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Luiz Carlos Rigo

Equipe Ludopédio

Luiz Carlos Rigo é graduado em Educação Física pela Universidade Federal de Santa Maria, mestre em Ciências do Movimento Humano pela Universidade Federal de Santa Maria, doutor em Educação pela Universidade Estadual de Campinas e fez pós-doutorado em Educação pela Universidade de Barcelona. Professor em Educação Física da Universidade Federal de Pelotas, Rigo é autor do livro “Memórias de um Futebol de Fronteiras” (Editora da UFPel, 2004), dedicado a de seus principais temas de investigação, o futebol amador ou varzeano (ou, nos termos de nosso entrevistado, o “futebol infame”).


Luiz Carlos Rigo, realiza estudos voltados ao futebol de várzea. Foto: Sérgio Giglio.


Primeira parte

 

Como foi o seu envolvimento com o futebol, até mesmo antes de você se tornar professor?

Essa parte eu não sabia que entrava. Mas, essa é a melhor. O meu envolvimento com o futebol, acho que como a maioria dos garotos brasileiros, eu tive um envolvimento bastante intenso com ele na minha infância e na minha juventude. Morava em uma cidade do interior, Santa Rosa, e lá eu jogava futebol. Além dos jogos de rua, de escola, essas competições, logo aos 11-12 anos eu comecei a jogar em um time de várzea, que se chamava Cruzeiro da Vila Sulina, que era vila, não era bairro. Então a gente tinha um clube que tinha categoria mirim, segundo quadro, primeiro quadro, veterano, aquela coisa clássica do futebol varzeano. Então eu joguei no Cruzeiro, é a minha formação futebolística. Toda ela nesse Cruzeiro da Vila Sulina. Joguei dos 12 anos até eu ir para a faculdade. Até eu sair da cidade aos 18 anos. Joguei no mirim, no segundo quadro, no primeiro quadro. Só não joguei no veterano. Agora tenho que voltar lá para jogar no veterano. Ainda está funcionando o Cruzeiro. Então eu tive esse envolvimento muito forte na minha juventude com o futebol. Ai depois eu fui fazer faculdade de Educação Física. Não muito pelo futebol. Outros colegas da escola também foram jogar nesse clube. Eu até fazia propaganda. A gente jogava muitos amistosos nos finais de semana e jogava o campeonato varzeano da cidade, todos os anos. Então o futebol era o meu lazer de final de semana. Talvez seja por isso que depois quando fui estudar o futebol eu tenha dedicado uma atenção especial, para o futebol de várzea.

Em algum momento dessa trajetória você tentou ou imaginou ser um jogador profissional?

Eu te confesso que eu cheguei a imaginar, porque tinha uns colegas que viraram profissional. Joguei junto com o Roberto Gaúcho, que depois jogou no Grêmio; joguei junto com outros guris que jogaram em outros times do Rio Grande do Sul. E a gente tinha aquela coisa: “Vamos lá, vamos fazer teste nos outros times”. Mas eu tinha uma referência, alguns colegas que jogavam um pouco melhor que eu não estavam conseguindo entrar. Eu também tinha certa cobrança de continuar nos estudos e muitos iam, ficavam um tempo, ficavam um ano, dois, voltavam. Minha família sempre tinha um pouco a ideia de eu não abrir mão dos estudos. Ficava um pouco mais difícil. E eu também tinha certa limitação, comparado com os guris que estavam virando profissional. Eu jogava bem na várzea, mas não tinha um time profissional na cidade. O que tinha não disputava nem segunda divisão estadual. Então para tentar seguir a carreira de jogador era necessário sair da cidade. O pessoal ia muito a Santa Maria, a Porto Alegre. Era o que fazia quem tentava virar profissional. Então eu nunca fui nessas peneiras, nessas coisas. Ai, logo depois eu entrei na faculdade. Ai o futebol virou só lazer mesmo.

E quando surgiu a passagem para o interesse acadêmico pelo futebol na universidade?

