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Katia Rubio (parte 2)

Equipe Ludopédio

Katia Rubio é multidisciplinar. Se fosse atleta olímpica, não faria feio frente a Michael Phelps: receberia inúmeras medalhas, uma para cada área de atuação. Recebeu, em junho de 2010, a Medalha do Mérito Esportivo. Bacharel em Jornalismo e em Psicologia, posteriormente Katia fez mestrado em Educação Física pela EEFE-USP (1998), doutorado em Educação pela FE-USP (2001) e pós-doutorado em Psicologia Social na Universidade Autônoma de Barcelona (2004). Atualmente, é professora da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP), onde coordena o Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano, procurando pesquisar, entre outros temas, questões ligadas à Psicologia do Esporte, ao Olimpismo, políticas de esporte etc..

Katia Rubio é coordenadora do Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano. Foto: Equipe Ludopédio.

 

 

Segunda parte

Já que falou sobre a atuação de ex-atletas na política, vale perguntar: está otimista com o Romário atuando como deputado federal?

Tenho visto o Romário fazer um exercício, uma busca por essas assessorias. Ele tem ideia do próprio limite. Mas ele é muito esperto. Está cercado de pessoas que estão em busca das ferramentas e da munição que ele precisa para ter sucesso nessa nova carreira. Ele tem se cercado de alguns cuidados que o faz buscar essas informações. Ele está construindo essa identidade. Mas vejo que ainda é preciso tempo, é cedo para julgá-lo. Assim como Danrlei, Bebeto. Eles estão ainda num primeiro mandato e a eleição deles é muito recente para fazer uma avaliação. Mas pelo movimento que tenho observado, especificamente o Romário, ele tem se mostrado tão habilidoso dentro do Congresso como ele era em algumas situações quando ainda jogava.


Essa é uma avaliação geral, que pode ser estendida aos vereadores/ex-atletas em São Paulo ou àqueles que ocuparam cargos dentro dos governos, como ‘Magic’ Paula?

Eu vejo que é possível generalizar essa condição. Vejo, principalmente no cenário dos ex-atletas olímpicos que, não muito diferente do futebol, poucos se prepararam para a condição de pós-atleta. Penso que duas coisas se combinam. Uma, é a preparação formal do ponto de vista da escolaridade. Mas há uma outra questão que é de ordem moral. São os valores que o sujeito carrega de sua vida, que vão fazê-lo ser uma boa pessoa ou não. Pode ter todo o estudo do mundo, mas dependendo do valor moral que ele carrega, ele vai ser tão, mais ou nada corrupto. A Paula, por exemplo, foi buscar uma formação e ela quer ser reconhecida como uma gestora do esporte que fez a diferença no esporte olímpico. Ela foi estudar na Fundação Getúlio Vargas, foi em busca de capacitação, e agora determina padrões na gestão em que ela está implicada porque ela tem valor. Ela não quer estar associada a figuras e estruturas corrompidas. Ela quer fazer a diferença na gestão do esporte tanto quanto ela fez diferença na condição de atleta. Assim como ela, o Joaquim Cruz, Patrícia Medrado, Raí, pessoas que mais do que atletas de destaque em suas modalidades, são pessoas com compromisso social. O que significa ter compromisso social? Estar envolvido com a construção de um esporte e de uma sociedade distinta dessa que se pauta na lei do mais forte. Entendem o esporte como uma forma de transformação. Curiosamente, o esporte deu pouca visibilidade para essa forma agir. São pessoas que foram buscar ao longo de suas vidas aquilo que as faz hoje serem diferentes. Pensam o mundo e o esporte de forma diferente.


A Patrícia Amorim apresenta uma trajetória bem sucedida?

