05.5

Juliana Cabral

Equipe Ludopédio

Jogadora e capitã da Seleção Brasileira de futebol feminino que recebeu a medalha de prata nos Jogos Olimpícos de 2004, Juliana Cabral (jucabralfut.blogspot.com) hoje atua em outro campo, na televisão, como comentarista de futebol da Rede TV!. Conheça sua trajetória, bastidores do futebol feminino, o cenário atual da prática feminina, entre outros assuntos.

Juliana Cabral é jogadora da seleção feminina de futebol. Foto: Equipe Ludopédio.

 

Primeira parte

Conte um pouco sua trajetória. Como foi seu primeiro contato com o futebol? Quando começou a gostar? Você contou com o apoio familiar?

Bom, na verdade, eu tenho um irmão que é dois anos mais velho. Meu pai foi jogador, ele chegou a jogar no Periquitos do Brás. Ele sempre quis ter um filho jogador de futebol. Meu irmão jogava muito, canhoto, mas não gostava de treinar, esse tipo de coisa. Eu comecei a brincar com o meu irmão. Quer dizer, jogava na escola, voltava para casa jogava futebol com o meu irmão e a minha base toda foi com o meu irmão porque o futebol feminino não tem base. Então, a gente brincava de domínio na coxa, no peito, de chute a gol, 3 dentro 3 fora. Meu pai começou a ver que eu tinha jeito para a coisa. Minha mãe não suportava, de jeito nenhum. Os meninos vinham me chamar em casa e minha mãe começou a proibir de descer para jogar. Meu irmão me levava junto e falava: “quando a gente chegar em casa eu invento alguma coisa”. A minha mãe falava: “se você voltar suada você vai levar um coro, vai apanhar!”. Toda vez que chegava, minha mãe já pronta para bater e meu irmão falava: “mãe, você não sabe que no futebol tem juiz, alguém precisa apitar e ela apita e precisa correr também”. Eu fui levando assim até um dia que a minha mãe viu que não tinha jeito.


Isso aqui em São Paulo?

Isso aqui em São Paulo, aqui no Butantã. Um cunhado meu na época viu uma reportagem no jornal sobre a Milene Domingues (por coincidência hoje a gente trabalha juntas), que tinha um teste para um time de modelos. Na época eles citavam que era um time do Corinthians, era salão ainda. Minha mãe falou: “bom, então, vou te levar”. Levou, passei e aí começou. Flashbook era um time da agência de modelos, aí depois juntou com o SAAD que foi um time pioneiro no futebol feminino junto com o Radar. No SAAD, a gente começou a jogar, jogava campo, salão, surgiu a primeira oportunidade na seleção com 15 anos. Acabei perdendo a minha mãe por uma doença séria. Acho que foi um refúgio tanto pra mim quanto pro meu pai. Porque nós somos em quatro em casa, três meninas e um irmão e o meu pai praticamente apostou todas as fichas, me incentivou muito. Acho que eu cheguei até onde cheguei, na realidade, por esse incentivo e apoio do meu pai que sempre esteve por perto.


Você jogava em diferentes espaços? Jogava futsal?

Tudo. Bom, antes de começar a treinar mesmo, a ter um time, eu jogava na rua, jogava no quintal de casa, na escola, qualquer espaço que tinha. Com latinha amassada, com tampinha de garrafa, o que tinha a gente chutava. Depois que eu comecei a jogar salão e campo. Naquela minha época era muito mais o salão, ainda não tinha muitos soçaites. Nós jogávamos mais salão e campo.


Nesses espaços ainda era misto ou era somente você na maioria das vezes?

Na maioria das vezes, antes de entrar para esse time feminino, era só eu de menina. Acho que a maioria das meninas que começaram foram mais longe. Conseguiram ter esse contato um pouco mais forte porque como no feminino não tem base, então, normalmente é mais difícil para a menina. E você jogando com menino, quer dizer, o menino já é mais forte, mais habilidoso. Então te requer, te solicita várias coisas e durante o tempo inteiro. Minha infância inteira só com os meninos. Raramente eu jogava com as meninas. No futebol na escola, campeonato era com as meninas, mas aí se sobressaía demais aí o professor normalmente me jogava para os meninos. Sempre foi assim.


