15.10

Mauro Cezar Pereira (parte 4)

Equipe Ludopédio

O niteroiense Mauro Cezar Pereira iniciou a carreira de jornalista em 1983. Atualmente comentarista da ESPN Brasil, Mauro Cezar passou por diversos veículos, como O Dia, Placar, Jornal do Brasil, O Globo, entre outros. Foi professor dos cursos de Comunicação Social da UNISA e na Pós-Graduação de Jornalismo Esportivo da FMU. Conhecido pela postura sincera e opiniões incisivas, Mauro Cezar participou da cobertura de edições da Copas do Mundo e Liga dos Campeões da UEFA, e comenta diariamente campeonatos nacionais e internacionais.

 

Foto: Max Rocha

Foto: Max Rocha

 

Quarta parte

 

Dentre as equipes brasileiras, qual você acha que tem mais chances de avançar na Libertadores deste ano?

Essa pergunta está sendo feita no meio das oitavas de final, entre um jogo e outro… Eu vejo assim: acho que é um pouco cedo para ter conclusões sobre o que acontece com o São Paulo, mas vai se classificar provavelmente porque tem um placar muito grande a seu favor.

O Atlético-MG não tem o elenco que parte da torcida pensa que tem. Tem um bom elenco, mas não é essa coisa toda. E tem um técnico que eu acho que é um cara capaz, o Aguirre, pois já mostrou bons trabalhos. Ele já foi vice-campeão da Libertadores com o Peñarol. Qual o jogador do Peñarol que fez sucesso depois? Nenhum. O Martinuccio era a estrela do time e não se firma em lugar nenhum. O Peñarol é um puta clube, a camisa é pesada, tem a mística, é cinco vezes campeão, agora tem até um estádio novo e tal, tudo isso pesa, mas o trabalho dele foi muito acima da média. Conseguiu chegar à final com aquele time, e o Santos ganhou por um gol, não tomou uma lavada. O Santos tinha o Neymar. Se o Neymar fosse do Peñarol, o Peñarol seria o campeão. Se invertesse, eu não tenho a menor dúvida. Na última Libertadores, o time dele, o Internacional, foi o melhor brasileiro da competição, perdeu para o Tigres, que é um time caríssimo, com investimento milionário. Tem o centroavante da seleção francesa, que ganha quase 2 milhões de reais por mês, o Gignac. Então, acho ele um bom técnico. Mas se o Atlético-MG não conseguir avançar até a fase final, ele certamente vai ser execrado e não sei se os dirigentes vão segurar. O que seria um grande erro. Já sabiam da característica dele, e ele está tentando tornar o time mais equilibrado, já que o time do Levir Culpi tomava muitos gols, sendo este o motivo pelo qual não conseguiu brigar pelo título brasileiro com o Corinthians no ano passado. Então, eu acho que há uma supervalorização do elenco e uma falta de paciência absurda com um técnico que é bom.

O Grêmio está encrencado. O time surpreendeu na temporada passada e nesta está enfrentando dificuldades que talvez não tivesse preparado para elas. A Libertadores é outro tipo de competição, tem outra pegada. E a expectativa passou a existir. No ano passado, ninguém esperava nada do Grêmio e tudo funcionou bem. “Ah, agora o Grêmio tem um time bom! ” Foi o pensamento de muitos. O Roger também é um técnico muito promissor, estudioso, mostrou que é capaz, mas não tem ainda toda essa história. Certamente, ele está aprendendo muitas lições nessa experiência de disputar a Libertadores. Demiti-lo após a competição se o time for eliminado, como é bem provável que aconteça depois da derrota em casa para o Rosario Central, seria uma tolice, pois acho que é um técnico que tem o que oferecer. Os dois casos, tanto ele quanto o Aguirre.

