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José Paulo Florenzano (parte 2)

Equipe Ludopédio

José Paulo Florenzano é graduado (1994), mestre (1997) e doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2003). Atualmente é professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e realiza o pós-doutorado sobre o Santos Futebol Clube. Autor dos livros Afonsinho e Edmundo:  a rebeldia no futebol brasileiro (Musa Editora, 1998) e a A Democracia Corinthiana: práticas de liberdade no futebol brasileiro (EDUC-Editora PUC-SP, 2009). Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia do Esporte, atuando principalmente nos seguintes temas: rebeldia, jogador problema, relações de poder, futebol força e corpo-máquina.

SEGUNDA PARTE

A partir da década de 1970, como se dá a construção do “jogador problema”, a questão da rebeldia e essa relação de um novo modelo de jogador?

É exatamente neste momento – qual? posterior à Copa da Inglaterra de 1966 – que se coloca o jogador no banco dos réus, que se lança sobre ele todo um processo que o acusa de estar ultrapassado do ponto de vista físico, tático, disciplinar, moral, enfim, na sua totalidade. Isso chama a atenção porque até aquele momento o Brasil desfrutava da hegemonia no futebol. Então, como de repente, num simples verão, aquele jogador, que era a vanguarda do futebol mundial e bicampeão mundial, torna-se essa figura execrável colocada no banco dos réus. É exatamente esse discurso que chama a atenção e coloca uma urgência: nós precisamos produzir o jogador moderno, apto a colocar em prática o modelo desenvolvido na Europa, modelo chamado de “futebol-força”. Isso implica uma série de mudanças do ponto de vista físico, a preparação física começa a ganhar muito espaço neste momento. O técnico que antes acumulava essa função se especializa no centro da comissão técnica e você traz o especialista em preparação física. A medicina esportiva também. O médico sai dos bastidores e passa a desempenhar um papel importante dentro deste cenário. Mas, sobretudo, há um deslocamento do poder que, digamos assim, migra do coletivo de atletas e passa a ser monopolizado por uma comissão técnica, mas ampliada. Ora, você encontra resistências à implantação deste modelo, que privilegia a força física em detrimento do talento. Não se trata de colocar como termos mutuamente excludentes “força” e “arte”. Mas há uma rearticulação destes princípios e passa a prevalecer a idéia da força. A arte passa a ser subordinada a este princípio que organiza o campo do futebol. Então, você encontra resistências, como, por exemplo, a do jogador Afonsinho que neste momento afirma: “futebol não é pulmão”, futebol á arte. O que significa isso? Significa outra concepção de futebol que não essa consagrada pelo o que se pode chamar de “medicalização crescente da vida do atleta”. De como grande parte ela é colonizada por estes saberes. O atleta que passa a se chocar com estas urgências, com os mecanismos que vão produzir este jogador como um “corpo máquina” e uma peça movida pela engrenagem do poder, é que começa a ser classificado, identificado e estigmatizado como jogador-problema. Então, quem é o jogador-problema? Ele é uma personagem que surge nesse contexto da modernização, da urgência de produzir este jogador moderno e que não se submete às exigências impostas pelo novo modelo. É o cara que não se deixa modelar fisicamente como um “corpo máquina”, que recusa o comando do técnico, o qual, supostamente, não pode ser questionado. É o atleta que se desvia da norma definida para o jogador profissional. Todo um receituário: não pode beber, não pode fumar, dormir cedo, praticar sexo dentro de uma determinada regra, enfim, todo um jogo que se desenrola neste momento.

É interessante pensar como surgiu isso, porque houve certa rejeição após a Copa de 1966 aos jogadores brasileiros, mas sempre tendo como o “outro” o europeu. Como isso é visto pelos diferentes países europeus? Essa dicotomia futebol-arte e futebol-força é uma forma de classificar e pensar exclusivamente brasileira?

