08.8

Matthew Shirts (parte 2)

Equipe Ludopédio

Norte-americano, nascido no sul da Califórnia (EUA), Matthew Shirts carrega o título de “brasilianista”. Formado em Ciências Sociais, pela Universidade de Berkeley, e pós-graduado em História, pela Universidade de Stanford, Matthew Shirts também estudou na Universidade de São Paulo durante um ano. Sua carreira acadêmica foi marcada pelo trabalho com o historiador Richard M. Morse, da Universidade de Stanford, e colaboração (e amizade) com os historiadores brasileiros José Carlos Sebe Bom Meihy e José Sebastião Witter, participando inclusive da pioneira coletânea Futebol e Cultura (1982).

Entre idas e vindas, Matthew mudou para São Paulo nos anos 80. Passou a atuar como jornalista: trabalhou na revista Super Game Power; foi editor do caderno Folha Negócios, do jornal Folha de S. Paulo; em 1994, inicialmente escalado para cobrir a Copa do Mundo, começou a escrever crônicas para O Estado de S. Paulo, onde permaneceu como cronista até 2011. Atualmente, Matthew é cronista da revista Veja São Paulo (SP) e editor-chefe da National Geographic, além de atuar como coordenador do site Planeta Sustentável. Em 2010, publicou o livro de crônicas O Jeitinho Americano – 99 Crônicas (Ed.Realejo).

 

O Norte-Americano Matthew Shirts, participou da pioneira coletânea Futebol e Cultura (1982). Foto: Max Rocha.

 

Segunda parte

 

Matthew, você falou dos movimentos como a democracia corintiana, e como isso interferiu na leitura sobre o futebol. Você vê permanências de movimentos como esse, atualmente, ou se hoje em dia você encara o futebol como um espaço mais acomodado, de menos confrontação? Ou, resumindo, houve uma permanência, existe uma tradição aí, ou você acha que foi um movimento que acabou se perdendo no tempo, no futebol brasileiro?

Não, não. Eu acho que a democracia corintiana conseguiu realizar seus objetivos que era que o futebol fosse levado mais a sério. Mas é bom que não tenha permanecido. Ninguém quer um comício ambulante no futebol. A gente quer o futebol mesmo. Eu não quero a onda de camisetas evangélicas, não precisa. O futebol é uma mensagem em si só, que consegue se expressar no campo. E hoje já é levado a sério, como uma manifestação cultural importante. E se houver, por exemplo, uma coisa, você tem momentos no futebol contra o racismo, porque isso funciona muito bem. Porque já tem isso estabelecido, se o futebol resolve combater o racismo é um lugar legítimo, ninguém contesta que seja um lugar legítimo, que tenha autoridade para falar de um assunto cultural, sociológico, importante como o racismo. Então esse lugar está conquistado. Mas o mais importante no futebol é a bola mesmo, é jogar a bola mesmo. Mas, havendo necessidade, sentindo necessidade, eu acho que esse lugar está conquistado, e os jogadores podem, quando for, se for relevante e importante, voltar a falar de qualquer assunto. Sobre o racismo, uma das coisas mais sensacionais, e eu tenho uma crônica sobre isso, foi o momento do Grafite. Entender como um jogador chamado Grafite – que isso não é racista, isso é carinhoso – para tudo e leva um argentino na delegacia por acusações de racismo. Isso mostra a relevância que o futebol tem, conquistou. E isso é muito legal. Isso foi um momento divertido, irônico e muito sério ao mesmo tempo. Então eu acho que esse espaço foi conquistado, e havendo necessidade já está ali. Mas não havendo muita necessidade, vamos jogar bola, né? (risos).

Pensando essas relações entre Brasil e o esporte, como seus filhos foram levados pelo futebol?