Pois é, o interesse acadêmico é bem mais tarde. Eu fui fazer faculdade de Educação Física, em Santa Maria. Só que na época – até outro dia estava brincando com as pessoas que hoje estudam futebol – na época que eu fiz a faculdade tinha um discurso bastante anti-esporte, dentro da Educação Física. Anti-esporte de rendimento. Eu peguei isso ai bem na década de 1980. E essas experiências nossas com o futebol, ou com outros esportes, não eram valorizadas. Então eu acabei entrando na faculdade e logo depois eu fiz uma especialização e mestrado, mas o futebol não aparecia como objeto de estudo ainda. Até pelo contexto que tinha na Educação Física, a crítica a todo esporte e mais ainda ao futebol. Mas enquanto o pessoal se reunia para criticar o futebol eu nunca faltava aos jogos. Jogar eu sempre jogava. Até participava da crítica, mas continuava jogando. Joguei o campeonato de várzea em Santa Maria, enquanto estava na faculdade. Era um campeonato muito interessante. Ia para os bairros jogar todo final de semana. Mas eu não tinha interesse acadêmico. Depois eu fiz o mestrado e também não teve como interesse de estudo o futebol. Depois, já no final da década de 1990, eu comecei a ler outras coisas e comecei a ter um olhar que valorizava um pouco mais o esporte e principalmente o futebol. Uma leitura um pouco diferente do que predominava na Educação Física. Eu acho que isso é importante, porque na Educação Física teve uma época que ou tu estudava a perspectiva biológica, ou tu negava o esporte. Não tinha muito como estudar o futebol a partir das Ciências Humanas. Depois, quando eu comecei a trabalhar na Universidade Federal de Pelotas…

Em qual ano?

Primeiro eu não trabalhei com futebol. Em 1993 eu trabalhei na Universidade Federal de Sergipe. Aí eu jogava futebol junto com os alunos, mas ensinava outras disciplinas. Interessante era porque o pessoal comentava assim “Pô, mas ele gosta de jogar futebol. Que incrível. Ele é da área crítica, mas joga futebol”. A gente ria disso. E a gente jogava sempre com uma perspectiva de competição mesmo, de competição lúdica. Depois a partir de 1994 eu comecei a trabalhar em Pelotas, lá logo um colega meu, que trabalhava com o futebol, saiu para o doutorado. Então ele perguntou assim: “Quem assume a disciplina de futebol?” Nesse momento o contexto da Educação Física já era um pouco diferente. Aí eu pensei e falei: “eu vou trabalhar com futebol!”. Eu comecei a trabalhar com futebol e logo me chamou a atenção o fato da região ter essa marca histórica no futebol brasileiro. O primeiro clube em Rio Grande, a existência de outros clubes com muita tradição. Assim, eu logo comecei a fazer projetos de pesquisa com os alunos; projeto de extensão. E logo eu comecei a me interessar para pesquisar mais o futebol. Foi aí depois de dois anos que eu estava trabalhando com a disciplina de futebol na graduação – que continuo trabalhando até hoje – que eu fiz um projeto de doutorado. Foi até interessante, depois o meu colega, esse que saiu para o doutorado, ele me doou todos os livros de futebol que ele tinha e me falou: “pode ficar que a disciplina é tua”. Ele não fazia muita questão de voltar a trabalhar com o futebol. Foi assim que eu fui fazer um doutorado para pesquisar o futebol. Inclusive, eu saí para estudar o futebol na educação e minha orientadora era socióloga. Porque na Educação Física ainda não tinha muitos espaços. Havia algumas possibilidades, mas eram poucos os espaços na Educação Física para você estudar o futebol em um curso de doutorado na perspectiva das Ciências Humanas. Eram poucos. Quando eu fui com esse projeto para fazer um doutorado sobre futebol na Unicamp comecei a circular mais na área das Ciências Humanas e logo me chamou a atenção como as outras áreas, principalmente Sociologia, História, Antropologia, tinham um olhar que valorizavam mais o futebol do que a própria Educação Física. Depois dali continuou. Aquela coisa que a gente costuma falar: “tu termina a tese, mas não acaba o seu envovilmento com o objeto”. Então, continuo pesquisando futebol, mas o doutorado foi a minha primeira pesquisa mais longa com o futebol. No mestrado eu estudei o Esporte na Escola.

Luiz Carlos Rigo, intitulou o futebol de várzea como infame. Foto: Sérgio Giglio.

Quem trabalha com futebol de várzea trabalha uma perspectiva das narrativas da várzea e uma observação etnográfica. E você tem trabalhado com as duas, tentando relacioná-las. Como é construir esse trabalho? São trabalhos diferentes? São propostas diferentes ou o trabalho é construído junto nos mesmos locais?

