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Marcelino Rodrigues Silva

Equipe Ludopédio

Mestre e doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marcelino é professor adjunto da Faculdade de Letras da UFMG e pesquisador do Núcleo de Estudos de Acervos de Escritores Mineiros – NEAEM. Marcelino tem se dedicado, principalmente, às pesquisas sobre o imaginário e a cultura do futebol no Brasil e em Belo Horizonte. Dentre seus trabalhos publicados, destacamos o livro Mil e uma noites de futebol; o Brasil moderno de Mário Filho (UFMG, 2006).

A entrevista foi realizada em maio de 2014 – ou seja, antes da Copa do Mundo realizada no Brasil -, durante o  II Simpósio Internacional de Estudos sobre Futebol (Museu do Futebol, LUDENS/USP).

 

Marcelino Rodrigues Silva é torcedor do Atlético mineiro e escreveu sua dissertação de mestrado baseada no livro: Á sombra das chuteiras de Nelson Rodrigues. Foto: Max Rocha.

Primeira parte

Marcelino, qual era seu envolvimento com o futebol? E como começou a realizar estudos sobre o tema?

Eu não sou um fanático. Sempre gostei de futebol, sou torcedor do Atlético Mineiro. Na minha trajetória como estudante fiz graduação em Letras. Na faculdade tinha vontade de estudar algo fora do cânone literário. Eu tenho um grande amigo, o historiador do futebol Mauro Sérgio França, colecionador, ele tem muita coisa, muitos livros, revistas etc. Eu já tinha um pouco essa ideia de que poderia estudar o futebol. Isso por volta de 1992. Nessa época saiu o livro do Nelson Rodrigues, À sombra das chuteiras imortais. Comprei o livro, dei uma olhada e pensei: “Opa, achei minha dissertação de mestrado”. Eu estava procurando um tema para fazer o mestrado. Escrevi o projeto, propus à minha orientadora, a Profa. Vera Casa Nova, da área de Semiótica, ela gostou, e a Faculdade de Letras da UFMG tem uma abertura para este tipo de trabalho. Não é uma faculdade muito tradicional, que só trabalha com cânone literário. Propus o projeto sobre as crônicas do Nelson Rodrigues. O tema ainda era uma novidade. Hoje em dia já é uma figurinha carimbada. A dissertação foi bem sucedida, ficou bacana, ganhei o prêmio de melhor dissertação do biênio de 1997-1998. A proposta era pensar o futebol como um fenômeno de produção de sentidos e eu fiz isso a partir das crônicas. O que constrói o futebol como um fenômeno de produção de sentidos são as coisas que nós falamos sobre ele, são os discursos sobre o futebol. A crônica teria um papel importante porque, livre da objetividade jornalística, ela poderia deslocar os sentidos que atribuímos ao signos esportivos. Depois do mestrado, já saí com um plano de fazer o doutorado. Mas tentei fazer um movimento para fora do futebol. Mas tentei fazer um movimento para fora do futebol. Já tinha em mente quem seria minha orientadora, a Profa. Eneida Maria de Souza. Cheguei a falar uma ou duas vezes com ela, “Eneida, quero fazer o doutorado sobre isso”, e ela falava, “Sobre futebol é melhor…”. “Está bem, Eneida, entendi” (risos). A pesquisa do mestrado era uma discussão mais teórica, na área de semiótica. Mas na pesquisa de mestrado eu já tinha percebido que do ponto de vista histórico a figura principal era o Mário filho. Eu fiz o projeto de doutorado e fiz a tese Mil e uma noites de futebol: o Brasil moderno de Mário Filho. Foi bacana e virou livro pela Editora UFMG. Foi assim que me tornei um pesquisador do futebol. Isso marcou muito minha trajetória dentro na Letras. É um tema pouco comum na área. Para minha trajetória de pesquisador tem um lado bom e um lado ruim. Muitas vezes fui visto com desdém por tratar do futebol, “Por que você estuda isso? Isso não é literatura”. Ouvi isso algumas vezes. Mas isso também me distinguiu, foi uma marca importante.

Isso é algo recorrente nas outras entrevistas com pesquisadores que iniciaram suas pesquisas na década de 1990 ou antes. Você teve muita dificuldade para pesquisar este tema?

