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Jamil Chade

Equipe Ludopédio

O jornalista Jamil Chade é correspondente do jornal O Estado de S. Paulo na Europa e colunista da Radio Estadão. Suas reportagens sobre os bastidores do esporte mundial renderam ao repórter diversos prêmios, além de participações na CNN, BBC, canais espanhóis, canadenses, suíços e de diversos países. Em 2011 e em 2013, Chade foi premiado como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se. Em 2015 publicou o livro “Política, Propina e Futebol: Como o ‘Padrão Fifa’ ameaça o esporte mais popular do planeta“, que relata os bastidores da entidade máxima do futebol e seus escândalos de corrupção.

Foto: Sérgio Giglio

Jamil Chade. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Primeira parte

Em sua infância, você gostava mais de jogar ou assistir futebol? Você queria ser jogador de futebol? Como foi sua relação com o futebol e com o esporte como um todo?

A relação com o esporte era a relação com o futebol, basicamente. Eu acho que gostava mais de jogar do que de assistir. Acredito que momento do teu time também determina ou não o quanto você acompanha o jogo. Como são-paulino na década de 1990, obviamente acabava sendo algo muito fácil torcer. Todos aqueles refrões de que o São Paulo era uma potência etc., isso obviamente afetava a gente como torcedor de uma forma muito clara. Frequentar o estádio era semanal. E começou muito cedo, ajudado muito ainda pelo fato de que um tio meu ter cadeira cativa no Morumbi. Cativa e estacionamento. Eu sempre dizia que estacionamento era muito melhor do que a cadeira cativa, porque você tinha a capacidade de chegar até dentro do estádio, uma facilidade total. Na prática, o que isso gerava era uma frequentação elevada desde pequeno e um sentimento de fazer parte de uma paixão. Então, o ato de frequentar estádio e jogar bola fizeram parte de minha infância e adolescência. Mas o importante é que isso eu acho que influenciou muito na decepção que eu senti quando descobri o que era que eu estava assistindo.

Quando isso se dá?

Aqui na Suíça… Quando eu comecei a ir para a FIFA, pensava que ia escrever sobre futebol. Essa descoberta foi um processo lento. Por mais que te digam: “A FIFA é uma entidade política, só tem corrupto.”, você ainda acha que o centro da discussão vai ser futebol. A primeira vez que fui fazer uma cobertura na FIFA foi em 2001. Agora já faz muito tempo e digo que o futebol não está no centro da discussão aqui. Mas naquele primeiro momento, quando vim para a Suíça, me lembro de pensar e sentir: “Não, no final das contas, é o torcedor que importa, o time que importa, é o futebol que importa. Isso tudo faz parte de uma discussão para o bem futebol.”. O que eu fui descobrindo ao longo dos anos, principalmente depois que o Brasil passou a ser candidato a sediar a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, é que toda a discussão, todos os critérios, todo o arcabouço da cabeça dos dirigentes não está no futebol. Claro, tem o futebol ali, mas a prioridade não é pensar o que vai ser melhor para o futebol, para o torcedor, para os clubes. Esse pensamento, temos nós torcedores, jornalistas. Eles têm um outro pensamento, que para mim ficou muito claro ao longo dos últimos quinze anos. Sim, o futebol está ali presente. Agora, o argumento para a tomada de decisões é outro.

Uma das coisas mais claras disso é o relatório que a FIFA fez internamente para discutir se ampliava a Copa do Mundo para 48 seleções. Esse relatório tem 60 páginas, em que os próprios funcionários da FIFA, os técnicos de economia, de direito, de marketing, de transmissão de televisão e de desenvolvimento do futebol, todos eles tiram a mesma conclusão: “48 seleções não é a melhor solução”. E a decisão foi expandir para 48. Então, se os próprios técnicos da entidade dizem que aquilo não é bom, e a decisão política é pela expansão, é por que o centro da discussão não é futebol.

