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Mauro Cezar Pereira (parte 3)

Equipe Ludopédio

O niteroiense Mauro Cezar Pereira iniciou a carreira de jornalista em 1983. Atualmente comentarista da ESPN Brasil, Mauro Cezar passou por diversos veículos, como O Dia, Placar, Jornal do Brasil, O Globo, entre outros. Foi professor dos cursos de Comunicação Social da UNISA e na Pós-Graduação de Jornalismo Esportivo da FMU. Conhecido pela postura sincera e opiniões incisivas, Mauro Cezar participou da cobertura de edições da Copas do Mundo e Liga dos Campeões da UEFA, e comenta diariamente campeonatos nacionais e internacionais.

 

Foto: Max Rocha.

Foto: Max Rocha.

 

Terceira parte

Sobre o 7 a 1, ele é mais sintoma da esculhambação toda ou ele dá novas cores ao que está acontecendo aqui? E como você digeriu?

Eu digeri muito bem, pois eu fui um quase profeta do 7 a 1, modéstia à parte. Isso está registrado e eu posso falar muito à vontade porque, de novo, sofri com isso por conta da minha opinião. Os técnicos de futebol no Brasil, em sua grande maioria, são obsoletos, fracos. O maior exemplo disso é que não se vê nenhum deles ocupando cargos na Europa em clubes de ponta. Lá estão os principais times, mercados e jogadores. Isso é inegável. E nenhum vai para lá! O que é assustador, porque o atleta brasileiro é uma grife. O técnico era para ser também, mas não é. Por quê? Porque os que foram para lá não conseguiram nada, não mostraram nada, não causaram nenhum impacto. Eles são, em sua maioria, técnicos superados, de repertório pequeno. Não existem muitos grandes treinadores.

O Tite se reinventou depois de um período e passou a dominar totalmente. O Mano Menezes é um bom técnico, mas às vezes se acha mais do que ele é. E isso faz com que ele se perca, embora eu o considere um cara qualificado. O Tite tem um lado mais humilde que o ajuda. Ele é mais maduro, talvez até mais inteligente, embora não pareça às vezes com aquele dialeto, o ‘Titês’. Mas, no fundo, é mais inteligente, mais esperto, sabe lidar com situações…. Ainda que não concorde muito em alguns momentos, pois acho que ele já tem tamanho para não passar por certas situações, como, por exemplo, concordar com certos dirigentes. Ele tem tamanho para chegar e falar: “Eu não concordo com isso”, dentro do próprio clube. Mas aí é o perfil dele. Eu não posso querer que ele seja como eu seria no lugar dele. No geral, tem muito mais qualidades do que defeitos naquilo que faz. Se reinventou como falei, e outros são fracos.

Quando o Mano Meneses saiu e entrou o Felipão, eu de cara comecei a criticar porque não tinha o menor cabimento. Era um técnico que tinha um repertório limitado, que funcionou por um determinado momento e que, quando estava no seu pior momento na carreira – o time dele, o Palmeiras, foi rebaixado! –, ganhou a seleção brasileira. E em um momento em que o Mano parecia que estava encontrando um caminho. Ele fez todo um trabalho de peneira, pós-2010, com mais de cem convocados, para encontrar ali uma base. Então, fez o trabalho sujo, que é convocar jogadores e ver quem é quem. O Felipão pegou aquela peneira e ressuscitou alguns caras, tipo Maicon, que estava fora da seleção, pois já tinha passado a fase deles.

Nós fazíamos na ESPN Brasil o Linha de Passe toda noite durante a Copa das Confederações. Houve vários embates naquela ocasião, porque eu achava que o time era ruim, mal treinado e não jogava bem. Uma atuação razoável, outra fraca e uma atuação perfeita contra a Espanha na final, que foi a história que se repetiu nas últimas três Copas das Confederações: os adversários europeus chegam para o torneio meio de saco cheio, sem dar importância – que não tem importância mesmo! –, as outras equipes são fracas, e o Brasil ganha e se engana achando que tem uma poderosa seleção. Tem até bons nomes, mas não um time na acepção da palavra. Isso aconteceu das outras vezes.