Não conheço a Patrícia Amorim, não tive a oportunidade de entrevistá-la ainda. O fato de ela ser presidente do Flamengo não pressupõe que ela seja bem sucedida. Não entendo que estar no topo das instituições seja prova de uma boa gestão ou de competência. Sabemos que o jogo político é muito maior e muito mais forte do que podemos imaginar. Hoje, os clubes envolvem mais do que práticas esportivas. Não fosse isso, atletas não se elegeriam a cargos eletivos, tal como têm sido eleitos. A Patrícia por ser uma mulher presidente de um clube de futebol talvez entre para a história por essa condição. Embora a Marlene Matheus tenha sido também presidente do Corinthians, numa época em que ninguém falava de mulher associada ao futebol. Ela era esposa do Vicente Matheus. Isso prova o quando jogo político dentro das instituições esportivas é intenso. Não sei se chegar à presidência é prova de sucesso. Eu direi que ela foi uma presidente bem sucedida quando daqui a alguns anos eu observar que não só o futebol do Flamengo foi bem, como também o remo, a ginástica olímpica etc., ou seja, saber que as demais modalidades desenvolvidas dentro do Flamengo receberam o mesmo apoio e o mesmo cuidado que o futebol recebeu, afinal o clube não é apenas um centro de desenvolvimento do futebol. Saber que se empenhou tanto para contratar e desenvolver as demais modalidades quanto ela se mobilizou para contratar o Ronaldinho Gaúcho.

Katia Rubio é uma profissional multidisciplinar. Foto: Equipe Ludopédio.

Conte-nos o andamento da sua pesquisa atual: “Memórias olímpicas por atletas olímpicos”. Das dificuldades e das conquistas até o momento.

A pesquisa que eu faço hoje nasceu há dez anos. Depois de ter entrevistado todos os medalhistas olímpicos, eu comecei a observar que tão importante quando conhecer o perfil dos vencedores era conhecer o perfil daqueles que não chegaram a conquistar medalhas olímpicas e que nem por isso são perdedores (temos que entender a diferença entre a derrota e a não medalha). Isso levou a esse projeto, que é o registro da trajetória de todos aqueles brasileiros que foram aos Jogos Olímpicos. A maior dificuldade é acessar esses atletas, porque muitos não entendem a importância do resgate da memória ou muitos não entendem a importância da leitura do esporte brasileiro pela ótica do atleta. Até hoje, temos a história do esporte contada pelas instituições. Pela primeira vez, damos voz ao atleta para que ele conte a história do esporte olímpico brasileiro por meio da sua própria história. Isso é muito curioso. Sabemos que a história é sempre contada por aqueles que ganharam a guerra e nunca por aqueles que perderam a guerra. Hoje estamos indo em busca de todos esses atletas. É interessante observar que se por um lado temos aqueles que abrem seus arquivos, acervos e corações, há aqueles que fazem isso de forma absolutamente burocrática por não entenderam a dimensão do seu próprio papel para o esporte brasileiro. Reforçando uma ideia de que o atleta é um sujeito obtuso e alienado; por outro