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Jamil Chade (parte 4)

Equipe Ludopédio

O jornalista Jamil Chade é correspondente do jornal O Estado de S. Paulo na Europa e colunista da Radio Estadão. Suas reportagens sobre os bastidores do esporte mundial renderam ao repórter diversos prêmios, além de participações na CNN, BBC, canais espanhóis, canadenses, suíços e de diversos países. Em 2011 e em 2013, Chade foi premiado como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se. Em 2015 publicou o livro “Política, Propina e Futebol: Como o ‘Padrão Fifa’ ameaça o esporte mais popular do planeta“, que relata os bastidores da entidade máxima do futebol e seus escândalos de corrupção.

Foto: Sérgio Giglio

Jamil Chade. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Quarta parte

Você disse que essas entidades não pertencem à máfia porque a máfia mata, mas em algum momento nessa sua trajetória você se sentiu ameaçado ou foi de fato ameaçado, seja pela estrutura da entidade, seja por algum membro que pertence a ela?

Já, já… Isso aconteceu no Rio de Janeiro, até de uma forma bastante forte… Numa delas aconteceu o seguinte: eu estava apurando uma matéria que mostrava um certo conflito de interesses entre a família do Nuzman e alguns contratos do COI. Advogados me entregaram uma pré-notificação judicial, que é uma forma de intimidar: “Se você for adiante, pode ser processado.”. Tive isso e tive as intimidações pessoais e reais. Por exemplo: aconteceu também durante a Olimpíada de gente da Rio2016 dizer: “Se você insistir em me perguntar sobre isso em público, não falo mais com você fora do âmbito das coletivas de imprensa.”. São pessoas encarregadas de comunicação.

Também aconteceu numa outra matéria que eu publiquei sobre os Jogos Olímpicos, na qual eu mostrei os salários dos dirigentes no mesmo momento em que eles estavam pedindo ajuda pública. Pedem ajuda pública por que estão em crise, mas estão pagando em salários cinco milhões de reais… “Você vai ficar rico com isso, mas quer que o público pague no final das contas pelo teu salário também?! Então, vamos informar o público que o seu salário é tanto e depois a gente vê o que eles acham?”. Quando eu publiquei essa matéria, no meio da noite eu recebi uma mensagem no telefone… impublicável. Impublicável, mas está guardada. Tudo isso para dizer que há intimidações e etc. Durante os Jogos Olímpicos, isso ficou muito claro. Aqui na FIFA, eles têm um outro estilo, que é te expulsar. Com o Ricardo Teixeira, por exemplo, chegou um momento em que ele falou: “Jamil Chade não pode entrar em minhas coletivas.”. Nas coletivas, não era entrevista exclusiva. Então, tive essa situação também.

Agora, o que eu consegui mais ou menos navegar é pelo seguinte: eu não tenho um partido, eu não sou identificado como “amigo do Infantino” versus o Blatter, ou do Blatter contra alguém. Essa é a capacidade que a gente tem de mostrar quero ouvir. Mas junto com a intimidação vem também a chantagem e mesmo criar uma sensação com a qual você tem a impressão de que ficou “devendo” ao dirigente. O Marin tentou. Foi divertidíssimo. Ele tentou criar uma relação comigo. Antes dele, o Nuzman. Ele sentou uma vez aqui comigo, em Lausanne, e falou: “Eu sei que você vai passar aqui anos cobrindo a preparação do Brasil para os Jogos Olímpicos. Eu queria ter um bom entendimento com você: você nos consulte sempre, e a gente te dá um material exclusivo de vez em quando.”. “Fiquei pensando comigo mesmo: Acordo?! Terminou a reunião e meses depois publiquei documentos que mostravam o caos em que se encontrava a preparação.  Ele nunca mais falou no assunto.

O Marin não propôs. Ele já estabeleceu. É a diferença da burguesia para a aristocracia, da qual falamos. Ele já estabeleceu: “Você é são-paulino, e eu sou são-paulino.”. Obviamente, estamos no mesmo lado… Risível. Aconteceu coisas como ele me ligar um dia para passar uma informação dos bastidores e completar a frase com um alerta: “você está me devendo essa”. Publiquei, mas nunca deixei de investigá-lo. Qual é a percepção deles? A percepção é que eles podem te intimidar e te comprar, dando esses “prêmios”. Era um recado: “Olha, estamos juntos! Se você estiver do nosso lado, olha quanta coisa você vai ter.”. Só que eu nunca vou ter a verdade, vou ter o show, a festa. Em uma certa ocasião, Marco Polo Del Nero ofereceu a mim e a outro repórter que ele bancasse um hotel em Zurique. Isso está no livro.