O Palmeiras já caiu, e o Corinthians vai acabar avançando, mas deve ter dificuldades com o Nacional. Este é um time que ganhou duas vezes do Palmeiras, já ganhou do Corinthians em outras ocasiões e, como falei, times uruguaios geralmente não se assustam muito jogando no Brasil ou na Argentina. O Nacional tem mais história, joga mais vezes e ganhou mais vezes a Libertadores do que o Corinthians. No ano passado quando o Lodeiro foi para o Boca Juniors, ele deu uma entrevista falando em outras palavras que o Boca é maior do que o Corinthians. Isso repercutiu aqui como uma ofensa. Quando me perguntaram sobre a declaração dele no programa, eu falei: “O Boca é maior do que qualquer clube brasileiro, não só o Corinthians.” Tem mais títulos na Libertadores, tem mais títulos nacionais e mais títulos mundiais, considerando aqueles antigos intercontinentais, para o que não dou muita importância. O Boca tem a maior torcida da Argentina, é o clube sul-americano talvez mais conhecido mundialmente. Então, é maior do que o Corinthians, o Flamengo, o São Paulo, o Inter, o Vasco, o Palmeiras, o Santos, o Grêmio… O futebol argentino invade o Uruguai, no sentido de as TVs mostrarem os jogos, os jornais darem a tabela de classificação. Eles vivem muito o futebol argentino, apesar da rivalidade que eles têm. Eles estão muito próximos e há uma influência muito grande, talvez até cultural. Consequentemente, o Lodeiro cresceu ouvindo falar do Boca, de uma maneira que ele não ouvia falar do Corinthians ou de qualquer outro clube brasileiro, mesmo considerando a proximidade dos gaúchos. Então, o que ele falou foi natural. Nossa, aquilo foi visto como um “escândalo”. E daí? Não falou nada demais. Ele falou a visão dele, o que é absolutamente pertinente, não é nenhum absurdo.

Eu vejo dessa forma. Saber quem tem mais chances de ir à final, isso depende muito de cruzamento, é muito difícil. Em mata-mata, não dá para fazer esse tipo de previsão. Eu não tenho essa capacidade. Alguns colegas têm, preveem quem vai para a final, fazem estimativa de pontos… eu não consigo fazer isso, acho pretencioso. Se fosse assim, eu apostava nos resultados e estava milionário. Isso é uma bobagem! E ainda bem que é assim, porque o futebol é magnífico por ser imprevisível. O Leicester foi campeão inglês. Isso não tem o menor cabimento do ponto de vista lógico, né?! Quando começou o campeonato, três clubes tinham elencos cifras avaliados em cifras inferiores à do Leicester, justamente os três times que caíram para a segunda divisão. Todos os outros tinham elencos mais caros. E os caras ganharam o campeonato com duas rodadas de antecedência. Qual a explicação para isso? O técnico foi perdedor a vida inteira, já está em fim de carreira. O centroavante jogava a quarta divisão, trabalhava e jogava bola para se manter. O time tinha bastantes jogadores renegados, refugos até. O zagueiro Huth, um alemãozão que jogou no Chelsea, por exemplo, horroroso. E mesmo assim o Leicester ganhou o campeonato. Isso não tem explicação. Futebol é a modalidade coletiva mais imprevisível. Por isso é maravilhoso e sensacional.

Eu não me atrevo a arriscar, não. Eu acho que hoje não tem nenhum time brasileiro que se possa dizer: “Está na Libertadores e é fortíssimo. ”. O Corinthians poderia tê-lo se fosse bem administrado, se não perdesse tantos jogadores. Até porque, os chineses fizeram a limpa ali pela oportunidade. O clube já estava endividado e atolado há tempos. Quando ele abriu mão para o Flamengo contratar o Guerrero e o Sheik, já foi para ele tentar se livrar de custos. Na época, houve uma reunião com o Flamengo, e certamente com outros clubes, em que eles colocaram o elenco à disposição: “Quem vocês querem?”. A coisa foi assim, só que o mercado não absorveu esses jogadores. A Europa não tem interesse nesses jogadores.

Veja: o Ricardo Goulart e o Éverton Ribeiro foram os melhores jogadores do Cruzeiro no bicampeonato 2013-2014. Um foi para a China e o outro, para o ‘mundo árabe’. Dos jogadores do Corinthians, ninguém foi para a Europa. Teve o Love, que é um negócio até surpreendente e difícil de explicar. E o Pato foi enfiado por outros meios, através de empresários – o Kia sendo um deles. Para o Chelsea, chegou sem custo nenhum, emprestado, tendo que pagar só o salário, o que para o Chelsea não é nada de outro mundo. Então, foi uma aposta: “Vamos ver, deixa o cara aí.”. Ou seja, os times brasileiros não conseguem mais vender para os grandes europeus os destaques do seu campeonato, a não ser quando é um Neymar, um jogador muito acima da média. Os do Cruzeiro foram para mercado alternativo, e os do Corinthians foram para lugar nenhum, a não ser esses dois que foram para o Flamengo. Quando os chineses resolveram vir às compras aqui, eles viram que no Corinthians as multas eram baixas, sendo fácil tirar os jogadores. E por que as multas eram baixas? Quando um clube começa a dever salário para jogador, começa a dar a ele uma maior parcela dos direitos, a aceitar que o seu empresário prorrogue o contrato. O Gil, por exemplo, que em um dado momento prorrogou o contrato. Ninguém revelava as condições. É óbvio que alguma cláusula foi colocada ali para proteger o jogador: se vier uma proposta “x”, tem que liberar; a multa vai ser mais baixa; o jogador passa a ter direito a “x” por cento dos próprios direitos federativos. Para os jogadores, a situação estava meio que confortável. Eles acabaram saindo por preço baixo em relação aos valores pagos pelos chineses aos jogadores de outros clubes. Se vierem pegar o Gabriel Jesus, do Palmeiras, que é novo e muito promissor, a multa será muito maior. Este vai acabar indo para a Europa, acho eu.