Pois é. Quando tu trabalhas na Universidade muita gente te procura e eu tenho uma posição de valorizar as demandas que chegam. Acho que é diferente de quando tu és autor de uma pesquisa, pois ai você pode direciona totalmente a linha da tua pesquisa. Eu tenho uma posição como grupo de estudo, de pesquisa, como professor, de tentar valorizar as demandas que chagam. Claro que também há os meus projetos, como foi o caso, por exemplo, futebol feminino. Uma das coisas que ficaram penduradas na minha tese. Então eu me propôs a coordenar uma pesquisa sobre futebol feminino e outra sobre de várzea, que eu fiz somente um capítulo na minha tese. Mas os alunos também trazem temas e objetos de pesquisa pensados por eles. Vamos chamar assim. Não é objeto, mas sim interesse de pesquisas. Então eu jogo muito com isso, e assumo uma postura um pouco mais anarquista quanto a metodologia. Eu acho que a metodologia tem que auxiliar o interesse de pesquisa. Eu trabalhei mais com memória, mas eu tinha vontade de trabalhar com etnografia. Eu como eu acredito que tu só aprendes as metodologias pesquisando, eu comecei a cruzar essas metodologias. Então eu penso assim: o aluno da graduação vai fazer uma etnografia – com a marca da graduação, mas vai fazer. O aluno do doutorado vai fazer uma outra etnografia. É a mesma, mas não é. Então eu tento também fazer esses exercícios metodológicos, e trabalhar com a metodologia auxiliando aquilo que eu quero pesquisar. Por exemplo, “este trabalho vai ter um foco mais histórico”, aí tu vai para a História Oral, que é uma coisa que eu gosto. Outro vai ter um enfoque mais sociológico; Aí tu começa a ver que metodologias podem te auxiliar. Eu também já orientei outros trabalhos de futebol com outras metodologias, como um com análise do discurso; que não estava nas minhas perspectivas, mas o mestrando chegou com um projeto bom para fazer uma pesquisa se utilizando da análise de discurso. Eu falei assim: “Tá, eu conheço um pouco de análise do discurso, principalmente a partir da perspectiva do Foucault”. Mas ele foi atrás, fez disciplina de análise do discurso. Metodologicamente eu lido um pouco assim. As pesquisas puxam a minha metodologia. Por isso esses cruzamentos. Alguns trabalhos que eu orientei no mestrado também foram nessa perspectiva. Alguns alunos às vezes chegam com alguma experiência, já fizeram o seu TCC, etc. Então, eu tento valorizar o interesse e a bagagem que o aluno traz. Não sei se te respondi. Metodologicamente é um pouco isso: o estudo da memória, a etnografia, a análise de discurso. Eu acho que é também um pouco o papel de quem está na Universidade, principalmente eu, que estou em uma Universidade mais periférica e tem poucas pessoas estudando e orientando pesquisas sobre o futebol.

Falar de várzea é trabalhar com a memória. A várzea tem uma conexão com o passado que é muito incrível.

É interessante porque quando eu fiz o capítulo sobre a várzea na minha tese, me chamou a atenção que um membro da banca falou: “É o melhor capítulo!” E eu fiquei feliz é claro! É o capítulo em que eu joguei futebol 10 anos. Então eu pensei: se eu não souber falar da várzea eu não vou saber falar de nada relacionado ao futebol (risos). Mas, a várzea realmente remete muito a memória, como você tocou. Ela tem menos registros. Então a oralidade é importante. Você pode fazer História Oral de qualquer coisa, mas alguns objetos de pesquisa parecem-me mais propensos para serem investigados a partir da História Oral e da memória. Por exemplo, às vezes sobre os clubes de várzea você somente encontra acervos pessoais, documentos e fotografias avulsas, soltos em casa de dirigentes e de jogadores. Ou, outras vezes, não se têm nem acervos pessoais são quase só memória, lembranças e histórias. Agora nós estamos pesquisando um, por exemplo, que é de 1913, comemorou 100 anos no ano passado, mas encontramos poucos registros escritos. Então isso que tu estás falando está correto. Ontem nós estávamos discutindo isso. A maioria dos clubes de várzea têm poucos registros escritos. Poucas fotografias históricas. Porque antigamente era mais difícil preservar essas imagens. Então tem lá na sede uma fotografia. E ás vezes é interessante fazer todo um trabalho de esquentar essas fotografias. Eu fiz isso, algumas vezes. Uma vez eu fui a uma sede que tinha somente uma fotografia histórica do clube na parede e ai me falaram: “eu não sei quem está nessa fotografia, mas fulano de tal sabe.” Aí eu fui atrás dessa pessoa indicada e mostrei a fotografia e ela me deu o nome de todos que estavam na foto de 50 anos atrás. Eu cheguei a pensar: “Mas será que é realmente o nome desses jogadores?”. Mas depois, quando eu cheguei em casa eu me dei por conta que olhando a fotografia do time de várzea que eu joguei eu percebi que eu também lembrava o nome de todos meus colegas de equipe, depois de 30 anos. Porque às vezes as pessoas jogaram dez anos ou mais juntas, no mesmo clube. O narrador que eu encontrei dizia: “esse aqui é fulano de tal, este aqui não está mais vivo, faleceu”. As pessoas lembram: “esse jogo aqui foi em 1960, foi 3 a 1”. Ele havia participado do jogo também.