Eu podia abrir mão desse caminho e dizer: “Está bem. Eu vou fingir que não vi algumas coisas.”. Eu não vou. Eu conto no livro que, em uma das concentrações da seleção brasileira, o lobby do hotel com prostitutas e gerentes de contas. Esses, eu conheço porque eles são de Genebra.

Você está falando um pouco dessa “censura”, vamos chamar assim, que vem dessas entidades, desses membros. Dos veículos de comunicação que você transita, houve em algum momento algum tipo de censura? Por exemplo: “Ah, não vamos publicar isso.” ou “Jamil, vai por outra perspectiva.”. Isso acabou aparecendo em algum momento em sua trajetória?

Eu sempre digo que tive a sorte de ter editores de esporte muito corajosos. Porque eles sofreram muita pressão. Editor que recebeu ligação do próprio Ricardo Teixeira para dizer: “Esse Jamil é maluco! Isso não existe. Vocês estão caindo na desse cara que mora na Suíça.”. Pressão muito, muito, muito grande mesmo. Eu nunca recebi nenhuma ligação, nenhum e-mail dizendo: “Não vamos dar.”. Eu posso dizer tranquilamente que só consegui fazer o trabalho porque estou num jornal, e também na ESPN casou, de ter gente corajosa e com uma linha muito clara. Por exemplo: “É notícia? Você tem prova disso? Então, vamos adiante.”. A questão que sempre me colocaram não foi: “Será que isso convém ou não?”. Mas sim o seguinte, o que eu assumi como minha obrigação: “O poder deles é tão forte que a informação tem que ser absolutamente sólida para não ter nenhuma possibilidade de te questionar.”.

Eu insisto: faz dezessete anos que escrevo sobre isso, e ninguém nunca me processou. Se tem uma brecha que você deixou, eles vão entrar nela. Eu te dou um exemplo que eu sempre uso para mostrar que eles vão em cima, porque esse negócio de fake news, de fatos alternativos, isso já existia há décadas!

Eu escrevi uma vez uma matéria, pois eu consegui uns documentos que mostravam que os estádios para a Copa do Mundo no Brasil iam ser os mais caros da história. Entre os dez estádios mais caros do mundo, seis estariam no Brasil. O segundo mais caro do mundo, depois de Wembley, é o Mané Garrincha, ou era pelo menos naquele momento da matéria. Escrevemos a matéria. Aí o comunicado de imprensa do governo do Distrito Federal mostra como você precisa estar super sólido em tudo o que você faz, pelo seguinte: “Esta matéria é mentirosa. Esse custo que eles estão citando não existe. Porque eles incluíram, para fazer esse cálculo, a grama… É, eu incluí a grama. Que eu saiba o estádio tem grama. Quando contei para o Juca, ele falou: “Não, é que eles acham que a grama é para comer.”. Ha! Ha! Ha!… Só podem estar de brincadeira! É o que eu digo: eles vão tentar achar qualquer coisa para te minar.

A confiança que você tem está baseada no fato de que eu mostro provas. Nunca aconteceu dentro do jornal uma censura. Agora, já aconteceu em outros locais. Em Barcelona, inclusive de canais e programas com credibilidade. Um deles me disse: “Olha, do Barcelona nós não vamos falar, hein?!”. Você pensa: “Puxa vida! Que poder que tem…”. Ou você dá uma entrevista, e sai tudo sobre todos os aspectos da corrupção, menos sobre aquele tema que ali é um tabu. Isso, de uma forma muito clara, eu já vivi em vários lugares. Fizeram uma entrevista gigantesca para uma televisão espanhola, num programa investigativo, sobre a corrupção no futebol. Na entrevista, uns bons 10 minutos eram sobre o Sandro Rosell, o Barcelona e o Neymar. Nunca saiu um segundo dessa parte. Eu nunca liguei para eles para perguntar sobre isso…

Eles usaram tudo menos a parte do Barcelona. Então essa censura existe e é absolutamente escancarada. Com as televisões chinesas, por exemplo – algo que eu faço até com alguma frequência –, a parte de direitos humanos, a parte de questionamento de dinheiro público, essa parte nunca entra na entrevista. Então, é curioso como cada um tem a sua sensibilidade.

