05.7

Katia Rubio

Equipe Ludopédio

Katia Rubio é multidisciplinar. Se fosse atleta olímpica, não faria feio frente a Michael Phelps: receberia inúmeras medalhas, uma para cada área de atuação. Recebeu, em junho de 2010, a Medalha do Mérito Esportivo. Bacharel em Jornalismo e em Psicologia, posteriormente Katia fez mestrado em Educação Física pela EEFE-USP (1998), doutorado em Educação pela FE-USP (2001) e pós-doutorado em Psicologia Social na Universidade Autônoma de Barcelona (2004). Atualmente, é professora da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP), onde coordena o Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano, procurando pesquisar, entre outros temas, questões ligadas à Psicologia do Esporte, ao Olimpismo, políticas de esporte etc.. 

Katia Rubio é coordenadora do Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano. Foto: Equipe Ludopédio.

 

Primeira parte


De que forma o estudo do esporte contribui para a compreensão da sociedade em que ele está inserido?

O esporte é um microcosmo da sociedade. Não existe estudo do esporte desvinculado do contexto onde ele é produzido. Estudar o esporte é estudar a sociedade a partir de uma perspectiva, de um ponto de vista. Entendo que ao estudar o fenômeno esportivo será possível revelar características amplas da sociedade, e também as idiossincrasias de cada grupo social específico onde ele se manifesta. Portanto, quando você estuda o futebol no Brasil você também compreende um pouco da sociedade brasileira e percebe que é um futebol diferente daquele que se pratica, por exemplo, na Itália e Inglaterra, onde algumas preocupações encontradas lá não são vistas aqui. Estar atento ao que é geral e ao que é específico é a grande riqueza do fazer acadêmico sobre esporte.


Quais as dificuldades em se fazer pesquisa acadêmica sob a ótica das Ciências Humanas no Brasil?

Um dos desafios é metodológico. É preciso ter uma apropriação da teoria para se ter uma apropriação do fenômeno. Dominar a teoria significa ter muitos olhares para uma mesma manifestação. Seja um olhar antropológico, histórico, sociológico, psicossocial, filosófico etc. É preciso ter muita consistência no domínio das teorias para se fazer uma boa análise. O grande pecado dos estudos da área sociocultural de esporte no Brasil é que as análises são muito superficiais. Poucos estudiosos têm domínio de teorias, e são capazes de estabelecer relações, de fazer análises verticalizadas. O que eu vejo são muitas análises horizontais, ou seja, ficam na superfície, ampliam o raio, mas não verticalizam. Entendo que a maior demanda hoje é pelo aprofundamento dos estudos. Isso significa conhecer os trabalhos internacionais. Porém, mais do que tudo, exige um mergulho na cultura brasileira. Estudos comparativos são realizados de forma pouco rigorosa, ficando assim: ‘lá eles fazem isso e aqui eles fazem isso’. Em que direção deveríamos caminhar? Na busca do entendimento de quem somos e, então, compreender por que o fenômeno esportivo no Brasil é distinto de outros lugares. Fico indignada quando vejo coisas como: ‘o futebol brasileiro é específico por causa da capoeira e do samba’. A pessoa que escreve isso pouco ou nunca leu Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro e Sergio Buarque de Holanda. Se muito, leu Roberto DaMatta e usa como referência secundária algo do Carnavais, malandros e heróis (1979). Vamos de fato tentar esmiuçar o que é ser brasileiro para assim entender o que há de específico no esporte brasileiro. Por que ele é diferente do europeu e do norte-americano? Não é simplesmente porque dançamos samba e jogamos capoeira. Essa pouca seriedade dos estudos me incomoda muito. Mais do que isso, existem alguns pesquisadores que se acham no direito de dizer que falam em nome e representam a leitura do esporte brasileiro.

Katia Rubio é uma profissional multidisciplinar. Foto: Equipe Ludopédio.

