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Juca Kfouri

Equipe Ludopédio

 

Juca Kfouri. Por Toni D´Agostinho.

Primeira parte

Corintiano de coração; sociólogo de formação; jornalista de profissão. Como foi a passagem de sociólogo para jornalista (tendo em vista que o corintiano nunca passará…)?

Na verdade, não existiu essa passagem porque a rigor eu nunca fui sociólogo. Quando eu comecei no DEDOC, da Editora Abril, tinha acabado de entrar na faculdade. Iniciada a pós-graduação, fui convidado, para minha surpresa, para chefiar a reportagem da revista Placar. Falei para o Jairo Régis, diretor de redação, “cara, eu nunca fiz uma reportagem”. Ele dizia que precisava do meu senso de organização e “o resto você aprende logo, não vai ter dificuldade”. Mas não dava pra continuar a pós-graduação. Como vocês sabem, a Universidade de São Paulo, uma Universidade Pública, porém de certa maneira elitista, só tem pós-graduação durante o dia. Quando eu trabalhava no DEDOC, a Editora Abril me liberava às terças-feiras para a minha aula de política com o professor Francisco Weffort. Mas na revista seria impossível, porque ela fechava de domingo de madrugada, segunda-feira era folga e abria novamente na terça pelo próprio chefe de reportagem. Então eu tive que decidir e percebi que estava tomado pelo vício do jornalismo.

Quais suas referências com o jornalismo?

Bom, primeiro: eu nunca havia pensando em ser jornalista. Segundo: meu avô por parte materna era jornalista, Luís Amaral. Embora apoiador do Eixo, foi o primeiro repórter a entrevistar o Luis Carlos Prestes, o primeiro repórter a encontrar a Coluna Prestes! Então, alguém pode dizer que está no meu DNA. Bom, não sei, minha intenção era seguir carreira acadêmica e escrever uma tese sobre futebol, de que o futebol era fator de integração e não de alienação, conforme a esquerda na época entendia. Não me passava pela cabeça ser jornalista, mas fui para uma empresa como a Abril. Como dizia Paulo Francis, uma empresa que tem um mérito inegável na história da imprensa brasileira de ter sido a primeira empresa de jornalismo que permitia aos seus funcionários viver só deste emprego, porque em regra o jornalista era aquele cara que era revisor de um jornal de manhã, era repórter de tarde e fechava a primeira página de noite. Eu entrava às 10 da manhã saia às 7 da noite, tinha bom salário, era um ambiente muito legal que também permitia viver com dignidade. A revista Veja existia há dois anos e resistia à ditadura. O DEDOC era um antro de comunistas, de gente militante de organizações clandestinas. Eu era um membro de uma organização clandestina. Quando aparece esse convite de chefiar a reportagem, pensei: “como é que eu vou chefiar uns caras como Michel Lawrence, Carlos Maranhão, José Trajano?”. Ao mesmo tempo, eu tinha confiança de que ali não havia nenhum troglodita e que você conseguia estabelecer uma relação civilizada. Além do mais, eu, primeiro como pesquisador do DEDOC e depois gerente, me dava bem com todos eles. Achei que conseguiria.

Juca Kfouri. Foto: Equipe Ludopédio.


Como era fazer uma pesquisa sobre futebol na USP nesta época?

