08.12

José Roberto Torero (parte 2)

Equipe Ludopédio

O jornalista e escritor José Roberto Torero é conhecido por seu texto intrinsecamente literário e por suas narrativas criativas, seja nos jornais, revistas, livros ou roteiros audiovisuais. Para sorte do futebol, o santista Torero é um apaixonado pelo esporte e sempre transforma os dribles, os craques e os golaços em belas figuras de linguagem, personagens míticos e histórias tocantes.

Vencedor do prêmio Jabuti em 1995, com O Chalaça, Torero também se notabilizou por produzir roteiros para filmes, teatro e televisão. A última obra mais debatida pelos amantes do futebol é a série (fdp) do canal HBO, mas é de longe a única produção ludopédica. Além de colunista da revista Placar e do jornal a Folha de S. Paulo, Torero escreveu “Os Cabeças-de-Bagre também merecem o paraíso”“Zé Cabala e Outros filósofos do futebol”“Uma história de Futebol”“Nove contra o 9”, dentre outras dezenas de obras.

Boa leitura!

O jornalista e escritor José Roberto Torero. Foto: Max Rocha.

Segunda parte

Os veículos de comunicação possuem visões específicas em relação ao futebol? Cada um tem sua linha? Tipo: “Aqui nós pensamos assim…”.

Não. Nunca recebi uma ordem assim no futebol. Em outras coisas sim. Na Globo você não pode falar mal do Sarney. Eu fazia algumas coisas dentro do Fantástico, como o Retrato Falado e vários outros programetes. Uma vez teve uma piada sobre o dinheiro da Roseana Sarney. Ela era pré-candidata a presidente. E aí descobriram o dinheiro dela. Eu fiz uma piada e ela foi cortada. O diretor explicou que não se falava mal da família Sarney, pois eles são amigos da família Marinho. Então essa piada dançou. Mas em futebol nunca tive esse problema. Na Band News FM eu tinha uma coluna de cinema e livro. E eu queria fazer a crítica de um filme pornô, mas não deixaram. Outra vez um amigo diretor da Globo recebeu um email dizendo: ‘Não podemos mais falar de filmes que não sejam da Globo Filmes’. Achei esse um tema muito bacana de se falar na Band. Mas me censuraram. Aí eu saí. Em outros temas sim, no futebol menos. É uma editoria diferente. É um tema mais livre, tem direito de ousar por ser menos importante. O status dela é menor. Não é como cultura, política e economia, que têm status mais nobre.

O status é menor para quem?

Para o próprio jornal. Para o leitor não. O leitor é o mais apaixonado, que mais acompanha. Já o jornal não dá essa bola toda para o futebol.

Mas seria possível falar de linhas editoriais diferenciais dos veículos em relação?

Sim. A Folha de S. Paulo é mais séria, mais numérica, mais política. A Placar, no tempo que eu lia, tinha mais histórias humanas, new journalism, tinha muito perfil. Era bacanérrimo ler Placar. A Placar no tempo do Marcelo Duarte era mais pop, mais ligada à música, mais jovem. O Estadão é mais sólido, opinativo e tem mais espaço físico para esporte. Todos têm uma linha clara. A Globo é mais ufanista. O Globo Esporte de São Paulo é mais bem humorado. Apesar do programa do Rio de Janeiro também ser, o de São Paulo é mais leve, com pautas boas, às vezes mais humanas também. Aliás, uma coisa que falta no jornalismo esportivo hoje é mais perfil, como tinha na Placar na década de 70. Eu sinto muita falta disso. Uma das melhores coisas do jornalismo esportivo é essa preocupação humana; contar a vida do cara, o que ele pensa, o jeito dele. Existia uma humanização do mito. Agora não existe mais. Mito é mito mesmo. Você não fala mais com o cara. Tem que pedir para o assessor de imprensa uma entrevista rapidinha. O jogador virou um popstar distante. Antes não. Acho que podíamos também falar mais de torcedores, personagens, juiz. A parte humana do futebol está esquecida. Acho que são as melhores histórias. Mas pode ser apenas gosto meu.