Nessa passagem pelo Flashbook e SAAD, quando é o momento que você olha e percebe que se tornou profissional?

Foi no SAAD. No SAAD porque a sede era em Indaiatuba. Eu já tive que sair da minha casa, eu já fui morar na sede do clube e ali a gente treinava de manhã e de tarde. Já era uma coisa mais profissional. Sendo muito nova já comecei a receber para fazer aquilo. Uma das exigências do meu pai era que eu continuasse a estudar. Então, a gente ainda estudava. Era um bairro afastado do centro de Indaiatuba. Então, é como se a gente estudava no meio do mato. Mas a gente estudava. Tinha a escolinha e foi isso. Acho que foi uma época boa. Na verdade eu acho que demorou muito a cair a ficha que eu era profissional porque quando eu comecei realmente a me tornar profissional eu comecei a jogar com aquelas meninas que eu achava o máximo, que eu assistia na televisão, que eu me espelhava, que quando eu ia treinar num time que eu não tinha nada, que eu não era nada, era naquela menina que eu me espelhava em ser e um dia, quem sabe, jogar contra ela. Então demorou um pouco porque logo que eu fui pro SAAD, isso foi em 95 ou 96, eu já tive contato com as meninas das Olimpíadas de Atlanta: Sissi, Formiga, Elaine, que eu admiro demais da conta, a Maranhão que foi durante muitos anos dupla de zaga comigo na seleção, a Roseli. Eu tenho até hoje guardado um meião da Roseli. Naquela época eles faziam muito seleção paulista contra seleção brasileira, faziam um catado das meninas, a maioria meninas do SAAD e nunca me esqueço de ficar uma hora no vestiário esperando o meião que a Roseli fosse me dar. Então, na verdade, demorou por causa disso porque muito cedo eu comecei a conviver com essas meninas. Mas sem dúvida nenhuma foi no SAAD. O SAAD me deu a base de tudo.

Juliana Cabral recebeu a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 2004. Foto: Equipe Ludopédio.

Isso foi em 95-96 e pouco tempo depois você já estava na seleção brasileira. Como foi essa passagem?

Antigamente, eu acho que era diferente porque o SAAD naquela época era o que tomava conta da seleção feminina. O Romeu Castro era o que tomava conta da seleção juntamente com a CBF, mas a sede já ficava em Indaiatuba por causa de estrutura, de uma série de coisas. O técnico do SAAD já era o treinador da seleção, era o senhor Zé Duarte. Convivíamos com tudo aquilo ali muito de perto. E eu cheguei, por exemplo, na seleção principal com 15 anos. Com a seleção disputei um amistoso na Holanda sub-17. Era muito diferente. Essa convivência com essas jogadoras mais velhas, mas experientes tanto em termos físicos como em termos psicológicos, era tudo muito diferente porque eu ainda era uma menina com 15 anos. Perdi a mãe muito cedo, morava longe dos meus pais e a maioria das outras meninas era assim também. Então, foi uma fase difícil, mas naquela época era o sonho. Eu digo naquela época porque hoje independente das dificuldades que se tem, acho que hoje é um pouco mais fácil. Você tem três categorias. Apesar de ainda ter muita coisa errada, mas eu acho que é um pouco mais fácil do que naquela época porque todo mundo ganhava muito pouco, quase não ganhava. Era uma dificuldade muito grande. Mas ao mesmo tempo foi tudo muito especial. Você poder, às vezes, dividir quarto com aquelas meninas, você escutava muitas histórias e fora o seu Zé Duarte. Seu Zé foi um grande pai para todo mundo. Um cara que nunca tinha chutado na vida uma bola, mas que entendia muito de futebol, ele treinava como nunca. Então, eu também aprendi muito com ele. Foi meio que um pai-técnico durão, mas um cara que sempre estava ali atento a tudo. Quando ele via que você perdia o foco ele estava em cima e te chamava para dentro de novo.


E não tinha nenhuma resistência em relação a isso? Pelo fato dele não ter sido do futebol. Porque o mundo do futebol gosta muito disso: eu joguei agora eu posso ensinar. Como isso aconteceu nesse caso?