Você comentou sobre a bibliografia internacional. Muitos acreditam que a bibliografia brasileira (produção histórica, sociológica, antropológica) sobre esporte é de boa qualidade e merece ter reconhecimento, mas que pouco dialoga com as pesquisas e estudos internacionais. Qual é situação atual da produção brasileira?

Talvez premidos pelas Ciências Biológicas, pesquisadores brasileiros acham que estudos sérios são estudos comparativos, ou seja, pegar um estudo fora, fazer o mesmo aqui e assim ter material para comparar. Esquecem que a análise antropológica ou sociológica não traz dados tão objetivos que podem ser definidos e comparados. O dialogo é principalmente no sentido da ampliação da lente que usamos aqui. Há coisas que pesquisadores internacionais estão olhando e que aqui ainda não se olhou. Existem ainda aqueles oportunistas que se aproveitam daqueles estudos e que os trazem para o Brasil dizendo que fazem aquilo como uma grande novidade. Em uma disciplina, recentemente, trouxe alguns textos publicados recentemente fora do Brasil e alguns alunos chamaram a atenção para o fato de que um professor da USP publicou há pouco como um material inédito. Na verdade, ele já tinha lido esse material fora do Brasil e poucos de nossos colegas leem o que está sendo publicado lá fora. É importante essa chamada para a internacionalização, não no sentido de dizer que o que se faz lá fora é melhor do que fazemos aqui, mas o conhecimento é produzido pela curiosidade de saber o que está se fazendo. Fiquei surpresa pelo fato do Richard Giulianotti nos trazer uma leitura do futebol feminino na Inglaterra. Lá eles estão preocupados com o que representam as esposas dos jogadores para a sociedade inglesa. Aqui no Brasil, quando muito, generalizamos como “marias-chuteiras”. Se muito, falamos sobre o mal que elas causam aos jogadores. O que é esse fenômeno? Por que a sociedade inglesa procura ver o que elas estão usando, vestindo etc.? Essa é uma questão. O desafio é ter o esporte como objeto de estudo tão importante quanto o núcleo da célula, os novos condutores ou a cura do câncer. O dia em que tivermos o reconhecimento social que estudos como esses têm, certamente novos pesquisadores vão trabalhar esse tema com mais seriedade. Talvez quando um estudioso do esporte for indicado para o Prêmio Nobel… É um desafio, sabendo que o esporte ganha cada vez mais uma importância social internacional, como tem a economia, medicina, quem sabe chegaremos lá antes do final desse milênio (risos).


O pouco estreitamente desse diálogo nacional e internacional talvez tenha relação com a hegemonia dos estudos sobre futebol dentro do universo mais amplo de estudos sobre esporte? E podemos afirmar que o fato da produção se concentrar no futebol é um reflexo da posição que o futebol ocupa em relação aos demais esportes dentro do cenário esportivo brasileiro?

Tenho dúvidas sobre essa generalização porque mesmo dentro da universidade o futebol não ocupa um espaço tão privilegiado assim. O estudo sobre esporte ainda é considerado marginal. Se olharmos para a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas aqui da USP ainda veremos isso. Quem estuda esporte é considerado um ET. Na Faculdade de Educação é a mesma coisa. Na Faculdade de Educação Física não, pois esse é o nosso objeto. Isso ainda é associado a uma representação social, que também transpira dentro da universidade, de que esporte é coisa de vagabundo. ‘Quem se ocupa do esporte? Esse bando de gente desocupada”. Nos últimos anos isso está se transformando na medida em que o esporte e os eventos esportivos, hoje considerados ‘Megaeventos’, mobilizam somas e outras áreas da sociedade. O que os coloca no topo da lista de desejos de qualquer governo: ter a Copa do Mundo ou os Jogos Olímpicos em seu país. Por quê? Porque gera emprego, mexe com a economia, com a infra-estrutura do país, gera corrupção… Enfim, isso deixa de ser um privilégio apenas do futebol. Não sei quem vai na rabeira de quem – esporte olímpico ou futebol -, mas mesmo o futebol sendo profissionalizado ele nunca foi levado muito a sério. Passou a ser na medida em que ele se tornou uma questão nacional, oficial, uma questão de governo, como está sendo colocado hoje. Quando vemos estádios sendo construídos e a presidenta do país dizendo que quer uma câmera em cada estádio, pois quer acompanhar as obras de perto, é porque o fenômeno mudou de patamar. Assim, a banalização com que se tratava esse fenômeno deixa de existir. Hoje, temos o blog do José Cruz com 10.000 acessos diários e ele só fala de política e economia do esporte, é um indicador de que mudou de patamar. Ele não fala de resultados do futebol. Ele está falando do universo que gravita em torno do fenômeno. Opa, alguma coisa está mudando, e mudando rápido. Achei que nós, que estamos participando do fenômeno acadêmico do esporte e do futebol, iríamos morrer sem ver essa mudança. Mas não, está acontecendo a passos largos.