lado, temos tido acesso a informações muito preciosas que nos remetem à especificidade do esporte no Brasil: um esporte de origem oligárquica, de elite, onde poucos conseguiram romper essas barreiras e aqueles que romperam pagaram um preço muito alto para chegar nisso. Vão se revelando elementos de análise dos quais não tínhamos ideia no princípio. Por exemplo: as questões raciais que estão aparecendo com muita força, a discriminação mais por raça e menos por gênero, as questões relacionadas às instituições formadoras, a transição de carreira etc. Algumas modalidades e espaços aparecem como um celeiro de atletas, como é o caso judô e o SESI. Muitos atletas iniciaram suas carreiras no SESI e não tínhamos noção disso. Pelo que eu soube recentemente, por meio de colegas estrangeiros que estão acompanhando a pesquisa, esse projeto nunca foi feito em outros países. É ambicioso? Queremos pegar todos os atletas? Sim, queremos todos. É trabalhoso, e muitas vezes estafante, mas acumulamos 10 anos de trabalho, o que não é pouco. Na semana passada consegui entrevistar o Rodrigo Pessoa. Fazia 7 anos que eu tentava essa entrevista, e agora está pronta. Temos visto coisas curiosas. A geração do amadorismo carrega traços muito distintos da geração profissional. O que movia o sujeito que praticou esporte até 1970 a ir aos Jogos Olímpicos era a ideia de ser herói. Ninguém ganhava nada para isso, ao contrário, o sujeito pagava para isso. Quando do dinheiro entrou nessa relação, algumas coisas se transformam radicalmente. O atleta passou a treinar e competir visando um ganho material, financeiro. Isso alterou inclusive a relação com o doping. Em que momento entrou o doping? Não é só para ganhar, mas sim para deixar de perder: perder patrocínio, perder visibilidade etc. No caso do esporte brasileiro, se olharmos para os gráficos, observamos as duas modalidades com maior número de participantes: o futebol e o atletismo. O que marca o atletismo no Brasil? Um grupo de pessoas cuja origem se relaciona com as condições do esporte: uma modalidade que não precisa de nada, na qual a maioria é de afro-descendentes, vindos de condições em que faltam bem materiais, mas sobra estrutura moral. Nessa modalidade, especificamente, o episódio do amadorismo/profissionalismo é muito presente e marcante. Temos no Adhemar, Nelson Prudêncio e Joaquim Cruz, por exemplo, pessoas de origens muito humilde, mas conseguiram transcender, por meio do esporte, mesmo num momento em que quase nada se ganhava para competir. Quando olhamos para a geração profissional, vemos sujeitos construindo modelos de identidade muito próximos do que são os atletas do futebol. Cada um quer comprar o seu carro, se cercar de símbolos de sucesso, sem que isso represente boa gestão da carreira e uma transição planejada. E quando chega o final da carreira o atleta deprime e se desorganiza, não sabe para onde ir. Alguns deles chegaram a ganhar bastante dinheiro, mas não souberam se organizar para ter uma vida digna depois que a vida competitiva se encerrasse.