Outro exemplo, que eu acho que cito em meu livro, Política, propina e futebol (Rio de Janeiro: Objetiva, 2015): um contrato para a venda de ingressos para a Copa do Mundo de 2018, a ser disputada na Rússia. Tem duas empresas concorrendo. Uma empresa tem 120 mil empregados. A avaliação técnica que a FIFA faz dela é que se trata de uma organização sólida financeiramente, multinacional, com experiência no mercado russo e com capacidade de gerar muito lucro para a FIFA. Esta é a empresa A. A empresa B é familiar, tem 20 funcionários e zero experiência no mercado russo. Isso está escrito, não é que alguém ouviu dizer e me falou. Isso está dito na avaliação técnica que a FIFA fez. E qual foi a decisão que a FIFA tomou entre as duas empresas a ficar com o contrato? A empresa com 20 funcionários. É claro que você pensa: “Quem é o dono dela?”. Um dos acionistas dessa empresa é sobrinho do Blatter. Então, o critério por uma empresa multinacional ou uma licitação pública de que a melhor candidatura ganha não vale.

Por isso que eu digo: um dos aspectos interessantes de ter ficado por aqui tanto tempo é que, de alguma forma, eu descobri que, como torcedor, eu estava sendo enganado. Como torcedor, eu estava financiando um desvio de dinheiro. Como torcedor, eu estava financiando um enriquecimento ilícito de algumas pessoas. Então, como torcedor, é muito frustrante. Deparei-me: “Calma aí! E toda aquela emoção que eu tinha…”. Que é legítima. A emoção do torcedor, ninguém o ensinou a torcer, praticamente é uma coisa que você vai ao estádio e se expõe. Tudo bem, tenho certeza de que a relação de pai para filho é absolutamente fundamental e etc., mas torcer é quase uma emoção que você gera naturalmente. E você descobrir que essa emoção foi sequestrada, que alguém fez uma delimitação e agora explora a sua emoção, isso é de uma… crueldade muito grande. Porque o torcedor, fanático ou não, na maioria das vezes ele não sabe que está financiando tudo isso.

E aí tem uma outra parte dessa história, que para mim também é muito chocante. Mesmo aqueles que dizem: “Eu não gosto de futebol e, portanto, eu não assisto.”, eles também estão financiando esse pessoal. Porque esse pessoal tem isenção fiscal, recebem ajuda pública. Então, você tem sim o financiamento por aqueles que dizem “Eu não assisto futebol porque isso aí é tudo corrupção!”. Desculpa-me, você está financiando isso tudo. E, de outro lado, você tem também os que são fanáticos ou os torcedores comuns que também financiam isso. Então, essa é a relação.

Acho que isso tudo pesou muito por uma atitude que eu tenho de permanentemente questionar. Muitas vezes, eu recebo de leitores do meu livro a seguinte fala: “Olha, eu gostei muito e tal, mas posso continuar torcendo?”. Claro que pode! Eu também torço, não é isso. Mas, quando você torcer, saiba o que vai ocorrer quando você comprar um ingresso e tal impacto vai acontecer. Você vai comprar uma camisa e isso vai acontecer. Se você defender algo, saiba qual o impacto disso lá dentro. Então, é torcer, mas de uma forma consciente. Por isso que eu acho muito importante o envolvimento da acadêmica nessa história, porque reforça a tese de que o esporte não é autônomo e existe no vácuo. Ele existe dentro de uma sociedade, essa sociedade ou política ou ideológica ou do que for, dos trabalhadores, do movimento gay. Ela existe dentro de um contexto, e esse contexto faz com que o esporte seja totalmente político. Não existe uma fronteira entre esses dois mundos.

Foto: Sérgio Giglio

A primeira parte da entrevista aconteceu em um bar em Genebra. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Antes de avançarmos nessas questões, queríamos entender como o jornalismo entrou em sua vida e como a sua vida em algum momento foi transferida para a Suíça? Como foi esse processo?

Eu nunca pensei em ser jornalista. Não é que eu não tinha interesse, mas não tinha feito parte das opções. Eu fazia Relações Internacionais, em São Paulo, na PUC, e achava que precisava escrever melhor. Literalmente, foi assim. E alguém me disse que uma das opções eram os cursos de Focas que alguns jornais tinham, que isso poderia dar algum tipo de impulso, até em técnicas para escrever etc. Eu me lembro de ter encontrado algum cartaz da Gazeta Mercantil que tinha um curso de Focas. Eu me inscrevi e passei. E aconteceu o que acontece com muito jornalista: você é picado pelo mosquitinho e é impressionante a adrenalina, a capacidade do jornalismo de ser interessante. Aí basicamente todos os outros planos que eu tinha foram colocados de lado. Falei: “Vou testar o que é isso aqui.”.