Também tem entrevistas que você vê que é óbvio que o cara está tentando fazer você dizer alguma coisa que não é verdade. E você não vai dizer. Tem o caso de uma televisão russa certa vez que queria que eu fizesse uma entrevista sobre como todas as prisões da FIFA e toda a campanha contra o Blatter eram, na verdade, um complô americano contra a Copa do Mundo na Rússia. Cara, pode até ser, mas eles são corruptos… Há! Há! Há! Isso não elimina. Pode ser um complô? Pode, mas o fato existe, o fato de que o dinheiro foi desviado e de que isso aconteceu. Então, você tem os dois lados: o grupo que vai te puxar para dar uma resposta que eles querem ouvir, e o grupo que vai censurar sua fala. Agora, tudo isso depende da capacidade do jornal de se colocar.

Só para completar: muito pior do que uma eventual censura que eu sofra é o que a CBF fez por muitos anos com certos meios de comunicação no Brasil. Existia um acordo para os jogos da seleção brasileira no exterior em que a CBF bancava as passagens de alguns meios. Portanto, a CBF levava a própria imprensa dela. Como é que você quer que eles tenham independência de dizer que o Ricardo Teixeira tem que cair, ou que ele precisa ser questionado? Não vão dizer.

Por isso sempre digo: muito pior do que a censura do “não vamos falar disso” é a capacidade que a CBF e que essas instituições tiveram, de uma forma muito inteligente se você pensar, de trazer a imprensa para dentro e de que eles se sentissem “parceiros” daquele evento, daquela seleção ou daquele grupo. Essa situação é muito pior do que só aquele tipo de censura. Você tem o controle da mensagem por meio de uma coisa muito simples que é o dinheiro.

Você entende que esse modo de gerir a estrutura começa lá com o Havelange, ainda na CBD, passando pela FIFA e produzindo o Ricardo Teixeira?

Essa conexão é total. Inclusive, porque ela vem de um momento em que você tem uma ditadura no Brasil. A autoridade se dá o direito de controlar a informação que sai. Essa forma de pensar prevaleceu por muito tempo e continuou depois. O que o Havelange fez de forma inteligente? Foi trazer para dentro da FIFA o parceiro midiático. Eu insisto nisso porque isso não é que seja um pecado original, não é um pecado. Se a gente tivesse falando de política, é como se o New York Times, a CNN ou a Fox tivessem financiado a campanha de um político. Se você financia aquele político, você vai querer o retorno. O retorno é ele, e que aquele evento gere dinheiro para você mesmo. Então, é uma equação que começa complicada. Justamente porque você tem uma estrutura de pensamento de que a imprensa ou pode ser comprada ou pode ser silenciada. Já é um problemaço. Essa escola, ela continua. E a dificuldade que a CBF teve, a FIFA também. A FIFA teve alguns assessores de imprensa que não entendiam o que era liberdade de imprensa. Eram pessoas que tinham certeza de que a imprensa servia a algo ou a alguém. A quantidade de vezes que recebi a pergunta: “Quem é que está te pagando?”. “O salário do jornal.”, respondia. “Não, mas quem mais está te financiando?”… Muitos deles não têm a consciência de que a imprensa esportiva é antes de tudo imprensa, imprensa que cobre esporte.

O pessoal insiste em dizer que o Havelange foi um grande administrador, que revolucionou o futebol, que não sei que e tal. Ele fez o mínimo da obrigação que ele tinha que fazer. O mundo estava naquele momento da aceleração da globalização, das transmissões ao vivo, das multinacionais. A coisa óbvia era fazer o futebol entrar nesse sistema. “Ah, ele fez o futebol explodir.”. Sim, ele fez. Agora, só em termos de comparação, o que os americanos fizeram com os esportes americanos geraram muito mais dinheiro do que ele gerou para a FIFA. O que os americanos fizeram com o basquete só nos Estados Unidos foi muito maior do que o Havelange fez com o futebol no mundo, digo em termos de renda. O que os americanos fizeram com aquela coisa chatíssima do futebol americano foi muito maior em termos de renda do que a FIFA fez. Então, o que é que ele fez de tão espetacular? Eu sou muito crítico porque não consigo entender qual é a surpresa com a capacidade do Havelange. “Ele levou o futebol ao mundo.”. Mas ele ia ao mundo. É como se você dissesse: “Incrível o que a internet está fazendo!”. É claro. Quem não entrou na internet é quem perdeu.