Quais os paralelos possíveis de serem traçados com as outras pesquisas com medalhistas e as atletas mulheres?

Aquilo que mais me mobiliza hoje no desenvolvimento dessa pesquisa é o quanto para mim está claro a questão do ser preparado para a vitória e para a derrota. Durante muitos anos dentro da Educação Física eu ouvi o discurso de que o esporte excluiu porque promove a competição e só dá chances para os mais habilidosos. Estou intrigada com essa questão. O tema competição está posto em qualquer carreira profissional. Para se tornar professor da USP é necessário se prestar um concurso. O que é um concurso? É uma competição. Se for disputar uma vaga de emprego com alguém, o que vai ser exigido? Que você seja melhor que o outro, pois só há uma vaga para contratação. Por que só sobre o esporte recai o estigma da competição? Por que o esporte carrega isso? O que eu observo no discurso dos medalhistas é que todos eles, do mais humilde ao mais privilegiado, foram aos Jogos Olímpicos para fazer a diferença, para ser o melhor, sendo pobre ou não. Existe uma construção para a vitória que está posta na história de vida desses atletas, seja por conta do ambiente familiar, de um técnico especial, ou por determinação própria. Esses atletas foram para a competição acreditando que poderiam fazer a diferença. Houve caso relatado por atletas de que o dirigente chegou ao vestiário durante a disputa por ouro e falou: “valeu, você já fez o seu nome, já conseguiu”, como se a prata já fosse suficiente. A construção de um espírito vitorioso é cultural, e não apenas do âmbito do esporte. É preciso educar para competir e ganhar, para ser melhor, não contra alguém, mas por si próprio. Quando eu abro os jornais e vejo, por exemplo, notícias a respeito da preocupação dos nossos governantes para o melhor desempenho dos nossos alunos de colégio em relação à matemática, química, física etc, é porque se sabe que é preciso melhorar nessas disciplinas, porque as ciências duras no Brasil vão mal, pois nossos alunos não gostam disso. Embora nós sejamos estimulados a sermos bons em matemática, química e física, a participar de Olimpíadas, nos falta modelo para sermos competitivos. Quando pego o discurso dos atletas não medalhistas, observo que há sempre uma justificativa para dizer porque perderam: “faltou condição”, “chegou na hora, o vento bateu”. Nós brasileiros fomos colonizados, nós fomos terceiro mundistas, e agora mudamos de patamar e precisamos criar uma identidade de país em desenvolvimento. O estudo dos medalhistas do esporte tem permitido resgatar questões que estavam massacradas ainda por conta de um espírito da esquerda do período da ditadura que dizia que ser nacionalista era ser de direita e que ser competitivo é coisa do capitalismo. Os anos passaram e parte disso ficou incorporada ao nosso pensamento. Os atletas têm me levado a refletir que a pesquisa que eu faço aqui é tão boa quanto a que se faz na Europa ou nos Estados Unidos. Vou ser ousada e dizer que fazemos melhor porque fazemos diferente, algo novo, pois as condições que nós temos nos fazem ser cada vez melhor, mais criativos, pois não estamos presos aos modelos já consagrados, que deram certo. Aqui temos a possibilidade de criar tudo. Enfim, qual a vergonha de dizer que eu sou boa no que faço? No Brasil há uma tendência em se achar que aquele que se diz bom no que faz é arrogante. É difícil viver com o rótulo de arrogante. “Ela vive dizendo que é boa no que faz”, “Sim, eu sou boa”. Não tenho vergonha de dizer que o que eu faço é bom. E não tenho vergonha de ir ao exterior e dizer que o que estamos fazendo aqui é diferente do que está sendo feito no mundo inteiro e é bom. E tenho observado a surpresa dos colegas desacostumados com essa ousadia. Os nossos atletas não são preparados para ter esse discurso. Temos 89 medalhas em modalidades individuais e coletivas, o que perfaz um total de 306 atletas medalhistas de um universo de 1632 atletas que participaram de todas as edições olímpicas. O que fez a diferença? O fato desses atletas terem um discurso de enfrentamento de igual para igual. Ontem, quando ouvi o discurso da Dilma na ONU, eu pensei: ‘as coisas estão mudando’. Ela vai lá e fala que quer sentar-se à mesa para discutir tudo o que os ricos e poderosos estão discutindo, pois temos condições de fazer a diferença: na pesquisa, no esporte, na tecnologia, na produção de conhecimento. E esse é um discurso que temos que criar, pois não nos foi dado historicamente. Foi nos dito que esse discurso era perigoso, porque isso era da classe dominante. Não é. Esse é o discurso de todos aqueles que querem fazer a diferença. Assim como o atleta do alto rendimento que quer sair da média. Para você chegar ao nível olímpico e à Copa do Mundo, é preciso enviar fazer um algo a mais do que os outros já fizeram. E se eu quero fazer a diferença, não há vergonha alguma de dizer: “eu vou fazer um pouco mais”. Quando a Hortência e o Oscar iam, ao final do treino, fazer 100 arremessos seguidos sem errar nenhum (se errassem, voltavam do zero), isso é fazer a diferença. Quando falo para os meus orientandos que eu não trabalho com quem cumpre tarefa é porque tarefeiro qualquer um é. Eu quero o estudante que venha fazer a diferença, que tenha ideias, que olhe o que já foi feito e perceba alguma coisa que outros ainda não enxergaram. Isso é fazer a diferença. Nesse sentido, eu olho para os estudantes e pesquisadores brasileiros e tenho um grande orgulho.

Katia Rubio durante entrevista para equipe Ludopédio. Foto: Equipe Ludopédio.

Qual a metodologia da pesquisa/entrevistas? Há a utilização de recursos de história oral? Existem temas comuns que surgiram ao longo das entrevistas?