Ao escrever sobre futebol você toma cuidado para não transparecer demais a sua paixão pelo Santos?

Quando o torcedor escreve sobre o seu time ele é mais severo. Você sabe todos os defeitos. O torcedor do outro time vê os melhores momentos e os gols do Santos. Então ele acha que o cara é bom. Mas você que acompanha o tempo todo, vê que o cara erra demais, não vê só os melhores momentos. O Marcus Aurelius Pimenta, que escreve comigo, é palmeirense. Eu digo: “O Marcos Assunção é bom”. Ele fala: “Não corre, dá um desespero”. Agora eu sei. O coitado do Arouca correndo que nem um doido (risos). Mas eu olho e falo assim: “Bacana esse Luan, hein?”. “Ele é esforçado. Você só vê os gols”. Então quase sempre você é mais severo com seu time. Fora um que é ufanista, outro que é amigo do presidente…

A tentação de fazer alguma brincadeira provocativa com os rivais é controlável?

Quase sempre eu controlo. Às vezes você faz. Por exemplo: eu tinha uma coluninha no blog, o Brasileirão City, em que eu transformava cada time num personagem de faroeste. Eles faziam duelos no final de semana, tinha luta e sangue, e eu descrevia como se fossem duelos de bangue-bangue. Por exemplo: Jack Tricolor é o do São Paulo. Eu ilustrava. Pegava umas fotos e colocava no blog. E certa vez para o Jack Tricolor eu peguei de um personagem chamado Jack do filme O Segredo de Brokeback Mountain, que também fala de faroeste. Não resisti. Pensei: ninguém vai perceber que este Jack é o personagem gay do filme. Mas os caras perceberam (risos). Por sorte eu tinha um leitor menos xiita. Gente que levava menos a sério de futebol. O Juca Kfouri e o Vitor Birner sofrem mais. Qualquer coisa que o Juca escreve tem 60 mil leitores. Essa turma não via muita graça no meu blog: “Esse cara escreve sobre faroeste. Eu quero saber do jogo. É blog para mulher ler”. Acho que 10% era de mulheres mesmo.

Utilizar a ficção como recurso literário permite uma questão de análise que sem ela não seria possível? Por exemplo, o Zé Cabala…

Sim, a ficção faz com que possa falar coisas que eu jamais poderia falar. Ela deixa tudo diferente. É um comentário muito mais subjetivo, mais indireto, que permite fazer mais ligações entre futebol e Brasil, futebol e sociedade, futebol e ser humano. Você não fica só nas quatro linhas, consegue dar um passinho para fora, fazer umas ligações novas. Acho estranho que não tenha mais gente fazendo isso. Talvez tenhamos poucos escritores escrevendo sobre futebol. O Antonio Prata escreve e é bom. O Juca às vezes faz uma gracinha. O Xico Sá usa recursos literários. E há o Nélson Rodrigues, é claro. Enfim tem uma turma que mistura uns recursos literários e futebol. No meu caso, minha primeira crônica em jornal foi assim. Eu tinha que me apresentar ao leitor, e para isso escalei a minha seleção, falando de cada jogador. Carlos Drummond no gol, Machado de Assis era o camisa 10; centroavante tinha que ser um cara brigador, então era o Oswald de Andrade; Mario Drummond era o camisa 8. Desde o primeiro dia minha ideia foi juntar literatura e futebol. Se não fosse assim, também não daria, pois tenho consciência da minha ignorância futebolística. Seria só mais um cara falando dos jogos. E me chamaram porque eu era escritor, não porque eu entendia de futebol. Já tinha escrito algumas coisas na Placar, reportagens e ficções.

Existia espaço na Universidade, quando estudante, para pensar ficção?

Não no Jornalismo. Nem na Letras. Em Cinema sim, o tempo todo.