Katia Rubio possui graduação em jornalismo e psicologia. Foto: Equipe Ludopédio.

No seu livro O atleta e o mito do herói você faz uma análise do herói esportivo. Como você analisa a presença do herói no esporte e, especialmente, no futebol? Quais os elementos que contribuem para a construção desse herói?

O herói cumpre um papel dentro da especificidade dessa sociedade. Essas características que forjam o herói dentro da sociedade brasileira não são as características do herói norte-americano, europeu, asiático, africano etc. O herói no Brasil mescla as condições dadas pela nossa cultura e pela nossa sociedade. Se eu for trabalhar com os conceitos de cultura que o Gilberto Freyre e o Sérgio Buarque de Holanda me dão, eu vou dizer que esse herói é o indivíduo que mescla a superação de todas as adversidades, que estão relacionadas com a cor da pele, o bairro onde nasceu, a origem dos seus pais e avós, e com as condições dele enquanto sujeito que cresceu nessa sociedade. Quem é ele diante de todas essas heranças que recebeu? Eu diria que até a década de 1980, esse sujeito era aquele que conseguia sair dessa instância comum de onde ele veio, que são as suas origens e forjam sua identidade, e que se apresentava ao mundo de forma potente. Ele se afirma na sua habilidade, generosidade e – como diria Sérgio Buarque de Holanda – na sua cordialidade. Isso se transforma sobremaneira na medida em que os interesses comerciais superam a formação da própria identidade. Ou seja: “eu quero ser rico”. Independente da cor, da sua origem ou sua própria história, ele quer ser um jogador de futebol para ganhar um milhão de reais por mês e ser a pessoa mais poderosa do mundo. Nós vivemos um momento de intensa crise de identidade. O garoto ou garota que começa a jogar futebol, mais do que simplesmente ser um ídolo inesquecível para a sua torcida, ele quer ser uma pessoa poderosa pela riqueza que acumula. É a manipulação de um valor que não é mais simbólico, já é concreto. Antes, o jogador tinha seu cordão de ouro, um carro importado e a mulher bonita. Hoje, a publicação de um contrato que envolve valor monetário é muito significativa. Lembro quando o Ronaldo Nazário fez o contrato vitalício com a Nike aos 17 anos. Aquilo explodiu como uma bomba no Brasil: “Nossa, o cara fez um contrato para o resto da vida. Como é isso?”. Nessa semana foi noticiado que o Neymar fez um contrato de um milhão e meio de reais por mês, entre salário e publicidade. Quando eu vejo a criança que começa no futebol, faço as três perguntas básicas da esfinge: quem sou?, De onde vim? e Para onde vou? Quando pergunto para um garoto de 13 anos: ‘quando você começou a jogar futebol?’, ‘o que você quer da vida?’ e ‘o que você está fazendo aqui?’. A resposta que eu tenho é a seguinte: “eu quero ser rico, quero ser o Neymar”. Quer ser o Neymar por que ele é um craque de bola? Não, mas sim porque ele tem um contrato muito poderoso. Vejo isso como um evento muito perigoso do ponto de vista da formação de novas identidades, porque isso carece de valor. O que estou chamando de valor? São todas essas características que fazem o cara ir para o treino, que leva uma vida pouco comum, que ser atleta é muito difícil. É ter uma vida regrada e restrita. Ele tem que abrir mão de um monte de outras coisas para seguir o caminho das tarefas, tal como os trabalhos de Hércules. Ele acha que se o Neymar faz o que fez aos 17 anos, ele também pode fazer. E ele não vê tudo aquilo que envolve e está por trás da construção dessa identidade. Ser atleta não é fácil, se manter atleta é complexo e se desfazer da identidade de atleta é a terceira e talvez mais difícil tarefa: voltar a ser apenas alguém. A convivência com o esquecimento talvez seja mais difícil do que todos os trabalhos somados. Porque é se descobrir comum.


