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João Paulo Medina

Equipe Ludopédio

João Paulo Medina é um multiprofissional. Mestre em Educação e doutorando em Educação Física (FEF/Unicamp), foi professor da Unicamp e PUC-Campinas. Foi preparador físico e participou ativamente da estruturação e organização dos departamentos de futebol de diversos clubes brasileiros. No início da década de 90, foi assistente técnico da Seleção Brasileira de futebol e responsável pela preparação física e coordenação de planejamento da seleção da Arábia Saudita. É o idealizador e criador da Universidade do Futebol, um dos principais sites brasileiros dedicados ao universo futebolístico.

Foto: Sérgio Giglio

João Paulo Medina. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Primeira parte

Medina, qual foi seu primeiro contato com o futebol?

Meu primeiro contato com o futebol foi ainda criança, jogando na rua. Gostava muito de jogar, sempre gostei. Tem um período em que você, como tantas outras crianças, quer ser um jogador de futebol. Eu me tornei um profissional do futebol muito pelo meu jogo. Existia um treinador em São José do Rio Preto, o João Avelino, que comandou algumas equipes do interior paulista e outras equipes brasileiras e gostava de observar o futebol amador da região. Ele me acompanhava e achava que eu tinha condições de ser um jogador profissional, um meia-armador, mas me achava franzino, muito fraquinho e que eu precisava ficar mais forte. Eu realmente tinha uma boa técnica, jogava bem na posição de meia-esquerda e articulava bem as jogadas de ataque, diferente do meia-direita que jogava mais junto do centroavante. Daí veio a minha inspiração em querer ser um jogador de futebol.

Depois de um tempo me mudei de Rio Preto para Campinas; em dezembro de 1969 o João Avelino encontrou-se com meu pai, que também assistia aos jogos, e perguntou: “- Seu filho está jogando na Ponte Preta, no Guarani?”. “- Ah, o meu filho acabou de se formar em Educação Física”. Na época, o João Avelino tinha acabado de assinar um contrato com a Portuguesa de Desportos para ser treinador. Ele tinha brigado com o preparador físico do clube, que era um militar e disse ao meu pai: “Então, pede para o seu filho, o João Paulo, me ligar, pois quero falar com ele.”. Eu liguei e ele pediu para ir a São Paulo conversar com os diretores da Portuguesa.

Foi engraçado. Eu tinha acabado de me formar e os diretores me perguntaram onde eu tinha jogado e trabalhado no futebol. Falei: “Não joguei em time nenhum e não trabalhei em time nenhum. Acabei de me formar”. Eles ficaram um pouco assustados, mas o João Avelino era muito firme naquilo que ele queria e tinha uma grande experiência. Os dois diretores de futebol eram também bem jovens e inexperientes e talvez por isso acabaram fazendo um contrato experimental comigo de três meses para ser o preparador físico da equipe principal da Portuguesa. O Marinho Peres, que jogou na seleção, era o capitão do time. Havia também vários outros jogadores famosos na época, entre eles o Enéas, que se tornou um ídolo. Eu fiz esses três meses experimentais e acredito que me saí bem. Portanto, passei direto da escola, sem experiência nenhuma, para o mundo do futebol profissional. Foi assim a minha porta de entrada. Eu me formei em dezembro de 1969 e comecei a trabalhar em janeiro de 1970 na equipe principal da Portuguesa de Desportos. Tive muita sorte!

 

Depois teve um momento em que você veio para a UNICAMP

Antes da UNICAMP lecionei durante treze anos na Faculdade de Educação Física da PUC de Campinas. Eu me formei na primeira turma da PUC-Campinas, inclusive junto com alguns colegas de classe que vieram a se tornar meus colegas professores na Faculdade de Educação Física da UNICAMP, como o João Tojal, Ademir Gebara, Milton Arrivabene, Valdir Ribeiro entre outros. Eu trabalhava durante toda a semana no clube de futebol e às segundas-feiras dava aulas na PUC-Campinas. Em alguns períodos eu pedi licença para ir ao exterior trabalhar. Pedia licença não remunerada, mas quando voltava ao Brasil, fazia questão de trabalhar na universidade. Era um sacrifício, pois durante muito tempo eu não tive um dia de folga na semana. Era muito puxado, mas foi enriquecedor, porque convivi com um pé no campo e um pé na universidade durante muito tempo. O interessante era que recebia críticas dos dois lados (risos): no campo eu era muito teórico, na universidade eu era muito pragmático, empírico. Era divertido ver como os dois mundos não dialogavam. Tinha uma barreira muito grande. Era gostoso, até para tentar entender como funciona o mundo acadêmico da universidade e o mundo da prática, empírico, avesso às teorias de qualquer espécie. Penso que isto existe até hoje, infelizmente. Um precisa do outro, mas não se aproximam.

