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Luciane de Castro

Equipe Ludopédio

A jornalista Lu Castro tem sido uma das principais militantes em defesa do futebol de mulheres no Brasil. Roteirista e produtora, Lu Castro é colunista dos sites Ludopédio e Portal Vermelho, e tem sido uma das principais colaboradoras do Museu do Futebol para assuntos de futebol feminino.

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Lu Castro. Foto: Victor Figols.

Como começou seu interesse pelo futebol?

Bom, meu interesse por futebol é desde que eu me entendo por gente. Minha família é futebol. Meu avô era goleiro de time de várzea. Meu pai é louco, apaixonado por futebol desde moleque. Então, meu pai me levava para o futebol com ele. Ele ia para o salão eu estava junto, ele ia para a várzea eu estava junto, ele ia para o society, quando o society era aquele “areião”, eu estava junto. Aonde meu pai ia pelo futebol, se fosse possível me levar, ele me levava. Aí quando você chega a um determinado período da vida, o futebol começa a ser secundário. Ainda mais quando você é adolescente, tinha outras coisas, depois fui mãe, já trabalhava… Eu sempre acompanhei, mas nunca com tanto afinco. Essa dedicação de querer trabalhar com futebol porque eu adoro ficou mais forte por volta de 2004, quando comecei a escrever. Foi quando tive coragem e pensei: “Sei que escrevo male male, mas eu quero escrever sobre futebol.”. E abri blog em portal, comecei a escrevei, colaborei com o site Distintivos, que era do Luiz Fernando Bindi. Assim eu fui conseguindo escrever sobre futebol, mas de modo desencanado. Não me preocupava muito com regra, escrevia do meu jeito. Foi mais ou menos por aí. O futebol em minha vida… é a vida inteira.

Quem é professor sabe que existe uma certa setorização das práticas esportivas nas escolas. Algumas delas são determinadas para meninos e outras, para meninas. Como foi no seu caso? Você entrou em contato com a prática do futebol na infância e na adolescência?

O contato com a bola, de praticar mesmo, era com meu pai. Ele me ensinava a chutar a bola. Meu primeiro contato foi com ele. Na escola, foi aquela história básica, padrão. O professor falava: “Você vai jogar handebol, basquete, vôlei.”. Futebol, para menina, nunca! Mas eu sempre fui molecona. Então, era eu com os meninos do bairro. Eles iam jogar, e eu ia atrás. Tinha o time de várzea do bairro, primeiro e segundo quadros. Se eles estavam no bairro, eu estava lá. Se eles iam jogar fora, eu estava junto. De certa maneira, eu estava brincando, mas nunca como prática a ponto de falar: “Eu quero jogar bola! Eu quero ser uma jogadora!”. Isso não aconteceu. Tampouco na escola, de alguém falar: “Futebol é para menino e para menina.”. Não! Não chegou nem perto disso.

Em algum momento quando você praticava, jogava ou brincava com bola, você foi alvo de algum tipo de exclusão, de estereótipos? Como foi essa relação? Você era aceita?

Olha, com os meninos, eu não tinha problema nenhum. Eles invariavelmente me chamavam para jogar. Eu falava: “Eu sou ruim.”. Respondiam: “Não importa. Vem! Entra aqui para completar o time.”. Eu tinha espaço entre os meninos. No bairro onde eu morava, não. Lá as meninas eram proibidas de andar comigo, porque eu era a menina que ficava no meio dos meninos jogando bola, porque eu era “molequinho”, aquela coisa… Meu pai não ligava, nunca se importou. Minha mãe já tinha aquele perfil e falava: “Ah, mas é uma menina! E fica jogando bola no meio dos meninos?! Parece moleque! Se veste que nem moleque! Porque não sei quê…”. Aquela coisa que revela um discurso muito padrão. O problema não era com a atividade, em jogar no meio dos meninos. Eu tinha problema com as pessoas que não jogavam, que não tinham esse contato… Essa é a única coisa de que me lembro. Fora isso, não me lembro de ter passado por alguma coisa mais acintosa.