Muito por mim. Eu tenho um menino de 26 anos, o Lucas; eu tenho uma filha de 21, a Maria; e eu tenho o Sammy, do segundo casamento, que tem 9 anos. O mais velho joga muito bem, mas se interessa cada vez menos pelo assunto. Foi muito difícil evitar a saída do mais velho para a torcida do São Paulo, porque ele pegou em cheio aquele time do Telê Santana, mas eu consegui, explicando que nem sempre ele ia ser assim, e mantive-o corintiano. Mas aí ele descobriu mulher, então esse negócio de mulher atrapalha do futebol (risos). Mas ele joga muito bem. Minha filha é corintiana fanática. Vai ao estádio, sabe todos os jogadores, é super ligada; é muito interessante, é uma geração. Ela está no último ano da faculdade, está terminando na PUC, e é super ligada em futebol. E o Sammy, de 9 anos, essa geração dele só pensa nisso. Eles sabem tudo, têm uma quantidade de informação que é inacreditável. O futebol do Lucas para o Sammy foi globalizado. E é muito diferente. O Sammy sabe tudo sobre futebol na Europa. E não tem nada a ver com a “gringuisse” dele, bem pouca aliás. Todos os amigos dele sabem. Tem a ver com videogame, muito a ver com videogame, que eles têm que escalar os times. Então ele sabe, é impressionante, nome do zagueiro reserva do Barcelona. Juro por deus! O zagueiro reserva, o centroavante reserva do Chelsea e do Arsenal, é inacreditável a quantidade de informação que eles têm sobre o futebol. E isso está acontecendo nos Estados Unidos também. O futebol finalmente chegou, esporte de classe média alta, é um esporte refinado, mas grande já. E eles, menos seguindo nas ligas nacionais americanas – aquela que o Beckham jogava – eles foram, esses garotos são globalizados também. Então você pega um garoto de 14 anos nos Estados Unidos que goste de futebol, ele é igualzinho ao Sammy. Ele sabe tudo do Chelsea, do Arsenal, tem time na Itália, tem time que ele torce na Espanha, tem time que ele torce na Inglaterra. É muito interessante. Mas é um grupo grande. Eu vi que um dos maiores programas de televisão, 60 minutes, uma espécie de Globo Repórter dos Estados Unidos, fez meia hora agora com o Messi. O que era impossível no meu tempo; imagina, meia hora para explicar quem é esse cara que ganhou quatro vezes seguidas o prêmio de melhor jogador do mundo. E isso é futebol na veia mesmo. É Globo Repórter. Então, é a globalização, isso é muito bom, eu acho, isso é muito legal, sobretudo para um país metido a diferente, e melhor, como é os Estados Unidos, e que não participava desses rituais mundiais, que são muito saudáveis, eu acho. E é muito bom que os americanos estão se ligando e participando cada vez mais.

Matthew Shirts carrega o título de “brasilianista”. Foto: Max Rocha.

A que se deve essa mudança nos Estados Unidos? Tem alguma relação com a Copa, não tem nada a ver com a realização da Copa?

Não, tem a ver com a globalização mesmo, da cultura. Tem a ver com a internet, tem a ver com TV a cabo; e tem a ver com as pessoas viajando. Pelo fato dos Estados Unidos ser um país continental e muito rico, ele conseguiu se isolar e fazer o que ele bem entender. O Brasil sempre foi muito desligado do mundo também, mas os americanos, talvez, de certa forma, ainda mais. Então eles fizeram o que quiseram com os esportes. Eles pegam o rugby e faz do rugby o futebol americano; o futebol nosso, que era mais ou menos popular entre imigrantes no início do século XX é esquecido; o baseball ele cultiva, enfim. E não participa. Ele inventa o basquete e cultiva o basquete muito fortemente, mas ele não está nem aí com o que está acontecendo no resto do mundo. E isso muda, com a globalização começa a mudar. E um dos sintomas disso, você vê por exemplo, a internacionalização dos jogadores da NBA; quando eu era garoto não tinha nenhum estrangeiro na NBA. Eu seguia, era muito entusiasmado com o basquete. Mas não tinha nenhum estrangeiro. E hoje está cheio de estrangeiro. Tem gente do mundo inteiro jogando na NBA. Então esse é um movimento. E outro movimento é o americano se ligar no futebol apesar da sua falta de tradição e jeito (risos). A não ser as meninas. Porque as meninas têm sua torcida. As meninas ajudaram muito a popularizar ao ser campeãs mundiais; acho que foram campeãs mundiais duas vezes. Mas eu acho que é um fruto da internet, da conectividade. É isso.