Quando chegou a Copa do Mundo de 2014, eu fiquei cobrindo a Inglaterra, depois o Uruguai, inclusive fiz o jogo da eliminação do Uruguai, que foi no Maracanã contra a Colômbia. Já tinha feito outras críticas, mas como estava sendo setorista de outras seleções não tinha muita oportunidade no dia a dia de falar da seleção brasileira. Aí neste dia que eu vi o jogo do Brasil contra o Chile lá no Maracanã, no centro de imprensa, e depois fiz o jogo da Colômbia contra o Uruguai. O Brasil era para ter sido eliminado pelo Chile, mas não foi. Ganhou nos pênaltis, sem merecer. À noite, teve o Linha de Passe. Nós tínhamos um estúdio montado do lado do Maracanã. No primeiro bloco do programa eu não participei, e discutiram a seleção brasileira. Entrei no segundo bloco para falar do adversário do Brasil, que era a Colômbia. Aí eu fiz um comentário que deu uma viralizada na internet. O apresentador me chamou e perguntou sobre a Colômbia, e eu disse: “Desculpa, mas eu não posso deixar de falar da seleção brasileira. ”. Aí eu falei tudo que eu achava, de forma bem clara, direta, inclusive dizendo que o Felipão é um técnico obsoleto, superado, que o Brasil não tinha nada, que a atuação contra o Chile foi uma vergonha…

Eu vi aquela partida no meio de vários jornalistas estrangeiros. Eu me lembro que no intervalo do jogo fui pegar comida e na fila ouvia os caras comentando em inglês e espanhol: “Que time é esse do Brasil? Que time ruim! Atuação horrível. ”. As pessoas estavam meio que assustadas, porque eles não paravam para ver jogo da seleção brasileira, cada um estava trabalhando, cobrindo outra seleção, pra lá e pra cá. Mas ali o jogo do Brasil estava rolando e havia vários aparelhos de TV. Assistiram ao jogo e viram que o time era muito mal montado. Então, para muita gente aquele foi o primeiro contato com a realidade da seleção brasileira, anfitriã e, em tese, candidata à Copa do Mundo mais uma vez. Eu fiz um comentário muito duro e isso se espalhou por Facebook, Youtube, enfim. Aí comecei a ser xingado por gente que me achou no meu blog ou no Twitter, pessoas que nunca tinham assistido a ESPN Brasil. Alguns concordavam, muitos xingavam. A minha opinião sempre foi esta: eu não achava que ia ser 7 a 1, mas perderia cedo ou tarde porque não tinha a menor condição.

O Brasil passa pela Colômbia, com as calças na mão, né? Tomou um calor no final, a Colômbia quase empatou o jogo. A Colômbia se assustou com o Brasil. Essas seleções sul-americanas, na verdade, em geral têm medo do Brasil, tirando o Uruguai e a Argentina – acho que até mais o Uruguai. O Uruguai não dá a mínima. Vê a camisa amarela e joga normalmente. Acho que os times uruguaios também, não se intimidam com o futebol brasileiro. Isso é uma coisa interessante da personalidade deles… Voltei a ser xingado, mas tudo bem, fui em frente. Veio o jogo da Alemanha. Assisti em casa, estava sozinho. Eu tinha ligado o computador, entrei no Twitter, mas não escrevi nada e deixei lá. Parei para ver o jogo. Cinco a zero, no intervalo. Aí eu fui até o computador. Tinha 752 mensagens, espontâneas, sem ter escrito nada. Muitos pediram desculpas e perguntaram se ia ter o Linha de Passe à noite. As pessoas queriam ver a gente falar mal da seleção. Aí escrevi lá: “Logo mais tem Linha de Passe, às 9 da noite, na ESPN Brasil. ”. Saí do computador. Ao final do jogo, tinha mais de um “trilhão” de mensagens.

