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Jamil Chade (parte 2)

Equipe Ludopédio

O jornalista Jamil Chade é correspondente do jornal O Estado de S. Paulo na Europa e colunista da Radio Estadão. Suas reportagens sobre os bastidores do esporte mundial renderam ao repórter diversos prêmios, além de participações na CNN, BBC, canais espanhóis, canadenses, suíços e de diversos países. Em 2011 e em 2013, Chade foi premiado como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se. Em 2015 publicou o livro “Política, Propina e Futebol: Como o ‘Padrão Fifa’ ameaça o esporte mais popular do planeta“, que relata os bastidores da entidade máxima do futebol e seus escândalos de corrupção.

Foto: Sérgio Giglio

Jamil Chade fala sobre os meandros do futebol mundial. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Segunda parte

Você se enquadra naquilo que é chamado de jornalismo investigativo. Na semana seguinte ao fim dos Jogos Olímpicos, o Ludopédio organizou junto ao Museu do Futebol um simpósio a respeito do evento que tinha acabado de acontecer. A gente montou uma mesa chamada “Jornalismo investigativo em tempos de megaeventos”. Estavam na mesa o Trajano, um repórter do Nexo e a Natália Viana, da Pública. Foi muito legal porque eles começaram o debate dizendo: “Todo jornalismo deveria ser investigativo, mas ele não é.”. Então, dentro desse mundo das crises, achamos que o jornalismo faz parte desse cenário, onde ele, em relação ao esporte, trabalha muito mais com o entretenimento do que vai a fundo de questões ou, de outro modo, não questiona essas entidades e pessoas, e prefere ficar na superficialidade das coisas. Suas reportagens vão nesse sentido de ir além dessa superficialidade. Como você vê isso, essa possibilidade de fazer esse trabalho?

Primeiro, eu acho que uma coisa não exclui a outra. O resultado do jogo, o desempenho do Neymar, eu também quero saber. Isso, eu não acho superficialidade, precisa ter um repórter fazendo isso. O que não pode acontecer é que a cobertura da seleção brasileira ou do seu time seja feita por um torcedor. Ela tem de ser feita por um jornalista. Não é um jornalista investigativo, é um jornalista. Isso não é uma coisa do Brasil. Para mim, uma coisa que é muito chocante como jornalista é ver a imprensa espanhola de futebol, principalmente com a seleção da Espanha. Os jornalistas vão com a camisa da seleção cobrir o jogo da seleção! Cara, eu também torço pelo Brasil, mas qual a tua isenção se você veste a camisa daquilo que você está cobrindo? Nenhuma. E não adianta argumentar: “Ah, mas na hora…”. Na hora?! Qual é a linha? A linha é informar o que está acontecendo. Eu não posso torcer para o que está acontecendo. Então, essa divisão precisa ser feita inclusive no entretenimento. Portanto, não são duas coisas excludentes, a parte do entretenimento e esta parte.

Primeiro, a parte do entretenimento precisa acontecer, mas precisa acontecer de uma forma isenta. O que não acontece, em muitos lugares do mundo, por um aspecto importante. Muitas dessas empresas que cobrem a parte do entretenimento são as mesmas que financiam esses eventos. Então, você está ao mesmo tempo financiando o evento, você quer audiência para o teu evento – porque no final das contas ele é teu evento, não é só o evento da FIFA, ele é o evento da FIFA financiado por você, ou da CBF ou do COB financiado por você. Então, você tem aí, sim, a contradição de fazer jornalismo e, ao mesmo tempo, mostrar que apoia aquele evento. Não, está errado. E essa é a parte que está muito errada da história.

Esse é um lado que precisa ser resolvido. Essa solução, alguns países encontraram. O próprio Estados Unidos, eu diria, encontrou de uma maneira bastante fácil, mesmo a NBC, que é a maior patrocinadora dos Jogos Olímpicos. Ela tem um departamento de entretenimento que cobre o evento como entretenimento e, na mesma editoria, tem um departamento de jornalismo. Aí você consegue ao mesmo tempo mostrar o jogo de uma forma de entretenimento e ter a informação, logo depois ou antes, que seja real. Então, é possível fazer. Em Copas do Mundo, o que eu tento fazer pessoalmente: ir aos jogos com a liberdade de não assistir ao jogo. Quando há um repórter que vai cobrir o jogo, e que vai fazer muito melhor do que eu, aproveito para sair andando e descobrir o que está ocorrendo nos corredores, na sala VIP com os chefes-de-estado.