Quando você vai para a UNICAMP, você deixa a PUC?

Nesta época já tinha me desligado da PUCCamp. Surgiu a oportunidade de concorrer a uma vaga como professor na UNICAMP. Naquela época, estava um pouco cansado do mundo do futebol e decidi me dedicar ao mundo acadêmico. “Ganho menos, mas é uma coisa que eu gosto. Estou cansado deste meio do futebol”, pensava. Durou pouco tempo. A experiência com as pessoas na UNICAMP era boa, mas a instituição universitária tem uma série de limitações. Passou um tempo e senti novamente uma vontade de voltar ao campo. Eu tinha mercado e começaram a surgir oportunidades aqui, ali… Como o regime de dedicação na universidade era integral, assim como ainda é hoje – o que eu acho muito ruim, pois é um cerceamento que o professor tem da experiência prática, sem poder trazer isso para a universidade incentivando a reflexão – eu tive que abandonar o mundo acadêmico para voltar ao mundo do futebol.  Já não podia conciliar, tal como fazia nos tempos da PUC.

 

Com qual disciplina você trabalhava? Era Futebol, tanto na PUC quanto na UNICAMP?

Não, na PUC eu nunca dei aula de Futebol. Na UNICAMP, sim. Na PUC era Metodologia do Treinamento Desportivo. Durante uma época, lecionei Metodologia do Trabalho Científico e Pesquisa em Educação Física e Esporte; esta última eu gostava muito de ensinar.  A disciplina Futebol foi só na UNICAMP mesmo.

 

Pensando nesses dois mundos, o acadêmico e fora dele, era muito diferente ensinar o futebol em cada um?

Quando eu trabalhei com a disciplina Futebol na UNICAMP, a minha preocupação era mais educacional, social e cultural; buscar uma maneira em que o professor pudesse desenvolver uma visão crítica e não pensasse em futebol só como alto rendimento. Trabalhava, portanto, nessas três dimensões. Eu via a disciplina como um objeto de estudo, onde a parte da aprendizagem mesmo do futebol era, digamos assim, um dos elementos e não o principal elemento. Essa disciplina era, inclusive, optativa, se não me engano. Eu me recordo que na época tinha vinte e um alunos, de ambos os sexos e não dava para formar dois times. Era um esforço que eu tinha que fazer para introduzir uma série de conceitos e reflexões que levassem os futuros professores a considerarem as questões sociais e educacionais mais do que propriamente o alto rendimento, que era na prática a minha área de atuação nos clubes. Às vezes tratávamos desta dimensão (do alto rendimento), já que todos sabiam que eu tinha experiência com muitas equipes profissionais, mas este não era o foco. O que procurava explorar eram os aspectos do futebol enquanto fenômeno sociológico, cultural e, sobretudo, educacional. Por meio da prática, a gente podia fazer muita coisa neste sentido que às vezes a própria escola, de uma forma geral, não consegue fazer. Foi um pouco nessa linha que procurei desenvolver as aulas de futebol.

Quando você saiu da universidade e ficou só no futebol, você teve uma experiência pelo futebol árabe. Como foi essa experiência?

Ah, foi muito rica, em todos os sentidos. Foi muito interessante conhecer uma outra cultura, também apaixonada pelo futebol. Foi excepcional! Tive várias experiências no mundo árabe, nem sei quantas vezes eu fui…. Nunca parei para contar (rs). Acho que umas sete ou oito vezes, sempre para a Arábia Saudita. Na maioria das vezes trabalhei com técnicos brasileiros, mas nem sempre. Trabalhei também com técnicos de outros países, inclusive sauditas.

Foto: Sérgio Giglio

João Paulo Medina. Foto: Sérgio Settani Giglio.

 

Eram muito diferentes as percepções entre técnicos brasileiros e sauditas?