Então, eu não tive que digerir o 7 a 1. Para mim, o 7 a 1 foi apenas a comprovação de algo que eu vinha falando. Não é torcer para aquilo acontecer para eu defender um ponto de vista. Não, é apenas a comprovação de uma coisa que acreditava. Simples assim. Não era uma opinião baseada num achismo para ser o profeta do apocalipse. É o que eu achava, achava uma porcaria aquele time desde 2013! O Felipão não existe como técnico há muito tempo, e os dirigentes o colocaram ali. E acho terrível que grande parte da imprensa acreditasse naquilo. Os jornalistas criticam os técnicos e colegas que veem futebol, analisam futebol, trabalham com futebol não perceberam quão ruim era aquele time? Isso é uma coisa para fazer autocrítica. Se eu tivesse achando que o Felipão ia levar a seleção para algum lugar, eu ia parar depois da Copa do Mundo – ou até durante – para rever tudo: “De onde surgiu essa ideia? Eu não poderia ter falado isso ou escrito isso. Não tem sentido!”.

O 7 a 1 acabou sendo um momento de alívio para mim, no sentido de que aquelas ofensas pararam e os fatos mostraram, até de uma forma mais forte do que eu poderia imaginar, que o meu pensamento estava correto. Ou seja, que o Brasil tinha um time mal treinado; tinha bons jogadores, mas tinha um time ruim; o técnico já tinha se aposentado há muito tempo, não pela idade, mas pela incapacidade de treinar um time profissional em alto nível hoje. Ele está na China…. Não tem condições, tanto que depois foi para o Grêmio e não funcionou. É óbvio que não ia funcionar. Chegou a abandonar o time no meio de um jogo, uma coisa patética… Isso não é nada pessoal, porque eu nem conheço o Luiz Felipe Scolari, nunca troquei duas palavras com ele, não sei quem é ele, o conheço como qualquer um conhece, não gosto de ter proximidade, inclusive, com esses personagens. Evito. Falo com alguns, mas acho que a gente não pode misturar as coisas. Então, não é pessoal, nem contra, nem a favor, porque nós não nos conhecemos, não temos nenhuma afinidade e nenhuma bronca.

Então, o 7 a 1 foi um alívio… Uma das coisas mais ridículas que as pessoas me escreviam era: “Você não é brasileiro! ”. A Copa do Mundo atrai esse personagem. Como não sou brasileiro?! A seleção da CBF era só um time de futebol, não representa o Brasil. Eu posso ser um político pilantra, um empresário que sonega impostos, um ladrão de bancos, um traficante, um trombadinha e colocar a camisa da CBF e torcer na Copa do Mundo. Isso não faz de mim um bom brasileiro. Até porque vestir a camisa da CBF e ir para a rua ultimamente é bem contraditório. Você é um bom cidadão quando você tem atitudes de bom cidadão, no seu dia a dia, no seu relacionamento com as pessoas. Digo até que especialmente com aquelas pessoas que dentro da escala social estão abaixo, dando bom dia para a mulher que limpa o chão, cumprimentando o rapaz que limpa o banheiro. Isso é o mínimo! Tratá-los como seres humano, não como invisíveis. Isso é um começo para você respeitar a todos – não só falar com o cara que é o diretor –, para você ser um bom cidadão e cumprindo as coisas normalmente que todos têm de cumprir. Agir corretamente, acho que isso faz de você um bom cidadão, não importa a nacionalidade.

Torcer para time de futebol por que “representa o Brasil”?! Olha, vamos lá: pode haver uma guerra, e você pode não querer essa guerra. Você não é patriota por que não foi à guerra? Você pode ser contra aquela guerra. Então, todos os que se opuseram à Guerra do Vietnã não eram americanos? E quem foi à guerra e morreu lá era mais americano, como garotos que foram mandados para lá sem ter a menor ideia do que iam fazer naquele lugar? E quem os mandou era patriota? Então, o Galtieri (general da ditadura), que mandou para a morte mais de 400 argentinos, a maioria garotos, em 1982, naquela guerra suicida contra a Inglaterra, pelas Malvinas, era o patriota? E quem junto com ele fez aquilo era patriota? Quem eventualmente não quis ir à guerra não era argentino? Como que é isso? Então, tenho que caminhar para a morte em troca de uma aventura maluca para provar que eu sou brasileiro, argentino, inglês, alemão? Isso é uma bobagem – estou falando da guerra. Ainda mais quando se trata de futebol, aí é uma besteira absoluta. Isso é discurso de cartola, de jogador de futebol, de técnico quando eles querem trazer as pessoas para o seu lado. “Ah, isso é representar o Brasil. ”. Que “representar o Brasil” merda nenhuma. Representa um time de futebol!