Mas esse futebol feminino sempre foi mais presente lá?

Sempre não, é mais ou menos recente. Porque é o seguinte. Quando, nos anos 70, com o feminismo, a partir do feminismo, começa a ter uma ideia muito maior de que a mulher pode e deve jogar esportes. Participar dos esportes. Antes era uma coisa mais de homem; as meninas não deveriam jogar esportes violentos, lá atrás, como o boxe, o futebol americano. E eles achavam que o futebol não era um esporte violento. Era visto como coisa de menina mesmo, para o americano. Então se incentivava as meninas a jogar futebol porque não era tido como uma coisa de contato. Eu acho, eu tenho uma tese de que o americano até agora não entendeu que o futebol é um esporte de contato. E é por isso que ele tem tanta raiva quando o cara cai no campo, ou simula falta, e esse tipo de coisa, porque ele, em nenhum momento, admite a falta. Para quem assiste o futebol americano, que é feito à base de porrada, ele não entende que no futebol tem um puta contato também, quando é jogado profissionalmente. Mas ele não consegue enxergar isso ainda. Mas as meninas foram levadas para isso, e como as americanas foram meio vanguardeiras, mundialmente, em termos de feminismo – quer dizer, elas abraçaram isso com muito entusiasmo –, ficaram boas nisso. O resto do mundo que correu atrás das americanas no futebol. Mas com os homens o mundo está muito avançado, os americanos tem ainda muito chão… (risos).

Matthew Shirts trabalhou na revista Super Game Power; foi editor do caderno Folha Negócios, do jornal Folha de S. Paulo. Foto: Max Rocha.


Pegando o gancho do futebol globalizado que você falou… Matthew, em várias de suas crônicas sobre o futebol aparece a questão do nacionalismo. Existe espaço para nacionalismo nesse futebol globalizado? Ou ele vai se perder?

Existe, acho que existe. É uma boa pergunta. Muito difícil de falar. Isso está mudando rapidamente, eu acho. A questão é, talvez seja, no fundo, se existe espaço para a nação. Quer dizer, é a nação que está acabando enquanto entidade importante. A internet está acabando com a capacidade, a importância da nação enquanto poder último, aos poucos. É pouco, mas eu não tenho dúvida de que o mundo está cada vez menos nacionalista. Agora, é interessante notar que o nacionalismo boleiro do Brasil é fascinante. É isso que eu gosto, porque há uma história. Então é através do futebol que o brasileiro se estabelece, que estabelece sua identidade. O brasileiro gosta de pensar que ele tem ginga, que ele é criativo, que ele não é abobado, e tem uma série de mitos nacionais que são estabelecidos através do futebol. Por isso que dá tanta briga quando entra um Dunga para dirigir a seleção, por exemplo; você está negando uma coisa que é cara para muita gente, que é a própria identidade nacional. “Então, pô, mas se o Dunga é o técnico então nós somos iguais a qualquer time de perna de pau inglês”. Tira o prazer. Então, o futebol é muito ligado à identidade nacional, mas isso tende a ser cada vez menor.

E a questão da estética? Ela é essencial para entender o futebol brasileiro? Assim, tomando até como aquela dualidade, futebol arte-futebol força. Isso é essencial?

