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Mauricio Murad (parte 2)

Equipe Ludopédio

Professor do Departamento de Ciências Sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), o sociólogo Mauricio Murad é coordenador do Núcleo de Sociologia do Futebol, fundado em maio de l990. Nestes vinte anos de existência, Murad e seus colegas desenvolveram algumas linhas de pesquisa, bem como procuraram organizar um importante acervo documental sobre a temática do futebol. Além disso, o Núcleo editou cinco números da revista Pesquisa de Campo, que tinha como foco publicar artigos e outras produções sobre futebol. Nesta entrevista, o professor Mauricio Murad aborda o processo de criação do Núcleo e da revista, bem como alguns dos temas que vem pesquisando nas duas últimas décadas.

Segunda parte

Entre os diversos temas nos quais você atua em relação ao futebol, o mais recente tem sido em relação com a questão da violência. Em seu doutorado, realizado em Portugal, como você analisa a violência dos torcedores europeus?

Sim. Tentei fazer um estudo comparativo entre os diversos quadros sociais de práticas de violências no continente europeu e no Brasil. Viajei bastante, levantei dados, pesquisei, morei nos lugares, já que a “observação participante” é sempre um instrumento muito rico e denso para a pesquisa social. As distintas práticas de violência ocorrem em diferentes culturas, sociedade e segmentos sociais. Os torcedores não são iguais, como não são iguais a institucionalização das torcidas e a sua intervenção nos cenários dos jogos. As ações dos órgãos de segurança pública também têm, claro, as suas especificidades, suas legislações e limites entre a prevenção e a repressão. Tudo isso integrado faz com que as investigações sociológicas acerca da violência no futebol (no e não do futebol, como muitas vezes a mídia “espetacularizada” quer fazer crer), seja uma via de acesso a questões estruturais e históricas das sociedades observadas. As múltiplas culturas locais são do mesmo modo contextos de relações importantes para o pesquisador da violência no futebol.

A infra-estrutura do estádio e, conseqüentemente, uma melhor organização logística dos times europeus, desde a venda de ingresso até o acesso da torcida aos estádios faz com que a violência nesses lugares se manifeste de outras formas?

Sim. As condições do espetáculo, o direito do consumidor, a organização do acesso aos estádios e das instalações dentro dos estádios, bem como a venda de ingressos, o combate aos cambistas e a redução da impunidade aos transgressores fazem uma enorme diferença. Historicamente, nenhuma sociedade conseguiu eliminar 100% o crime, a transgressão e o descumprimento da lei. A questão civilizatória é como controlar e limitar a níveis socialmente aceitáveis, essas práticas transgressoras, para que fiquem sob o controle da lei e das instituições sociais e não a situação inversa como vemos hoje no Brasil, em que o crime, a droga, a corrupção dominam as instituições centrais da república, desde as suas altas esferas.

Está enraizado no senso comum, até para muitos jornalistas, que a causa da violência é gerada pelas torcidas organizadas. Essa visão é correta?

Não. As organizadas são minorias no universo dos torcedores e os vândalos são minorias dentro das organizadas, alguma coisa entre 5 e 7%. São segmentos perigosos, treinados militarmente, com algumas conexões com o tráfico de drogas e de armas, portanto são preocupantes e têm que ser contidos, pela ação orquestrada da polícia e dos órgãos do poder judiciário, mas são minoritários e não definem as torcidas organizadas, enquanto coletividade. As organizadas fazem parte do espetáculo. São coreográficas, musicais, carnavalizadas. Não podem e não devem ser proibidas, a não ser determinados grupos que se excedem e ultrapassam os limites da lei e da ordem pública. Aí sim, é preciso que a mão dura da lei aja de forma contundente, sobre esses grupos de arruaceiros, mas isto não é privativo do futebol, nem de suas torcidas organizadas.

Casos recentes no futebol brasileiro colocaram a questão da violência novamente em foco. Podemos citar os seguintes acontecimentos: foi a quase agressão de dois jogadores (André Dias e Hugo) do São Paulo; uma semana depois Obina e Maurício do Palmeiras trocaram socos em campo; na semifinal da Sul-Americana os jogadores do Fluminense e do Certo Porteño entraram em confronto; temos as declarações do presidente do Palmeiras, o Belluzzo, em relação ao árbitro Carlos Eugenio Simon e a agressão sofrida pelo atacante Vagner Love, cercado por torcedores do Palmeiras em uma agência bancária próxima ao clube e o caso mais recente foi a queda do Coritiba à 2ª divisão e que acabou com o campo invadido e estabeleceu-se uma verdadeira guerra campal. Como pensar a questão da violência no futebol quando ela transcende a própria esfera esportiva? A violência no futebol seria reflexo da violência na sociedade?