Foto: Sérgio Giglio

Jamil Chade no bar em que concedeu entrevista em Genebra. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Pensando nesse sentido, olhando para o Havelange, a gente poderia dizer que ele foi um dirigente, a quem podemos questionar, inclusive por ser os dois nomes ocultos do processo que você cita, ele e o Teixeira, mas que tinha bem claro o que queria e como teria que fazer para conseguir o que queria. Eu não sei se o Teixeira tinha essa mesma dimensão.

Eu concordo absolutamente. Tem uma diferença muito grande na forma de pensar do Havelange e, eu diria, do Juan Antonio Samaranch, que também conseguia ver o que viria, e de um outro grupo, no qual eu incluo o Blatter junto com o Ricardo Teixeira, que se trata da disputa de poder pelo poder. O Samaranch, quando chega à presidência do COI, a entidade está quebrada. E esse é um pouco do discurso do Havelange quando chegou à presidência da FIFA. Tudo bem, eles transformaram essas entidades, mas, se você tivesse pegado qualquer administrador, não o Ricardo Teixeira, e colocado ali com o objetivo de transformar aquilo num produto mundial, essa pessoa teria transformado.

Eu concordo com você que uma coisa que o Ricardo Teixeira não tinha e que o Havelange tinha era a visão de longo prazo. Por que o Havelange ficou vinte e quatro anos no poder? Porque ele costurou todas as suas relações de uma forma muito global. O Ricardo Teixeira tinha uma capacidade que foi bastante importante na CBF: trazer parceiros. Isso, ele trouxe. Muitos parceiros comerciais que a CBF não tinha chegaram com o Ricardo Teixeira. Só que era sempre para uma ação imediatista, para ter sempre uma resposta local. O que o Havelange teve e que, sim, o Blatter se aproveitou disso, talvez por ter de gerenciar um futebol internacional, foi falar: “Eu preciso do apoio da Oceania. O que eu posso fazer pela Oceania?”. Então, a visão do Havelange era diferenciada. E tem a grande jogada da descolonização. Você tem fácil aí pelo menos 50 ou 60 países que estão se formando na década de 1970, que não existiam, vão aparecer no cenário internacional e são potenciais eleitores teus. “É melhor eu estabelecer uma relação com esses países, com suas federações, antes que elas se tornem contra mim.”, esse era o pensamento dele. O que o Havelange fez com a Adidas é muito inteligente: “Te mando um uniforme, você tem uma seleção, vai participar de uma Eliminatória para Copa do Mundo…”, da qual esse país nunca iria participar, mas o sonho existia. Assim, Havelange teve a gratidão daqueles cartolas com quem obviamente se criou uma relação de clientelismo, relação esta que se tem para o resto da vida. Então, você tem ainda hoje os cartolas, principalmente de países que foram criados nos anos 1970, que veem o Havelange como Deus… Angola, por exemplo, passou a fazer parte da ONU. “Não, Angola tem uma seleção nacional! Não precisava mandar seus jogadores para jogar em Portugal. Ela tinha agora a sua seleção.”. Isso é o Havelange dizendo: “Eu vou te ajudar a construir o seu próprio país, mesmo que seja na parte só simbólica.”.

Você tem essa parte, mas eu insisto: a conclusão que a própria FIFA tira dele na investigação é que ele fraudou a entidade. Ele fraudou a FIFA por interesses privados. Por mais que você tenha gerado ganhos para a entidade, eu sempre comparo com outros que poderiam ter sido. Eu ainda acho que poderia ter sido ainda maior. Por isso que eu tenho essa crítica.

Na entrevista que está publicada no Ludopédio com o próprio Havelange, em nenhum momento ele cita a questão da corrupção, obviamente. Porque a gente diria que ele entende que ele não fez nada de errado. Pegando esse gancho com outra coisa que você cita no livro, é que até o início dos anos 1990 a questão da propina era algo legal aqui na Suíça. Como que é nesse mundo dos conflitos de interesses essa questão que de alguma maneira valida o modus operandi do Havelange, por exemplo?