E se foi 2 a 1 ou 3 a 1 também não importa.

É. Também não importa. Mas é bacana perceber como eles lembram também o resultado dos jogos. Chamou-me a atenção essa intensidade da memória da várzea. Porque às vezes a gente pensa que a memória só preserva as grandes decisões do futebol, as partidas que são mais comentadas pela imprensa, etc. Mas se teve um jogo de várzea que tu marcaste um gol e o resultado foi 2 a 1, dificilmente tu vais esquecer o resultado desse jogo. Principalmente se foi um jogo pegado ali na várzea. Então a memória da várzea é assim: forte, intensa. É por aí talvez. Mas eu acho importante também estudar a várzea a partir da etnografia e de outras metodologias e, às vezes, é possível cruzar essas metodologias. Eu vejo essa possibilidade !

Luiz Carlos Rigo recebeu o prêmio de Jovem Pesquisador em 2004, UFPel CNPQ. Foto: Sérgio Giglio.

Você acha que em uma pesquisa de mestrado e doutorado sobre futebol de várzea é possível trabalhar com memória e também com uma abordagem etnográfica? Pensar ao mesmo tempo o passado e o atual?

Eu acredito que sim. Mas como falei eu sou um pouco anárquico nas metodologias. Gosto de quebrar a rigidez das metodologias. E um autor que eu trabalho que é o Foucault, ele é muito crítico a esses padrões metodológicos. Além disso, eu penso que os estudos com a Memória e com a História Oral também têm essa marca, eles fazem parte de um campo metodológico mais flexível. Eles nasceram justamente para dar espaços para novas possibilidades metodológicas. Mas, claro que cada pesquisador constrói ou não essas possibilidades. Mas, ao meu é possível. Claro que em às vezes, não tem tempo para fazer essa junção metodologicamente mais trabalhada. Não é nem “mais correta”, mas “mais trabalhada.” Talvez a grande qualidade da memória seja o fato dela tensionar alguns critérios de cientificidade mais rígidos. Isso geralmente já aparece durante a realização das entrevistas, ás vezes tu pensas que a entrevista vai ser de um jeito, e no final o resultado dela é outro. O narrador lembrou e enfatizou mais questões que não estavam no roteiro, o processo da coleta da entrevista ocorreu de uma maneira que não era esperado ou outras coisas que ajudaram a entrevista a fugir do mais previsível. Algumas pessoas consideram isso uma dimensão menos científico, mas algumas vezes isso pode ser justamente o mais interessante para determinadas pesquisas. Eu tive algumas experiências assim. Vou contar uma: entrevistei um ex-jogador da várzea que só aceitou me conceder uma entrevista enquanto ele estava trabalhando, atendendo os clientes que chegavam em sua padaria. Cada pessoa que chegava ele parava a entrevista e ia atender o cliente. A primeira vez que eu desliguei o gravador eu pensei: isso vai atrapalhar a entrevista! Geralmente ele ficava uns 10 ou 15 minutos atendendo, atendendo cada cliente. Só que depois da segunda ou terceira interrupção eu comecei a perceber que toda vez que ele parava a entrevista para atender um cliente, quando ele retornava para continuar a entrevista ele dizia assim: “Aquilo que eu estava falando pra você, eu me lembrei de mais um detalhe…” Ou seja, toda vez que ele saia para atender um cliente ele ficava relembrando. Então, aquilo que não estava previsto nos meus procedimentos metodológicos e inicialmente eu pensei que iria atrapalhar, ajudaram a qualificar a entrevista. Depois, ao transcrever a entrevista eu fui percebendo melhor como as “pausas” para atender os clientes ao invés de prejudicar ajudaram a qualificar a entrevista. E a entrevista foi mais calma que a maioria. Ele ficou a manhã toda, pois a cada 15 minutos entrava uma pessoa na padaria. Então, eu penso que a memória tem essa singularidade, ela é mais propensa ao imprevisível. Aliás, ela é mais imprevisível.