José Roberto Torero foi vencedor do prêmio Jabuti em 1995. Foto: Max Rocha.

Torero, você mapeou um pouco o cenário literário que segue essa linha e citou Nelson Rodrigues. Ele te influenciou?

Não. Muito distante. A influência veio mais do Veríssimo, Millôr, também Stanislaw Ponte Preta, que escreveu crônicas ótimas sobre futebol. Mas sempre admirei o Nelson. Ele é tão inimitável. Tal como Guimarães Rosa. É impossível imitar Guimarães Rosa, é muito particular. Mas li bastante Nelson Rodrigues, que sempre dá um sentido épico, gigantesco. O meu caminho é mais o contrário, pegar o pequenininho, o time pequeno, a historinha, principalmente de ficção, o sorveteiro da segunda divisão. Uma vez um cara mandou um email malcriado, porque eu só falava de coisa pequena, time de segunda divisão: “vai falar do sorveteiro…”. Pensei: “Pô, bacana”. Fui ver o jogo do Nacional e falei com o sorveteiro. Foi uma baita história. Sensacional. Ele era corredor, atleta. O Pão de Açúcar leu, foi atrás do cara, quis contratar, porque o Pão de Açúcar tem uma equipe famosa. Ele fez teste, mas fugiu. Depois falou que não aguentava trabalhar todo dia no mesmo lugar. Então continuou tudo igual na vida dele. Isso é que eu acho mais bacana, essas historinhas de vida. Teve uma época que eu fiz, pelo UOL, uma excursão pela terceira divisão; um mês andando pelo Nordeste, vendo os clubes da terceira divisão, da Série C. O subtítulo do bloguezinho era “Repórter de 2ª na 3ª” (risos). Visitava o clube, via onde o cara dormia. Se for ver onde o cara do Atlético de Alagoinhas dorme, é terrível. É uma casinha, cheio de beliche. E eles são os milionários da família. Ganham R$ 1.500 por mês, nem precisam trabalhar os outros seis meses do ano. Eles já se garantiram ali. Outros ganham R$ 800,00. Foi sensacional. Gosto mais dessa turma, gente comum. Toda história é sensacional. Não tem uma pessoa com uma vida que não valha a pena ser contada.

O seu livro “Uma História de Futebol” surgiu a partir do curta-metragem?

Mais ou menos. Fiz o roteiro do curta, que concorreu ao Oscar, e depois fiz, com Maurício Arruda, a escaleta de um longa. Na verdade o livro veio da escaleta do longa, que acabou não sendo filmado. Já o livro ganhou um concurso do governo e foi distribuído para dois milhões de crianças. É o meu livro que vai ser mais lido.

Nesses processos de adaptações, conversões, corre sempre o risco de perder alguma coisa?

É um perde e ganha. Tem que pensar sempre como uma coisa que não precisa ser fiel ao original. Tem que ser o melhor possível no novo momento. Por exemplo: a escaleta do longa não tinha que ser fiel ao curta, mas tinha que ser a melhor escaleta de longa possível (escaleta é um pré-roteiro). E o livro não tinha que se prender à escaleta. Tinha que ser o melhor livro possível. Tem que sempre pensar assim ao fazer uma adaptação. Não é a fidelidade que é o importante, mas sim fazer o melhor filme possível.

Mas o público, de alguma forma, busca essa fidelidade: “pô, o cara não contou aquele detalhe…”

Sim, busca. Quem viu a obra anterior sim. Por isso tem gente que aconselha a só adaptar livro ruim. Alfred Hitchcock quase só adaptou livro ruim. Ele viu potencial na história para um filme e muito livro ruim que ele adaptou ficou sensacional.

Você e o Marcus Aurelius Pimenta foram os roteiristas da série (fdp) que foi transmitida pelo canal HBO [veja o primeiro progama da série]. De início a série se chamaria Los Libertadores e teve o nome alterado para (fdp). A mudança de nome alterou o tema central da série? Qual o motivo da mudança?