Até entendo que para alguns países – como aqueles que surgiram a partir da guerra fria, Croácia, Eslovênia… – o futebol é uma chance de eles mostrarem que existem, porque não existiam. Até consigo compreender esse nacionalismo exacerbado de algumas nações pela oportunidade que o futebol em uma Copa do Mundo dá a eles de mostrar: “Nós existimos, nós somos uma nação. Nós estávamos misturados com outros povos por outras questões. Agora acabou, nos separamos. Estamos aqui, nós somos este país, temos esta bandeira, esta camisa, esta cor…”. O futebol dá essa chance. No caso do Brasil, o país já é conhecido como uma potência no futebol, o maior campeão e tudo mais, mas essa discussão de “representar o Brasil” é meio tosca até.

Agora, o 7 a 1 não tem a repercussão devida, porque há um esforço muito grande de jogar a sujeira para debaixo do tapete…

A sua previsão foi certeira, a de que seria um desastre, mas você imaginava que, com o desastre consolidado, o Dunga fosse chamado?

Eu não esperava mudanças tão profundas quanto as necessárias, mas também não esperava um retrocesso com a recolocação de um cara totalmente desqualificado num cargo depois do que aconteceu. Uma coisa é você ter o Felipão campeão do mundo em 2002 no cargo, até para ser escudo dos dirigentes. A estratégia estava clara, já que com o Mano Meneses não funcionava assim, o público não gostava dele, ele não era carismático. Aí quando colocam ali o Felipão e o Parreira, dois campeões do mundo, aquilo funcionou por um momento. Para os cartolas, foi interessante. Agora o Dunga, não. Ele não tem a menor condição, não só como técnico, mas como ser humano para estar num cargo de tamanha visibilidade e de tanta repercussão. Ele falou agora há poucos dias que não pode ter psicólogo na seleção. Meu Deus do céu! Isso já é uma comprovação de que o cara não tem preparo para o cargo.

Hoje o futebol está muito sofisticado. Os técnicos têm que ter a capacidade de entender mais profundamente o jogo em si, tática e tecnicamente. Ao mesmo tempo, compreender outras questões. Eu diria que tem que ter no mínimo um nível intelectual cultural, senão o cara não consegue alcançar. Se for só um boleirão, com um linguajar simplório, ele vai ter dificuldade. Eu não quero parecer preconceituoso, isso é uma constatação. Um técnico hoje para se destacar em altíssimo nível dentro daquilo que ele disputa, se ele não tiver essa capacidade, vai ser muito difícil. O jogo está muito complexo e existem muitas informações que são disponibilizadas, científicas, estatísticas, de análise tática… Os times se estudam, a informação circula muito mais à vontade. A gente não está mais naquele tempo de quando eu comecei a ver futebol: “Como o técnico do Vasco conhecia o time do Corinthians? ”. Ele não tinha como, quase não tinha jogo na televisão. Era difícil. Os times quase não se enfrentavam, era uma vez ou outra. Então, tinha que mandar um observador para ver o jogo. Se fosse um bom profissional, ele trazia boas dicas; se fosse um amigo do técnico, possivelmente era um enganador e não trazia nada, o que era muito comum no futebol também.

Hoje em dia, não. A gente tem aqui no nosso centro de estudos, que se chama DataESPN, ferramentas que permite ver, por exemplo, o último jogo do Boca Juniors pelo Campeonato Argentino. Eu vejo o jogo inteiro ali! Se eu quero saber como foi o jogo do Anderlecht no campeonato belga, eu tenho ali. Se quiser ver os melhores ou piores momentos de um determinado jogador, o sistema cruza e me dá um compacto. Então, você consegue hoje ter tudo. É tanta informação que é impossível a pessoa ver tudo! Tem, portanto, que trabalhar em equipe e ter a capacidade de montar um time que entenda, processe essas informações e consiga trabalhar em cima disso. Se a gente pegar o livro “Guardiola Confidencial”, vamos notar que o time de trabalho dele é muito complexo. É tudo nos mínimos detalhes. O jogo se sofisticou demais. Então, esses técnicos “boleirões” estão com os dias contados, cada vez menos vai ter espaço para eles.