Tinha um eixo comum, mas o entendimento do ser humano pelos sauditas é muito diferenciado, no sentido de ser apoiada no islamismo, na religião muçulmana. Na Arábia Saudita as leis eram determinadas pelo próprio Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. Eles não têm constituição como nós temos aqui no Brasil. Para conhecer um pouco o ambiente de trabalho, eu recomendo a leitura do Alcorão para tentar entender um pouquinho a religião. Fiz isso para poder lidar com os atletas e otimizar a relação e os resultados, para melhorar e saber a expectativa que eles tinham, entender seus propósitos de vida etc. Eu acho interessante pensar sobre isso aqui no Brasil, onde existe um número muito grande de atletas evangélicos, por exemplo. Eu não vejo como você pode dar um bom treino se você não entender um pouco as crenças das pessoas, dos atletas. Deus, para alguns, é mais importante que a família, é mais importante que o futebol. Você tem que entender a pessoa para poder ter uma abordagem mais integral, vamos dizer assim. Saber, de fato, que tipos de pessoas são os seus atletas. Eu sempre me interessei por isso e acho que foi um caminho que me ensinou muito.

Por muitas vezes eu ficava fascinado com as descobertas científicas da área da biomecânica, da fisiologia, da bioquímica, que sempre foram as bases da preparação física numa visão mais, vamos dizer assim, biológica. Mas os aspectos culturais e sociológicos sempre me instigaram muito; talvez mais do que aqueles puramente biológicos. Mesmo sendo um preparador físico, que tradicionalmente se preocupa mais com as questões biológicas, biomecânicas e fisiológicas, eu tinha muita preocupação com esses aspectos sociais e educacionais. Acho que foi um caminho correto, porque com isso consegui entender um pouquinho melhor os ambientes em que trabalhei e também conseguia criar vínculos. Por consequência disso, obtinha-se melhores resultados. Fico gratificado quando recebo mensagens e ouço pessoas que ouviram falar da minha passagem por aqui e ali. Talvez o diferencial tenha sido a minha preocupação mais com o ser humano, para além do alto rendimento, é claro. Que ser humano é esse com o qual estou trabalhando? Qual a sociedade em que ele vive? Quais as limitações ou as vantagens que isso traz para ele enquanto atleta? Essas perguntas foram sempre um desafio e um estímulo para o meu crescimento profissional. Em qualquer lugar que eu trabalhasse sempre fazia isso por que considerava essencial.

O que despertou bastante este interesse em mim foi o mestrado. Fiz mestrado em Filosofia da Educação, também na PUC de Campinas. Naquele período tive contato com professores excepcionais e com uma literatura pouco presente no universo da Educação Física. Então, aquilo me deu um embasamento para que eu pudesse ter este tipo de abordagem mais humana e social, com a convicção de que aquele poderia ser um caminho interessante, resultando em um melhor trabalho, mais completo.

Como era esse processo de ir e voltar várias vezes da Arábia Saudita? No retorno, quais eram os impactos que você sentia em termos tanto do futebol quanto dos aspectos culturais? As diferenças chamavam a atenção de alguma forma?

Isso era valioso. Algo, por exemplo, que sempre me causava uma reflexão era perceber que no mundo árabe Jesus Cristo não tem muita importância, como tem aqui nas religiões cristãs. Lá Jesus é considerado um profeta que eles respeitam mas, na visão deles, um ser humano comum. Nem por isso lá existem pessoas melhores ou piores que aqui. É riquíssimo tentar analisar essa questão da religiosidade e o papel que isso tem na vida das pessoas. Por que essa pessoa tem essa crença e não aquela? Talvez apenas lendo a respeito destas coisas, a gente não tenha a exata dimensão se comparadas com a experiência de estar lá no país, envolvido com a cultura e convivendo com as pessoas no dia a dia.

Tem algumas coisas interessantes. Quando eu comecei a ter algumas dificuldades lá no trato com os árabes, principalmente com os atletas, eu pensei: “Aqui eu preciso entender um pouco por que algumas coisas não estão fluindo”. Lendo o Alcorão, eu tinha algumas respostas. Então, em determinados momentos eu cobrava os atletas baseados não no que eu, Medina, acreditava, mas no que estava escrito no Alcorão, ou seja, naquilo que eles acreditavam: Dizia ao atleta quando este fazia algo errado: “Não sou muçulmano, mas pelo que li no Alcorão o que fez me parece desrespeitoso…”. Isso aí para eles é a morte. Ao mesmo tempo, eles começaram a me ver como outros olhos, quase como um deles. Passaram a me respeitar mais e isto refletia na melhor qualidade do nosso trabalho.