Vou te contar um episódio, se é que vocês não leram por aí, porque é exemplar sobre isso. Junho de 1970: estou fazendo Ciências Sociais, numa aula com Gabriel Cohn. Ele marca uma prova para quarta-feira. Eu levanto a mão: “Professor, quarta tem Brasil x Romênia, Copa do Mundo”. A classe vaia. O Gabriel disse: “vamos resolver isso no voto, de fato esqueci”. Neste dia eu aprendo que minha classe tinha 21 alunos. Deu 20 x 1 pela manutenção da prova. Porque, diziam, cada gol do Brasil atrasava dez anos da revolução brasileira. Eu saio da classe, pego no braço dele e digo: “professor, eu não venho fazer a prova”. Foi a única vez que o vi irritado: “tudo bem, você faz na sexta!”, disse ele. Abril de 1983, governo Franco Montoro, já eleito pelo povo, final do processo de distensão lenta e gradual do Presidente General Geisel. Sou convidado pelo professor José Sebastião Witter – que havia sido professor da escola de altos estudos da USP e que estava dirigindo o Arquivo do Estado -, para participar de um grupo que estava pensando em fazer uma enciclopédia ilustrada do futebol brasileiro. Eu já era diretor da Placar havia quatro anos. Chego na reunião, e entra na sala Gabriel Cohn. Há anos que eu não o via, e digo: “Mestre, você por aqui?! Ele me aponta o dedo em riste e diz assim: “Você está surpreso, seu viadinho, porque você é tão preconceituoso quanto seus colegas que não me permitiram ver Brasil e Romênia na Copa de 1970. Você sabe que sou uma pessoa distraída, e saiba você que sou tão corintiano ou mais que você. E que não acredito em sociólogo no Brasil que não tenha os fundilhos das calças puídos pelas arquibancadas”. Em seguida ele me diz: “Juca, você se dá conta de que você foi meu aluno por quatro anos, e você nunca veio falar de futebol comigo, como se na academia futebol fosse um assunto proibido? Você compartilhava esse preconceito”. Além disso, o Gabriel foi responsável pela minha escolha pelo jornalismo, porque lembro de um trabalho que fiz sobre Émile Durkheim, cujo titulo era ‘Durkheim conservador’, e gozava dele, coisa de moleque. Ele me deu nove e meio, e escreveu assim: “Juca, brilhante, mas você tem certeza de que quer ser sociólogo? Será que sua vocação não é ser jornalista?”. Isso aconteceu antes do convite da Placar.

Enfim, era tudo verdade. Nunca havia conversado com ele. Não imaginava que poderia falar com ele sobre isso. Minha classe ficou horrorizada. Ninguém sabia o que fazíamos de madrugada, eles me acharam um alienado. E foi pior no ano seguinte, pois teve os Jogos Pan-Americanos em Porto Rico e a final do basquete foi Brasil e Cuba. Mas você imagina dizer pra aqueles malucos que eu ia torcer para o Brasil: “Cara, você tá doido, é o time do comandante!”. “Mas que comandante?! Comandante é para fazer a revolução, no esporte sou brasileiro, torço pro Brasil pô”. E eu reforçava a ideia da minha tese, porque achava e continuo achar que era um equívoco você permitir que a ditadura roubasse as coisas que você tinha de mais íntimo. Quer dizer então que não posso mais me comover quando eu ouço o hino brasileiro? O hino é do Brasil, não é da ditadura; a ditadura o usurpou. Mas era uma coisa tão rígida. Se bem que aquele filme, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias resolve isso. Jogo do Brasil com a Tchecoslováquia. Primeiro, sai o gol da Tchecoslováquia. Tudo bem. Mas quando sai o gol do Brasil, dane-se a Tchecoslováquia, os comunistas. Além do que quando o Petras faz gol e faz o sinal da cruz, que raio de comunista é esse que faz o gol e sai se benzendo?

Você lembra de detalhes deste projeto de mestrado?

Veja bem, não me lembro de detalhes, porque na realidade eu jamais parei pra rabiscá-lo, eu estava começando a pós-graduação quando eu a interrompi. Era somente uma ideia, que já havia sido torpedeada por um cara com quem trabalhei, João Rath, que dizia que a minha tese deveria ser sobre a Revista Diretrizes, uma revista feita pelo Samuel Wainer. Mas não me abalou. Eu ia fazer mesmo sobre futebol. Hoje eu acho muito legal que no Departamento de História da USP tenha uma cadeira que o Hilário [Franco Junior] e o Flavio [de Campos] tocam; no Rio de Janeiro, o [Maurício] Murad fez outra; quer dizer, o futebol de alguma maneira entrou nas universidades. Quando eu estava na faculdade tinha dois ou três livros sobre futebol: O Negro no Futebol Brasileiro e um artigo do Anatol Rosenfeld. Mas ninguém falava de futebol. Para a inteligensia brasileira, futebol era como carnaval, e estas duas manifestações eram consideradas alienantes.