Eu acho que só no início, um pouco de dificuldade com a bibliografia. Depois não, principalmente por causa da Faculdade de Letras da UFMG, talvez a melhor faculdade de Letras do Brasil. Tem dois programas 6 e 7 na Capes. Uma característica da Letras da UFMG sempre foi essa abertura para outras linguagens. Para entrar na pós-graduação não encontrei dificuldades. Contei com a cabeça aberta das orientadoras. Senti mais dificuldade depois de terminar o doutorado, em 2003, nas minhas primeiras tentativas de me encaixar no mercado de trabalho como professor de Literatura. Por exemplo, fiz um concurso para professor, apresentei um projeto que tinha a ver com futebol e aconteceu isso na banca: “não é um tema que nos interessa”. Senti menos dificuldade na faculdade do que na inserção profissional. Em relação à pesquisa propriamente dita, como procurava fazer o futebol dialogar com o que estava fora, eu senti menos essa coisa da escassez de bibliografia. A ideia já era dialogar com o que estava fora do futebol. Eu acho que teve até um certo charme de propor uma pesquisa com aquele viés, com aquela abordagem, o que me permitiu falar algumas coisas um pouco diferentes, sair daquilo que era mais dito sobre futebol.

Você chega a ampliar o escopo, indo aos jornais onde eram publicados aqueles materiais. Como foi esse processo de pesquisa?

No mestrado, trabalhei estritamente com as crônicas do Nelson, já publicadas. Tinha uma discussão teórica da semiótica. A pesquisa de doutorado foi completamente diferente. A linha de pesquisa era Literatura, História e Memória Cultural, para discutir historicamente os modos como o futebol foi interpretado no Brasil. Foi uma pesquisa de arquivo. Passei meses indo toda semana para o Rio de Janeiro. Moro em Belo Horizonte. Ia toda a semana para a Biblioteca Nacional, Museu do Esporte Mané Garrincha, arquivos do jornal O Globo etc. Foi uma pesquisa de fontes primárias. Acho que isso agregou muito para a minha experiência como pesquisador. Foi bem interessante. O caminho do arquivo e da pesquisa em fontes primárias determinou o rumo que está seguindo minha carreira hoje, com o trabalho como diretor do Acervo de Escritores Mineiros, da UFMG

Durante o doutorado Marcelino Rodrigues Silva viajava constantemente à Biblioteca Nacional, ao Museu do Esporte Mané Garrincha para pesquisas. Foto: Max Rocha.

Existem diferenças significativas entre o texto final da tese e o que foi publicado no livro?

Não. É bem parecido. Eu dei uma limpada. Tirei um pouco daqueles cacoetes acadêmicos, mas é bem parecido. A parte de iconografia diminuiu muito. Tinha muita imagem na tese. Por exemplo, tinha uma série de imagens do jornal O Globo em 1931 com o Leônidas. Para mostrar a construção da personagem Leônidas nos jornais aonde Mário Filho trabalhava. Mas colocar no livro as imagens do Leônidas era apontar para um possível problema de direitos de imagens. Tivemos que enxugar a coleção de imagens que foi para o livro. Mas de escrita foi só limpeza da linguagem acadêmica. Minha escrita nunca foi muita carregada. Sempre foi uma escrita muito mais leve. Então mexi não muito.

Na tese você começa falando sobre a questão do amadorismo. Como você vai construir essa discussão?