Especificamente, história oral. Trabalhamos com história de vida dos atletas e pedimos que eles nos contem suas histórias. Da narrativa nós ainda vamos introduzindo alguns elementos mais específicos que nos dizem respeito, por exemplo, a iniciação, a questão do preconceito ou dor, temas que emergiram já na pesquisa com os medalhistas. Temas que me interessam, porque isso me dá elementos para intervenção na minha prática como psicóloga. Questões relacionadas à discriminação. Eu acreditava que as mulheres entendiam a discriminação e ao final da pesquisa pude observar que não, pois elas não conseguem enxergar o preconceito. Esse é o grande barato desse trabalho, porque trabalhamos apenas com dado qualitativo e que os atletas nos trazem. Todas essas entrevistas são transcritas e nós vamos buscando nelas temas comuns ou aquilo que destoa completamente de narrativas anteriores. É inédito. Os colegas que têm visto a pesquisa, principalmente os estrangeiros, têm ficado bastante entusiasmados com essa proposta, porque nenhum trabalho dessa envergadura nada foi feito antes. Em nós isso desperta o senso da responsabilidade, que é dar cabo de todos esses dados que estamos levantando, com o auxílio da Fapesp e do CNPq.


Falamos sobre a preparação dos atletas para o fim da carreira e isso nos leva a outra questão. Qual a importância do psicólogo na comissão técnica de um clube de futebol? Em outras modalidades, seu trabalho é mais valorizado?

A Psicologia do Esporte no Brasil ainda engatinha. Há um desconhecimento do que seja a Psicologia do Esporte. Isso está muito associado à representação social que se têm da Psicologia como uma ciência destinada a loucos. Poucos sabem da condição profilática da psicologia no sentido da prevenção de problemas e não da solução de problemas. Há também uma questão mal resolvida com técnicos que pensam ser os grandes e únicos mandantes da equipe. Eles têm no psicólogo um grande concorrente achando que o psicólogo vai rivalizar em poder por conhecer os atletas mais do que eles próprios. O que é uma pena, pois isso só atesta a ignorância. Os técnicos que trabalham com psicólogos qualificados e preparados sabem os efeitos que o trabalho tem representado. Vejo que um desafio para as comissões técnicas e os treinadores é, primeiro, entender o que o psicólogo faz e é capaz de fazer. O psicólogo não senta no banco, ele acompanha o jogo a distância para poder ter a dimensão do todo e atuar pontualmente no momento específico. Ele tem uma função anterior. O trabalho do psicólogo caminha muito próximo, em importância e estratégia, da preparação física. É um trabalho de longo prazo. Ninguém prepara um jogador para entrar em campo dois dias antes do jogo. Psicólogo não é mago, nem pajé. É alguém que trabalha com uma ferramenta que requer tempo: a confiança, o vínculo. Tudo isso demanda tempo. O que sobra por aí é oportunismo e charlatanismo, que vende um produto como uma palestra, e faz a comissão técnica acreditar que uma única intervenção transformará o grupo, como se houvesse uma varinha de condão capaz de resolver todos os problemas, de ganhar o jogo. A Psicologia do Esporte está muito distante disso. A Psicologia do Esporte é processo.


A melhora da relação entre técnico e psicólogo passa também por uma melhor preparação do técnico no que diz respeito aos estudos, fazendo faculdade de Educação Física, por exemplo? Alguns dos grandes técnicos de ponta no Brasil hoje procuraram desenvolver seus estudos…

Entendo que passa por causa da apropriação do conhecimento e também por conta de um processo pessoal de autoconfiança. Ele até pode estudar, mas se é inseguro, não vai querer gente competente ao lado dele, pois isso o faz se sentir menor. Os técnicos que têm conhecimento e são bem resolvidos vão se cercar de gente competente. Claro que o estudo traz ganhos. Mas conheço muita gente estudiosa que é burra. Só o estudo não garante a competência. A competência passa por um processo de crescimento pessoal, que está relacionado ao autoconhecimento, lições de humildade. Isso a escola não ensina. Quem ensina é a vida e o processo psicoterápico. Não que esteja recomendando psicoterapia para todo mundo, mas evidente que alguns técnicos desprezam trabalhos alheios por pura incompetência. E a incompetência gera insegurança.

Katia Rubio possui graduação em jornalismo e psicologia. Foto: Equipe Ludopédio.

E como é a relação dos atletas com o psicólogo?