Do que a gente acompanhou de sua história, tem dois aspectos bem marcantes: o futebol especificamente feminino e a militância. Como essas duas questões se juntaram? Pelo que está relatando, parece-nos que sua experiência anterior da prática do futebol te guiou e foi central para você. E essa prática da militância? Como ela se formou em sua vida? Foi em algum período específico? Na universidade ou antes disso?

A militância começou mesmo quando tinha blog no portal chamado Olé Olé. O editor do blog do Brasil, Maurício Teixeira, que é meu padrinho inclusive, falou: “Não tem nada falando de futebol feminino em lugar nenhum. Por que você não abre um espaço para falar disso? Vamos procurar informações.”. Excetuando o período olímpico, você não tinha mais nada. Achava um blog com alguma atualização aqui, outro ali, mas tudo muito mal atualizado. Falei: “Gente, onde estão essas mulheres? A gente sabe que tem mulheres jogando bola, mas por que ninguém fala? A gente precisa tornar conhecido quais competições existem, os nomes das jogadoras, o que elas fazem, quais são as condições…”. Conforme fui chegando a alguns lugares para fazer entrevista, como no Juventus, e observando outras coisas, falei: “Gente, o futebol feminino é muito, muito, muito mal tratado! É terrível! As meninas são invisíveis ou o quê?”. Aí tem aquela coisa de você ser uma idealista, quase uma justiceira: “Isso não pode acontecer!”. Comecei a me envolver e virou uma militância: “Vamos falar disso daqui!”. Perguntava dentro do blog: “Você sabia que está acontecendo tal coisa?”.

Em 2008, apareceu a oportunidade de escrever para o Futebol Para Meninas, que era o projeto de um site para que mulheres falassem de futebol. E eu falava que a gente precisava dar ênfase para o futebol feminino. O FPN deu este espaço para eu trabalhar o futebol feminino. Aí eu comecei a acompanhar e tudo mais, e com algum recurso. Recurso, por exemplo, para fazer a cobertura de uma competição, como a da primeira Libertadores. Fui me envolvendo, ouvindo histórias, conhecendo os bastidores… Fiquei sabendo de coisas absurdas que estavam acontecendo em tal clube, gente com prática inadequada. Aí falei: “Agora comprei a briga.”. Não havia notícia. Quando adentrei no universo, comecei a ver muita coisa errada, muita! Era a hora de levantar a bandeira. Foi neste momento.

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Lu Castro durante a entrevista para o Ludopédio. Foto: Victor Figols.

Essas questões que você diz ter te incomodado nós imaginamos que possam ser duas naturezas: a do assédio às mulheres, da qual você até já citou em um de seus textos, e a da regulamentação das leis trabalhistas que cercam essas mulheres. Você poderia falar um pouco mais sobre essas situações que de fato te incomodaram?

No que diz respeito ao assédio, eu me coloco no lugar da oprimida. Quer dizer, você está dentro de um ambiente onde quer construir sua vida ali, ama aquilo ali, e de algum modo você precisa ceder algumas coisas para se manter ali. Não é nem um julgamento de caráter, nada disso. É o entendimento de que algumas pessoas aceitam porque querem continuar fazendo o que ama. E tem assédio pesado! Tem assédio e tem retaliação. Então, são vários os casos de assédio em que atletas assediadas por técnicos, gestores. O mais recente caso é o assédio de agentes. O assédio nesse caso não é sexual, mas moral. É chamar uma atleta para trabalhar com ele, mas, se ela nega, ele começa a falar mal da atleta publicamente em página de Facebook. Isso é assédio! Só que as meninas não sabem muito como lidar com isso. A respeito de assédio de treinador, eu já soube de casos em que um treinador xavecou uma menina, ela se negou e ficou no banco de reservas. Isso quando não é nem relacionada… Aí a questão é a da opressão. Comecei a me colocar no lugar da oprimida. Eu sei que é uma situação muito, muito ruim. O assédio foi o primeiro que me pegou. E são várias as histórias…

A questão do direito, elas estão trabalhando. Mesmo que para algumas isso não seja a atividade principal. Tem muitos casos de meninas que trabalham durante o dia e vão treinar à noite ou trabalham de tarde e treinam de manhã. Fazem isso porque não têm condição de sobreviver do futebol. Percebo que falta muita consciência de classe para jogadora de futebol. Pode ser atleta de time que joga a várzea a atleta que joga na seleção. O posicionamento quase sempre é o mesmo. Não são todas, mas a maioria. Tipo: “Eu não posso falar isso assim. Você sabe que eu não posso falar isso. Vou falar em off, porque tenho meus planos, meus projetos, meus objetivos.”. Então, não se manifestam, não se organizam, não se posicionam. Aí esses assédios também acontecem: um atraso de salário, uma ajuda de custo… vergonhosa.