O que mudou em relação às premiações no jornalismo, em especial o Prêmio Esso?

Bom, já não existe mais o Prêmio Esso de reportagem esportiva. Não há mais a categoria segmentada. O que acho é que a imprensa esportiva mudou e mudou à medida que o futebol tem se tornado cada vez mais negócio. Dentro da indústria do entretenimento, uma das mais importantes do mundo capitalista, o esporte ocupa um espaço brutal. Uma coisa interessante mostra as mudanças. A Associação de Jornalistas Esportivos de São Paulo chama-se Associação dos Cronistas Esportivos. Mas não tem nenhum cronista. Não temos mais Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, Lourenço Diaféria. Eu acho do cacete ler Nelson Rodrigues, mas as coisas mudaram. Se eu escrever na minha coluna de amanhã sobre um jogo do Corinthians, que de repente o espírito de Luizinho pairou no Pacaembu e o Corinthians, que era francamente “desfavorito”, passou a dar um baile no Santos, que sentia a orfandade do Rei Pelé etc. Ah, vá te catar, né? Não dá, as pessoas não aceitam. O Torero ainda faz bem, o Xico Sá brinca, mas ele é um cara muito mais de comportamento do que do esporte. Tudo mudou muito, muitas coisas para pior. Uma delas é essa promiscuidade dos meios eletrônicos que impede que se faça jornalismo.

 

Juca Kfouri. Foto: Equipe Ludopédio.


Como foi a montagem da reportagem 50 anos de Pelé?

Foi um dos grandes golpes que dei na minha vida. A Placar tinha morrido. A Abril havia feito a bobagem de substitui-la por uma revista para jovens, a Ação, e um dia me dei conta que precisava manter a Placar viva. Consultei a direção da Abril e para não perdermos o título pensei em lançar uma edição especial que acabou sendo a capa do ‘Pelé 50 anos’. Fizemos e demos sorte. Tiramos 100 mil exemplares. Bom, vendemos tudo e conseguimos o Prêmio Esso. Propus que a gente fizesse outros especiais com a marca Placar e ouço da direção da Abril que aprovaria a ideia, mas que não teria periodicidade. Faço uma proposta para a editora de 12 edições por ano… Vendemos, isso permitiu a Placar sobreviver até o lançamento do projeto Placar ‘Futebol, Sexo e Rock’n Roll’.

Qual a relação do sucesso da Placar com a organização do futebol brasileiro?

A Placar nunca viveu um céu de brigadeiro. Sob a minha direção foram raros os anos em que ela fechou no azul. Para você ter uma ideia, dentre os meus 25 anos de Editora Abril eu só ganhei bônus quatro vezes, durante 1991 e 1995, quando fui editor da Playboy. O Roberto Civita me perguntava se eu achava que a Editora Abril tinha a obrigação de ter uma revista de futebol, e eu dizia que achava que não, mas ao mesmo eu tempo eu sentia que eu tinha a missão de manter a revista funcionando. O problema é que se hoje em dia reclamamos do calendário, nos anos 1980 era uma bagunça bem pior. Além da quantidade de jogos, era comum alguém entrar com uma liminar que anulava a rodada do fim de semana. Agora, por exemplo, tem Corinthians e Palmeiras no domingo, e o Corinthians vence por 5 a 0. A capa da terça seguinte seria “Corinthians arrasador!”. Aí o Corinthians na terça entrava em campo contra o Paulista de Jundiaí e perdia de um a zero. Pronto, aí tinha uma capa que morreu em 24h. Aí na mesma revista tem uma matéria anunciando uma revanche com o São Paulo no fim de semana seguinte, e no meio da semana o Vicente Matheus anunciava que o Corinthians não entraria em campo. Isso culminou em 1990. A par da desgraça da seleção do Lazaroni, o campeão paulista havia sido o Bragantino numa final com o Novorizontino, e Vasco e Botafogo deram a volta olímpica no Rio de Janeiro. A Placar vendia que nem água na semana do campeão. A primeira pergunta que fazíamos nas reuniões era em qual semestre seria o Campeonato Brasileiro? Na Abril, a única revista que tinha duas reuniões de planejamento era a Placar. Uma em tese e outra com dados mais concretos.

