prática esportiva da atleta, ela também pode ser elegante. Existe uma visão comum de que no futebol as pessoas são mais relaxadas, sem um cuidado encontrado em outras modalidades. O pessoal do basquete e do vôlei são bem cuidados. Tanto no masculino quando no feminino. Acredito que falta uma orientação também para as meninas.

Ita durante entrevista. Foto: Equipe Ludopédio.


Confira a segunda parte no dia 22 de junho.