Às vezes chega alguém e diz: “Olha, nós vamos jogar o campeonato tal, eu arrumei um projeto, vou levar as atletas todas para lá.”. Essa pessoa leva as atletas para longe, e elas acreditam. O contrato é de gaveta. Elas não ficam nem com a segunda via do contrato. Não têm a quem recorrer. Se elas forem falar, todo mundo que está na posição de poder marca a atleta. Aí aquela menina perde muitas oportunidades de jogar. Óbvio que não são todos, mas é quase regra. Dentro dessa perspectiva, eu disse: “Não! Gente, isso não pode. É a força do seu trabalho. O mínimo é você receber por isso. Tem que ser justo, tem que ser certo!”… E me incomoda ter que falar disso até agora, até hoje e continuar falando. Bate uma certa preguiça às vezes e dá vontade de falar: “Ah, não quero saber!”. Mas não tem como. Aí eu vejo alguma situação e penso: “Não, tenho que falar, tenho ficar batendo.”. Foi e é basicamente isso o que me incomoda.

Nós não queríamos pegar essa dicotomia clássica entre futebol feminino e masculino, mas, como você comentou a questão a respeito da baixa mobilização das jogadoras, você vê diferença dessa mobilização no âmbito masculino ou acha que tem semelhança nessa questão?

Olha, se a gente pegar no futebol masculino, são poucos os nomes que se destacaram com posicionamento político que seja. No futebol feminino, eu não consigo ver… Assim, falando de atleta em atividade que se posicione publicamente: “Isso não está certo. Essa reforma, eu não aceito. Está tudo errado. Isso não me representa.”. Não vejo. No masculino, mesmo que haja poucas figuras no decorrer da história toda, ainda existem. No feminino, você só vê isso depois que se encerra a carreira. Aí começa a se posicionar, a falar um pouco mais. E esta é minha briga.

No geral, é padrão: “Ah, não. Estou aqui para fazer meu melhor, Jesus Cristo, Deus…”, nada contra a religião dos outros, pelo amor de Deus, não é isso. Mas não é por aí. Saia desse mundo, você tem uma responsabilidade, as pessoas te assistem, seguem teu exemplo. Não é possível que alguém queira ser só um tipo de exemplo… Como que eu vou explicar? Eu acho que, quando você quer fazer alguma coisa para mudar, você tem que abraçar a causa e falar assim: “Eu tenho que me posicionar, ser um agente político.”.

É o que eu escrevi para o portal Vermelho. Depois que fui para o lançamento da campanha do campo Doutor Sócrates, isso me deu uma ideia. O fato de a mulher estar dentro de campo, seja como jogadora, seja como árbitra, seja como repórter, seja como fisioterapeuta, seja como técnica, é um ato político. Só que elas não entendem assim. Por exemplo: “A gente quer mudar alguma coisa, a gente tem que estar lá dentro.”. Sim, a gente tem que estar lá dentro, mas também tem que saber como a gente vai se posicionar dentro desse campo. Porque é muito fácil dentro da malícia, daquela coisa da palavra, do bonito… Que às vezes as pessoas não têm esse feeling para escutar e pensar: “Uhm, sei. Estou sabendo o que você está querendo me dizer, que você acha que eu vou abraçar.”. As pessoas abraçam, aí compram um discurso e reproduzem um discurso, só que não estão mudando nada.

Então, isso eu gostaria de ver diferente, tanto no futebol masculino, quanto no feminino. Até porque, tem poucos agentes no masculino. Quem dá para citar hoje? Paulo André, Alex… São os que se mostram mais. Antigamente, tinha Afonsinho, Caju, Doutor, Zico, Reinaldo… Assim, é tão pontual!… E no feminino? Você pega só algumas, mas não posicionamento.