Nas coisas que a gente lia naquele momento sobre a história da imprensa esportiva e, consequentemente, sobre a história de como o futebol foi interpretado pela sociedade brasileira, existia uma repetição. Por exemplo, tem um artigo do José Sergio Leite Lopes na Revista USP de 1994 e o livro do Ruy Castro sobre o Nelson Rodrigues comentando que o Mário Filho inventou a imprensa esportiva, a linguagem da imprensa, que o espaço dedicado ao futebol antes dele era pequeno. Um primeiro passo que eu achei ser necessário para construir essa história da interpretação do futebol no Brasil era verificar isso. Ver como era a imprensa antes do Mário Filho. Biblioteca Nacional, álbum de recortes Marcos de Mendonça. É uma extensa coleção de recortes de jornais da década de 1910. A minha relação com o pessoal da Biblioteca Nacional foi ótima, eles me ajudaram muito. Eu consegui cópias em microfilme do álbum e o estudei. Fui estudar a imprensa esportiva da década de 1910. A coleção é muito grande, são dois cadernos enormes. O meu foco não era o amadorismo, mas a maneira como o futebol era visto naquela época. Eu sempre procurei tomar a imprensa como instância privilegiada de interpretação do futebol; o lugar central onde são construídos os sentidos do futebol. O que eu verifiquei na imprensa confirmou um pouco a lenda das formas de tratamento do futebol. Aquela coisa da linguagem empolada, cheia de anglicismos, uma abordagem que privilegiava o futebol como acontecimento social, as pessoas importantes na plateia, priorizava a disciplina. Isso se confirmou um pouco. O que definitivamente não se confirmou é o fato de que não havia imprensa esportiva antes de Mário Filho. Um desses dois grandes cadernos do Marcos de Mendonça, a maior parte dele, reúne as publicações da imprensa carioca sobre o Campeonato Sul-Americano de 1919. Um mar de publicações. Muito legal. Do ponto de vista quantitativo, eu desfiz um pouco essa imagem de que o Mário Filho inventou a imprensa esportiva. Mas a pesquisa confirmou o que já se sabia, do ponto de vista das formas de tratamento. Era uma imprensa que fazia uma interpretação elitista do futebol. O Mário Filho definitivamente popularizou a interpretação do futebol. Uma coisa legal nessa imprensa da década de 1910 e do Sul-Americano de 1919 é a cobertura das revistas de variedades, como a Fon-Fon e a Careta. Cobriram o evento com humor, biografias, charges e várias outras coisas que apareceram na linguagem jornalística do Mário Filho. Percebe-se que ninguém criou nada do zero, ninguém inventou, ali já tem um pouco do que vai aparecer depois. Muito interessante. Seria um trabalho legal ver o tratamento diferente que as revistas davam ao tema. É nessas revistas que surgem, por exemplo, os projetos modernistas na literatura, nas artes plásticas. Vê-se ali certa efervescência que terá desdobramentos posteriores. Como se trata de uma coleção do Marcos de Mendonça de matérias que falavam dele, e ele abandona a carreira no início da década de 1920, não tem um conjunto grande de recortes sobre o Campeonato Sul-Americano de 1922. Este torneio já não estava no foco da minha tese. Só recentemente comecei a desenvolver um pouco uma reflexão sobre a relação da cultura esportiva brasileira com os projetos e concepções estéticas do Modernismo. Essa agora é a minha ideia, estou trabalhando nisso. Vocês até estão me dando uma ideia, de voltar a dar uma olhada no material da imprensa de 1922. Não vi a cobertura de 1922, não pensei nisso naquela época. Meu olhar era: “como era a imprensa antes do Mário Filho?”.

No estudo deste período da década de 1910, você percebeu a tentativa de afirmação de uma identidade nacional em oposição aos demais países latino-americanos? Na Copa de 1950 colocou-se uma possível superioridade esportiva brasileira, que pouco é encontrada historicamente em eventos anteriores. Como era na década de 1910?

Nesse período não existia essa ideia. Eu acho que essa ideia surge ao longo da década de 1930. E nisso você vê um pouco a mão do Mário Filho. É o segundo capítulo da tese, onde estudo o início da carreira do jornalista, sobretudo no O Globo, em 1931, momento em que existe uma coisa mais bem configurada. Acredito que, em 1919, quando o Brasil ganha do Uruguai na final, aquilo é um grande acontecimento, um momento de afirmação. Mas acho que na década de dez ainda não existia ainda essa ideia de superioridade. Penso, sobretudo, nas excursões de equipes do exterior que vinham ao Brasil. Não tinha esse sentido de “vamos dar uma sapatada nos gringos”. Tanto a ideia de um estilo brasileiro de jogar futebol quanto a ideia de uma identidade brasileira projetada no futebol são da década de 1930. Talvez o primeiro lampejo de que a gente pudesse se afirmar pelo futebol tenha sido em 1938. A Copa Rio Branco de 1932 também é interessante. Inclusive o livro do Mário Filho, Copa Rio Branco – 32, que é um livraço. O Brasil vai enfrentar um adversário recém campeão do mundo. O livro é do início da década de 1940 e é o primeiro dos grandes livros do Mário Filho sobre o futebol. Ele escreveu a posteriori, mas na maneira como ele descreve como foi a excursão brasileira ao Uruguai já aparece uma configuração dessa relação entre o futebol e o Brasil. Principalmente a trajetória do Oscarino, jogador brasileiro, negro, que fazia sessões de macumba das quais participavam dirigentes e até embaixador. É um capítulo importante, que o José Lins do Rego destaca no interessante prefácio que ele escreveu para o livro.

Foto: Max Rocha.

Capa do livro Mil e uma noites de futebol; o Brasil moderno de Mário Filho, escrito por Marcelino Rodrigues Silva e publicado pela UFMG em 2006. Foto: Max Rocha.