O relacionamento dos atletas com o psicólogo também demanda tempo, para ele assim entender que não está recebendo atendimento porque é louco. Nós queremos potencializar habilidade, capacidades; ou trabalhar os vínculos de uma equipe; ou trabalhar o controle de ansiedade. Há muitos elementos que o psicólogo do esporte tem competência para trabalhar. A primeira barreira é superar essa representação social da psicologia como uma atividade para loucos. Superado esse primeiro momento, o tipo de resposta que temos é muito positivo. Por quê? O atleta vive um nível de pressão e demanda absolutamente fora do padrão para a média da população. Se formos olhar para atletas pós-juvenis que enfrentam um estádio com 40 ou 50 mil pessoas, renovações de contrato, exposição na mídia, assédio de todos os tipos esse sujeito pira mesmo. Ele não imaginava no princípio que fosse necessário mais do que jogar futebol. De repente, ele tem que aprender a lidar com a mídia, as histórias criadas, a mulherada etc. O acompanhamento psicológico faz parte desse processo de gestão de carreira que não está sendo feito. Se esse sujeito é visto como uma commoditie e é preparado para ser uma mercadoria valiosa, ele precisa valer quanto pesa. Ter esse sujeito consciente, inteiro e preparado para lidar com as adversidades é fundamental. E não é empresário que faz isso, mas sim gestor de carreira.


O retorno dos futebolistas para o futebol brasileiro reflete não só questões econômicas, mas também essa pouca preparação para lidar com as adversidades?

É uma coisa que tem me intrigado. Eu vejo como uma necessidade da volta à origem, mas não pela falta de alguma coisa, mas em certa medida pelo retorno, pela unidade nuclear do monomito. O cara precisa fechar o ciclo. A menos que ele tenha desenvolvido uma identidade em algum outro lugar, o que não é impossível, ele precisa voltar para fechar o ciclo. Uma vez estrangeiro, sempre estrangeiro. Você sabia que se você perder a consciência e de alguma forma entrar num processo de amnésia, mesmo tendo passado 50 anos fora do seu país, você volta a falar a sua língua de origem? Estudos neurológicos mostram isso. Essa coisa do resgate é muito forte. A raiz está aqui, não tem jeito. Mas é inegável que o exterior já foi muito mais atrativo do que tem sido hoje. Nesse sentido, eu adoro dizer que estamos ’em alta’. Porque é muito bom você ter orgulho de estar aqui, das coisas estarem acontecendo aqui. Dá para ter coisas melhores estando aqui. Ou seja, desconstruindo esse mito de que o Eldorado está lá, depois do oceano. Talvez isso faça as pessoas terem mais orgulho de participar do processo de construção de combate à corrupção. Aquilo que é bom de ver acontecer em países desenvolvidos.


O Brasil conquistou o direito para sediar os dois maiores eventos esportivos do mundo. Porém, existe uma diferença entre conquistar o direito e a realização. Como você tem acompanhado essa organização estrutural para que os eventos ocorram? E como você analisa o recente projeto da Lei Geral da Copa (enviado pela Presidência da República ao Congresso Nacional no dia 16 de setembro), que permite que as partidas da Copa do Mundo de 2014 não respeitem todos os direitos garantidos pelo Estatuto do Torcedor aos espectadores dos espetáculos?