Na verdade pelo currículo dele. Ponte Preta, Guarani, com muitas coisas, sempre foi muito conhecido. E no futebol feminino quando ele assumiu foi quando a seleção começou. Então, quer dizer, foi para Atlanta desacreditada e aí veio em quarta colocada, com vitórias em cima de Suécia que até então naquela época, a Suécia era a potência da potência do futebol feminino. E dentro das meninas, ali no nosso grupo todo mundo gostava muito dele. Tinham um carinho muito especial. Eu me lembro da Katia Cilene e da Formiga fazerem brincadeiras com ele como se fossem filhas mesmo. A aceitação dele era muito boa. E o treino dele era muito bom. A gente cansa de ver o cara profissional errando passe de dois metros e naquela época a gente fazia muito paredão. Ninguém gostava, era uma coisa chata. Mas dá-lhe paredão. Treino tático que também, depois que o Renê assumiu a seleção, mudou um pouco, mas eu acho que o feminino aprendeu muito com seu Zé. Ele foi o primeiro técnico a implantar certas coisas. Por exemplo, eu lembro que nos meus times a gente não tinha treino tático. Entra e joga. Ele não. Claro, já era um técnico profissional vindo do masculino, mas já tinha mais esse profissionalismo do masculino. Então, acho que por isso ele sempre foi muito respeitado pelas meninas.


Como foi essa passagem do Zé Duarte para a Renê Simões?

Mudou tudo com a Renê. Primeiro que eu acho que eram filosofias completamente diferentes. Eu costumo dizer que tem o futebol feminino antes do Renê Simões e o futebol feminino pós Renê Simões. Por quê? Eu falo isso taticamente, entre outras coisas. O Renê sempre procurou trabalhar muito o psicológico. Antes do Renê assumir a gente tinha muito problema de vaidade, de fofoca, uma série de coisas que num grupo normal já tem. E quando o Renê assumiu procurou modificar muito isso, porque ele via que era muito pesado o clima em relação a essas coisas. E taticamente eu acho que a nossa seleção e o futebol feminino era muito estático. Eu tenho o meu quadrado, a volante tinha o quadrado dela, a meia tinha o quadrado dela e assim ia. Quando o Renê assumiu a seleção ele colocou triangulações, ocupações de espaços, uma coisa completamente diferente, que a gente não tinha. Então, acho que isso também fez muita diferença no Renê e faz o marco dessa história. Fora toda a comissão técnica que ele teve. A gente tinha fisiologista, auxiliar técnico, um treinador para defesa, treinador pro ataque, a gente tinha psicóloga, nutricionista, acompanhamento diário da condição física, do problema de gordura. Foi um marco realmente no futebol feminino. Acho que foi a primeira vez realmente que nós tivemos uma estrutura totalmente profissional. Mesmo com todas as dificuldades porque naquela época o Renê pediu vários jogos amistosos, que isso é ainda muito importante e que nós não temos, e mesmo ele não sendo solicitado ele buscou o masculino. Nosso treinamento naquela seleção olímpica primeira, que conquistou a primeira medalha de prata foi toda com o masculino. Nós fazíamos amistosos com sub-15, sub-17 e isso ajudou muito porque é basicamente o que a gente encontra lá fora em termos de estrutura física.


Um dos principais problemas da seleção brasileira, principalmente frente às demais seleções, é a falta de preparação para as competições e o curto tempo de preparação?