É isto: má administração. Se o Corinthians fosse bem administrado e pudesse manter esses jogadores, ou boa parte deles, aí acho que seria um brasileiro realmente favorito. Mas quando um time é bem treinado e trabalhado em campo, fora de campo a coisa vai muito mal. Esse é maior exemplo disso. Com o dinheiro que os times brasileiros têm – ou tinham, hoje a diferença não é tão grande –, eles deveriam ter uma supremacia grande no futebol sul-americano. A disparidade econômica é muito grande. Se em relação à Argentina e ao Uruguai é, imagine os outros países. A não ser quando aparece um time que tem um mecenas bancando, como já aconteceu na Colômbia, com caras ligados a contrabando e a tráfico de drogas, que acabaram montando equipes muito poderosas.

O que te entristece mais: olhar para dentro do campo ou olhar para a arquibancada hoje?

Ah, para a arquibancada, sem dúvida. Porque dentro do campo o jogo que se joga no Brasil é um jogo que é possível neste momento. Isso pode mudar com técnicos mais qualificados, principalmente a parte de treinamento e de montagem de equipe, que é trabalho da comissão técnica. Não teremos os melhores jogadores do mundo aqui. Se os clubes fossem mais organizados, daria para segurar mais tempo esses jogadores. Com uma maior profissionalização dos clubes, na acepção da palavra, seria possível também contratar gente no mercado sul-americano de bom nível na hora certa. Por exemplo, o James Rodríguez não sairia do Envigado para jogar no Banfield e depois ir para o Porto. Alguém descobriria esse garoto lá e traria para cá. O Calleri não chegaria aqui no São Paulo enviado por empresários para ficar seis meses. Ele seria descoberto no All Boys, jogando na primeira ou na segunda divisão da Argentina, e o contratariam com 18 e 19 anos para jogar ainda na base um ano e fazer gol profissionalmente no São Paulo. Isso não acontece porque os dirigentes não conseguem olhar para o mercado. Só vão atrás de jogador quando for conhecido, além de contratar sem saber das características dos jogadores, o que é muito comum. Então, o jogo que é jogado no campo é o jogo que é possível fazer.

Agora, fora do campo a gente tem vários problemas. Primeiro, a elitização: essa mania de que todo mundo tem que ser sócio torcedor, ingresso caro, proibição de tudo…. Nada pode. Aqui em São Paulo há muito tempo não pode bandeira, não pode isso, não pode aquilo. Assim, as arquibancadas são muitas vezes frias, o público é formado muitas vezes por clientes, e não por torcedores, o que são coisas totalmente diferentes. O torcedor não é um cliente. A relação do torcedor com um time é uma relação de paixão. É o que os argentinos e os uruguaios cantam com muito orgulho. Tem um trecho de uma música da torcida do Racing que é espetacular, a Muchachos, traigan vino juega la Acadé!: “Se me parte el corazón, cada vez que vos perdes / Me pongo de la cabeza y otra vez te vengo a ver.”. Ou seja, essa é a máxima. O time perde, eu fico arrasado, mas ponho a cabeça no lugar e digo: “Pô, isso é minha vida! ”. Eu amo esse time e volto para o estádio. Eles se orgulham disso.

Eu vi uma coisa ontem que eu nem compartilhei no Twitter porque poderia parecer provocação com relação aos torcedores do Atlético-MG e, como eu sou torcedor do Racing, não escrevi. Isso não é cascata, tem gente que acha que é fachada, mas não é. Eu fui lá para Buenos Aires ver a final na última rodada de 2014, acompanho todos os jogos e me envolvi com o clube por causa da torcida. É um clube que durante muitos anos, décadas! não deu nada para o torcedor, não deu uma alegria, só porrada, só decepção, rebaixamento, humilhações, goleadas… O clube deixou de existir, faliu, e os torcedores não deixaram acabar. Então, foi ao fundo do poço e tinha ainda uma pá para fazer um buraco maior. Eu me encantei quando eu comecei a conhecer melhor essa história no início dos anos 90 e ver como eles eram ainda apaixonados.