Não sei. Quando me convidaram a série já se chamava FDP.


Como foi o processo de construção dos mais diferentes personagens que giram em torno da história principal, o árbitro Juarez?

Eu e o Marcus Aurelius Pimenta fomos pensando as histórias e bolando os personagens. Muitos são baseados em gente real do mundo do futebol. Por exemplo, o juiz gay, que é um personagem muito interessante, porque está mergulhado num mundo essencialmente masculino.


A escolha de atores como Paulo Tiefenthaler acentuam o teor cômico da história. De que maneira o humor participa da construção deste universo da arbitragem?

FDP não é uma comédia. É um drama com pitadas de comédia. Então o humor entra assim, como tempero.

Todos episódios são encerrados com o título da série (fdp). Mais que uma apresentação comum de um letreiro final do episódio, esta escolha refere-se a afirmação do senso comum torcedor em torno da figura do árbitro?

Acho que não. É que, durante a construção dos roteiros, vimos que alguns podiam acabar com um personagem chamando Juarez de fdp. Então decidimos que todos acabariam assim. E o xingamento sempre viria de um personagem diferente. Dessa forma também assegurávamos que ele teria pelo menos um inimigo por episódio.

José Roberto Torero produz roteiros para filmes, teatro e televisão. Foto: Max Rocha.

Também, recentemente, você dirigiu um documentário “Ouro, prata, bronze e… Chumbo”. Como foi entrar nesse universo do esporte olímpico?

Foi muito bom. Era um concurso e não podia falar sobre futebol. Então pesquisei muitas histórias olímpicas e achei essa turma das três primeiras medalhas brasileiras (ouro, prata e bronze) que a equipe de tiro ganhou nos Jogos de 1920. A história deles é muito boa, uma coisa épica. Há a travessia do oceano de navio, que se atrasa, então eles têm que pegar um trem, roubam sua munição e eles têm que usar armas emprestadas. Então a história era a melhor coisa. De novo, o que importa é a história humana e a deles era sensacional. A equipe brasileira tinha um alemão gordo, outro era médico, outro um advogado. Mas sempre a historinha humana. O esporte entra, mas o principal era a viagem doida que eles fizeram de navio. Agora eu penso em fazer outro, sobre o Tetsuo Okamoto, o primeiro medalhista da natação brasileira. Gosto muito da história do treino dele. Ele foi o primeiro a enlouquecer com o treino. Nadava-se 1.500 metros por dia. O Tetsuo começou a nadar 10.000, tal como nadavam fora do Brasil. Eu fiz natação também, é o esporte que melhor pratico – tirando o futebol de botão, nesse eu sou um gênio (risos). Natação é o esporte que fiz melhor. Fui campeão paulista de maratona aquática (no mar). O Tetsuo tem essa questão do treino que é muito bacana. Nunca se mostra treino. Imagina a chatice que é nadar 10.000 por dia. Porque o nadador não fala com ninguém. Não é como no futebol que você conversa com outras pessoas. Na natação é só você e você na maior parte do tempo. Não é a toa que os caras param. Mark Spitz parou e quis voltar; o Ian Thorpe parou; agora o Michael Phelps. Eles param porque é uma solidão, você fica contando azulejo a vida toda. Já o Tetsuo cantava. É bonito isso, cantar dentro da água. Pensei em filmar tudo debaixo d’água. Fazer ele comendo debaixo d’água, recebendo medalha debaixo d’água. Acho que iria ficar bonito.

E como é a busca por essas histórias?

Pesquisa. Gosto muito da pesquisa histórica. Quando eu fazia o Zé Cabala, eu lia tudo sobre o entrevistado para saber a história. Usava fontes diversas: internet, livros. No documentário sobre os atiradores também fiz entrevistas com netos, bisnetos, especialistas.

O Zé Cabala te ajuda de vez em quando nessas? Existe espaço para ficção nesses curtas?