O Ronaldo tem uma especificidade? Embora tenha parado, ele ainda tem uma visibilidade.

Ele construiu esse papel. A especificidade dele é que ele conseguiu vislumbrar o fim e se preparou para o fim. Poucos atletas têm uma gestão de carreira como a que ele teve, preparando-se para esse momento. Quando entrevistamos esses 1.632 atletas (pesquisa com atletas olímpicos que está sendo realizada nesse momento), e quanto mais os entrevisto, mais eu vejo que não há preparação para isso. Quando o atleta se vê apenas como ‘alguém’, embora soubesse que seria difícil, ele jura que não sabia que seria tão difícil ser só mais um. A especificidade do Ronaldo é que ele teve a humildade enquanto ainda era ‘tudo’ para se imaginar ‘ninguém’. Nesse exercício de humildade ele se preparou para ser só ‘mais um’. Um ‘mais um’ totalmente diferente de todos aqueles que pararam. Ele ganha reconhecimento por ter sabido parar. Ele pode ser gordo, dentuço, careca, cabelo pixaim, mas ele é o cara. Até isso ele soube fazer, independente do lugar onde estivesse, seja Corinthians, Barcelona etc.


Num seminário recente sobre destreinamento, tivemos contato com diversos modelos de trabalho, como o cubano, o norte-americano, o australiano etc. O que temos sobre uma proposta brasileira de destreinamento, se no Brasil, como você disse, não existe uma gestão de carreira? O que é o destreinamento de um atleta de modalidade olímpica e qual a particularidade de um destreinamento no futebol?

A especificidade do futebol é que ele sempre foi profissionalizado. Ganhando-se três salários mínimos ou um milhão e meio por mês, o modelo do futebol é profissionalizado. Então, há uma expectativa, como em qualquer modelo profissionalizado, de um projeto de aposentadoria. Entendo que no Brasil não há esse projeto. Se o jogador vai parar, e a aposentadoria nesse caso acontece no máximo na casa dos 40 anos, o sujeito tem pelo menos mais quarenta anos de vida produtiva. O destreinamento e a transição de carreira têm que ser feita de um modelo quase de orientação profissional. Ou seja, o sujeito tem que passar por um processo de requalificação para uma nova função. Seja ela relacionada ao esporte ou não. Ele pode ser treinador, preparador físico, dirigente, ou pode escolher outra profissão que não tenha relação nenhuma com o futebol. Mas deve existir essa preparação que envolve estudo. O segredo hoje para um projeto bem sucedido de política de transição de carreira no Brasil envolve estudo. Por isso que em alguns clubes, como o São Paulo F.C., que tem um Centro de Treinamento com 300 garotos, a condição si ne qua non para um garoto se manter no clube é estudar. Ele pode ser o craque, mas se for reprovado na escola: ‘um abraço’. Na perspectiva de gestão de carreira que o São Paulo está construindo, e que isso determina o perfil que o São Paulo quer para si, envolve um jogador preparado para a vida. O conceito que temos hoje de um atleta inteligente – da inteligência para o esporte -, que é a cognição voltada para os aspectos táticos do jogo, pressupõe uma preparação que envolve escola: aulas de matemática, história, geografia, física etc. Por que isso ajuda o sujeito a se preparar para ser também um atleta inteligente. Isso não se falava há alguns. Ao contrário, considerava-se que a escola atrapalhava a vida do atleta. Hoje, os clubes bem estruturados começam a entender que a escola é fundamental na vida do atleta e isso vai fazer toda diferença depois no momento de transição. O jogador passa a considerar outras possibilidades para a sua vida.