Jornalista esportivo no Brasil faz oposição?

Cada vez mais. Sim, houve momentos na minha vida em que me sentia profundamente solitário. Hoje em dia me sinto muito mais confortável quando eu vejo o furo dos outros. Sabe, quando tem uma matéria bombástica sobre o Ricardo Teixeira, logo vem: ‘putz, o Juca de novo’! Agora, se aparece o Manezinho Araújo lá de Belo Horizonte escrevendo: ‘opa! Tem novidade’. Eu penso que a imprensa escrita esportiva está cada vez mais vigilante; a televisiva é ainda muito chapa branca. Acho curioso você pensar que o jornalismo político da Rede Globo é muito mais independente do que o esportivo. A Globo briga com o governo, mas com o Ricardo Teixeira não, com o Carlos Nuzman também não. Por quê? Porque confunde o evento com o jornalismo. Uma coisa é você transmitir os eventos e é óbvio que quando você transmite o evento bota ele para cima. Outra coisa é o jornal que conta como foi o evento; não pode omitir que o fulano de tal está sendo denunciado por isso ou por aquilo só porque você senta com ele pra discutir contratos de exclusividade. Os americanos resolveram isso muito bem. Existe o departamento de Eventos e o de Jornalismo. É aquela coisa da diferença entre liberdade de imprensa e liberdade de empresa. Não tem meio termo. Outro dia, no Linha de Passe, fiquei numa encruzilhada, porque tenho de dizer que eu trabalho numa empresa, a ESPN Brasil que quer transmitir os jogos do Brasileirão na TV fechada; que trabalho na UOL, portal que está concorrendo pelos direitos pela cobertura pela internet; trabalho na CBN, rádio das organizações Globo. Bom, o que eu escrevi na UOL, eu disse na ESPN e na CBN: “o pano de fundo desta discussão é esse…”.

Juca Kfouri. Foto: Equipe Ludopédio.


Tem como fazer essa ‘cultura jornalística’ prosperar?

Sim. A sociedade exige isso. E a internet, nesse sentido, é um achado. Sou contra a obrigação do diploma do jornalismo, por exemplo, mas sou contra em dizer que as faculdades de jornalismo não melhoraram a qualidade das redações. A formação específica ajuda, não atrapalha. Na medida em que se aprofunda a democracia no Brasil, a exigência da sociedade cresce. Vão exigir mais isenção, transparência. Vão exigir que os veículos tenham a grandeza de deixar claro no seu editorial de que lado elas estão, para ajudar a acabar de uma vez com essa história de que jornalista não tem lado. O que não pode é brigar contra a realidade factual. Quando você afirma que apóia o candidato X, você acaba sendo obrigado a fazer uma cobertura honesta do candidato Y. Tem um texto do Renato Janine Ribeiro que mostra – que o Eurico Miranda não nos ouça – que não existe um decálogo da ética, que a ética é uma em tempo de guerra e outra em tempo de paz. As circunstâncias fazem você avaliar situações muitas vezes de maneiras opostas.

Quais são os desafios, para os próximos anos, das políticas editoriais das diferentes mídias para lidar com a principal paixão – o futebol – de um país onde o setor de comunicações caracteriza-se por monopólios políticos e familiares?