Você acha que isso tem a ver com o momento que a gente vive? Perguntamos isso porque alguns dos nomes citados também estiveram inseridos no processo de abertura política. Existe alguma relação entre esse período histórico mais amplo e a realidade do futebol? Eventualmente essas manifestações políticas podem ser mais autônomas?

Tomando como base hoje, o que a gente sabe e tudo o que se formou na abertura e durante todo o tempo que tivemos aqui de… daquele período horroroso, a gente está vivendo praticamente a mesma coisa. É de um outro jeito, mais velado. De repente, as pessoas não estão atentas. Se a gente tivesse nesta geração alguém com conhecimento, olha, com uma leitura básica… Não precisa ser acadêmico. Eu não sou, mas à custa de ler, ler, ler, de ser curiosa, de querer saber como funciona essa câmera aqui. Ela vai tirar foto de mim? Ok, beleza. Mas por quê? Como? É disso que estou falando. A gente não vê isso.

Neste período que a gente está vivendo, que está escrachado, em nossa cara, você não vê nenhuma manifestação. Então, acho que é de geração, ainda que hoje poucos dos mais novos, como Paulo André e Alex, tenham se manifestado. Mas não estou vendo muita coisa nestes dias, com declarações de Kalil, por exemplo, dizendo que o futebol não é para pobre mesmo. Nossa, voltamos para o finalzinho do século XIX, início do século XX, quando o futebol era para a elite? Gente, não é possível! E as pessoas… sabe? Inertes. Eu não sei o que precisa mais acontecer para as pessoas reagirem e saírem deste discurso: “Não, está tudo muito bom porque eu estou ganhando o meu, estou pagando minhas contas e está tudo certo.”… Falta coletivo. As pessoas estão dentro de um jogo coletivo e não o entendem. É um negócio louco! Ainda vou conseguir entender. Ou não.

Entrando mais na discussão de gênero mesmo, vimos que há um debate terminológico entre “futebol feminino” e “futebol para mulheres”. Existe alguma outra forma de categorização? Você tem alguma preferência?

A gente fica se apegando muito a termos, né?! Vamos aos fatos: quando a gente vai falar de futebol de campo, apenas usamos “futebol”. Só vai mudar a classe, vamos assim dizer, quando vai falar de futebol de salão, futebol de praia, futebol de sete. Para denominar qual a modalidade está sendo jogada, usa-se “feminino”: futebol de campo feminino, futsal feminino, beach soccer feminino, futebol de sete feminino. O futebol das mulheres pode ser um monte de coisa. Quando falo “futebol feminino”, estou falando de competição ou de clubes que se organizam para disputar qualquer coisa. Mas eu não tenho esta preferência: “futebol de mulheres”. Porque pode implicar um monte de coisas, tal qual “dos homens”. A gente tem uma abertura grande de gênero aí! Então, é “futebol”. Eu gostaria muito de poder tratar e falar assim: “A gente teve a final do Brasileiro entre Corinthians e Santos, na Arena Barueri.”, e a pessoa conseguir se situar. Porque é diferente, os horários são diferentes. Acompanhar a competição e saber quem é que está fazendo a final de Brasileiro no mês de julho. Tudo isso sem ter que usar determinados termos. “A final do Brasileiro é em julho, quarta-feira, dia tal, entre Corinthians e Santos.”. Aí todo mundo vai saber que é o feminino. Acho que isso também é uma questão de ter a informação circulando, e todo mundo saber que competição que está rolando, usando só um termo: “futebol”. Às vezes as pessoas ficam criando muito termo, e me dá uma preguiça. Ai, gente! É mais uma coisa pra gente ficar guardando, mais uma palavra. O português já uma língua tão enorme, diversa, com monte de coisa. Facilita! Então, pra mim não tem disso, não.