É essencial. Porque o futebol só é legal porque é lindo. É a parte mais legal do futebol e do basquete, de todos os esportes. Cada esporte tem sua beleza, e eu gosto de uns mais do que os outros. O que eu mais gosto, eu acho mais bonito, é o futebol. Eu e três bilhões de pessoas no mundo tem essa opinião. Eu acho o esporte mais bonito e mais legal que existe. Mas não há duvida que a estética é tudo, é fundamental. O futebol nada mais é do que uma obra de arte ambulante, constante, e em que você procura montar peças num quadro, num tabuleiro, de forma original e surpreendente, diferente. Cada vez que um jogador consegue fazer alguma coisa que você não imaginava, é lindo, é emocionante. E como é a arte; quando a arte consegue te surpreender e te mostrar uma coisa que você não tinha visto antes é a mesma coisa. Eu acho que são duas maneiras de se expressar, de contar histórias, e a estética é fundamental.

Hoje, no seu trabalho, você falou que tem se sentido um pouco afastado do futebol. Existe algum projeto, está na pauta da National trabalhar com futebol, por conta da Copa das Confederações, Copa do Mundo?

Eles têm, os americanos têm. Inclusive tem na edição que vai sair no mês que vem. Uma pequena reportagem fotográfica, é linda, sobre bolas de futebol africanas. É linda de morrer. Linda. São fotos, alguém, algum maluco desses da National, ficam anos colecionando fotos de bolas improvisadas na África. Isso é lindíssimo. Mas para ser sincero, curiosamente, no Brasil o leitor da National não gosta muito de futebol. Não é muito ligado não. Não sei se ele não gosta de futebol. Vamos dizer o seguinte; eu acho, se eu posso falar pelo leitor da National, que ele – no Brasil, o leitor da edição brasileira da National – a minha sensação é a seguinte, que ele acha que ele é bombardeado com abordagens do futebol. Seja da TV Globo, a Placar, o Lance. Não falta cobertura jornalística do futebol no Brasil. Ele quer outra coisa da National. Ele lê a National pra outra coisa. Não é isso, ele não quer isso. Eu baseio isso um pouco na Copa de 2006, a gente botou o Ronaldinho Gaúcho na capa. Foi um fracasso de vendas. E isso foi antes da Copa. Enfim, a minha impressão é que ao leitor da National no Brasil não lhe falta abordagem no futebol. Eu acho que um dia, talvez, eu gostaria, se eu conseguir viver o suficiente, quando eu me aposentar, eu vou escrever mais sobre o futebol, talvez um livro sobre o futebol. Eu gosto muito do assunto. E eu estou gostando muito de ver que todo mundo está gostando, tem muitos livros bons sobre o futebol atualmente.

Matthew Shirts publicou o livro de crônicas O Jeitinho Americano. Foto: Max Rocha.


Você tem acompanhado a produção?

Eu leio tudo que eu consigo. Mas é um pouco, porque eu conheci um cara numa livraria, cujo nome me foge, mas ele tem uma biblioteca com mil e quinhentos títulos.

Domingos D’Ângelo?

É, esse! (risos) Mil e quinhentos títulos. Vocês conhecem a figura?

Sim, entrevistamos (risos).

Ah, legal, é esse o número? Mil e quinhentos títulos?

É, já deve ter mais.

O meu editor, o editor do meu livro de crônicas, o Zé Luiz Tahan, ele publica muitos livros de futebol. Ele fica em Santos, é Realejo. E ele, aliás, é um cara bom para entrevistar. Ele está fazendo um megaprojeto com o Pelé, ele tem muitas coisas do Santos. Ele tem livro do Coutinho, ele tem livro do Pepe. Ele mexe muito com isso. E ele que organiza a Tarrafa Literária. Então é uma coisa lá de Santos. E ele publica muito livro sobre o futebol, e tem um mercado. Porque é difícil vender livro no Brasil. E livro de futebol vende.

Nessa perspectiva dessas experiências todas acumuladas, você tem acompanhado algo sobre essa organização do Brasil para os grandes eventos? Você se interessa?