Lembro-me até de uma situação difícil que passei. Geralmente nos clubes de lá tinha uma figura que eles chamam de “mutawa”, um chefe religioso que muitas vezes está inserido na equipe, no time com os jogadores. É ele que puxa os horários da reza. Eles rezam, religiosamente (se é que podemos dizer assim), cinco vezes por dia. E não tem jogo que faça eles deixarem de lado esse compromisso no horário estabelecido. Porém, este horário muda de acordo com o sol, com a lua, com a estação do ano. Eu nunca entendia muito isso e eles nunca me falavam o horário exato. Perguntava aos jogadores e dirigentes que horas era a reza para eu poder preparar o treino, sem haver conflito. Às vezes no jogo eu tinha esse problema porque eu não lia árabe. Nós nos comunicávamos em inglês ou com o auxílio do intérprete. Então, eu não tinha a informação correta. Muitas vezes eles falavam que era num determinado horário e eu preparava tudo para fazer o aquecimento em determinada hora para não ter que interromper o treinamento. De repente, vinha um jogador e dizia que estava na hora da reza. Foi assim até que descobri um jornal em inglês que publicava o horário corretamente. Por que eles faziam confusão? Porque cada cidade tem, obviamente, a sua posição geográfica e o seu próprio horário para as rezas. Se em Riyadh, por exemplo, a reza da tarde é 15:12, em Meca pode ser 15:01 e em Damman, uma outra cidade do golfo arábico, é 15:05. Veja: são detalhes que você tem que conhecer para fazer bem a gestão do trabalho.

Qual foi seu último clube como preparador físico?

Teve um tempo em que eu era uma espécie de “faz tudo” dentro da comissão técnica. Acabava sendo uma referência no planejamento, na organização e na orientação, até para os treinadores. A última vez que fui preparador físico foi em 2004, na Arábia Saudita. O treinador com quem trabalhei, à época, era um brasileiro, o Marcos Paquetá. Ele tinha muito pouca experiência com trabalho em equipes profissionais. Tinha atuado na base, em clubes e na seleção. Inclusive revelou o Adriano no Flamengo e foi treinador da seleção brasileira sub-20. Por isso, os dirigentes árabes me pediram para que, devido à minha experiência no mundo árabe, eu fosse trabalhar com ele. Aceitei o convite. Fomos em 2004 para o clube mais popular da Arábia Saudita, o Al Helal, mas que não ganhava nenhum título há quase dois anos. Como eu tinha um histórico de conquistas importantes no clube, o Marcos Paquetá era especialista em trabalhar com formação de jovens talentos e era preciso renovar a equipe, formamos a dupla.

O trabalho fluiu muito bem naquele ano, até melhor do que esperávamos para um trabalho de transição e renovação. Tive sorte de quase sempre ter passagens bem sucedidas pelo clube, já que o time era bom, popular e tinha mais condições de trabalho do que a maioria dos concorrentes. Mas naquele ano os resultados foram excepcionais. Disputamos cinco campeonatos e ganhamos quatro. Aí o treinador foi convidado para treinar a seleção da Arábia Saudita que iria participar da Copa do Mundo de 2006. Assim, deixamos o clube e fomos juntos para a seleção. Era eu quem organizava, planejava, fazia a logística de viagem, orientava, aconselhava…. Em 2005, eu já não tinha mais a intenção de ser preparador físico (aliás já não era mais preparador físico no Brasil desde 1997). O que mais me motivava era a possibilidade justamente de estar participando da organização e da qualidade geral da gestão técnica do trabalho. Nos últimos tempos levava um auxiliar que seguia o planejamento que nós traçávamos para o trabalho em conjunto com o treinador. Essa foi, então, a última passagem pelo mundo árabe, em 2004, 2005 e 2006, na seleção na Arábia Saudita, na Copa do Mundo da Alemanha. Depois recebi outros convites, mas eu já estava querendo investir no projeto da Cidade do Futebol, da Universidade do Futebol, e achava que era a melhor maneira de continuar contribuindo para o desenvolvimento desta modalidade, por meio de uma instituição que pensa, reflete, procura disseminar o conhecimento no futebol e em todas as áreas ligadas, direta ou indiretamente, ao universo do futebol. Este é talvez o meu último sonho de vida profissional. Contribuir para transformar o futebol brasileiro, por meio deste projeto.