Para complicar um pouquinho, dentro dessa discussão terminológica, uma das questões surgidas foi: essas categorias seriam identidades que estão definidas apenas biologicamente ou seriam categorias heteronormativas? Nossa dúvida é se esse tipo de categoria não excluiria outras identidades e orientações. Como você vê isso? Teve recentemente o evento Bate-papo Esportes nos Grupos LGBT no Museu do Futebol a respeito dessas práticas. A utilização desses termos específicos foi um ponto discutido? O que define o “futebol feminino”?

Eu acompanhei parte desse debate no Museu do Futebol. Não tinha mulher trans, não tinha. Tínhamos homens trans e gay, mas mulheres trans, não. A questão é abranger. A gente tem uma briga no feminismo. Quando você tem um assunto que une todo mundo e dentro desse assunto começa a ter discussões que segregam, eu começo já a ficar sem paciência e falo: “Não, gente, espera aí! Pra mim a luta é uma só.”. Então, quando começa a segregar demais, eu já começo a não querer essa ideia. Por isso que eu falo de tratar enquanto “futebol”.

Aí você tem estudos que vão falar que a mulher trans ainda tem a composição biológica masculina, o que interferiria no resultado, não daria para jogar de igual para igual. Será que não? Porque a gente vê tanta gente jogando misturado, quantos times mistos. A Daniela Alves joga no time do bairro dela com os homens, e ela joga bola. A Cristiane jogava no meio dos meninos. Hoje mesmo vi uma postagem dela, em que um homem diz: “Pô, que saudade de quando você jogava com a gente!”. E ela está na China. Então, por que não? Qual a diferença de você pegar e fazer um catadão, de todo mundo poder jogar junto, sem maiores discussões?

Para competição, eu já acho mais complicado. Acho que você tem que ter uma coisa aí mais específica. Eu não queria que isto fosse pejorativo: “Aqui é o time dos LGBTs.”, e tivesse que ficar só nisso. Eu acho que a gente poderia chegar num termo em que todo mundo jogasse com todo mundo. Ia ser maravilhoso, né?! Mas sonho meu. Nunca. Porque você tem até uma preparação física bem distinta. Velocidade, por exemplo. O futebol dos homens é corrido. Corre, corre, corre, corre… O futebol das meninas não é assim. Ele é mais cadenciado, mais trabalhadinho. E aí as pessoas acham que ele é meio chato… Em alguns aspectos, acho que a gente precisa categorizar, mas não que isso seja a regra. Para competição, é um tema complicado. Complicou, hein! Eu gostaria que todo mundo pudesse jogar junto, mas sei que tem coisas que complicam e que não dá. Ainda vou pensar nisso melhor.

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Lu Castro trabalha há muito tempo com o futebol feminino. Foto: Victor Figols.

A ideia era justamente a gente pensar junto, daí a pergunta. Uma das questões bem presentes nas reivindicações e no movimento feminista é a da sororidade. É possível a gente encontrar essa manifestação da sororidade no futebol feminino? Se for difícil, quais seriam as razões?

É difícil… As meninas se cuidam muito bem dentro de campo, no jogo. É visível que elas se cuidam. Se uma se machuca, se acontece alguma coisa, uma jogadora pode estar com a vantagem, pode estar quase saindo o gol do outro lado, que a atleta vai ajudar a menina que se lesionou. Mas quando se trata de ações para melhorar definitivamente, não. Por exemplo: “Olha, nós vamos juntar todo mundo aqui agora porque a fulana lá foi assediada. Nós não vamos aceitar. Vamos juntar todas as meninas, vamos lá e vamos meter o pé na porta. Vamos para a imprensa, vamos denunciar…”. Esquece. Não acontece. Por quê? “Eu preciso garantir o meu, garantir estar dentro de campo.”. Eu entendo – ou melhor, entendo em partes –, mas não seria minha postura, nem nunca foi. Cada um é cada um. É difícil encontrar nesse aspecto que eu falo de se lutar por uma modalidade melhor, por condições melhores para uma categoria.

As meninas têm atenção uma para com as outras, mas e em termos de estrutura? Se uma menina se machuca no Campeonato Brasileiro, qual é o tratamento que ela vai receber?