Vou te dar alguns exemplos… Brasil e França, na Copa do Mundo de 2006, em que o Brasil perdeu de 1 a 0. Quando já estava perdendo, ao invés de eu ficar assistindo ao jogo, o que eu fiz foi descer e ficar na entrada do túnel que leva para o vestiário. Fiz isso para ver a reação dos jogadores, saber o que estava acontecendo com eles, qual o comportamento deles e, principalmente, após o jogo acabar, registrar o que eles falariam na saída de campo. Se eu estivesse cobrindo o jogo, eu não poderia ter feito isso. Era um momento real da derrota. Você pode me dizer o que quiser, que eles são milionários e tudo mais, mas o que eu vi no túnel foi o desespero deles ao sair para os vestiários, antes das coletivas, antes das zonas mistas. Vi realmente o choque dos jogadores que queriam ser campeão do mundo.

A mesma coisa aconteceu em 2010, quando o Brasil perdeu para a Holanda. Mas aí o que fiz foi diferente. Durante a madrugada após o jogo, fui para o hotel da seleção, quando já não tinha mais ninguém. Então, cheguei às cinco horas da manhã para não chamar a atenção da segurança e, depois, pegar os jogadores descendo para o café da manhã. De novo, era o retrato de um fracasso. Então, não é que eu prefiro, mas eu acho que tenho essa função. Não é que esta função é melhor do que a outra. Não é. As crônicas que alguns de meus colegas fazem sobre jogos são geniais. Eu insisto: não se trata de classificar jornalismo, mas só que cada um pode ter uma função diferente.

Aí, na parte política, que eu acho interessante, por conta de minha história como jornalista, é passar um jogo inteiro ou um evento inteiro observando os políticos, o que acontece numa zona vip do estádio. Fiz isso em 2006 na final da Copa do Mundo. Todos esses jogos, eu tive que assistir de novo no YouTube, porque não assisti, e estava nos estádios. Na final entre França e Itália, eu fiquei olhando para o Jacques Chirac e os demais políticos. Em 2010, uma coisa inacreditável: estava o Henry Kissinger sentado na mesma fila do Thabo Mbeki e de outros sul-africanos, que foram vítimas do Apartheid, o qual Kissinger tinha apoiado. Então, qual é a relação entre essas pessoas quando elas chegam numa zona vip de um estádio? Só o futebol pode trazê-las para um mesmo lugar. A ONU não consegue. Eu vivo a ONU todos os dias, e a ONU não consegue colocar numa mesma sala gente tão oposta tanto quanto a FIFA coloca numa sala vip de um estádio numa final de Copa do Mundo. Lembro-me da final de 2010 e o ex-secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, brincando comigo justamente sobre esse assunto. “Imagina se conseguíssemos todos esses atores juntos fora daqui?”.

A mesma coisa, na Olimpíada. A abertura e o encerramento dos Jogos Olímpicos 2016, eu passei nos corredores do Maracanã olhando e tentando descobrir quem é que estava e o que era dito. Esse outro jornalismo, de nenhuma forma, é superior ou inferior à cobertura do evento em si, mas ele precisa também acontecer. Você precisa entender o que acontece no corredor. E eu me lembro do abandono do Michel Temer na abertura da Olimpíada por todos era um sinal claro da dificuldade que ele ia ter como presidente. Então, você não precisa estar no congresso nacional para entender isso, bastava ir para a abertura da Olimpíada. O mundo inteiro estava olhando para o Brasil, e o presidente do Brasil estava sozinho. Esses dois jornalismos se complementam.

O que eu acho completamente errado é enganar o torcedor, enganar a tua audiência só pela audiência. Eu entendo que, se você pagou 500 milhões de dólares para mostrar aquele evento, você tem que promovê-lo. Só que você pode promover uma vez, mas a tua credibilidade não tem como ser mantida. Aí, por exemplo, nos Jogos Olímpicos, não adianta passar dezessete dias com programação de 24 horas dizendo: “Que espetacular!”, mas não contar para o cidadão que é ele que está pagando por isso. Agora, quando você tem a crise, a recessão, salários não pagos, cortes de aposentadoria e tudo isso, você também não contar que parte do exagero que aconteceu no Brasil tem a ver com megaeventos. Ou você tentar vender a versão de que os megaeventos eram atalhos para o desenvolvimento. Não são, não existe atalho para o desenvolvimento! Isso é uma mentira. E você tentar mostrar tudo isso sem contar a história inteira é complicado, tua credibilidade vai ser afetada.

