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Marcelino Rodrigues Silva (parte 3)

Equipe Ludopédio

Mestre e doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marcelino é professor adjunto da Faculdade de Letras da UFMG e pesquisador do Núcleo de Estudos de Acervos de Escritores Mineiros – NEAEM. Marcelino tem se dedicado, principalmente, às pesquisas sobre o imaginário e a cultura do futebol no Brasil e em Belo Horizonte. Dentre seus trabalhos publicados, destacamos o livro Mil e uma noites de futebol; o Brasil moderno de Mário Filho (UFMG, 2006).

A entrevista foi realizada em maio de 2014 – ou seja, antes da Copa do Mundo realizada no Brasil -, durante o  II Simpósio Internacional de Estudos sobre Futebol (Museu do Futebol, LUDENS/USP).

 

Foto: Sérgio Giglio

Marcelino Rodrigues Silva, autor do livro: “Mil e uma noites de futebol”, cuja temática aborda a interpretação do discurso do jornalismo esportivo do início do século 20. Foto: Sérgio Giglio.

 

Terceira parte

 

Recentemente, em Belo Horizonte, o chargista Duke fez uma charge que criava uma situação de humor em relação a um árbitro de futebol e este processou o chargista.

O chargista fazer uma charge sobre alguém é o trabalho dele. Se o árbitro foi a campo apitar um jogo, ele se expôs a isso. Assumiu um papel público, então está diante do julgamento público. A charge é uma interpretação do que aconteceu. A charge é uma crônica, num certo sentido. O que está acontecendo no campo de jogo é do campo público e todos podem opinar. A charge não é jornalismo no stricto sensu, não é relato dos fatos, é uma interpretação, um comentário.

Agora falando um pouco de cinema. Você escreveu um artigo sobre dois filmes, O milagre de Berna e O ano que meus pais saíram de férias. Qual foi sua proposta? E como foi deslocar o olhar do seu escopo principal, a literatura, para outra arte, o cinema?

Não sou especialista em cinema. Fui motivado por uma mostra cinematográfica que fizemos na faculdade. Mas o cinema também é um discurso sobre futebol. Não tenho uma formação em linguagem cinematográfica, mas posso falar sobre filmes. O argumento do Milagre de Berna, um filme alemão, é sobre o renascimento da nação alemã após a guerra e a vitória na Copa do Mundo de 1954. O argumento do filme brasileiro aborda a experiência do Mauro em 1970, cujos pais eram militantes políticos e não tinham saído de férias, mas sim fugidos, capturados pela ditadura e o pai foi morto. Comparei os dois filmes no sentido de ver as possibilidades de abordagem do futebol pelas artes e as formas de funcionamento simbólico do futebol. O conceito operatório central é a metáfora. Nos dois filmes você tem três linhas narrativas. Uma linha é o país, a nação; outra linha é a seleção; e a terceira linha é a trajetória do menino. O filme alemão termina com a seleção alemã campeã, a nação reconstruída e a família recomposta. Existe uma convergência entre essas três linhas narrativas e o futebol serve como afirmação da unidade da nação alemã. Podemos dizer que é um uso pedagógico do futebol. É um uso que serve um pouco para construir a imagem da nação, que tem sempre um aspecto de autoritarismo e imposição. O autor indiano Homi Bhabha fala que a nação é a metáfora do “muitos como um”. Somos todos um. E para sermos todos um temos que esquecer nossas diferenças. O filme alemão usa o futebol dessa maneira: o futebol como afirmação da nação e da unidade da nação. Talvez seja o uso mais comum que se faça do futebol. O filme do Cao Hamburger usa também o futebol como metáfora. Tem a trajetória da família, da nação e da seleção. Só que ele usa o futebol como uma metáfora dissonante. Ele faz a metáfora funcionar, mas ele quebra a metáfora, faz desafinar. O título do artigo é “Desafinando a metáfora da nação”. No filme brasileiro, a seleção ganha a Copa do Mundo e afirma a metáfora da nação, mas a nação está conflito e a família também termina partida: o pai morreu e o menino e sua mãe partem para o exílio no final do filme. O filme faz o futebol, como metáfora da nação, desafinar. Ele mostra como o futebol não é necessariamente afirmação da nação, nem afirmação da unidade, mas sim um jogo entre a diferença e a semelhança. Não tem que cumprir esse papel ideológico de afirmar a nação, o poder, o estado. Eu gosto muito do filme do Cao Hamburger, é um exemplo de como o futebol é uma linguagem aberta. E permite pensar em questões atuais, nas manifestações. Não é o Brasil protestando contra o futebol, mas sim o Brasil protestando contra um monte de coisas através do futebol. O futebol está servindo como uma espécie de linguagem para falarmos: “opa, tem algum problema aí”.