Katia Rubio é professora da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP) . Foto: Equipe Ludopédio.

Ao mesmo tempo, no ano passado, o Cruzeiro inaugurou uma escolinha para as crianças na qual elas teriam reforço de aulas de inglês e espanhol. O quanto isso não é parte da economia de exportação de pé de obra? Ou seja, não é uma preparação para eles terem uma rápida adaptação quando foram jogar em outros países?

É o jogo, o sistema. As escolas de preparação dos clubes não são colônias de férias, não são projetos sociais. As escolas dos clubes têm a finalidade específica de formar jogadores para o próprio clube e também para preparar uma mercadoria para ser vendida. Ninguém tem dúvida disso. Você pode fazer isso de forma quase escravocrata ou fazer isso de forma a deixar para o atleta o bem produzido naquele processo: a própria formação. O sujeito está indo para escola para quê? Porque faz parte da qualificação dele. Mas para ele também ter um valor de mercado maior? Sim. Quem quer esconder isso não está fazendo o processo direito. As cartas estão postas na mesa. A diferença do São Paulo, por exemplo, para outros clubes, é que o São Paulo não negocia com empresários. Só negocia com a família. ‘Você quer o seu filho aqui dentro? Então, é só com o pai ou a mãe’. ‘Mas ele tem um tio distante que é muito bom…’. Não, ele não tem um tio distante, pois sabemos que é um empresário que está envolvido. Isso significa preparar esse cara para ir jogar fora. Diferente de anos atrás, quando esse jogador era jogado na Europa, sem saber o que iria comer, o que ia vestir, qual língua se falava, e outras coisas do gênero. É quase uma capacitação desse futuro profissional para um mercado que exige um nível de capacitação maior. Veja. Não estou dizendo que isso não é nocivo ou nada disso. Mas estou querendo tirar essa discussão do plano maniqueísta de “bonzinhos” e “mauzinhos”. Explorados estão sendo todos, mas alguns estão tendo mais recursos que outros. E não existe ingenuidade nesse cenário. Mais do que somente econômico, ele também é político. Onde tem política não tem ingenuidade.


Falando ainda do destreinamento, alguns aspectos observados nos modelos fora do Brasil poderiam ser incorporados ao futebol brasileiro?

Penso que sim, mas isso só será possível se isso for tomado como uma política e não com uma ação do sujeito e do clube. O que estou chamando de política? Se o esporte é uma profissão como qualquer outra, onde está a regulamentação desse fazer específico. Não venha me dizer que a Lei Pelé dá conta, pois não dá. Da mesma forma que atividades insalubres têm aposentadoria específica, por que não se pensar na aposentadoria específica do atleta? No meu entendimento, é uma função estatal. Quando um sujeito veste a camisa da Seleção Brasileira e joga em nome do Brasil, como é o caso da Copa do Mundo ou de outros jogos da Seleção, esse sujeito é um embaixador do país. Entendo que na medida em que assume essa função, ele deve ser reconhecido pela função que desempenha, seja no futebol, voleibol, natação etc. Ele está representando o país. Nessa condição então ele é um servidor da nação e deve ser reconhecido como tal. Se a ideia dos governantes é ter um esporte que possa ser digno de representar o país no cenário internacional, e razoável pensar então que esse sujeito é um servidor do país. Não venha me dizer que isso é hipócrita. Não dizem que dia de jogo da Seleção Brasileira deveria ser feriado? Se um senador apenas ao assumir o mandato passa a ter direito a aposentadoria, por que um atleta que veste a camisa da Seleção Brasileira não?