Você põe um boleirão na seleção brasileira, mas que é carismático e foi campeão, faz sentido. Agora, o Dunga?! Quem é o Dunga como técnico? Ele não é nada, rigorosamente nada. E do tempo que ele saiu até hoje, de 2010 para 2016, muita coisa já mudou. Em 2010, ele tinha um time que jogava no contra-ataque, com alguns jogadores com essa característica, e ganhou muitos jogos amistosos contra seleções grandes. O que também é muito pouco relevante, porque muitas vezes no amistoso a outra seleção não está tão interessada no resultado, mas sim quer observar jogadores. E ele sempre tratava isso como uma coisa muito séria, pois se apoiava nesses resultados para se manter no cargo. Agora, está sendo diferente: o Brasil ficou em sexto lugar nessa paralização das Eliminatórias, a seleção joga mal. Já jogava mal naquela época, mas ainda tinha alguns resultados e alguns momentos razoáveis. Hoje nem tanto.

Então, eu imaginava que com o 7 a 1 alguma coisa pudesse acontecer. Não a mudança que eu gostaria, que seria na cúpula da CBF e em tudo mais. Isso não ia acontecer, é claro. Mas eu tinha uma pequena esperança de que pelo menos se pensasse: “Nós não podemos mais trabalhar assim, tem que mudar. Vamos ter de colocar um puta técnico aqui, nem que seja um gringo. Vamos deixar ele montar um time que jogue, nós não entendemos disso. A gente entende de política, para ficar aqui onde nós estamos. ”. Ou seja, entregar a parte técnica para gente realmente capacitada. Eu imaginava que eles iam se manter no poder, mas iam largar o osso. Mas isso não aconteceu.

Vamos imaginar aqui que eles tivessem trazido o Leonardo. Eu posso discordar de algumas ideias, concordar com outras, mas é um cara que vive na Europa há muito tempo. É um cara que tem muito trânsito, tem experiências como técnico, diretor. Poderia fazer algum sentido. Acho até que faria muito sentido, independente de gostar dele ou não, vai da opinião de cada um, mas é um cara que está se preparando e convivendo ali no meio dos grandes, fala várias línguas…

Ele seria o seu nome, o seu palpite?

Ah, não sei, teria que pensar muito. Se eu fosse dirigente, eu ia querer conversar muito com ele e entender o que ele pensa fora das entrevistas. Entrevista é uma coisa, e um papo para fechar um negócio como esse para contratar um técnico é outra conversa. Falei dele porque, dos brasileiros, ele me parece o cara que aparentemente conhece melhor o funcionamento.

Foto: Max Rocha.

Foto: Max Rocha.

Você apostaria no Zico, por exemplo?

Para este cargo, não… Eu acho que não é a do Zico. Por que eu falo do Leonardo? O suprassumo do futebol está na Europa. Os melhores jogadores, os melhores técnicos, os clubes mais ricos, as melhores administrações – não são todas, é verdade – estão lá. O centro do futebol é a Europa, é óbvio. Então, um cara com essa visão, o Gilmar Rinaldi, por exemplo, talvez pudesse até trazer um técnico estrangeiro bom, preparado, para fazer um trabalho de médio a longo prazo no Brasil, o que era e é o necessário. Aí tem que ter respaldo também, porque vai perder jogos, ter dificuldades, mas vai haver transformação.