Max Rocha.

Atualmente Marcelino exerce o cargo de Professor adjunto da Faculdade de Letras da UFMG, atuando na área de Teoria da Literatura. Foto: Max Rocha.

O que é o FULIA? Como é a atuação do grupo? Inclusive o diálogo com outro grupo de Belo Horizonte, o GEFUT…

O FULIA (Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes) é um grupo relativamente recente, de 2010. Logo após ingressar na Faculdade de Letras, recebi um convite do Prof. Élcio Cornelsen e da Profa. Luciane Correa Ferreira. É um grupo formado na Faculdade de Letras. Temos a liderança muito atuante e potente do Élcio, uma máquina de trabalhar, é impressionante! A nossa especificidade, da Letras, é a relação entre futebol, linguagem e artes. Acredito que seja o único grupo de pesquisa sobre futebol nesse campo, por isso tem uma contribuição muito importante a dar para o tema. Lança um olhar diferente, um olhar mais atento para essas questões da linguagem e do discurso. Acho que é um lugar de onde podemos falar com muita segurança sobre a objetividade jornalística, por exemplo. A partir da interdisciplinaridade, temos muitas contribuições a oferecer. Do ponto de vista concreto do trabalho, temos que reconhecer a importância do Élcio, ele é o capitão do time. Existe também uma relação muito legal com o GEFUT. Um grupo mais antigo, mais consolidado, um grupo muito ativo, faz muita coisa importante, conseguiu levar para dentro da Educação Física esse olhar das Ciências Sociais e fazer ter uma relevância lá. É um grupo com uma capacidade de realização muito grande, uma turma com muita unidade, que trabalha muito bem. Para nós do FULIA, é um privilégio trabalhar com eles porque eles potencializam muito o que a gente faz. Desde 2010, quando estabeleci contato com o Silvio, já começou uma interação. Mas essa interação muda de nível com a participação do Élcio. Produziram um evento com convidados internacionais. Isso é uma coisa que eu, sozinho, não teria força nem paciência para fazer. Os grupos se fortalecem mutuamente. O FULIA contribui com o GEFUT no amadurecimento do olhar para o futebol, pois o vemos de modo diferente, como um fenômeno discursivo, de produção de sentidos; mas o GEFUT é um grupo mais estabelecido, maior e mais atuante. A aliança entre os grupos fez do FULIA um grupo importante entre os núcleos de pesquisa sobre futebol no Brasil. Tenho muita admiração pelo Silvio e demais membros do GEFUT.

Você falou que estudar futebol trouxe coisas boas e ruins. Entre as coisas boas, orientandos têm lhe procurado para estudar temáticas envolvendo o futebol?

Sim, tem acontecido esse interesse, mesmo antes da Copa do Mundo de 2014. Já orientei uma boa turma de alunos trabalhando com esse tema. Algumas dessas orientações, inclusive, relacionadas às minhas pesquisas atuais sobre a crônica esportiva em Belo Horizonte. Vários estudantes chegam muito “verdes”, querem trabalhar, mas não têm projetos de pesquisa muito elaborados. Procuro orientar, conduzir. Elcio trabalha com um grupo maior, sempre muito ativo. Apesar de chegarem “verdes”, isso vai criando uma massa crítica. Elcio está sempre ministrando disciplinas sobre futebol e música, futebol e cinema. Agora ele tem orientandos de pós–doutorado. Eu tenho atualmente um orientando de mestrado trabalhando com os textos do Carlos Drummond de Andrade sobre o futebol e uma outra orientanda de mestrado que não trabalha especificamente com futebol, mas o futebol está dentro do trabalho dela. O interesse pelo tema vem crescendo, o que é muito bom, tanto para o futebol quanto para as Letras. Acho que refresca um pouco o olhar das Letras para a Cultura, o que é importante dentro da própria disciplina.

Max Rocha.

Marcelino Rodrigues Silva é autor de diversos trabalhos sobre o imaginário e a cultura do futebol no Brasil e em Belo Horizonte. Foto: Max Rocha.

Você já percebeu alguma grande mudança, um impacto diferente, do novo Mineirão, reformado para a Copa do Mundo?