Sim, em parte reflete as violências sociais. Em parte, mas não em linha direta, mecânica. As desigualdades e as exclusões sociais são elementos macrossociais que influenciam mesmo o âmbito específico da violência no futebol. Agora, há particularidades que são próprias do ambiente do futebol, embora não sejam exclusivas, como a cultura da masculinidade, o machismo, o biombo da multidão, a teatralização pública, o despreparo das polícias para os distúrbios de grandes massas, entre outros fatores.

Para você, quais foram as principais questões levantadas e enfrentadas por pesquisadores de diversas áreas das ciências humanas, desde a década de 1990, que trabalharam a questão das torcidas e da violência? Como estes estudos, realizados em diferentes partes do país – por Luiz Henrique de Toledo, Heloísa Reis, Bernardo Buarque de Hollanda, entre outros -, dialogam entre si e inclusive com o seu trabalho?

Todos os citados são autores com estudos do mais alto nível e da mais alta contribuição, para o acervo das ciências humanas, no que diz respeito às pesquisas sobre torcidas e violências no futebol. Sim, eles tem dialogado entre si, tanto no nível da interlocução de seus trabalhos, como nas interações pessoais e acadêmicas que se fazem necessárias. São vários os problemas que se levantam a todo instante em trabalhos dessa natureza. Contudo, dois problemas, creio eu, são centrais: como integrar a micro com a macro violência, sem mecanicismos ou determinismos; e como realizar a pesquisa de campo, sempre problemática nos casos das torcidas organizadas.

O que podemos esperar, em termos de organização e resultados, da Copa do Mundo de 2010, a primeira a ser disputada no continente africano?

O mundo estará de olhar atento à primeira copa realizada no continente africano. Já temos sinais positivos, como os programas de redução e prevenção da Aids, com resultados já animadores, mas também temos sinais negativos, como no atraso da implantação dos projetos de segurança. Culturalmente será uma grande oportunidade para todos. Para nós brasileiros, pelo menos em parte, uma chance de reencontramos algumas das raízes de nossas identidades culturais.

O Brasil será sede dos dois maiores eventos esportivos do mundo, a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. Como ficará a questão da violência durante os eventos? É possível pensar em legado social ao término desses megaeventos?

Copa em 2014, jogos em 2016… Que oportunidade! A questão-chave é como vamos aproveitar esses megaeventos esportivos, especialmente no legado e mais ainda para as camadas desfavorecidas da sociedade brasileira, com as quais temos uma dívida estrutural e histórica. A segurança e o controle da violência são questões de fundo, porque facilitam a implementação consistente das outras medidas planejadas e desejadas. Acho que é possível esperarmos uma herança positiva para a sociedade brasileira, mas é essencial não perdermos a visão crítica, porque nenhum evento esportivo será a panacéia, o remédio para todos os nossos males, que são seculares, mas é claro que poderá ajudar e muito. Depende de nós, sobretudo dos governos.

Quais são os seus projetos atuais relacionados, mais especificamente, ao fenômeno futebolístico?

Estou pesquisando e escrevendo, pelo mestrado da Universo, onde sou titular de Sociologia dos Esportes, sobre a dimensão mais sombria da violência no futebol, aquela que resulta em mortes. Nos últimos dez anos, de 1999 a 2008, os dados e análises não são nada animadores. Os óbitos são crescentes e atingem em sua maioria (78%) os torcedores, que não têm nenhuma relação com os grupos violentos das organizadas. Um país que vai sediar a Copa do Mundo, em 2014 e os jogos olímpicos em 2016, não pode tolerar isso. É preciso um conjunto de ações interligadas: de repressão no curto prazo, de prevenção no médio prazo e de reeducação no longo prazo. Já estamos muito atrasados, apesar do ôba-ôba, que lamentavelmente começa no governo federal.

A partir da sua experiência com estudos sobre as relações entre o esporte e certos planos artísticos – como, por exemplo, o cinema -, conte-nos como está sendo adaptar o livro “Todo esse lance que rola” para o teatro?

Esse romance infanto-juvenil, que escrevi em 1994, ganhou um prêmio do Ministério da Educação e foi tema de trabalhos em quase todas as escolas públicas do país e em muitas da rede privada. Conta a história social do futebol brasileiro, a partir do namoro entre dois jovens. O grupo Educart Tocando em Você, do bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, uma escola de artes que já tem mais de 20 anos de experiência, está adaptando o livro para o teatro, na versão de um musical. Sou suspeito, mas diria que está ficando muito bom. Deverá entrar em cartaz, no próximo ano e aí quem vai ter a última palavra é o público. Espero que gostem.