Esta é uma questão muito importante que diz respeito a uma visão nacional do futebol. Cada escola enxerga o futebol dentro de sua própria perspectiva. A questão permite pensar o seguinte. Por exemplo, o confronto Brasil e Itália na Copa da Espanha de 1982. Qual é a leitura interna? O Brasil era a representação do futebol concebido como arte e a Itália a negação completa deste modelo. Essa é uma perspectiva nossa, interna, brasileira. Se você se distanciar dela, talvez seja possível reconhecer que aquele time da Itália de 1982 era um time que do ponto de vista da técnica, destreza e habilidade, não ficava muito atrás do Brasil. Você tem um verdadeiro jogador clássico naquele meio-de-campo que é o Antonioni, um atleta do renascimento…(risos). O Schirea era um líbero que sabia jogar. Dino Zoff era um exímio goleiro. O Conti era um driblador de primeira. A leitura do Brasil e Itália de 1982 revela esta questão que você coloca. O catennaccio implica colocar outros princípios talvez, como, por exemplo, os do sistema defensivo e de não se expor tanto ao adversário. Mas a percepção de que aquele time da Itália era meramente defensivo, baseado na idéia do ferrolho, decorre da perspectiva interna brasileira. O time da Itália de 1982 merece todo o respeito. Essa é uma questão. Outra. Se você pensar historicamente quando se consolida a idéia do futebol brasileiro como “arte”, por hipótese neste momento, diria que quem incendeia o imaginário de um futebol que naquele momento se globalizava é o Santos F. C. do Pelé. Mais até do que os selecionados. Claro que a seleção de 1958 desempenha um papel importante. Mas na seqüência, o Santos do Pelé se faz portador de um futebol considerado exótico e que foge completamente aos parâmetros estabelecidos até então. Aquele ataque extraordinário do Santos – Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe – mostra um futebol efetivamente ofensivo, dionisíaco, consolida um pouco a idéia de futebol cuja ênfase estava colocada nessa dimensão estética do jogo como “arte”. Mas sempre levando em consideração que não é uma coisa ou outra. Então você tem sempre a todo o momento os dois princípios colocados: força e arte. Não sei se está respondida esta questão. Mas só para fechar, qual é o paradoxo? Isso é incrível. Em 1958, a crônica brasileira sapateou em cima do futebol científico da União Soviética, ridicularizando: “olha o que o Garrincha fez com o futebol científico…”. Depois, o Brasil passa a perseguir exatamente o futebol científico sobre o qual havia tripudiado em 1958. Inclusive lamentando: “Ah se nós tivéssemos o preparo físico dos soviéticos ou a disciplina tática”. Essa é a inversão que a Copa de 1966 coloca. 1970 é o ponto culminante deste choque entre as duas escolas, caracterizado por certo equilíbrio.

1982 podemos dizer que é um desalento do caso brasileiro em relação a estas escolas? E a partir da década de 1990 essa dicotomia desaparece um pouco do debate, visto que agora vários jogadores brasileiros estão no futebol europeu?

Qual seria aparentemente a resposta: ele se tornou universal. Você tem um modo de produção do futebol universal. Significa que, pelo menos momentaneamente, aquilo que era visto como a disputa de duas concepções do futebol, hoje reflete a hegemonia de um modelo. Então, por que não se utilizam hoje estes termos? Porque em grande parte a contenda parece resolvida a favor de um modelo universal, baseado no futebol-força. O que não significa que a arte não tenha um lugar dentro dele, mas ela é um elemento subordinado. É isso que é importante pensar. Acho que o último confronto disso, e pode ser que se reabra essa disputa logo adiante, foi em 1982. Se você analisar o que acontece no Brasil depois de 1982, é exatamente o clamor em favor deste modelo. “Cadê o cabeça-de-área que o Telê Santana tirou? Precisamos dele.” E quem é esse cabeça-de-área? É o volante moderno caracterizado pela ação esterilizadora, truculenta, personagem que complementa a figura do técnico-comandante. É importante para o técnico, que vai encenar o teatro da sua autoridade na beira do gramado gritando “pega aqui, marca ali, faz isso, faz aquilo” -, ele precisa ter em campo esse volante cumpridor de ordens. Ele não poderia conviver com um armador clássico como Ademir da Guia ou como Sócrates. Você consegue imaginar o Sócrates jogando com o Luxemburgo gritando: “pega aqui”, “marca ali”, “faz isso”. A imagem que me vem à mente é o Sócrates parando o jogo, pedindo licença ao árbitro, bola na mão, aproxima-se do Vanderlei para lhe dizer: “Meu querido. Ou você pega essa bola, entra em campo e joga. Ou você fica quieto e me deixa em paz”. Então, são personagens que se complementam. Não é a toa que existe esse volante no Brasil. E também não é por acaso que desapareceu essa figura do armador. O jogador que dita o ritmo da partida, distribui o jogo e organiza a equipe. Ele teve que desaparecer para que o técnico pudesse legitimar a sua onipotência.

José Paulo Florenzano

José Paulo Florenzano analisa a evolução do esporte bretão.

José Paulo Florenzano

Rebeldia, e jogador problema são objetos de estudo José Paulo Florenzano.

No contexto atual, podemos dizer que quase não se faz mais comparações entre escolas contemporâneas, como ocorria até 1982, mas sim entre estilos de épocas distintas? Por exemplo, compara-se toda seleção brasileira sempre com a seleção da Copa de 1982. A comparação tem sido mais diacrônica?