Inclusive, uma pergunta que se faz de tempos em tempos: “Se o Guardiola fosse o técnico da seleção, como ela estaria?”. Talvez estivesse nesse lugar, porque não ia ter tempo para treinar como gostaria. Quer dizer, ia sim ter tempo para treinar, porque na Copa América o Dunga teve um mês com os jogadores e agora a pouco mais um mês na Copa América Centenário e não aconteceu nada. O Guardiola teria que se adaptar a uma rotina diferente, mas alguma coisa teria acontecido até aqui. Eu não tenho a menor dúvida disso. Não ia ter rachão, ia ter treino. Ele ia usar todo o tempo disponível para treinar. Certamente, ele ia falar com os jogadores por e-mail, mensagem, WhatsApp, telefone, sobre situações e tudo, porque ele age assim. Então, ele é um cara que vive aquilo intensamente, fica o tempo todo pensando naquilo e otimizando o tempo disponível para fazer o time andar. Já seria um time, com deficiências, com algumas coisas não funcionando, com alguns jogadores que não são exatamente aqueles para serem titulares, mas certamente estaria caminhando. Não tem como comparar!

Eu estou falando do Guardiola porque foi o nome mais citado. O que seria o ideal, uma tacada para quebrar a banca. “Quem é o cara para quebrar a maneira de pensar e tudo? É esse cara? Vamos trazê-lo!”. A CBF tem dinheiro. Quanto custa para se romper o contrato do Bayern de Munique? “Ah, não posso romper o contrato. ”. “Negocia com os alemães aí, pô! ”. Precisava tentar, pelo menos. Mas eles não querem isso. Isso poderia partir se eles tivessem contratado um dirigente com qualidade para tocar esse negócio e pensar no Guardiola ou em outro técnico com qualidade para chegar aqui e montar uma seleção brasileira que… não digo “jogar bonito”. Quem fala em “jogar bonito” é a própria CBF, que teve a camisa com esse slogan: “Joga bonito”. Não é “jogar bonito”, é jogar futebol, jogar futebol bem. Jogar futebol bem é defender bem, atacar bem, criar situações de perigo para o adversário, neutralizar os pontos fortes do inimigo. Isso é jogar futebol bem! “Bonito” é relativo, circunstancial, acontece.

Você acha que a vinda de alguém como o Guardiola ameaçaria a estrutura dos dirigentes de alguma forma? Colocaria em cheque?

Eu acho que assustaria os dirigentes, porque seria um cara totalmente independente. Se ele não concordasse com alguma coisa, poderia tranquilamente falar o que pensa. Primeiro, ele iria amarrar um contrato bem seguro para ele, certamente. Algo que permitisse a ele uma rota de fuga num momento em que ele fosse desafiado ou não cumprissem algo que tivesse sido combinado. Ele é um cara que tem mercado onde quiser. Vamos supor que ele viesse para cá neste momento e daqui a um ano ele percebesse que não vai acontecer, que os dirigentes não têm palavra, não honram o compromisso. Ele sairia daqui e teria 80 caras batendo na porta dele oferecendo contratos ainda melhores. Então, um cara desse faria o que quisesse, na hora em que quisesse. Isso assusta, né?! Porque os técnicos brasileiros que estão no mercado têm um respeito excessivo pela imagem da CBF. Tanto que até hoje a gente os ouve falando: “O jogador tem que mostrar interesse em jogar pela seleção”. Por que não se convoca o Marcelo? Por causa de sua personalidade? Por que ele não é “cordeirinho”, talvez um pouco mais rebelde? Eles não querem jogadores com esse perfil. Um técnico com independência, pelo tamanho profissional que tem, convocaria. Isso não interessa para essa gente, não é legal para eles.

Você acha que o Tite causou um pouco de medo também, já que ele também foi cotado para assumir a seleção depois da Copa?

Eu tenho só um palpite. Na época, o Tite não estava trabalhando. Ele tinha saído do Corinthians depois de um ano ruim. Não sei se eles ficaram inseguros com relação ao Tite ser um técnico capaz. Mas acho que antes de tudo eles quiseram trazer de volta alguém mais fácil de domar, um soldadinho.

O Muricy também assustou, né?!