Sem dúvida. Isso faz muita diferença. Por exemplo: tivemos alguns anos nos quais a maioria das nossas jogadoras estava jogando fora do Brasil. O que permite ter contato com outras jogadoras, joga-se o tempo inteiro, a preparação física é melhor etc. Aqui temos de vez em quando alguns jogos amistosos, na maioria das vezes contra times do Rio de Janeiro, contra times mais fracos que pouco oferecem resistência para a Seleção. Outra coisa que faz diferença: fora do Brasil o treinamento é por ciclos. Terminou os Jogos Olímpicos de 2004, a maioria das seleções já está se preparando para as Olimpíadas de 2008. Dentro desse ciclo, temos Jogos Pan-Americanos, Mundial, diversos torneios etc. A Seleção Brasileira feminina voltou agora do mundial e só vai retomar as atividades para se preparar para o Pan-Americano em outubro. Treina-se alguns meses antes da competição; reúne-se a equipe, treina 15 dias e libera; depois reúne novamente, treina 15 dias e libera. Na preparação dos Jogos Olímpicos de 2004, nós treinamos seis meses. Eram 25 dias de trabalho e cinco de descanso para visitar a família, e em seguida regressar para mais 25 dias. Havia o controle de gordura, da hidratação etc. Fora do Brasil existem campeonatos fortes. A maioria das jogadoras da seleção alemã joga pela equipes da Liga alemã. A seleção norte-americana tem uma liga profissional que, embora esteja capengando (com diminuição de equipes a cada ano), ainda continua forte, com a presença de jogadoras de diversos países. Fora a frequente disputa de amistosos. Uma menina que sobe para seleção principal dos Estados Unidos já disputou inúmeros amistosos. Nesta seleção brasileira que disputou o Mundial de 2011, tínhamos duas meninas com dezoito anos que só tinham disputado o Sul-Americano. Podemos até fazer amistosos com a Argentina, pois a rivalidade é muito grande, mas eles têm outra estrutura e condições físicas e de jogo muito diferentes. Não vale a pena fazer sempre esse tipo de amistoso. Fazem ainda amistosos com seleções regionais. Infelizmente, essa estrutura e esse planejamento ainda são ruins, precários. Temos que reconhecer que a CBF oferece uma boa estrutura. Temos a Granja Comary, boa alimentação, bons campos de treinamento, academia, fisioterapia etc.; mas esse é o mínimo que eles podem dar. O dever deles é oferecer esse básico. Antigamente disputávamos alguns torneios. Na minha época, disputei três ou quatro torneios, inclusive nos Estados Unidos, contra várias seleções. Hoje o Brasil não disputa nada, só Jogos Olímpicos, Mundial e Pan-Americano. Isso é triste porque a nossa seleção é muito boa, não é só a Marta que joga. Temos reposições. Mas não adianta querer repor se eu não treino a menina, se ela nunca disputou campeonato, e vai direto disputar um Mundial. Não adianta. No futebol masculino estamos vendo agora Neymar e Ganso tendo que substituir uma geração anterior. Se isso não acontece fácil no masculino, também não acontece no feminino.

Juliana Cabral foi capitã da seleção feminina de futebol. Foto: Equipe Ludopédio.

Você comentou que não temos categorias de base no futebol feminino brasileiro. O processo de seleção das jogadoras da seleção brasileira fica, por conta disso, muito centralizado em três ou quatro equipes?

Isso é difícil. Hoje temos muitas equipes. No Campeonato Paulista, por exemplo, acredito que sejam 19 equipes, divididas em duas chaves: cidades do interior e São Paulo (mais cidades próximas). Nessa segunda chave, temos cinco ou seis equipes disputando quatro vagas. Na outra chave, temos duas equipes muito boas. Se você pegar a estrutura destas equipes, destaca-se o Santos. Embora tenha estrutura e patrocínio. É muito difícil para o clube manter, pois tem pouco retorno. O que é incrível, pois envolve uma paixão nacional, o futebol, e outra paixão nacional, a mulher. E mesmo assim não conseguimos fazer isso dar liga. Isso requer tempo. Não foi assim com nenhuma modalidade. Aqui temos o Santos, que apresenta uma boa estrutura. Temos a equipe do Centro Olímpico, com uma boa estrutura, utilizada pelas jogadoras e por atletas olímpicos. A Portuguesa tem uma equipe, mas vem cambaleando. O Juventus tem uma equipe, mas muito inconstante. Assim, a maioria das jogadoras prefere atuar pelo Santos, pois ali conseguem ganhar um pouco mais, conseguem bolsa-atleta etc.


Mas existe um trabalho de acompanhamento de outros centros?