Um colega está pensando um projeto de pesquisa que almeja – se possível – traçar uma genealogia do conceito de futebol-arte. A partir do que você comentou, um dos pontos fundantes dessa genealogia pode ser a própria produção do Mário Filho.

Ninguém inventa algo do nada, mas o Mário Filho é um ponto de inflexão. Acho que cabe uma comparação. Nos jornais da década de 1910 a gente pode ver algumas coisas bem significativas sobre o olhar da imprensa para aquilo que entendemos hoje como futebol-arte. Eu lembro, por exemplo, de duas matérias. Uma comenta a escalação da seleção brasileira em determinado ano e reclama da presença de um tal Chiquinho na seleção. A matéria diz mais ou menos assim: “não é que a gente queira uma seleção branca como clara de ovos, mas escalar o Chiquinho só porque num jogo ele deu meia dúzia de dribles é um erro”. Outra fala de um jogo no qual o Friedenreich participou e chama o jogador de “macaco em casa de louças”, por conta do seu estilo individualista, como se fosse um sujeito desajeitado, que quebrasse tudo querendo fazer acrobacias. Acho que isso dá um pouco a dimensão. Se vocês forem ver a maneira que eles falavam do jogo, os jornais da década de 1910 tinham uma espécie de padrão. Era uma matéria só, não tinha fragmentação da página. Começava com uma espécie de editorial onde o editor da página elogiava o que tinha para elogiar e criticava o que tinha para criticar. Elogiava os aspectos sociais, a presença feminina, as autoridades, o público muito elegante; criticava os sururus, os trucs dos jogadores e os xingamentos. Depois vinha uma série de notas, com pequenos subtítulos e as narrativas dos fatos. No editorial falava-se também sobre o jogo. A abordagem do jogo privilegiava, sobretudo, a disciplina, a organização tática e o bom comportamento. Estes eram os valores. Em 1931, a página de esportes do O Globo, logo após Roberto Marinho assumir o jornal, muda completamente isso. Eu li todas as páginas de esportes do jornal em 1931. O Mário Filho tinha obsessão por alguns jogadores: Leônidas, Domingos da Guia, Fausto. Tem elogios ao Leônidas, mas ainda não está bem formulada a ideia de um estilo brasileiro. Mas é bem curioso que tem algumas matérias sobre algumas lutas que aconteceram naquele ano entre capoeira e jiu-jítsu. Duelos entre capoeiristas e lutadores de jiu-jítsu. A maneira como ele fala desse confronto é uma antecipação da ideia do estilo do futebol brasileiro. Vale a pena citar: “Resta-nos, ainda, como nota também brasileiríssima, a capoeira. O jiu-jítsu foi feito após anos de estudo, de experiências, comparações, metódico aproveitamento e aperfeiçoamento dos golpes de todas as outras lutas. Cada golpe seu representa esforços contínuos, pesquisas pacientes, provas e contraprovas. A capoeira não. Nasceu na rua e é muito menos técnica do que o jiu-jítsu. Os seus golpes repontaram inesperadamente, num belo dia, numa briga de rua. A capoeira se defende segundo as necessidades do momento, as exigências do conflito e o valor do adversário. Tem recursos para tudo, contragolpes mortais, negaças que desorientam, trucs que desarmam. Tudo isso vem da malícia do malandro, do instinto que não mente e, sobretudo, da necessidade de não apanhar. Contra o científico, técnico jiu-jítsu, a malícia diabólica do malandro!” (O Globo, 20 de out. 1931). Mário Filho está falando isso em 1931. O Casa-Grande & Senzala, que é de 1933, segue uma linha semelhante. Ele não está falando de futebol, mas está antecipando esse discurso sobre o estilo brasileiro. Esse clichê sobre o que é o futebol brasileiro, o que é o futebol arte, da improvisação, da malícia diabólica do malandro. Essa é uma ideia que vai ficando mais clara nos jornais ao longo da década de 1930. Percebe-se como vai ficando mais presente, cada vez mais desenhada. Aquele famoso artigo do Gilberto Freyre no Diário de Pernambuco é de 1938. Nesse artigo, é possível ver a ideia completa, já formada, de que o brasileiro “é ágil em assimilar e amolecer em danças e em curvas as técnicas europeias”. Percebe-se ali a ideia consolidada, que vai ganhar forma definitiva no livro O negro no futebol brasileiro, na década de 1940.

Confira a segunda parte da entrevista no dia 14 de janeiro.