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Jamil Chade (parte 5)

Equipe Ludopédio, Marcel Diego Tonini

O jornalista Jamil Chade é correspondente do jornal O Estado de S. Paulo na Europa e colunista da Radio Estadão. Suas reportagens sobre os bastidores do esporte mundial renderam ao repórter diversos prêmios, além de participações na CNN, BBC, canais espanhóis, canadenses, suíços e de diversos países. Em 2011 e em 2013, Chade foi premiado como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se. Em 2015 publicou o livro “Política, Propina e Futebol: Como o ‘Padrão Fifa’ ameaça o esporte mais popular do planeta“, que relata os bastidores da entidade máxima do futebol e seus escândalos de corrupção.

Jamil Chade na arquibancada do Pacaembu. Foto: Eqiupe NAV.

Quinta parte

Nós queríamos conversar sobre o papel dos jogadores na estrutura do futebol. Você acredita que existe espaço na estrutura do futebol para os jogadores terem uma voz mais ativa dentro de todo o processo?

Essa é uma questão importante porque, com uma frequência muito grande, vemos jogador dizendo que o papel dele é só entrar em campo, é só esportivo, é só ganhar jogo. Não é verdade porque o papel dele, por exemplo, é vender também a marca que o patrocina. Então, não venha me dizer que o papel dele é só jogar futebol porque ele mesmo não está cumprindo só isso. Se ele pode ser um produto de marketing, por que ele não pode ser um produto de influência social, política e ter um impacto que vá além do gol que ele faz? É muito cômodo para a maioria dos jogadores dizer isso porque, de fato, existe um constrangimento. Aquele negócio de que o segredo do vestiário não sai do vestiário, esse mesmo princípio existe obviamente numa esfera mais ampla que é a própria gestão do futebol.

Dito isso, a gente não pode imaginar que, por ser jogador, você vai ser alguém que vá fazer um tratamento diferenciado. Vou te dar um exemplo: Michel Platini. Ele era uma pessoa nos anos 1980 com uma projeção muito grande, provavelmente naquele momento um dos principais astros do mundo. E ele faz um caminho em busca da direção do futebol levando consigo um pouco essa esperança de que ele era um grande jogador e, portanto, iria defender o futebol acima de tudo. O que a gente viu depois disso foi, na verdade, que não há uma questão automática entre ser um grande jogador e passar a ser um dirigente esportivo que vá levar o futebol como sua prioridade. Ele é o exemplo claro de que outros interesses, sim, podem prevalecer mesmo entre um grande jogador que, de fato, teve um papel.

Então, existe o espaço? Eu acredito que não. Outro exemplo também dessa falta de espaço foi o que aconteceu com o Zico na própria eleição da FIFA. O Zico precisava não de cinco votos, era muito menos do que isso, mas de cinco apoios institucionais para lançar a candidatura dele. Cinco dentre 209 federações esportivas. Você pensa: “Moleza!”. Ele não conseguiu cinco apoios para se lançar como candidato. Não é que ele não conseguiu cinco votos. Então, de fato, existe uma barreira muito clara que não é ao jogador, mas a qualquer um que possa questionar o sistema. Platini nunca questionou o sistema, e a porta dele esteve sempre aberta. Ela só foi fechada quando a circunstância mudou de uma forma muito mais radical. A questão não é, a meu ver, se existe espaço para o jogador ou não, é se existe o espaço para alguém questionar. O Zico é um ex-jogador que estava pronto para questionar. Platini, um ex-jogador da mesma época do Zico, que teve todo o espaço dado porque fazia parte ou manteria o sistema vigente.

Pensando na configuração do jogador atual, de seleção brasileira ou mesmo de um grande clube do Brasil. Recentemente, houve um posicionamento por parte tanto do Felipe Melo quanto do Jadson em relação às questões políticas, quando declararam apoio ao Bolsonaro. Não houve ninguém, no entanto, falando sobre a reforma da previdência, por exemplo, que vai ser o caos. Então, apoia-se um determinado grupo e não se questiona nada da estrutura, só se reproduz isso. Toda essa lógica tem a ver com aquele “valor de marketing”, do qual você fala em seu livro Futebol, propina e futebol (Objetiva, 2015) ao trazer os contratos da seleção brasileira, e que se reproduz em outras instâncias dentro dos próprios clubes na relação com os empresários? Como a gente pode combinar essa questão com o fato de os jogadores terem medo de se posicionar, a maioria deles pelo menos, porque isso pode comprometer a própria carreira?