A internet está aí para tentar bagunçar este coreto, embora ainda estejamos todos, de alguma maneira, vinculados a grandes grupos e seus portais. A internet só será de fato o instrumento do jornalista independente quando conseguirmos por meio de uma cooperativa ou individualmente fazer com que trinta mil pessoas que queiram ler todos os dias paguem 1 real por mês para ter esse direito. Mas de maneira tal que essa operação seja economicamente viável, ou seja, que a cobrança não seja mais cara que o pagamento. De todo modo, acho que ocorreu uma ampliação de horizontes. Pode ser uma visão otimista da minha parte, mas acho que o aprofundamento da democracia obriga as empresas a ter um certo comportamento. Não por virtude, mas por oportunismo mesmo. Caso contrário, vão se dar mal. Temos ainda por parte dos empresários uma visão pretensamente em defesa da liberdade de imprensa, mas é muito mais em defesa de suas liberdades de empresa. Por exemplo, não admitir a ideia de um controle. Eu não admito a ideia de controle social da imprensa porque qualquer instrumento governamental. Não é o governo que fiscaliza a imprensa, ao contrário, a imprensa fiscaliza o governo. Mas falar que a sociedade não pode controlar… Por que não pode? Seria bom para a imprensa, pois estimula a discussão. Ninguém quer dar o direito de alguém apreender determinado veículo, mas sim de repreender, apontar que está errado ou que exagerou. Eu olho para isso de uma maneira otimista, mais até do que em relação ao porvir do futebol e do esporte. Quem relutar de forma insistente em aceitar que a sociedade está em mutação – neste aspecto, mais exigente -, poderá se dar mal. Em última análise, acho que a sociedade quebra os monopólios. Nesse sentido, uma legislação precisa auxiliar e não permitir que uma grande rede de televisão não tenha uma grande rede de rádio, ao mesmo tempo tenha uma grande rede de jornal ou de revistas etc. Nesse cenário, não há sociedade que aguente.

Qual associação civil (não governamental) teria força para exercer essa fiscalização? A OAB, por exemplo?

Uma associação sindical, uma comunidade dos bairros de tal lugar etc [risos]. Se você organiza a sociedade de uma maneira que ela possa parar para pensar, poderia se formar um grande observatório de mídia, com figuras que a sociedade brasileira respeita. Sejam jornalistas, ou não. Essa é para mim uma das questões postas para que eu seja absolutamente descrente em relação aos Jogos Olímpicos e à Copa do Mundo no Brasil. Diga um brasileiro respeitado pelos brasileiros que esteja nos comitês dos Jogos ou da Copa do Mundo? Não tem. Não estou falando da minha turma. Tem um Antônio Ermírio de Morais? Roberto Setúbal? Veja bem, citei nomes do suprasumo do capitalismo. Não estou falando do reitor da USP ou do presidente da OAB. Por que não o Dom Paulo Evaristo Arns, por exemplo? Será que estas pessoas emprestariam seus nomes para esta comissão? Por que na França, em 1998, o presidente do comitê organizador foi o Michel Platini; na Alemanha, em 2006, foi o Beckenbauer; e aqui é o Ricardo Teixeira? Nós não temos um jogador de nome internacional o suficiente para ser o presidente do comitê? Temos o Pelé, mas não acho o Pelé solução para coisa nenhuma. Já achei e me dei mal. Certamente, há outros. Mas certamente o Pelé tem mais credibilidade que o Ricardo Teixeira.

Por que o Sócrates, o ex-jogador que tinha tudo para ser esse ator político, dentro e fora do universo futebolístico, acabou por não assumir essa posição de liderança?

Porque estamos falando de uma figura que, antes de mais nada, nasceu para ‘ser gauche na vida’, uma figura marginal, sem nenhuma amarra. Poderia ser o Tostão, mas ele não sai da casa dele. É a nossa Greta Garbo [risos]. Poderia ser o Zico, tem perfil para isso. Ele tentou ser, mas ele foi queimado, pois não faz o jogo sujo. O Raí poderia ser. Ele trabalhou seis meses nas divisões de base do São Paulo e disse: “tô fora”. Acho que até errou em sair calado. Saiu pelo o que viu, mas não disse publicamente. O Sócrates diria, mas não deixam ele nem chegar perto. Só que o Sócrates diria numa rodada de cerveja. Além disso, não basta ter só um nome, precisamos de muitos nomes e acho que existem vários no Brasil. Existe, ao mesmo tempo, uma estrutura que tenta abafar e ceifar. Neste aspecto, pagamos o preço de um país pouco educado. Os jogadores brasileiros são submetidos a coisas que os argentinos e uruguaios não são. E olha que estou falando dos nossos vizinhos, e não dos italianos, espanhóis, alemães etc. A Argentina para um campeonato se um time da terceira divisão estiver com salários atrasados. No Brasil, não conseguimos jogar em campos que poderiam ser chamados de gramados.