Esqueci de falar do São José, que vem desenvolvendo um trabalho há muitos anos. Fui até lá fazer uma matéria com a Bagé, que retornou da Seleção, e vi que as jogadoras dispõem de uma academia, alojamento etc., uma estrutura simples, básica e boa para trabalhar. Mas a maioria dos clubes não tem. É difícil, muitos deles são bancados por prefeituras.


São clubes que disputam os jogos regionais, os Jogos Abertos do Interior?

Isso. Posso estar enganada, mas acho que o futebol feminino existiu durante muito tempo por causa dos jogos regionais e dos Jogos Abertos. Isso conta muito para as cidades, então as prefeituras mantêm as equipes. Os resultados da Seleção Brasileira também pressionam a Federação Paulista de Futebol a fazer alguma coisa. Quando comecei, a FPF dava um auxílio para os clubes grandes e pequenos. Hoje isso não dá quase nada. A CBF prometeu uma liga profissional em 2004, mas até agora nada.


As ligas universitárias podem ser uma possibilidade para o futebol feminino?

Seria uma coisa boa. Temos que nos espelhar em bons exemplos. Nos Estados Unidos existe uma liga universitária muito boa e que inclusive já disputei. Aqui no Brasil é complicado. Temos poucas meninas estudando e é difícil arranjar parceiros. Na minha opinião, se não tiver um clube grande por trás, você não conseguirá trazer torcedores, identificação etc. Eu também não acho que o clube grande tenha que bancar o futebol feminino. Não é por aí. Mas acho que essa marca tem que estar aliada a uma prefeitura, por exemplo. Essa marca cederia pouca coisa. 1% já ajudaria muito. Poderiam ceder uma estrutura básica. Poderíamos ter, por exemplo, São Judas Tadeu/São José. 3.000 pessoas no futebol feminino é um estádio lotado. Acho que ainda falta uma organização. Pessoas que realmente queiram trabalhar com futebol feminino. Fazer o que fizeram com o vôlei, por exemplo.


Um fator decisivo para a ausência de mudanças estruturais é o fato do sistema brasileiro de gerenciamento do futebol pouca diferenciar as modalidades masculina e feminina? Por exemplo, a Lei Pelé arbitra para ambos, feminino e masculino.

Acho que não existe comparações. O futebol feminino não precisa ser tão ganancioso quanto o futebol masculino. Mas não temos como diferenciar em duas modalidades. É a mesma modalidade. O que não podemos comparar é a questão física, de estrutura e de dinheiro. Por exemplo. Eu não entendo de leis, nunca me interessou, mas agora devido à minha profissão tenho procurado saber mais. Dentro da Lei Pelé não existe uma divisão masculino/feminino. Existe uma separação de práticas: lazer, profissional e estudantil O futebol masculino entra na prática profissional e o futebol feminino não entra na prática profissional. O futebol feminino não entra na profissional. Por quê? As jogadoras treinam de manhã e de tarde, de segunda à sexta, jogam de sábado e domingo, não tem feriado. É tudo igual. Até o nome BID tem. Se não estiver com o nome lá, não joga. Isso já precisaria ser organizado, com o futebol feminino sendo considerado profissional. Se uma jogadora está num clube, ela tem que ter um contrato. O que acontece? Se eu vejo a Lei Pelé, posso me considerar uma profissional. Mas vai que o clube depois de um tempo decida parar com a prática e encerrar as atividades das jogadoras. A maioria das meninas pode processar esse clube. Muitas não estudam, pois acham que o futebol pode levar a uma situação financeira boa, tal como no masculino. Mas não é o que acontece. Se ela ganha R$500,00, grande parte disso será usado para ajudar a família. O clube faz e desfaz, usa e abusa das meninas, promete mil e uma coisas, e as jogadoras não estão protegidas por nada. Trabalhei 16 com futebol e tenho só 4 anos de carteira assinada, na época que joguei pelo São Paulo. Eles são tão profissionais que nos registraram como monitoras de futebol, pois não podiam nos registrar como atletas profissionais. É meu registro na carteira. O São Paulo fez porque quis, é um clube organizado. Acho que no futebol feminino tudo é ‘levado nas coxas’.


Com base nisso, quais foram as principais diferenças que você pode observar entre o cenário brasileiro e o de outros países (como Suécia e EUA)? Como foi a experiência de jogar na Suécia (pelo Kopaberg Goutemburg)?