Vejo com muita preocupação. Todo o otimismo que eu vejo com a construção do país nesse novo momento, por outro lado, eu vejo o Brasil do esporte ainda no século XIX, submetendo-se às mazelas das estruturas internacionais e se curvando para poder ter qualquer coisa. “Eles me mandaram dar x ingressos para não sei quem, então eu dou”. “Eles me mandaram pagar tal quantia, então eu pago”. Espera um pouco. Por que pagar? Fizeram isso na Alemanha e na França? Até entendo por que fizeram isso na África do Sul. Aliás, e desculpe minha resposta, entendo até mais que tenham aceitado. Mas por que temos que aceitar as coisas dessa forma? Não basta responder: “é porque queremos ter o evento”. Se é para ter nessas condições, eu prefiro não ter. Por quê? Porque eu quero ter dignidade. Eu quero poder levantar a cabeça e dizer que isso foi feito no Brasil, mas que a conta que o Brasil pagou não foi a conta que encheu os bolsos de alguém lá fora. Eu quero ver uma conta paga com o crescimento e aproveitamento daquilo que foi feito aqui. Se o jogo for esse, eu topo. Não quero ser reboque nem promotora do carnaval alheio. Se é para carregar o piano, eu também quero tocar. Se é para fazer o carnaval, eu também quero estar na avenida. Lamento que algumas autoridades paguem o preço que for para que os eventos aconteçam no Brasil. E mais: temo que esse tipo de atitude revele um instinto corrupto. Em última instância, isso quer dizer: “eu também vou levar minha parte nesse processo”.

Katia Rubio é professora da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP) . Foto: Equipe Ludopédio.

Podemos dizer que organizar a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos hoje é muito diferente de organizá-los há 30 anos, pelo fato da FIFA, CBF, COI e COB serem hoje entidades desprestigiadas e acusadas de diversas formas de corrupção?

Acho que isso não tem relação apenas com essas instituições, mas também em relação ao próprio país. Eu gosto muito da ideia que Jean-Marie Brohm tem sobre essa questão do estudo histórico do esporte. Ele afirma que não adianta comparar os Jogos Olímpicos da Era Moderna com os Jogos Olímpicos da Grécia Antiga. Por quê? São duas sociedades diferentes, dois fenômenos diferentes. Tudo que é comparativo sempre me preocupa. É possível isolar todas as variáveis e garantir que agora as condições de comparação são as mesmas? Não, não dá. Se por um lado eu tenho o descrédito de instituições como a FIFA e o COI, por outro lado, eu tenho um país que tenta se afirmar como uma potência. Não estou negando a corrupção que está acontecendo, nem nada disso. Mas eu vejo uma disposição de fazer as coisas serem diferentes. O Brasil teria condições de fazer a Copa do Mundo ou os Jogos Olímpicos há 30 anos? Os Jogos Olímpicos eu não sei, mas fizemos a Copa do Mundo em 1950. A questão não é se tinha condições de fazer, mas sim saber em que condições se faz isso? Eu quero saber das contas que serão pagas. Eu quero visibilidade, compromisso.


Essa visibilidade e outras exigências seriam feitas há três décadas?

Certamente não, pois estávamos vivendo a fase da Ditadura Militar e não havia visibilidade naquele momento. Mas a questão maior é: qual ideia que tínhamos de legado? O que se pensava sobre isso há 30 anos? Achava-se que construir estádios era o maior legado. Hoje sabemos que o maior problema desses próximos eventos serão as instalações que vão ficar. Qual finalidade será dada a elas? Qual será seu custo para a sociedade manter esses equipamentos? Entendo que esses eventos seriam uma grande oportunidade de desenvolver cidadania. Em que sentido? De nós podermos discutir o que de fato queremos como legado desses eventos. A FIFA manda que seja construído um estádio com um número x de lugares, com toda a infra-estrutura. Nós queremos isso? Nós precisamos disso? Eu quero vê-los exigir isso na Itália, Inglaterra, Alemanha etc. Estamos passando por um momento em que alguns já começam a erguer a cabeça e falar assim: “pago não, quero não”. Isso para mim é ter dignidade, e não ter os Jogos aqui a qualquer preço, aceitando quaisquer condições que inclusive ferem nossa soberania, nossa dignidade. Não quero ter evento a qualquer preço. Por quê? Ah, vai gerar emprego. Sim, vai gerar emprego, mas e o prejuízo que vai nos causar? Quem é que está fazendo a conta do débito e do crédito, do ativo e do passivo? Essa conta não foi apresentada para a sociedade ainda.


Muito mais importante que os jogos em si, tanto na Copa do Mundo quanto na Olimpíada, é o legado posterior à sociedade. Em sua visão há algo sendo construído no país para o legado esportivo e social? Ou ainda está só no plano discursivo? O legado é um mito?