Muito, muito. Eu sempre fui grande fã. Eu sempre promovi. Eu comecei uma campanha na minha crônica a favor da Olimpíada no Rio de Janeiro em 1996. E aí tinha uma campanha pra Rio sediar os Jogos de 2002. E eu promovi sistematicamente. Eu acho muito bom para o Brasil, muito positivo o Brasil sediar esses grandes eventos. Porque eu acho que dá um motivo para o país se mexer e se identificar como país do futebol. Quando eu estava na Copa de 94, nos Estados Unidos, eu estava no estádio quando o Brasil ganhou depois de um tempão, e foi emocionante. Você estar lá. Mas eu falo “Poxa, mas eu queria estar no Brasil” (risos). Entendeu? (risos). Se eu pudesse, me transportem imediatamente para Recife! Ou Salvador, ou lugar assim. E eu acho que é muito legal. Ninguém gosta de futebol tanto quanto o brasileiro. Então é legal fazer aqui. Quanto mais, melhor.

Matthew Shirts cobriu à Copa do Mundo de 1994. Foto: Max Rocha.

E na Copa de 1994? Assistiu, no estádio, o jogo Brasil x Estados Unidos? Como é que foi?

Vi. 4 de julho, no campus de Stanford, onde eu tinha estudado. Nossa, foi muito tenso. Porque eu sempre torci pelo Brasil no futebol, com muita facilidade. Eu aprendi o futebol aqui, adoro o Brasil, e aí o Brasil encontrou Estados Unidos, era o primeiro jogo da fase eliminatória, oitavas de final. E os americanos estavam todos cheios de si, se achando. E o time brasileiro não estava assim, aquela coisa, não estava assustando ninguém, e os americanos achavam que eles iam derrotar o Brasil. Aí que eu torci mesmo pelo Brasil. Eu falei “só falta os americanos, que nunca ligaram para futebol, vir aqui no 4 de julho e derrotar o time brasileiro?”. Então, mas o jogo foi dureza! O jogo foi muito difícil. E eu estava inclusive, eu estava ali quando o Leonardo deu aquela cotovelada, foi muito tenso. Porque eu culpo até hoje o americano. Eu sou o único cara no Brasil que acha que o Leonardo tinha razão. Porque o americano estava pendurado nele o jogo inteiro, estava literalmente, alguém mandou ele grudar no Leonardo e ele levou a sério. Quando você está em campo você vê essas coisas. E teve uma hora em que ele encheu o saco, ele fez assim, meio, e foi infeliz, e machucou o cara. Mas estava muito tenso aquele jogo. E aí ele foi expulso. O Brasil jogou com 10, e ganhou de 1 x 0, um gol, aquele golzinho, do Bebeto, não foi isso? (risos) Eu sei que, porra, eu estava lá sim, eu estava lá e nunca esqueço. Foi um dos jogos mais tensos. E eu também era o único cara que apoiava o Parreira. Todo mundo era contra o Parreira. Por causa de identidade nacional. Porque o brasileiro queria mostrar sua arte, toda a riqueza do seu ser, enquanto pessoa, cultura e entendedor, e conhecedor de futebol. E o Parreira não, foi muito lúcido. Porque, o seguinte. O Brasil ganhou três em quatro copas de 1958 a 1970. Então, aí o que aconteceu, a Europa, e todo, a Europa mudou seu jogo para parar o Brasil. Como para o Brasil? E começou a jogar muito mais fisicamente, com muito mais preparo físico e tudo mais, e conseguiu. De modo que o Brasil não ganhava de 1970 a 1994, são 24 anos. Depois de ganhar três em quatro copas, o Brasil não consegue ganhar em 24 anos. E estava virando uma histeria, o Brasil já estava histérico. Eu acho que o Parreira montou um time defensivo, que ele precisava. E eu apoiava isso. Mas eu era o único no mundo.

Então você recebeu muitas cartas no jornal?