Na Suécia existiam equipes profissionais. A maioria das jogadoras não vivia disso. Muitas estudam, querem fazer outra coisa e o futebol é um lazer. Então, lá tem equipes muito profissionais. A equipe da Marta era patrocinada por uma marca de carros, cada jogadora recebia um carro da empresa, com a bandeira do seu país; jogavam e treinavam num centro de treinamento só delas. Tudo muito profissional. Por isso que não dá para diferenciar o futebol feminino do masculino. Numa época, o Renê deu a ideia de diminuir o campo, adaptar para o futebol feminino. No vôlei, a altura da rede é diferente. No basquete o peso da bola é diferente. Mas como vamos fazer isso no feminino? Vamos diminuir os campos? Ninguém vai fazer isso pelo futebol feminino. Ninguém quer.

Juliana Cabral atua como comentarista de futebol na televisão. Foto: Equipe Ludopédio.

Presume-se então existem algumas diferenças? Há uma dificuldade do futebol feminino em jogar seguindo as regras e espaços utilizados no futebol masculino?

Sem dúvida. Por exemplo. O peso da bola não pode ser o mesmo. A força do homem é diferente da força da mulher. Não seria interessante reduzir a altura das traves? A maioria das goleiras não tem 1.80m. Mas não é uma coisa fácil de fazer. Será que se as traves fossem menores haveria tanto gol no futebol feminino? Se você olha para o Campeonato Paulista agora, vê que tem time que toma 25 gols. O gol é o grande momento do futebol, mas é chato de ver. Se não fazem essas adaptações, outros tipos de adaptação têm que ser feitos nas atletas. Falou-se muito em reduzir o tempo. Eu não tinha dificuldade em relação ao tempo quando jogava. O ritmo do jogo da mulher é diferente. Depende da condição física da jogadora. Uma vai aguentar, outra não. Utilizaram os índices da Marta para fazer uma comemoração e descobriram que ela chega quase à mesma potência de um jogador masculino. Por quê? Porque foi treinada.


Você acha que o jogo feminino mudou muito nos últimos 10 anos? A dinâmica das partidas tem se aproximado da vista no futebol masculino?

O futebol feminino sempre foi um jogo mais técnico, mais lento. Nesse mundial de 2011, porém, já foi possível observar uma dinâmica mais forte. Mas isso podemos ver nos jogos das grandes seleções. Talvez isso não seja encontrado nos jogos do Campeonato Paulista. Temos que olhar para as coisas. Trazendo a Marta para jogar aqui, percebe-se que ela atropela todo mundo, por causa da condição física dela. Será que se a Marta tivesse ficado no Brasil ela teria essa condição física? Acho que não. Mas não só porque lá eles treinam de forma diferente. Mas também por causa das preocupações, da estrutura, dos profissionais, pessoas capacitadas, como temos na Seleção Brasileira.


Na época da seleção, vocês, enquanto atletas, reivindicavam alguma coisa perante a instituição?

Isso é complicado. Sempre tentamos reivindicar coisas melhores. Mas a estrutura disponível era aquela, não podíamos ficar reclamando. Dentro do clube, muitas vezes escutava dizerem “olha, vamos começar o trabalho sem dinheiro. Mas vocês sabem, conforme as coisas forem acontecendo…”. O pensamento de quem dirige sempre foi: “O que vocês têm aqui já está bom. Se quiserem mais, não tem e acabou”. A ideia era essa: conviva com aquilo que você tem, se não vai ficar sem aquilo o que você quer. Eu tenho certeza que nenhuma das meninas deixaria de jogar pela seleção. Estar dentro da seleção e disputar uma grande competição é uma maneira de conseguir voltar ao seu país e reivindicar algo melhor. O que acontece antes ninguém fala. Depois que ganha, todos começam a falar. Por isso acho que tudo teria que estar em lei. Se o clube mão fez x, ele está errado. Acho as nossas meninas muito superiores que as outras seleções. Mas não dá para competir contra uma menina que treina em outras e melhores condições.

Confira a segunda parte da entrevista em 21/09/2011.