Penso que sim, porque legado é aquilo que fica para usufruto da sociedade. Ou seja, tem que projeto e tem plano de gestão. Entendo que estamos apenas no plano do desejo e o desejo é imaterial. Não adianta ter um estádio construído em Brasília para 70 mil pessoas se um jogo das potências futebolísticas da cidade não passa de 15 mil. O que vamos fazer com aquele estádio? Isso é ônus. Aceitar essas determinações é ferir a nossa soberania. Nesse sentido penso que há de se ter orgulho e dizer “não”. O Brasil vai dar vistos para todo mundo. E as nações que nos exigem vistos? E a reciprocidade, como é que fica? Isso é ter soberania, ter autonomia. Isso não está sendo respeitado. A meia entrada não vai ser respeitada e isso foi uma conquista histórica. Nesse sentido, vejo falta de brasilidade, falta de orgulho de quem está a frente do processo. Ter os eventos aqui a qualquer preço é a mesma coisa que dizer ao atleta que ele tem que ganhar medalha a qualquer preço, valendo o doping, a violência, o jogo sujo. Não é assim que educo meus atletas, pesquisadores, estudantes. Eu educo no sentido da dignidade e ter dignidade significa ter limites: “não, obrigada”.

Katia Rubio possui pós-doutorado em Psicologia Social na Universidade Autônoma de Barcelona. Foto: Equipe Ludopédio.

Mas você está otimista?

Não tenho bola de cristal para saber, mas como diz o Gonzaguinha: “eu acredito é na rapaziada. Que segue em frente e segura o rojão”. Se não fosse assim, ficaria muito difícil tocar o barco. Por isso, prefiro acreditar que pode sim ser diferente.


Não só quanto ao legado estrutural dos Jogos Olímpicos, como vê hoje o legado atlético, no sentido esportivo mesmo? É possível vislumbrar um legado para depois dos Jogos?

O esporte olímpico vive uma crise mundial, um decréscimo no número de participantes, e a constatação desse fenômeno levou Jacques Rogge a criar os Jogos da Juventude. O que representa hoje os Jogos da Juventude? É uma forma de estimular os mais jovens a se prepararem para esse cenário competitivo. Fechando a unidade nuclear do monomito dessa entrevista, eu volto para aquela primeira resposta dizendo que o esporte é o reflexo do que é a sociedade. Por que o esporte está sendo menos praticado? Porque a sociedade hoje leva as crianças a terem outros tipos de estímulo. Antes, para se sentir potente, poderosa, com auto-estima, ela ia para fora treinar e competir com os outras crianças. Hoje ela não sai do sofá da sua sala. Apertando alguns botões, a criança morre e ressuscita quantas vezes quiser. Ela joga futebol com os melhores futebolistas do mundo quando ela quiser. Aqueles que ainda preparam atletas pensam com a cabeça do século XIX, numa estrutura militar, rígida etc. Desculpe, mas a juventude mudou. Se ela vai em busca da atividade física, ela vai de fato buscar limites, mas não com alguém segurando um chicote atrás dela. Talvez isso permaneça em países autoritários, mas não onde as democracias reinam. Tirando os EUA, quais são as grandes potências do esporte hoje? Não são necessariamente as potências econômicas. O esporte vai ter que se repensar rapidamente ou ele se tornará uma atividade de grupos cada vez mais reduzidos dentro desse cenário social que se apresenta. É preciso buscar e resgatar a ludicidade da competição, não só do esporte. A competição pode ser lúdica. Isso se perdeu ao longo do último século. A competição se tornou uma metáfora da guerra. É preciso criar uma forma de resgatar aquilo que havia de melhor desde a Antiguidade: a busca da superação do próprio limite. Isso se perdeu no século XX. A competição passou a ser contra o outro e não contra o próprio limite. Na medida em que se resgate isso, talvez o esporte se reinvente, ou então corre o risco de ser colocado em extinção.