Primeiro, sobre a questão da propina ser legal, precisamos deixar claro: leis não nascem na árvore, foi alguém que as criam. Tem muito suíço que me questiona porque eu critico muito eles. Este aqui é um país, falo tranquilamente, de hipócritas. Ao mesmo tempo que eles compram café bio e café fair trade para ajudar o agricultor lá no Vietnã ou no Brasil, eles aceitam a existência de um banco que aceita o deposito de um político local brasileiro que tira o dinheiro que deveria estar construindo escola e hospital para aquele mesmo agricultor. A gente fala do Brasil, que o congresso isso, o congresso aquilo. Mas a Suíça tem seu papel nisso. A diferença é que, por anos, as leis permitiram por muitos anos certas práticas que hoje são inconcebíveis. Então, dizer que eles estavam agindo dentro da lei, sim eles estavam. A lei de um país que era visto pelo mundo inteiro como centro da sacanagem. “Estava dentro da lei.”. Mas estava dentro da lei de quem? Da Suíça, que foi obrigada a mudar. Por que ela foi obrigada a mudar? Porque chegou um momento, e isso aconteceu, que os Estados Unidos simplesmente disseram: “Se vocês não mudarem, os seus bancos vão desaparecer. Vão desaparecer porque nós vamos atrás de vocês.”.

Eu quero te dar um exemplo: a Agência Nacional de Regulação de Bancos, na Suíça. Você pensa: “Puxa, eles têm uma Agência Nacional que regula bancos. Isso deve ser sério.”. Quem é essa agência? É do Governo? Não, é independente. Independente? São os bancos que pagam a mensalidade para a agência reguladora e são eles que elegem o presidente da agência de regulação. Isso é “independente”? É sério?! Os suíços acreditam nisso? Faz uns quatro anos que teve uma gritaria. O UBS, um dos grandes bancos, após um escândalo na Singapura com um gerente, o afastou. Alguns anos depois, ele virou o gerente da agência reguladora. Então, a gente fala com indignação do Lobão, do Eduardo Cunha, de não sei quem lá no Brasil, mas aqui também acontece. A agência que regula os bancos é financiada, paga e controlada pelos próprios bancos.

Sim, eventualmente ela vai tomar alguma decisão. Mas por que estou falando disso? Como vocês disseram: “Para eles, eles estavam agindo dentro da lei.”. Mas qual lei? A lei de um país em que todos os filmes do James Bond, em todas as imagens do mundo, era considerado como um país de mercenário. Que a lei era feita deixando uma brecha para que isso existisse. A lei na Suíça também permitiu por muito tempo conta secreta. Hoje não pode mais, não tem como mais você ter a conta totalmente secreta. Mas, por décadas, a conta secreta existiu.

Eu encontrei o local onde está o ouro do Sérgio Cabral. É uma loja que aluga cofre. No contrato para alugar o cofre, entre as coisas que a empresa faz para tentar te atrair está: “Não perguntamos a origem do que você vai colocar.”… É risível, mas está dentro da lei. Então, dizer “eu agi dentro da lei e, portanto, está tudo bem” não vale como argumento. Essa lei é imoral! É como essa questão agora no Brasil de repatriar dinheiro de familiares de caixa dois. Se transformarem em lei, a pessoa vai dizer: “Eu agi dentro da lei.”. Sim, mas quem é que fez a lei? Para que ela foi feita? Então, o que eu questiono é que dizer “eu fiz dentro da lei” não é suficiente para mim. Por quê? Porque você pode falar que agiu dentro da lei, que recebeu comissão, ou que pagou comissão, e que isso era permitido. Sim, era permitido, mas, um, você se enriqueceu com algo que não era teu. Dois, a imoralidade disso era reconhecida no mundo inteiro. O mundo inteiro reconhecia nisso uma caixa preta.

A Suíça tem umas coisas absurdas que são tratadas aqui com a maior naturalidade. Por exemplo: evasão fiscal. Agora estão mudando, mas por que eles foram obrigados a mudar. Se você não pagou imposto no Brasil e trouxe o dinheiro para cá, os suíços aceitavam. Eu já perguntei para vários políticos e banqueiros suíços: “Como vocês aceitam na boa que um cara traga um dinheiro fruto de evasão fiscal no Brasil? Por quê?”. A resposta era: “A falta de confiança que você, brasileiro, tem com seu Estado Brasileiro não é meu problema. Se você não confia no teu Estado… Cabe a ele criar a confiança para você deixar seu dinheiro lá, ou apresentar seu dinheiro. Eu não tenho nada a ver com isso.”. Não, tem sim, porque, se você não existisse, essa relação seria outra. Se o teu banco não existisse, esse cara não teria para onde mandar o dinheiro. Falar “eu não tenho nada a ver com isso” é a mesma coisa dessa lei que falava “comissão pode”. Eu nunca fui estudar, mas gostaria de saber: Que lobby instaurou essa lei? Adoraria saber. Porque ela tem uma história, toda lei tem uma história. As leis não são divinas, ninguém te entregou os dez mandamentos e disse: “Isto aqui são as leis divinas que dizem que propina pode.”. É alguém que criou essa lei.