Tem essa coisa da transformação do torcedor em consumidor, em cliente, acho que isso definitivamente está acontecendo. A torcida em campo se elitizou. É uma questão bem pertinente. Em Belo Horizonte, temos a circunstância atual do Mineirão ser a casa do Cruzeiro e o Estádio do Independência a casa do Atlético. Obviamente, o Mineirão não está entre os lugares que eu mais frequento hoje em dia. Mas minhas maiores felicidades como torcedor foram no Mineirão. Vendo esse time de meados da década de 1970 e 1980, quando eu ia muito ao campo. Foi a época em que eu fui feliz com futebol. Lógico que a Libertadores foi muito bacana, mas acho que para a minha emoção de torcedor o time com Reinaldo, Paulo Isidoro e Cerezo foi mais importante que a equipe atual. Aquele time é o meu time dos sonhos do Galo.

E quais são seus projetos atuais?

Acho que minha pesquisa atual prolonga o que fiz no mestrado e no doutorado, mas tem um passo à frente, um amadurecimento intelectual. Comecei com essa ideia: vamos pensar o futebol como um fenômeno de produção de sentidos. Acontece alguma coisa no campo, esse futebol que é um espetáculo, que tem muito torcedor vendo, cantando e conversando no boteco, vários jornalistas escrevendo. Existe, assim, uma pressão discursiva. Tem tantas pessoas falando daquilo que aquilo acaba se relacionando a outras coisas. Isso faz com que o futebol não seja só o futebol, mas signifique outras coisas. O processo de significar é isso. É colocar um signo em relação com outros. Comecei pensando em semiótica, com essa ideia na cabeça. Depois fui ver como isso aconteceu na história cultural brasileira. Foi quando pensei a contribuição que o Mário Filho deu para a interpretação do futebol no Brasil. Agora, em função das coisas que estou lendo e trabalhando teoricamente, como a relação entre ficção e história, tenho refinado esse raciocínio. Tenho tentado desfazer essas oposições entre o ficcional e o real/histórico, perceber a ficção no discurso histórico e no modo como vivemos, no modo como falamos da realidade, no jornalismo por exemplo. Tenho procurado observar essas interpretações como ficções que fazemos de nós mesmos a partir do futebol. Tenho lido muito sobre a relação entre ficção e história. Faço uma aproximação entre um autor de teoria da literatura, Wolfgang Iser, e um historiador, Hayden White. Este fala que o discurso histórico, para poder interpretar e dar sentido à realidade, se vale de estruturas narrativas elaboradas pela ficção e pela literatura. Isso serve para o jornalismo. O jornalismo, quando vai narrar as coisas do futebol, se vale de maneiras de narrar que foram experimentadas na literatura. Insere os fatos em modos narrativos diversos, como a farsa, a tragédia, o romance. De alguma maneira, a ficção está sempre ajudando a criar o que chamamos de realidade. A partir dessa ideia, que colhi nessa bibliografia, comecei a pensar assim: se olharmos bem para aquilo que a gente pensa sobre futebol e para o ambiente intelectual em que isso foi forjado (as redações de jornais da primeira metade do século XX, onde as funções de jornalista e escritor eram mais ou menos a mesma coisa), podemos perceber diversas coincidências entre a interpretação que construímos do Brasil pelo futebol e os projetos, concepções e ideias do Modernismo. Estou trabalhando num projeto intitulado: “Futebol brasileiro: invenção modernista”. Primeiro, pegar a ficção e a poesia modernista sobre futebol; a outra frente é pegar a produção jornalística, cronística e chargística sobre futebol. E tentar aproximar os dois conjuntos de produções para perceber um pouco como a interpretação que o jornalismo construiu sobre o futebol está contaminada por esses projetos de Brasil, de identidade, de nação, elaborados pelo Modernismo. Procuro analisar como uma coisa está imbricada na outra; ou seja, analisar como nossa cultura esportiva é, de certa forma, uma invenção modernista.

Foto: Sérgio Giglio.

Marcelino Rodrigues Silva, durante o II Simpósio Internacional de Estudos sobre Futebol (Museu do Futebol, LUDENS/USP). Foto: Sérgio Giglio.

Qual seu jogo inesquecível? Seja como torcedor, jogador ou pesquisador…

Sou atleticano, torço pelo Galo. Tive a oportunidade, hoje, de tirar uma foto com o Reinaldo, que foi meu grande ídolo. Vi muito gol do Reinaldo debaixo das pernas do Raul. Lembrei, com ele, do meu momento mais feliz no futebol: semifinal do Brasileiro de 1977, Atlético 4 x 2 Londrina, três gols do Reinaldo, três golaços. Como atleticano, não tem como não lembrar a felicidade que tivemos em 2013, na Libertadores, foi muito bacana. Mas o jogo que eu espero mesmo é esse que vai se dar, dentro e fora do campo, na Copa do Mundo. Estou muito curioso para saber como será isso.