O caso do Muricy é um pouco diferente. Ele não recebeu, pelo que eu sei, proposta pra valer. Houve uma conversa informal, mas não se falou com ele sobre salário, a duração do contrato. O Ricardo Teixeira teve aquela conversa com ele, e o Fluminense não o liberou, o que é bom lembrar. O Muricy tinha um excelente contrato com o clube. E ele iria largar? Aí o Muricy pousou meio de valentão, que largou e tudo. Mas espera aí. Essa história está muito mal contada. “Ah, ele recusou”. O Fluminense não o liberou, porque tinha um contrato em vigor. Ele ia pagar a multa? “Ah, ele não é um técnico com histórico de romper contrato”. Depende, saiu do Fluminense alegando que tinha um rato lá. Mas trabalhou com esse rato e com aquele gramado ruim das Laranjeiras o ano inteiro e ganhou um Campeonato Brasileiro sem reclamar tanto.

O Muricy é um desses técnicos absolutamente superados do futebol brasileiro. Agora ele ficou uma semana em Barcelona e voltou com esse discurso de que ia jogar de uma determinada maneira, que mudou e não sei o quê. A comparação que eu faço com o Muricy é o seguinte: ele foi um ótimo churrasqueiro durante um bom tempo. Ele fez o melhor churrasco do Brasil! E ganhou prêmios. O restaurante dele ganhou estrelinha Michelin. Legal, mas não deixou nenhum legado por que não criou uma nova escola de churrasqueiros. Foi um momento em que o churrasco dele funcionou muito bem. Em baixa, depois de tentar outros tipos de culinária ao longo de alguns anos – que ele vem tentando isso no Santos desde 2012, ou seja, jogar mais com toque e posse de bola –, não conseguiu ser competitivo. Aí ele foi para Paris, ficou num restaurante francês vendo o chef trabalhar e voltou dizendo que agora ele é cozinheiro de culinária francesa de alta gastronomia, sofisticadíssima, com aqueles pratinhos bonitinhos e tal. É bem diferente de fazer um churrasco, né?! Eu até prefiro um churrasco do que uma comida dessas, mas é claro que um churrasco é muito mais fácil de preparar do que esse tipo de prato. Então, a coisa se sofisticou, os ingredientes são mais delicados, o tempo de preparo, o equilíbrio… essa coisa Masterchef. Se o cozinheiro tiver a noção do corte e da qualidade da carne, da quantidade de sal, da altura do fogo e do tempo, logo domina aquilo ali. Não é um negócio tão difícil. Eu acho que é dessa maneira. A única chance de o Muricy ser um técnico de algum destaque é ele voltar a fazer churrasco do jeito que ele sempre fez e aos pouquinhos tentar colocar uma carne diferente e sofisticar o churrasco. O importante é alimentar. Essa coisa de ele querer jogar com esquema 4-3-3, ele não consegue. O time do Flamengo é uma bagunça…

Mas o que acontece? Ele é um personagem que ainda se apoia muito numa crença de parte da imprensa de que ele é muito sério. De fato, é trabalhador, mas isso não basta. O futebol mudou. O período de domínio dele foi até 2008 com o São Paulo e depois em 2010 com o Fluminense. Em 2011, com o Santos na Libertadores, é diferente porque ele pegou no meio do campeonato e deu uma endurecida no time. Aquele time tinha Neymar muito bem e Ganso com alguns bons momentos. Ganhou a Libertadores. Não é que ganhou com sobras, teve um ponto de desequilíbrio ali. Agora, montar um time mesmo, ele já não consegue fazer isso em um time competitivo há muito tempo. E teve já bons jogadores nas mãos, no São Paulo principalmente.

Ele se apoia um pouco nisso e conta, também, com um pouco de tolerância por parte da imprensa de São Paulo. O rigor que existe com o Luxemburgo em relação a tudo às vezes não há com o Muricy. É o que eu falei com vocês no começo do papo: eu procuro tratar os dois da mesma maneira. Eu não sou amigo de nenhum dos dois. Acho que são pessoas diferentes e tem perfis diferentes, mas o tratamento que eu dou quando vou dar minha opinião sobre o time que eles montam tem que ser neutro. Eu não posso achar que esse aqui é mais gente boa, ou que esse é honesto e aquele ali eu não sei se é, esse é gaúcho e aquele é carioca, um é assim e o outro, assado… isso não me interessa, não pode contaminar a avaliação.

A quarta parte da entrevista vai ao ar no dia 21 de outubro!