Vendo por essa perspectiva do processo histórico, a escolha da Suíça como sede dessas entidades passa por essa lógica que aqui isso é mais permitido do que em outros lugares?

Tem dois aspectos que eu acho que a origem não foi essa. A origem não foi: “Ali não vou precisar justificar.”. Tem duas origens que são importantes, que é a mesma explicação para a ONU estar aqui. Várias dessas entidades têm esse fluxo depois da Primeira Guerra Mundial. Algumas são depois da Segunda Guerra Mundial, mas a maioria é depois da Primeira. Temos que lembrar que não existia a África como possibilidade de centro de decisão para uma entidade esportiva, não existia a Ásia, nem a América do Sul. Os Estados Unidos eram a nova potência, mas ainda não com essa capacidade. Então, era óbvio que essas entidades estivessem todas na Europa. Ao estar na Europa, eles precisavam, de fato, de um local estável. Isso não é uma ficção, é uma realidade. A ONU precisava de um local estável. A Liga das Nações, antes da ONU, também precisou. Aí trouxeram justamente para a Suíça.

A Suíça, por outro lado, viu isso como uma oportunidade. Uma oportunidade de atrair a administração do esporte mundial e gerar emprego. E, sim, de alguma forma, gerar imposto. Mesmo que a entidade não pague imposto, todos os salários que elas pagam geram um movimento importante. Foi feito um estudo no congresso suíço mostrando que a presença de mais de cem entidades esportivas internacionais aqui é importante para a economia local.

Ao mesmo tempo, você tem a neutralidade política, a ausência de guerra, a pull fator, o retorno. Agora, o que você também teve foi a capacidade de criar um sistema em que você podia basicamente se esconder. A gente fala da Conmebol em que não podia entrar polícia, a mesma coisa acontecia até há pouco tempo com a FIFA. A polícia não podia entrar na FIFA. Foi uma surpresa aqui quando os franceses descobriram que, na Eurocopa de 2016, a UEFA não ia pagar imposto. Se eles perguntassem para a gente, nós já teríamos dito isso a eles. Eu não acho que foi o fator determinante, mas acabou sendo utilizado por todo mundo.

O Blatter me disse uma coisa que achei espetacular e que é muito real. Uma vez a cada três, quatro meses, todos os presidentes de grandes federações ou confederações, do vôlei, do basquete etc., se reuniam aqui, porque todos estavam aqui. E ele brincava dizendo que todos eles viravam para ele e diziam: “Obrigado por atrair toda a atenção da imprensa para você.”… Entende? Quem que controla a federação de basquete? A Fiba. Teve o caso do Acosta que, por uma baita corrupção, caiu. Mas é o vôlei. E os outros? E a natação, a canoagem, o arco e flecha, a ginástica? Estão todos aqui, mas quem olha para esses dirigentes? Não tem ninguém olhando para eles! A gente está olhando para o futebol porque é o futebol. A gente olha para o COI porque é o COI. Mas o resto?

A minha percepção, e lá na ESPN já mostraram isso em relação ao Brasil, é que a corrupção não é exclusividade do futebol. É uma situação que foi montada, que a lei permitiu em um país em que se tem, ao mesmo tempo, o banco que escondia, a autoridade que fazia que não via, e a existência de um setor da sociedade, o esporte, dizendo: “Precisamos ter nossa autonomia! Nós temos nossos próprios tribunais! Nós temos nossas próprias regras!”. Que história é essa! Como assim tem seu próprio tribunal?! “Não aceitamos ingerência política em nossa própria entidade!”. Claro que não aceita! Porque, se tiver ingerência da política, vai ter ingerência da polícia também, porque ela vai querer saber das contas. Falar: “Em termos políticos, é muito importante que sejamos neutros.”. É verdade, mas isso quer dizer falta de controle também.

Confira a quinta parte da entrevista na próxima semana!