A Gazeta Mercantil tinha aberto, depois do curso de Focas, uma vaga em Brasília. Então, me mudei para Brasília para cobrir política. Eu cobria o Congresso Nacional, não tinha nenhuma relação com futebol. A Gazeta Mercantil era um jornal econômico cobrindo política, em que futebol não existia, não passava. Foram três anos em Brasília. Era muito real. Acho que foi a melhor escola de jornalismo, porque as coisas aconteciam, como hoje, diante dos teus olhos, não é alguém que te contou, não. Você descobrir o que é o Congresso brasileiro, como paulistano que passou anos achando que os limites da cidade definem o mundo, você desembarcar em Brasília, ver o Brasil inteiro e justamente dentro do Congresso, isso é espetacular como aprendizado, com abertura de cabeça. Entender as dinâmicas políticas foi espetacular. Foram três anos, em minha visão, superdecisivos.

Aí o que aconteceu era que eu queria fazer mestrado. Queria fazer mestrado, mas não queria mais largar o jornalismo. Então, tentei encontrar uma forma de fazer os dois se aproximarem. O que pensei foi encontrar um mestrado numa cidade onde tivesse muito interesse jornalístico. Eu achei que Genebra tinha essa capacidade, porque tem a OMC, a ONU e toda a questão dos bancos. Não fazia parte dos meus planos nem a FIFA, nem o COI, nem a UEFA. Isso não existia, não estava no debate… Eu propus para o Estadão a ideia de fazer um freelancer: “Eu vou. Se rolar, se tiver material suficiente, eu vou mandando.”. Eles toparam obviamente pensando: “Bom, vamos ver o que vai acontecer.”. Logo que cheguei, começou o conflito comercial Brasil e Canadá por causa da Bombardier e da Embraer. Isso foi algo que me consumiu os dois primeiros anos, numa uma rotina que se limitava à cobertura econômica e política.

A primeira vez que eu cobri algo relacionado com futebol não foi pelo futebol, foi, mais uma vez, pela política. A CPI da Nike mandou um grupo de parlamentares para falar com o Blatter, achando que ele poderia ajudar. Eu me lembro de ir para Zurique, à velha sede da FIFA, para falar com eles e ver o que foi discutido nessa reunião. Achei muito impressionante a situação, porque eu estava com o Blatter esperando os deputados chegarem. Estávamos literalmente eu, o Blatter e o Ricardo Teixeira. E o Blatter estava dizendo para as pessoas presentes: “Esses políticos querem me usar para fazer plataforma política para eles.”. O Ricardo Teixeira, naquela época, era muito ligado com o Blatter. Então, tratava-se da CPI da Nike, que era um esforço contra o Ricardo Teixeira. Os deputados chegaram achando que iam falar com uma entidade que poderia ajudar, e essa entidade, do outro lado, tirando um sarro deles. Basicamente, era essa a situação, tanto que nunca aconteceu nada. A reunião aconteceu. Mas nada jamais foi feito. Um dos deputados era o Aldo Rebelo. Ele e os demais deputados foram embora achando que tinham conseguido alguma coisa, criar uma consciência na FIFA de que ela poderia ajudar. Imagina! Não aconteceu absolutamente nada! Até hoje, quando eu encontro o Aldo, ele também me fala a mesma coisa: “Que picaretagem que foi aquilo!”. Ele mesmo diz isso, porque sabe que foram enganados.

Foi a partir desse momento que desenvolvemos uma cobertura com o objetivo de mesmo de entender o que era a FIFA. Não era para repetir o trabalho da imprensa que, com contratos com a entidade, apenas davam informações sobre as decisões já tomadas. Quem faz isso são aqueles que pagam os direitos para transmitir as Copas do Mundo, que têm esse compromisso, são parceiros da FIFA. Eu me refiro às televisões do mundo inteiro. A nossa opção, para fazer alguma coisa diferente, é mostrar o que é a FIFA, o que tem por trás da entidade e o jogo político que leva a uma decisão. Aí as coisas se juntaram. De uma cobertura política-econômica, eu comecei a passar para uma cobertura, não digo esportiva, mas da política do esporte. Se eu fosse editor, não me mandava para cobrir jogo, porque não é o que sei fazer.

Confira a segunda parte da entrevista no dia 16 de junho!