Eu não estou dizendo que o abandono desses locais é algo que eu gostaria de ter visto, mas eu, o Rodrigo Mattos, do UOL, o Trajano, o Juca Kfouri, o Silvio Barsetti e alguns jornalistas falamos durante anos: “Isso aqui não tem função depois. Isso não existe, é um plano que tem uma duração limitada.”. Aí você vai ver depois e constata: “É, talvez eles tinham razão”. Quando disse isso naquele momento, eu cheguei a ouvir do Carlos Arthur Nuzman: “Você diz isso porque está com inveja do Rio de Janeiro, porque você é paulista!”… É pra rir, não é? “Cara, sério mesmo? Você acha mesmo que eu tenho uma mente deste tamanhinho?”. É uma coisa absurda! E eu não moro em São Paulo. E ele me falou bastante sério que isso era uma questão bairrista de São Paulo. Foi em 2009, diante de um dos representantes da NBC. Isso é realmente uma coisa absurda. Não existe a capacidade de eles entenderem que você, não é que esteja do outro lado, mas só está do lado de contar a história inteira. Eu sempre digo : “Eu só quero contar a história inteira.”.

Eu tive várias brigas com o Andrés Sanchez, mas uma delas era por que ele foi o chefe da delegação brasileira em dois amistosos que não faziam sentido nenhum. A não ser que você pense que tem outro motivo por trás. Eu vou te dar uma explicação do que foram esses dois amistosos. Brasil e Japão no interior da Polônia, numa quarta-feira, ao meio-dia, num dia de trabalho. Quem é que organizou esse amistoso? Quem é que foi neste jogo? Absolutamente ninguém! O jogo seguinte, na mesma semana, foi Brasil e Iraque, na Suécia… Entendeu? Isso é uma piada. Alguma coisa está dando errado, ou certo para alguns. Então, você tem que apresentar essa realidade. Esses amistosos são apresentados para o público brasileiro como a preparação da seleção para alguma coisa. É a maior mentira que você pode dizer é apresentar esses amistosos como eventos esportivos. Eles não são eventos esportivos. É um jogo de futebol, sim, 90 minutos, mas eles servem para outra coisa e não para preparar a seleção brasileira.

Em maio de 2015, duas semanas antes das prisões dos dirigentes, eu publiquei uma matéria dos contratos da CBF que mostravam que os amistosos tinham uma lógica comercial. Qual era essa lógica comercial? Eram os parceiros comerciais do amistoso que determinavam a escalação da seleção. Não é que determinavam o camisa 2, o lateral direito da seleção, mas se tratava do valor de marketing do jogador convocado. Não sou eu que estou dizendo ou foi alguém que me contou, isso está no contrato, no contrato! Se um jogador do time A for retirado por algum motivo, ele tem que provar, primeiro, que está machucado. Ou seja, uma opção do treinador de experimentar alguém já não existe. Se o lateral direito titular da seleção for retirado, para entrar um novo, este tem que ter o mesmo valor de marketing… O que isso tem a ver com futebol? Nada.

Voltando à cobertura de imprensa, você tem uma série de fatores que levam o público a pensar que aquilo ali era um jogo de futebol, quando não era. Então, qual a responsabilidade nossa como jornalistas? No debate que vocês promoveram no evento, disseram que todo jornalismo tem de ser investigativo. É isso mesmo. Por quê? Porque você tem que pensar: “Bom, eu vou cobrir Brasil e Japão, na Polônia. Preciso explicar para o torcedor por que esse jogo acontece na Polônia. E por que acontece ao meio-dia.”. Sim, tem de dizer qual a tática do treinador e tudo mais. Tem que fazer esta parte, mas também tem que fazer a outra parte.

Você não tem essa outra parte por uma série de fatores. Primeiro, por uma questão financeira. Como que você pode ser isento se você é parceiro daquele evento? O outro dilema é a chantagem exercida pela CBF, a qual o COB também faz, mas que a CBF fazia de uma forma claríssima, sobre nós. Questioná-los significa que você não vai ter o mesmo acesso que outros terão aos jogadores. Aí é uma decisão difícil para todos, porque sabemos que há concorrência. Ela terá uma entrevista com o Neymar, e você, não. O editor pode ser cobrado: “Nossa concorrência entrevistou o astro de nossa seleção. Como você não entrevistou? E quando é que nós vamos entrevistá-lo? Nós vamos entrevistá-lo quando pararmos de bater neles.”. Isso é chantagem, não tem outro nome. Então, há esses dois fatores acontecendo ao mesmo tempo e que levam, sim, um grupo de jornalistas a optar por não questionar. Hoje, esse grupo é uma minoria. Mas ainda existe. A sorte do jornalismo brasileiro é que existem profissionais de um calibre espetacular no Brasil fazendo um questionamento diário deles.