Não. Acho que não. Estou contando a vida do cara. O recurso é ficcional, mas o que o cara fala não pode ser. No caso dos atiradores é tudo verdade. Até o baile à fantasia teve mesmo, mas nenhuma família sabia, porque nenhum dos caras contou. “Não, ele nunca falou disso”. Mas um jornalista foi e fez um diário para um jornal. E a festa está lá. Em romance histórico acho que posso mentir. No romance histórico não tenho pudor. No Zé Cabala não, tem que falar a verdade.

Essas histórias sobre fracassos, não sobre o sucesso esportivo, são mais difíceis de serem trabalhadas?

São mais difíceis de serem encontradas. Pouca gente conta o fracasso. Você só conta o sucesso.

Em algum momento passou pela cabeça falar sobre o futebol olímpico?

Não tenho atração pelo futebol olímpico. Acho que é um futebol B. Essa história de limite de idade o transforma num campeonato menor. Acho que não devia ter na Olimpíada. Qual o sentido de fazer um campeonato onde não estão os melhores? Não entendo.

O sucesso da seleção principal na Copa faz um contraponto a essa seleção olímpica?

Faz uma sombra gigante. Prejudica pela comparação: a Copa é mais importante, jogam os melhores e a Copa o Brasil ganha de vez em quando.

Conte um pouco sobre o livro “Nove contra o 9“?

É a história de um centroavante, o Beleza, de um time de última divisão. O Zé Cabala faz as vezes de detetive. Uma torcida o tinha contratado para evitar a queda para a Série B, mas o time caiu. E obviamente vai se vingar no nigromante ludopédico. Então ele pega sua Kombi e foge para uma cidadezinha do interior: Banânia. E lá acontece um assassinato. Para ganhar algum dinheiro, Zé Cabala e Gulliver, seu assistente anão (que escreve o livro, assim como o Watson escreve as histórias de Sherlock Holmes), vão investigar a morte do Beleza. Surgem vários arquétipos do futebol: o presidente ambicioso, o reserva que é capacho, o zagueiro violento e gay, o torcedor fanático etc. São nove suspeitos de terem matado o centroavante. Por isso o título é “Nove contra o 9”.

Vários de seus livros você escreveu com o Marcus Aurelius Pimenta. Pode falar um pouco dele?

É muito divertido escrever em dupla. Mas é algo raro no Brasil, talvez por conta de uma certa tradição romântica. Como nós dois somos jornalistas fica mais fácil escrever em dupla. É que o jornalista é pautado por um cara, o texto é refeito por um revisor e depois cortado pelo editor. Então você está muito acostumado a ter seu texto mexido por outra pessoa. Acho uma vantagem. São duas cabeças dando ideias, dois caras cortando os erros. Mas tem que ser uma dupla que combine muito. Acho que é o nosso caso. Nós dois temos o Machado de Assis como escritor favorito e o mesmo tipo de humor.

Mas como vocês estruturam essa parceria?

Planejamos juntos o livro, fazendo uma grande escaleta. Então um escreve tudo, normalmente o Marcus. Aí o outro reescreve tudo. Volta para o Marcus, que reescreve. Volta para mim. E ficamos nesse ping-pong até o livro ficar bom. Quando o livro fica bom, sentamos frente a frente na casa de um dos dois, lemos todo o livro de novo e vamos mexendo. É bem demorado, mas divertido, menos solitário. E o resultado é bom, fica melhor do que se eu fizesse sozinho.

Nessa trajetória, você também estabeleceu uma parceria com a Editora Objetiva…

Sim, publico a maior parte dos meus livros pela Objetiva. Mas publiquei também pela Salamandra, pela Moderna, Panda Books, DBA Editora, Ediouro. Não é uma fidelidade 100%. Posso sair com outras editoras.

E como as editoras olham para a temática futebol?