Essa questão do jogador atual, obviamente, tem uma relação direta com a carreira dele, com a rentabilidade dele e com a chance que ele tem no time ou na seleção brasileira. Para dizer na forma mais leve possível, esses jogadores precisam entender que eles estão sendo manipulados. Eles estão sendo manipulados por aquele mesmo grupo que manipula os torcedores, que são os dirigentes, quem manda no futebol. A diferença do torcedor para o jogador é que o jogador vai jogar justamente com essa manipulação para ganhar espaço, ou não, internamente, seja no clube, seja na seleção, não sendo um jogador problemático. Nenhuma federação, nenhum clube quer um jogador que vá colocar as coisas muito claramente. Quer dizer, aquela situação em que um jogador vá falar de política, da previdência, da reforma… não sei se ela convém ao grupo. De uma certa forma, isso constrange o jogador, que por si só já teria uma situação em que ele pensaria duas vezes. Em qualquer empresa, você pensaria duas vezes antes de questionar a própria empresa. É muito mais uma situação em que, de alguma forma, você é dependente dela.

Agora, o que eu acho é que esses jogadores que se apresentam e que o mundo os apresenta como modelos para a sociedade, pessoas que as crianças vão olhar e se inspirar, que os jovens vão querer saber o que eles estão fazendo, eles têm uma responsabilidade extra. E essa responsabilidade extra é não ficar calado. Não ficar calado pode ser muito prejudicial num primeiro momento. Agora, se de alguma forma houvesse um grupo que pudesse de uma forma conjunta questionar coisas, dificilmente eles poderiam ser retirados do time, punidos de alguma forma. Mas para isso eles precisariam ter algum tipo de organização.

O Bom Senso foi uma tentativa. Eu acredito que eles tiveram algum sucesso, não pelo que eles atingiram, porque eles não atingiram quase nada, mas por ter conseguido questionar. Eu insisto: às vezes não é o resultado final que importa, é o processo. Eu falo da CPI na primeira parte da entrevista, que foi o processo que talvez tenha algum impacto. O Bom Senso talvez não tenha gerado o que as pessoas esperavam, foi dissolvido, acabou sem nenhum resultado concreto, mas obrigou na época a presidente Dilma Rousseff a recebê-los, e obrigou algum dirigente a pensar que ali tinha algum problema que tinha de alguma forma que ser equacionado. Talvez poderia ter sido mais forte se outros tivessem aderido. Eu fiz esta pergunta a vários outros jogadores: “Por que não aderir ao Bom Senso?”. A resposta em off era sempre a mesma: “Ah, mas isso é muito complicado internamente no clube.”. Então, você vê que tem uma situação em que ele é colocado em um constrangimento complicado. Tudo bem, você pode entender. Agora, o que eu não posso entender é a resposta que o jogador diz: “Eu não tenho essa função.”.

Eu te dou um exemplo que achei bem interessante que aconteceu. Em um dos lançamentos do meu livro, em Porto Alegre, quem foi ao lançamento foi o Dida, o goleiro, como plateia, não como convidado. Depois fui perguntar a ele: “Por quê?”. “Porque eu queria entender o que é que falta para a gente dar um passo a mais.”. Então, não é que eles não tenham a consciência ou que estão alheios a tudo isso. Tem uma estrutura muito forte montada que impede algum tipo de reação maior. Essa reação maior só vai ser feita quando, por exemplo, todos se sentarem no gramado ao mesmo tempo. Não adianta um só se sentar no gramado. Não adianta um só dizer para o juiz: “Olha, não foi minha falta, não.”, como aconteceu com o Rodrigo Caio, do São Paulo, no lance com o Jô, do Corinthians. Ele praticamente foi punido com o gesto que ele fez. Isso foi um gesto dentro de campo, imagine só se você, por exemplo, e eu não estou fazendo juízo de valor, falar: “O impeachment da Dilma não foi algo legal.”. Ou de outro lado: “Corruptos precisam ser punidos.”. Não estou aqui tomando uma posição de um lado ou de outro. Apenas estou tentando imaginar como seria a reação dos outros jogadores diante de um certo posicionamento político? Agora, não dá para o jogador vir com a resposta: “Não, minha função é só entrar em campo.”. Se ela é só entrar em campo, então abandone todas as campanhas de publicidade que você faz, porque ali também não tem nada a ver com o campo.