Essa questão não passa pela pouca representatividade dos ex-jogadores brasileiros na vida política como um todo? Pouco se crê na viabilidade de uma atuação séria e eficiente de deputados como Romário. O que pode ser observado também no caso de artistas, como o humorista Tiririca. Então, acredita-se num Platini na França, mas no Brasil os ex-jogadores sofrem preconceito quando partem para outras funções e trabalhos? Podemos dizer que, no Brasil, essa questão passa também pela definição de que advogados, médicos, jornalistas ou sociólogos são mais capacitados para ocupar cargos políticos do que ex-atletas (salvo raras exceções)?


Trata-se, na verdade, de um problema nacional bem mais amplo, ligado ao nosso passado e herança lusitana, cartorial e bacharelesca. Temos a mania de chamar todo mundo de doutor. As pessoas são tratadas assim. A elite brasileira é toda doutora, mesmo que não esteja mais preparada que um operário, como o nosso ex-presidente Lula, criticado por falar mal a língua portuguesa, ou seja, pelo simples fato de não ser letrado. Aparentemente, ele tinha mais sensibilidade para as coisas essenciais do que todos os doutores que passaram pela cadeira antes dele, apesar de todas as bobagens que ele possa ter feito. Essa popularidade dele é um mero populismo ou um forte poder de comunicação? Não é bem assim. Agora há uma necessidade de mostrar como a Dilma é diferente dele e que os méritos da Dilma são as coisas que a distinguem dele. É uma bobagem.

Em uma entrevista de uns quatro anos atrás, você dizia que os dois maiores problemas do futebol brasileiro eram: a falta de interesse e conhecimento sobre futebol de presidentes e donos de veículos de comunicação. Como, em curto prazo, um líder político e um acionista majoritário de um conglomerado de comunicação podem interferir na organização do futebol brasileiro?

Do Presidente da República, um mínimo de cobrança e não se deixar seduzir por coisas baratas, tal como o Lula se deixou seduzir pelo jogo da seleção no Haiti. O presidente chama seu chefe de gabinete no começo do dia e pergunta: “qual é a agenda de hoje?”; 9h30, presidente do Bradesco (chato!); 10h15, embaixador da Itália apresenta credenciais (putz, que chato); 12h, o rei da soja; 17h, o presidente da CBF com o Ronaldo. ‘Oba, chama os netos, traz as camisas para autografar’. Vou contar um episódio que está em todas as minhas entrevistas. Eu era diretor do sindicato dos jornalistas quando ocorreram as greves no ABC. Fui designado como um dos diretores do sindicato para acompanhar de perto as greves. Nesses anos todos, vira e mexe nos víamos, entrevistava-o, notório corintiano, com camaradagem. Não votei no Lula contra o Fernando Henrique Cardoso. Votei no Lula na eleição contra o José Serra. Ele não sabia disso. O Lula se elegeu e pediu para que eu, 20 dias antes da posse, organizasse um grupo de pessoas para propor uma política esportiva para o Brasil. Juntamos um grupo, fizemos uma proposta e ele fez questão de receber solenemente. José Trajano, Roberto de Freitas, Ana Moser, Paula, Sócrates, Wladimir etc. Uma política de esportes voltada à democratização do acesso á prática esportiva, esporte como fator de inclusão social e outras questões. Não tinha uma linha voltada ao esporte de competição. Esta seria uma tarefa da iniciativa privada, pois o Brasil não tinha que se preocupar em fazer campeões, mas sim se preocupar em incentivar o esporte como prevenção de saúde. Cada dólar investido no esporte poupa três em saúde pública. As duas primeiras leis assinadas pelo Lula foram as duas únicas aprovadas por unanimidade durante o governo FHC: o Estatuto do Torcedor e a chamada Lei de Moralização do Futebol. O Lula assina como suas duas primeiras leis. Toca o telefone. Gilberto Carvalho me pergunta se eu iria prestigiar a assinatura das leis. Falei: “não vou, não gosto de festa”. Ele respondeu: “o presidente gostaria que você viesse”. Chego ao Palácio do Planalto e sou recebido por um rapaz do cerimonial e que me leva ao auditório, entrando pelo palco, para ficar na primeira fila, junto com presidente do Congresso e presidente do Senado. Lula abre o discurso dele falando o seguinte: “Nunca mais vamos ouvir o jornalista Juca Kfouri dizer que no Brasil o torcedor é tratado como gado”. Não sabia onde me enfiar [risos]. Não havia um cartola na plateia. Terminou o discurso dizendo que a presença deste jornalista se justificava como uma homenagem a todos os jornalistas que nestes anos todos foram processados, tiveram credenciais negadas por essa cartolagem que infelicita o nosso esporte. Saí do Palácio do Planalto, peguei um táxi para o aeroporto. Eu esmurrava o ar de alegria e dizia: “ferraram-se”… não era bem isso o que eu dizia [risos]. Pensei: “Ferraram-se. pegaram o corintiano das calças puídas pelas arquibancadas e que sabe bem quem é essa gente”. Seis meses depois, o Lula estava de braços dados com o Ricardo Teixeira. Seis meses!!! Em seguida, deu uma Timemania para aqueles que contraíram dívidas, sem exigir nada de contrapartida, simplesmente deu. Fez tudo ao contrário do que se previa que fizesse.