Acho que as duas coisas. Em 1982, você também tem a perspectiva histórica claramente delineada de retomada da tradição do autêntico futebol brasileiro. E qual é o modelo? A seleção de 1970, sobretudo. Então em 1982 os jogadores tomavam como referência a seleção de 1970, em todos os sentidos, em especial, de introduzir novamente a dimensão estética e o exercício da liberdade que se enxergava no selecionado tricampeão. Outra coisa: não é escola sul-americana contraposta a escola européia. A dualidade era interna. Dentro do Brasil se colocava a existência de duas escolas. Você tem já em 1982 toda uma vertente que atuava em favor do modelo futebol-força e que com a derrota do Brasil na Copa retoma as rédeas e se fortalece. É o grupo que retoma o poder na CBF.

Pensando do ponto de vista nativo: dos técnicos, jogadores. Como eles encaram esta discussão entre futebol-arte e futebol-força? Existiria para quem produz o jogo essa relação?

Acho que mesmo sem recorrer a estas expressões, você tem necessariamente por parte do atleta brasileiro uma ação que o leva a resgatar o que se denomina de futebol-arte. O que é o futebol-arte? Três aspectos. Ele é uma técnica corporal. Sempre é a possibilidade de você transformar a sua carreira de jogador em uma obra de arte. Imortalizar-se na memória coletiva através de jogadas e gols extraordinários. Mas, para que essa técnica corporal tenha espaço dentro do jogo, é também uma prática de liberdade, de reivindicar espaço para essa ação de improvisação, espontaneidade e criatividade. Você tem no futebol moderno cada vez menos espaço para o exercício desta técnica corporal. Quando a arte é aceita? Quando ela é funcional, dentro da área para dar um corte e marcar o gol do título. Fora isso, ela é vista como supérflua, algo disfuncional. Eis os três aspectos: técnica corporal, prática de liberdade e categoria mítica. Futebol-arte é uma categoria mítica. O que significa isso? É uma noção que faz parte da nossa tradição, através da qual enxergamos, interpretamos e agimos no futebol. O Sócrates em 1982 tinha uma consciência crítica e queria resgatar um futebol mais livre, mas em grande parte ele era movido por este mito, por esta narrativa, que fixava um modelo de ação. Qual é esse modelo de ação? De autonomia, de participação do atleta dentro de campo, sem esperar a ordem do técnico. Então o Sócrates diz em 1982: “eu tenho liberdade para fazer mudanças táticas”. Como em 1970 o Gérson teve liberdade para trocar de posição com o Clodoaldo, na semifinal entre Brasil e Uruguai. Como em 1958, o Nilton Santos, desobedecendo Feola, arrancou e marcou um gol com a Áustria. Recorrendo ou não ao conceito, o futebol-arte está presente na ação do atleta.

Essa idéia do futebol moderno, quando incorpora a questão do marketing, decreta o fim do jogador questionador, do jogador visto como rebelde ou problema? E quais seriam os principais exemplos deste jogador que se opõe ao modelo do futebol atual?

Acho que esta questão é mais um elo na engrenagem que cerca o atleta. Um atleta rodeado de especialistas, cada um deles tirando um pedaço da autonomia deste atleta. No caso do marketing, que tem por traz um assessor do atleta preocupado com a imagem institucional dele, que pode ser objeto de um comércio e que vai dizer o que ele pode ou não falar. De fato, você tem hoje um atleta robotizado inclusive neste aspecto, com um discurso que nada verdade tem como objetivo dizer absolutamente nada. Então, se você pensar, a cultura do esporte moderno está no Michael Jordan. A estratégia dele era não se atritar com nenhum grupo específico da sociedade norte-americana. Quando convidado a apoiar um candidato na Carolina do Norte, identificado com o movimento negro, ele vai se abster deste apoio justamente preocupado com o fato da sua imagem estar associada a uma série de produtos que deveriam ser consumidos por todos os grupos da sociedade norte-americana. Essa postura, diametralmente oposta à do Muhhamed Ali, por exemplo, que é o cara que utiliza o esporte para assinalar seu pertencimento a um determinado grupo naquela sociedade, você tem hoje um atleta com a proposta de não se indispor com nada nem ninguém, porque ele quer vender um produto para todos os consumidores. Isso, por sua vez, é um contraste muito grande com a liberdade de expressão de um Sócrates, um Paulo César Caju, um Afonsinho. Emblemático da questão que você coloca foi uma entrevista no Palmeiras, com o assessor de imprensa do clube, na coletiva, para vigiar o que o atleta estava dizendo, pois o Palmeiras estava com os salários atrasados. Nesse sentido, não se pode imaginar um Sócrates com alguém ao lado para vigiar o quê ele poderia ou não dizer. Sem dúvida, eram atletas que tinham responsabilidades sobre o que diziam e assumiam o que diziam.


Confira a terceira parte da entrevista no dia 19 de outubro.