Eu acho que mudou, inclusive, a forma como o público brasileiro se decepciona em relação à seleção. É saudável porque não é uma decepção que diz: “Eu não sou mais brasileiro, vou torcer para a Argentina.”. É a decepção que fala: “Eu quero outra coisa, quero mais transparência. Quero uma coisa que me respeite.”. Essa decepção é absolutamente saudável…

O COI não é muito diferente. Eu sempre digo que eles são mais sofisticados. Eles são da aristocracia e aqueles da Fifa, da burguesia. É exatamente isso. Tanto que eles olham para a burguesia e falam: “Tsc! Novos ricos… não sabem nada!”. E é verdade. Você vê que o comportamento dos “novos ricos” é espalhafatoso, vulgar e tudo isso. Enquanto que a aristocracia faz as coisas de uma forma muito mais refinada, mas tão corrupta quanto. Eu não tenho nenhuma dúvida disso. As formas de cooptar são muito parecidas, mesmo que sejam diferentes.

Por exemplo, a tocha olímpica. Eu e outros fomos convidados para levar a tocha olímpica no Brasil. Bom, vamos lá… Você está cobrindo aquele evento, você não faz parte do evento. Quer levar? Tudo bem. Eu tenho certeza de quem levou, e muitos jornalistas levaram a tocha, tem a consciência de que precisam diferenciar entre esse ato e sua cobertura do evento. Eu tenho grandes amigos que levaram e que eu tenho certeza de que tem essa consciência. Mas, para o público, é a mensagem errada: “Você faz parte do evento ou você cobre de forma isenta o evento?”. Pode criar uma certa confusão na cabeça da audiência, mesmo que o jornalista esteja completamente consciente de que tem que fazer seu trabalho de uma forma correta, e vários deles fazem. É como o jornalista esportivo que diz: “Eu sou torcedor do São Paulo. Por mais que o cara seja isento, no final das contas um corinthiano vai falar: “Ahhh… então falou isso por que é são-paulino.”. Não. Isso é uma grande mentira. Mas explicar isso é sempre um desafio. A mesma coisa acontece com a tocha olímpica. Eu, o Barsetti e alguns outros optamos por não levar a tocha olímpica. Primeiro, eu tenho uma certa dificuldade de levar um símbolo criado pelos nazistas. Isso me incomoda profundamente. Mesmo que ela já tenha perdido esse aspecto de propaganda, mesmo que tenha um valor agora diferente, eu estaria me traindo se tivesse levando a tocha. Eu levo o microfone, a caneta, a câmera, mas não a tocha.

Foto: Sérgio Giglio

.Jamil Chade. Foto: Sérgio Setttani Giglio.

Você chega a esse tipo de jornalismo de maneira diferente da usual. Mas você teve algumas referências jornalísticas para fazer o que faz?

As duas, que no meu caso são muito claras, são o Trajano e o Juca… Eu sempre admirei o Juca por ele provar que alguém que tem um percurso em ciências sociais pode se interessar pelo futebol e falar dele com propriedade. Por muito tempo houve um preconceito do mundo acadêmico: “Ah, esse esporte do povo.”. Eu gosto do fato de ele ter um arcabouço acadêmico e, ao mesmo tempo, trazer isso ao futebol. Eu sempre achei espetacular essa combinação. E o Trajano, pela capacidade dele de ser coerente. Você pode discordar, e eu discordo dele de várias coisas que ele diz, mas a capacidade dele de ser coerente é bastante impressionante. São duas pessoas que serviram de referência.

Agora, eu insisto: precisamos sempre da outra parte. Vários jornalistas esportivos têm a capacidade de interpretar, conhecer o jogo, a tática… O PVC, para mim, é um exemplo de uma pessoa que estuda o esporte e quer transmitir para o torcedor, não só a emoção do narrador, também a informação, o que é muito valioso. Não são duas coisas excludentes, elas têm que coexistir. Nas palestras que eu dou nas faculdades pelo Brasil e também no exterior, fica muito claro que o jornalista torcedor é uma minoria. O que você não pode, desculpa-me a insistência, é ter interesses comerciais em um jogador, num evento, num resultado. Aí você está enganando o público.

Confira a terceira parte no dia 24 de junho!