Juca Kfouri. Foto: Equipe Ludopédio

Juca Kfouri. Foto: Equipe Ludopédio.

Não faz sentido numa cidade como São Paulo, num país como o Brasil, ter o Morumbi (que há 50 anos serve o futebol do mundo) e dizer que esse estádio não serve para receber cinco jogos durante um mês. Pode-se até dizer que não é o estádio ideal, claro que não é, mas estamos na situação de fazer um estádio ideal ou temos que procurar fazer aeroporto ideal, hospital ideal, estrada ideal etc.? A ideia é fazer uma Copa do Mundo da Alemanha no Brasil? Está errado. É um escárnio falar que o Morumbi não serve. Os Estados Unidos não construiu estádios para a Copa. Na França, construíram um estádio. Vamos fazer o Soccer City aqui, tendo o Ellis Park bem ao lado? Serão vários elefantes brancos. Vamos fazer estádio de futebol em Cuiabá, cidade que não tem futebol profissional digno desse nome? Nós vamos fazer os Jogos Olímpicos com as mesmas pessoas que não fizerem os Jogos Pan-Americanos? A grande obra do Pan-Americano foi o Parque Aquático Maria Lenk e que não poderá ser utilizado para as provas de natação dos Jogos de 2016. Pô, que raio de povo é o nosso que aceita isso calado?

Nas Ciências Sociais da USP, fui aluno da Dona Ruth Cardoso e fiz seminário do livro O Capital com o Fernando Henrique Cardoso, meu vizinho aqui da frente. Conversei com o FHC algumas vezes. Eu saía da sala dele e minha sensação era a seguinte: sociologicamente, ele compreendia o tamanho do problema. Mas a pessoa que estava com ele na sala, tão logo eu saísse, ouviria dele: “esse rapaz está maluco. Com FMI batendo na minha porta, você acha que vou pensar no Ricardo Teixeira, no futebol, no Carlos Arthur Nuzman?” Nunca foi a dele. Ele achava que Biro-Biro era uma jogada, que nem a ‘bicicleta’. Não estou caricaturando, ele achava mesmo que era uma jogada, e não um jogador. Pensando nas nossas empresas de comunicação: se for falar com o Roberto Civita, vai perceber que ele não faz a menor ideia. Também não é a praia do Otavio Frias Filho, não gosta. Os Marinho a mesma coisa. Se existe um interesse genuíno, acaba exigindo dos seus veículos uma fiscalização mais cuidadosa. Hoje essa situação é menos dramática.. Até porque hoje sou obrigado a rever meus conceitos e dizer que talvez seja melhor que eles não gostem tanto quanto o Lula, pois o FHC não deu 10% do que o Lula deu para a cartolagem. Nesse aspecto, o FHC fez uma gestão melhor para o esporte do que o Lula. Mas alguém dirá: quem trouxe a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos foi Lula. Foi mesmo (e não o Nuzman ou o Ricardo Teixeira). Foi o Lula, a sua empatia, o único que não falou em inglês no discurso olímpico, foi isso. Ele tem um baita poder de persuasão. Mas eu não sei se os eventos serão bons para o esporte brasileiro. É a chance de fazer anúncio de um mês, com o risco de fazer um mau anúncio. Dinheiro o país não vai ganhar. O ponto a ser discutido é a taxa de felicidade. É um bom cálculo. Um estadista tem que pensar nisso: ‘posso fazer meu país ficar feliz um mês. Posso pagar?’. Mas não sei se isso é sinal de que foi bom para o Brasil. É um cálculo a se fazer. Existe um livro brilhante sobre o assunto: Soccernomics (autores: Simon Kuper e Stefan Szymanski).