E o atleta que não veste?

Ele também tem que ter condições, pois é um profissional. Ele exerce uma função regulamentada, é reconhecido como tal. Hoje a legislação o reconhece como tal, mas não do ponto de vista da aposentadoria. Entendo que é função dos atletas se organizarem para exigir isso, bem como do Legislativo sentar e pensar nisso: como promover a vida pós-carreira desse sujeito que não tem a mesma vida produtiva de um trabalhador em outra posição. Mas ele é um trabalhador e tem que ser respeitado em seu direito. Isso não é prerrogativa só do futebol. Na medida em que temos uma profissionalização de modalidades esportivas como um todo, isso tem que ser um direito de atletas que se dedicam a fazer aquilo. Como também é o caso do artista. O esporte hoje é uma atividade de entretenimento. O sindicato dos artistas se mobilizou e hoje eles têm direitos em relação à aposentadoria. O caso dos esportistas é o mesmo. Qual a diferença? Em termos de proporcionar uma atividade de lazer para a sociedade é a mesma coisa.

Katia Rubio possui pós-doutorado em Psicologia Social na Universidade Autônoma de Barcelona. Foto: Equipe Ludopédio.

Além da categoria de herói, é possível pensar em categorias complementares, ou antagônicas? A construção da imagem de Rubinho Barrichelo ou do goleiro Barbosa pode ser pensada em contraposição ao papel do herói? São anti-heróis ou vilões? Essas imagens permitem avaliarmos quais aspectos da sociedade brasileira?

Vilões não. Seriam vilões se tivessem se colocado numa posição contrária ao país. Na verdade, a condição deles é mais de vítimas do que anti-heróis ou vilões. Eles estavam e estão no exercício de suas funções que foram preparados para executar. Mas a derrota do Brasil não foi só pelos gols que tomou em 1950, mas também pelos gols que deixou de fazer. Como todo jogo de futebol. Por que o Barbosa acaba sendo tomado como essa figura exemplar? Por que a condição do goleiro é tal como a do piloto de avião. Só se lembram dele quando o avião cai. Quase nunca um goleiro é tomado como herói do jogo. Mas ele é quase sempre o vilão pelos gols que tomou. Mas como se constrói essa imagem? O futebol é muito específico. Você avalia a qualidade de um jogo ou de uma equipe pela quantidade de gols que ela fez. Logo, o sujeito relacionado diretamente a essa tarefa torna-se uma figura icônica para representar o sucesso ou o fracasso. O Barbosa estava na posição de vítima, pois ninguém fala nos gols que o ataque brasileiro deixou de fazer. Quando expulsaram o Barbosa da concentração brasileira em 1994, por achar que ele trazia azar para a Seleção, além de tudo foi uma grande injustiça. O que para mim é o anti-herói no esporte brasileiro? São aquelas figuras que conseguem quebrar com determinados paradigmas. Por exemplo: a construção dessa figura perfeita do atleta que dorme cedo, que faz todos os treinos, que faz obra de caridade, que empresta sua imagem para instituições arrecadarem fundos…


Então temos o herói e o anti-herói numa mesma família? Por exemplo, Raí e Sócrates?

Sim. O que é o anti-herói? Esse sujeito que quebra o paradigma, mas que está lá na sua função. Aquele que tem sua imagem construída fora daquilo que se convencionou chamar de ‘ideal’. É o Afonsinho, o Edmundo. Eles deixam de fazer sua função? Não. Eles vão lá, jogam. Mas jogam fazendo o quê? Algo diferente daquilo que se convencionou chamar de normal. Por que eles também são lembrados? Porque mostram uma outra forma de fazer, afrontam o sistema. Só quem experimentou as forças das instituições sabe o que é lidar com o sistema. Ninguém mais. Quem não passou por isso, só pode imaginar como é. Lidar com o tamanho e a potência das instituições é para poucos.