Vamos pensar na estrutura maior que você fala a partir dessa resposta e voltar a discussão para os amistosos da seleção, os quais vão gerar toda a discussão dessa corrupção e da relação com os próprios jogadores, o tal “valor de marketing”. Na primeira parte, nós falamos de como o Havelange planejou chegar aonde ele chegou. Dentro dessa lógica, foi tudo planejado no sentido de o Brasil ser sede da Copa do Mundo de 2014 e, ao ser sede, não jogar Eliminatórias, logo fazer amistosos durante muito tempo? Essa era a “moeda de troca” da escolha? Estava tudo combinado previamente? Havia esse planejamento em sua opinião?

É difícil saber se existia esse planejamento, mas o que pode ser dito com muita clareza é que esse espaço da falta de Eliminatórias para o Brasil não foi ocupado com planejamento esportivo. Ele foi ocupado por um planejamento de marketing. Esse planejamento de marketing é o contrato que mostra de uma forma muito clara que a seleção iria realizar tantas partidas por ano. Elas teriam um objetivo comercial. Agora, você imagine: mais de uma dezena partidas por ano durante quatro anos dá para montar uma seleção, dá para você pensar em uma seleção dali a quatro anos. Mas essas tantas partidas a cada ano não foram pensadas para isso. Os contratos mostram.

E não são só os contratos que mostram! Eu ia aos jogos durante os quatro anos, e muitos deles eram disputados na Europa, o que já levanta a questão: Por que se joga Brasil e Argentina em Londres? Por que se joga Brasil e Japão na Polônia?. Se não estavam jogando nem no Japão, nem no Brasil, deve ter um outro motivo. Mas havia partidas que iam além, que exigiam um esforço de organização, que não faziam nenhum sentido. Eu te dou um exemplo: Brasil e Estônia, na Estônia, para 5 mil pessoas… Eu me pergunto: Por que ir até lá e fazer um jogo desse? Não me diga que era um planejamento esportivo para testar diante de um certo confronto. Não, não era. Então, dizer que foi algo planejado, eu acho que não posso dar esse passo, mas certamente os quatro anos não foram utilizados da forma esportiva. Eles foram utilizados para render, e eles renderam muito.

Eu te dou um outro exemplo, que talvez possa indicar o que vai ser o caminho a partir de agora, não só para a seleção brasileira. Existe uma tentativa, muito clara, das seleções europeias para acabar com os amistosos. Isso provavelmente vai acabar. Os europeus estão organizando a Copa da Europa, que basicamente é um torneio que vai ocupar todas as datas FIFA entre seleções da Europa. Então, você vai criar um torneio para encher aquelas datas. Se você está criando um torneio europeu para preencher aquelas datas, onde que o Brasil vai entrar nisso? Então, você já não vai ter as seleções europeias para enfrentar com muita facilidade. Vai haver uma restrição sobre isso, não por conta do interesse das federações, mas dos clubes europeus, que obviamente olham para tudo aquilo e falam: “Espera um pouquinho! É sério mesmo que vou liberar dez dos meus jogadores para várias seleções, como é o caso do Bayern de Munique, do Real Madrid, do Barcelona, que vão jogar contra Hong Kong, Macau, Andorra, Estônia? Não, né!?”. Obviamente, não há um argumento esportivo que legitime isso.

Ao mesmo tempo, você tem do lado das federações o argumento muito legitimo: “A seleção ainda é a base do futebol mundial.”. Sim, o clube é muito importante, mas se você destruir a seleção nacional em si… É uma realidade muito diferente do baseball, do basquete americano. Você tem uma realidade em que a seleção ainda é a referência. Você não pode destruir isso. Agora, se você for manter um sistema em que um amistoso é o objetivo, e esse amistoso não é um amistoso de teste, é um amistoso marqueteiro, aí você está destruindo ao mesmo tempo. Por muito tempo, essas partidas eram chamadas “Brazil World Tour”. Calma aí: é o Rolling Stones que estou indo ver ou é a seleção brasileira? E se for a seleção brasileira, o que isso tem a ver com world tour? World tour para quem? Eles são os Globetrotters que estão fazendo malabarismo em campo para render dinheiro para alguém? Porque isso é a sensação no fim das contas. Sempre que me falam que jogador de futebol tem um salário absurdo, eu digo: Sim, ele tem um salário absurdo, mas o que ele gera para outras pessoas é muito mais absurdo. Então, não é questionar o salário do jogador, é questionar a estrutura. E a estrutura deixa muito claro que quem está ganhando, sim eles ganham muito bem, mas quem está ganhando muito mais é quem explora esses atores. Eles podem ser do Globetrotters, eles podem ser de um show, e naquele momento foi da seleção brasileira.