Para além de todo o governo Lula, que passa por diversos planos (simbólicos, econômicos, políticos), podemos dizer que o ‘primo pobre’ dos ministérios virou um ‘primo rico’? Criou-se a ‘máquina do esporte’ do PCdoB?

Aparelhada de uma maneira burra e que, tudo indica, pode derrubar o Orlando Silva. O ministro fez questão de ficar, embora a presidenta Dilma quisesse uma nova ministra. Ele tem um ‘telhado de vidro’, meteu o pé pelas mãos o tempo todo. No período do ex-ministro Agnelo Queiroz, até a empresa terceirizada de limpeza do Ministério era controlada pelo PCdoB. Eles criaram, inclusive, um problema na relação com o PT, que tem quadros ótimos na área do esporte. Tem um cara chamado Lino Castellani Filho [professor da Faculdade de Educação Física da UNICAMP] que é brilhante. Ele foi secretário de uma área durante três meses… viu e saiu fora rapidinho. Portanto, não é exatamente uma boa política brigar com seu principal aliado. Não tenha dúvida de que boa parte do que está saindo na imprensa está sendo deliberadamente vazado para fritá-lo.


Mas o PCdoB não sairá? Aparelhou mesmo, virou nicho deles?

Mas o próximo virá com menos sede ao pote. Foi realizado um debate na Folha de S. Paulo e perguntei a ele se o PCdoB fizera um curso de especialização em esporte para ter tanta gente atuando dentro do Estado, das prefeituras etc.

Pelo menos dessa vez ele foi num debate. Em vários ele deu o cano…

Vocês sabem o que ele fez comigo? Teve este evento da Folha de S. Paulo. Quando um jornal convida, e o entrevistado diz que irá, não ir é um grande prejuízo. Mas ele sabe que estamos no Brasil e quando um jornal convida o tratamento é educado. Estava marcado para 45 dias depois um encontro promovido pela The Economist, cujo tema era centrado Brasil e os grandes eventos. Eles me ligaram no começo do ano perguntando se eu topava participar de um debate com o Orlando Silva. Cada um falaria uns sete minutos, depois o moderador faria duas ou três perguntas, o público faria o mesmo número de perguntas e o público votava em quem ganhou o debate. Perguntei a ele no debate da Folha, na saída, se ele iria ao outro debate, ele confirmou. Doze horas antes do debate, o pessoal do The Economist liga perguntando se eu aceitava debater com o segundo homem do ministério. O Orlando Silva não poderia ir, pois Lula o havia chamada para Brasília. Eu disse que não iria. Não teria problema se desde o início o debate fosse com esse nome, mas não nesse caso quando na última hora o ministro envia um substituto. Monitorei o dia seguinte do Orlando Silva. Ele estava no Rio de Janeiro, não tinha reunião em Brasília coisa nenhuma.

Juca Kfouri. Foto: Equipe Ludopédio.

Juca Kfouri. Foto: Equipe Ludopédio

Confira a segunda parte no dia 20 de abril.