Você tem algumas questões de jogo. Todo jogo, por orientação do Estatuto do Torcedor, tem de ter no estádio: ambulância, médico, enfermeiro… Mesmo que o clube não tenha médico, mas tem de ter ali uma estrutura mínima para socorrer as meninas. A gente já teve situação bem pior, bem pior. Agora está até que “bonito”, porque a gente bateu um monte já em cima desse fato. O jogo lá da Copa do Brasil ou do Brasileirão começou com meia hora de atraso porque a ambulância não havia chegado e o time mandante não havia providenciado. Já aconteceram casos, não falando de São Paulo, mas no Campeonato Mineiro, de atleta que convulsionou aos 42 minutos do segundo tempo e não tinha ambulância em campo. Ou seja, a partida do Campeonato Mineiro, chancelada pela Federação Mineira, começou sem médico e sem ambulância em campo. A menina convulsionou e só sobreviveu porque tinha uma enfermeira na arquibancada que a socorreu.

Você tem a obrigatoriedade conforme o Estatuto do Torcedor e até o Regulamento Geral das Competições, da CBF. Para o momento do jogo, tem ainda uma estrutura, mas tem que pensar se a atleta consegue se recuperar e se o clube dá condição a ela para a recuperação. Muitos não dão! São poucos que falam assim: “Você vai tratar com o nosso fisioterapeuta aqui no centro de recuperação, ou com nossa clínica.”. São pouquíssimos clubes! Então, é um aspecto que não tinha nem pensado. Talvez pode ser até por isso que falei, das atletas cuidarem umas das outras. Mas isso é na hora do jogo, depois na recuperação é com o clube. E nem todos dão de forma adequada. Não dão nem alimentação adequada muitas vezes. Daí como você vai tirar alto rendimento da atleta com alimentação pobre? Em geral, come um lanchinho de manhã, joga às 11h00, vai se arrebentar lá por duas horas, depois toma banho, desce até o clube e se vira para ir embora. Ainda tem um mooonte disso!

Para você melhorar esse tipo de situação, você tem que estar com uma turma boa, forte, porque sozinha… É o que costumo falar: eu fico falando, falando, falando… Eu tomo bordoada! Tem um monte de gente que discorda, bate, mas não entendem o que eu quero dizer, que é exatamente juntar, unir para melhorar. Melhorar tudo na modalidade. E a gente ainda tem um chão terrível com esse negócio da reforma trabalhista. Mais um problema, eu acho.

Como que vai ficar isso especificamente para as mulheres em sua opinião?

Eu acho que piora. Se tinha alguma chance… O Santos registra as atletas e acho que o Sport e o América-MG também. Do que eu tenho conhecimento, por enquanto são esses… Ainda assim, dentro da norma celetista, que já poderia registrar, já era difícil. Agora, o que eu penso é que pode ficar muito mais complicado, porque as práticas já são bem abusivas. Tem as exceções, mas a maioria dos clubes é assim. Então, eu prevejo um cenário bem ruim para as atletas porque, se tinha alguma condição de ter ligado pela profissionalização, tinha que ter sido antes do golpe. Agora, vai ficar bem difícil. Se para o trabalhador comum que exerce diversas funções e pega um trem ou ônibus lotado de manhã já vai ficar difícil, para a atleta de futebol vai ficar mais difícil ainda.

Ou, então, pode até ficar fácil justamente porque muitas sequer têm noção do que é ser regido por uma CLT, ter um recolhimento de INSS, Fundo de Garantia… Que dirá número de PIS! Talvez fique até mais fácil para o clube, para elas não. Para elas, eu vejo dificuldade e passar mais alguns anos de vida se dedicando a uma profissão sem ter nada que garanta uma aposentadoria, que é outra coisa que nós vamos ter problema, como trabalhadora daquela categoria. Eu vejo problema. Eu bato na questão da profissionalização desde quando abracei a bandeira do futebol feminino. Agora vai ficar mais difícil porque era uma atitude que tinha de ter tomado antes. Eu falo para bater o pé na porta e exigir fazer tudo direitinho. Algumas atletas deram algumas dessas. Eu conheço algumas histórias. Mas a retaliação é a prática: “Fez? Ah, não serve. É baderneira, agitadora. Encosta.”. Normalmente, é assim.

Leia a segunda parte da entrevista em 29 de setembro!