Não é mais um desprezo total. Teve uma mudança nos últimos 15 anos. Antes sim, era um desprezo total: Eu fiz três livros com reuniões de crônicas sobre futebol que saíram na Folha, no UOL e no JT. Cada um vendeu pelo menos quatro mil exemplares. É um número digno. Tenho dois livros sobre o Santos que também venderam bem. Nada fantástico, mas nada horrível. Já o “Nove contra o 9” é misto, um livro de futebol e de detetive. Tem que ver se agrega os leitores das duas alas, ou se nenhuma delas se interessa. Será interessante ver o que acontece.

José Roberto Torero durante entrevista para o Ludopédio. Foto: Max Rocha.

O que podemos esperar da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos?

Muita corrupção, dinheiro fácil. A principal função é essa. Acho que a Olimpíada será boa para o Rio de Janeiro. Irá tirar um pouco do atraso da cidade. Desde que deixou de ser capital, o Rio não tem a atenção devida. Mas acho que não muda o país. “Vamos melhorar o país porque a Copa vem aí” não é uma boa desculpa. Os estrangeiros vêm para cá e por isso vai melhorar? Tem que melhorar agora, porque estamos aqui há 500 anos. Nós que merecemos atenção. Não sou um otimista. A Olimpíada até acho melhor, porque é uma cidade só. Mas as últimas cidades olímpicas não foram muito felizes. Sydney ficou com um monte de coisa inútil. Não acho que seja um grande negócio para o país. Mas para alguns particulares será.

E os megaeventos, de forma geral?

Existem alguns bacanas que dão certo, que são economicamente viáveis. O problema da Copa e da Olimpíada é que eles não são economicamente viáveis. O governo paga a conta. E os particulares é que ganham. Teoricamente o país arrecadaria com turismo e outras coisas. Mas é muito teoricamente. É mais para um governo se firmar e para um grupo ganhar dinheiro. Mas alguns eventos funcionam bem. Acho que é uma questão matemática. Se você movimenta a economia e o dinheiro volta, tudo bem, deu certo. Mas na Copa eu acho que isso não acontece.

Torero, você acompanhou in loco os dois últimos Mundiais de Clubes, de 2011 e 2012? Vitórias do Barcelona e do Corinthians. Quer falar sobre isso?

Não (risos). Sou muito pé-frio. Quando torço para um time, ele perde. Quando torço contra o outro, ele ganha. Não é possível!

E como foi essa “invasão” corintiana no Japão?

Teve muita gente mesmo. Lá chegamos ao número de vinte mil torcedores, contando as pessoas que moravam lá e quem pegou visto antes. Mas foi um número proporcional. No ano do Santos, acho que eram uns quatro ou cinco mil. E a torcida do Santos é quatro ou cinco vezes menor. Existe um certo mimo da mídia ao Corinthians, um mimo muito interesseiro. Qualquer coisa que você escreve sobre o Corinthians, muito mais gente compra e lê. Mas acho que teve sim uma invasão, não foi uma invenção. Em Tóquio tinha loja que, em vez de música ambiente, tocava o Hino do Corinthians o dia todo.

Novos livros de futebol estão no prelo?

Sim. Acho que vou fazer um sobre goleiros com o Humberto Perón, comentarista de goleiros do Lance! No Japão, planejamos um livro bacana, misturando ficção e reportagens sobre goleiros inventados e reais. Tento me livrar do futebol, mas não consigo.

Por fim, conte-nos sobre o seu novo blog no UOL Mulher?

Pois é, agora a bola que mais está me interessando é a barriga da Maria Rita. Estamos escrevendo um blog chamado Barrigudos em que contamos como é esta gravidez de primeira viagem. O curioso é que escrevemos juntos, eu em azul, ela em preto, como se fosse um daqueles casais que senta no sofá e conta uma história em dueto, ao mesmo tempo, às vezes se completando, às vezes se contradizendo, às vezes brigando. E é muito bacana pensar que já já terei uma bolinha nova em casa.