Como se constrói essas duas figuras: o herói e o anti-herói? Isso passa pela imprensa? De que forma a imprensa escrita é responsável por parte dessa construção?

O herói antes dos meios de comunicação era aquele sujeito que se destacava por sair da média. Mais do que isso, depois de sair da média, ele enfrentava todas adversidades para conseguir estar próximo dos deuses. Ele sabe que por mais que ele faça, ele é finito. O que o diferencia dos deuses é que por mais que ele faça, por melhor que ele faça, ele tem um fim. Mas ele eterniza seu feito. A condição que o coloca ainda mais próximo da eternidade é ele voltar ao local de onde ele saiu para repartir com a média, com os mortais, aquilo de melhor que ele pode construir. O que o Joseph Campbell chamou de ‘unidade nuclear do monomito’. É um processo que envolve chamado, iniciação e retorno. Esse é o movimento básico. Onde entra o anti-herói? Ele faz tudo isso, mas não de forma convencional. Talvez seja aí que os meios de comunicação entram, provando fazer de uma forma diferente. A mídia hoje dá visibilidade a esses fazeres. Antes, tínhamos isso, mas de uma forma muito mais restrita. Hoje, com a visibilidade que a mídia dá para esses feitos, isso toma uma proporção que banaliza feitos importantes e mascara o que de fato é relevante, negando a relevância do feito. Quando vejo a mídia tratar o Sócrates apenas como um alcoólatra, o que se faz nesse momento? De certa forma, se dessacraliza toda a condição mítica que ele construiu na sua vida como atleta: a Democracia Corintiana, as mudanças no futebol brasileiro, a liderança que ele exerceu. A mídia vem e massacra, dessacraliza e o coloca apenas na condição de alcoólatra. Vi uma revista com uma foto em close dele na capa, desrespeitando o fato dele estar doente, e a afirmação: ‘O problema do alcoolismo no Brasil’. Transformando-o apenas num alcoólatra.

Katia Rubio durante entrevista para equipe Ludopédio. Foto: Equipe Ludopédio.

Algo que acontece quando essas figuras passam do esporte para outras dimensões, como a política. Como é possível essa transferência simbólica do campo esportivo para o político?

É um aproveitamento do efeito residual. Eu empresto para o meu personagem, o político, todo o potencial da minha identidade de mito esportivo. Há quem consiga, de alguma forma, manter isso tendo uma bela carreira política. Há aqueles que em pouco tempo se mostram incompetentes para isso. Por quê? Aquilo que se exige no futebol é uma habilidade específica que está relacionada ao gesto motor. Não necessariamente se tem essa habilidade do ponto de vista da construção política, da construção de um raciocínio legislativo, seja lá o que for. Nada melhor que o tempo para revelar a competência nessas habilidades. Algumas figuras bastante espertas utilizam a potência dessa identidade bem sucedida do campo esportivo para ser político, ator, jornalista etc. O tempo é implacável. Ele é a paciência necessária para as coisas se revelarem. Alguns vão em busca de preparação e de uma boa assessoria para poder construir essa nova identidade. Há aqueles que têm uma limitação de só ver o dia de hoje e não perceber que para permanecer é preciso um trabalho contínuo, tal como tinham na condição de atleta. O que é construir uma carreira bem sucedida? É treinar, treinar e treinar. Poucos são os atletas como o Romário, que treinavam pouco e jogavam muito. Isso é uma raridade, fora da curva. O cara da curva é aquele que tem que treinar muito todo dia, ter vida regrada etc. Outras carreiras exigem o mesmo. Para isso é preciso assessoria, pois dificilmente o sujeito faz isso sozinho.

Confira a segunda parte da entrevista no dia 26 de outubro.