Não, e tem uma coisa engraçada. Eu fui hospitalizado. Eu não sei se vocês leram essa crônica, que está na Veja, está na Veja São Paulo, eu não lembro o nome, tem um ano mais ou menos. E eu conto a história que eu fui hospitalizado há uns 8 anos. Eu tive uma disritmia cardíaca decorrente de um hipertireoidismo. Aí curou a tireoide, basicamente significa o que? Eles te dão uma anestesia geral muito rapidamente e te dão um choque para o seu coração voltar ao ritmo. Não tem intervenção cirúrgica, mas você tem que tomar anestesia geral. Vou para o Sírio-Libanês, tem meu cardiologista, tem três cardiologistas do Sírio-Libanês, tem quatro enfermeiras, tem um monte de gente, e eles retiraram minha mulher da sala: “fica lá fora enquanto a gente faz isso, e tal”. Enfim, só não é para você ficar aqui. Aí me dão anestesia, fazem o procedimento, e aí vou voltando da anestesia e eu vejo que está todo mundo no chão, rindo. Médico, rolando. Uma cena, uma cena surreal! Se desdobrando de rir. E aí foram buscar a minha mulher: “traz a mulher dele, traz, ela precisa ouvir isso”. Quando eu voltei da anestesia, eu falava assim: “Eu amo o Parreira”. (risos) O Parreira tinha sido campeão no Corinthians da Copa do Brasil um pouquinho antes também. Eu falei “esse é o cara”. O Parreira. E eu não parava de falar que eu amava o Parreira. E os médicos acharam isso a coisa mais engraçada, bom, porque, primeiro, tinha aquela questão, “ele sonha em português ou em inglês?”, bom, é português, veio a resposta. E, segundo, ele é homossexual; e, terceiro, ele ama o Parreira. Aí a enfermeira levou minha mulher e falou “ó, está aqui sua mulher, você ama ela também?”, eu falei “eu amo minha mulher, mas eu amo o Parreira mais”. (risos)

(risos) Então agora você ficou feliz com a volta dele?

Parreira é o cara! Essa está numa crônica. Na verdade, não, eu não fiquei feliz. Não, eu fiquei puto. E eu fiquei puto porque eu acho que o Mano não devia ter sido demitido. Eu sou quase sempre contra, o que me irrita, é essa mania de ficar trocando técnico. Então eu acho que quando um técnico faz um trabalho bom, razoável, não precisa nem ser excepcional nem nada, a melhor coisa que você faz é deixar o cara. E essas politicagens todas me irritam profundamente. Alám de achar que o Felipão tem um jeito autoritário de ser que não funciona mais no mundo de hoje. Como gestor. Eu, como chefe, tenho equipes lá em cima, e a garotada de hoje não responde a gritos, não responde a autoritarismo, não é por aí não. Então eu acho que o Mano era muito mais moderno do que isso, e o Parreira já tinha, eu amo o Parreira, por mil motivos, mas eu acho que já deu o que tinha, já ganhou Copa, já perdeu Copa, já estava de bom tamanho. Então por mim, não fiquei feliz não.

Matthew Shirts durante entrevista para o Ludopédio. Foto: Max Rocha.

Matthew, só pra a gente encerrar, se recebesse a notícia que você tem que partir amanhã, voltar para os Estados Unidos e nunca mais voltar para o Brasil, você levaria uma bola de futebol, um pacote de feijão ou um cd de samba?

Bola de futebol, sem dúvida. Mulher nem pensar, né? (risos)

Não, senão vai dar problema em casa. (risos) E vai dar problema na alfândega.

Recursos naturais, né, biopirataria (risos). Não, bola de futebol, sem dúvida. Eu gosto muito de feijão; não sei muita coisa de samba, sou mais roqueiro do que sambista, para dizer a verdade. Eu gosto de jazz, eu gosto mais de jazz e de rock mesmo, mas eu adoro futebol. Futebol, para mim, é um alimento essencial, mais que feijão.