Jamil Chade e o estádio do Pacaembu. Foto: Eqiupe NAV.

Você está falando de jogadores de grandes seleções mundiais, como Brasil e Argentina, cujos clubes europeus relutam em liberá-los para fazer esses amistosos que tem mais valor de marketing do que esportivo. Como pensar essa questão com jogadores estrangeiros que são de seleções de menor expressão, como Togo, Bolívia, Japão, inclusive pelo fato de eles terem vontade de jogar com a camisa de sua seleção nacional, mesmo que sejam partidas amistosas, e que tenham de se deslocar da Europa para seu continente de origem?

Esse talvez seja um desafio bem importante, porque, na verdade, ele toca num aspecto que é a imensa diferença de renda e de estrutura que existe no futebol mundial. Só para ter uma ideia, das 209 federações da FIFA, 110 têm uma renda inferior a dois milhões de dólares por ano. Dois milhões de dólares é um jogo e meio da seleção brasileira. Então, você vê que tem uma disparidade no futebol mundial absurda. Não é por acaso que só oito seleções ganharam a Copa do Mundo em mais de cem anos. Há ainda uma disparidade muito grande. Então, a pergunta é boa porque, em outras palavras, questiona: Como desenvolver um futebol que lá na periferia seja tão rentável, ou pelo menos sustente, aquele jogador que sonha em jogar contra a Alemanha e quer, na verdade, circular? “Infelizmente”, vamos dizer assim, ele nasceu no Togo e, portanto, ele joga pela seleção togolesa e vive uma realidade complicada. Eu me lembro sempre do George Weah, da Libéria, que é um baita de um craque, mas que jogava numa seleção em que ele literalmente era o único jogador; o resto não dava para chamar nem de jogador. O que fazer numa situação dessas? Aquilo ali era um caso único.

O desenvolvimento do futebol mundial, quando você fala em expandir a Copa do Mundo para 48 seleções, de alguma forma lida com isso. Eu acho que lida de uma forma totalmente errada, mas ele lida com isso no seguinte sentido: “Nós vamos chegar a vocês. Essa esperança, esse sonho de chegar a uma Copa do Mundo vai chegar ao Togo, à Venezuela, à Guiana etc.”. Mas ele não resolve com essa questão do que fazer entre um torneio e outro. Investir nesses países ou em regiões inteiras é uma solução, criando competições regionais que podem ter algum tipo de repercussão. Agora, a disparidade econômica entre o que existe na Europa e o que hoje existe na África… E eu diria que não precisa nem ir para a África. Durante os anos 1960-1970, havia clubes europeus que tinham a capacidade de chegar à final da Champions League, sendo que hoje é absolutamente inimaginável que um time de Bucareste chegue às quartas de final de uma Champions League. Não estamos falando nem de uma final, muito menos de conquistar o título. Pensar que o Porto poderia conquistar a Champions League de hoje é fora de questão.

A disparidade, então, eu não acho que está sendo resolvida. Ela está sendo, na verdade, aprofundada. A renda cada vez mais está concentrada num grupo pequeno de países. O que fazer com os outros? É uma questão que a FIFA e as seleções vão ter de tratar. A disparidade é importante porque pode criar, se não for tratada, uma situação que já começa aparecer de uma forma clara, que é a utilização dessas seleções para outros fins, não os mesmos fins da seleção brasileira, portanto, de marketing, mas o fim até criminoso, de apostas, manipulação de resultados. Então, já teve vários casos em que um jogo entre seleções é organizado pelos próprios manipuladores de resultados para que apostas na Ásia legitimassem aquele jogo. Aí é muito pior do que a situação da seleção brasileira porque você não está falando só de uma transformação de marketing da seleção, mas de uma utilização da seleção nacional para o crime organizado. Isso aconteceu, investigações estão sendo feitas e elas mostram que isso já está acontecendo. Quando você coloca duas seleções inexpressivas…

Aconteceu um caso que foi, talvez, o mais marcante. Se não me engano, era Serra Leoa. Se quer os jogadores eram da seleção. A federação foi contratada, mas não comunicou os jogadores da própria seleção. Um outro grupo de jogadores foi formado e levado para esse jogo. O jogo aconteceu para garantir certo resultado que os apostadores fizeram na Ásia, e aí gerou a lavagem de dinheiro para o grupo criminoso. Esse é o risco de ter uma disparidade e datas FIFA disponíveis. O que fazer com isso? Essa é uma questão que precisa ser resolvida.

Confira a sexta parte na próxima semana!