Porque futebol é isso, parte desse princípio: se não tem o torcedor apaixonado, o futebol não é nada, zero! Seria só um jogo. Por mais magnífico que seja o jogo, sem o torcedor o futebol não é nada. A gente não estaria aqui conversando, não existiria canais de televisão a cabo, nada, zero. Então, eu comecei a seguir, a acompanhar. Mais tarde com a internet ficou mais fácil, primeiro ouvia os jogos pelo rádio, depois passei a ver, além de ler notícias. Hoje faz parte da minha rotina.

Não compartilhei uma informação porque poderia parecer provocação. E eu tinha dito já no ano passado que, se o Racing jogasse com time brasileiro a Libertadores, eu não ia me manifestar para não ficar numa discussão de torcedor, já que eu nem devo fazer esse papel. Uma brincadeira em algum momento é legal, mas havendo um jogo sério não tem nada a ver eu ficar discutindo. Fiquei na minha. Enfim, eu tenho vários seguidores que são argentinos, jornalistas, torcedores, comunidades relacionadas ao Racing, muita gente. Vários deles, inclusive, ficaram me procurando nos últimos dias para ter uma opinião sobre o Atlético-MG, o time, a torcida, o estádio, o ingresso… O que aconteceu? Algum torcedor ou torcida do Atlético publicou um cartaz escrevendo: “Vamos torcer, gritar o tempo todo. Chegue tal hora. Leve o sinalizador para a recepção do ônibus na rua.”.

Aliás, abro parênteses, dentro do estádio não pode sinalizador, o que é outra palhaçada! Confundem um pisca-pisca que uma criança segura numa festa junina ou aquele sinalizador que é uma tocha que apaga, nem queima na mão, com aquele rojão que algum torcedor do Corinthians soltou lá na Bolívia matando o Kevin Espada. São coisas totalmente diferentes. O sinalizador luminoso só tem o efeito visual, e isso faz parte do futebol, do espetáculo, tem que ter. Não poder ter isso é ridículo! Não poder soltar rojão eu concordo, porque pode estourar a cabeça de alguém, pode queimar. Mas aquilo?! O Fluminense, em 2008, na final da Libertadores contra a LDU, fez um recebimento espetacular só com isso. Eram milhares, milhares e milhares, o Maracanã estava lotado, cercado daquilo e ainda escreveram “Fluminense” com esses pisca-piscas nas cores do clube. Então, isso não pode, nada pode, é só proibição.

Voltando ao print do torcedor do Atlético-MG, ele dava algumas instruções aos demais torcedores. Eu não tinha visto isso, só vi porque um desses perfis que eu sigo retwittou, escrevendo assim: “Como?! Estão ensinando aos torcedores a torcer? Necessita de instruções?”. O cara estava meio incrédulo: “Que porra é essa, irmão? Isso não tem cabimento!”. Isso é a coxinhização do futebol. É claro que a torcida do Atlético-MG não precisa disso. Um cara que frequenta o estádio sabe as músicas, canta, vai torcer, é óbvio, pelo time dele. Talvez seja por conta da existência dos clientes também, não sei…. Não sei por que alguém faz um cartaz desses, porque tinha instruções de como torcer. Isso é coisa de estádio gelado, como o Bernabéu, o Camp Nou… São estádios frios, de clientes, turistas. Você não tem ali esse cara que põe a cabeça no lugar no dia seguinte e volta a torcer pelo time.

Aqui no Brasil os estádios estão cheios de selfgirl, selfboy, essas pessoas que ficam tirando foto deles mesmo para postar no Facebook: “Estou no Maracanã! Estou no Allianz Parque! Estou na Arena Corinthians!”, e o jogo que se dane. Essa semana aconteceu: o Grêmio perdeu o jogo para o Rosario Central, e rolou uma foto de um gremista sem camisa tirando foto dele mesmo no estádio do Grêmio. A TV flagrou o cara, e depois ele teria dito: “Eu estava fazendo só uma brincadeira. Tirei a camisa por um segundo para mostrar a foto para uns amigos.”. Pô, o time perdeu e o cara estava tirando selfie sem camisa?! Isso é muito comum. Tem até a câmera do beijo, que é uma bobagem de americano e que tem em alguns estádios no Brasil. O time está perdendo, e os casais estão se beijando e aparecendo no telão. Isso, como diria o Luxemburgo, não pertence ao futebol. Então, eu fico muito mais chateado hoje com o que eu vejo fora de campo, salvo exceções.

E outra coisa é o comportamento da própria imprensa. Por desconhecimento do assunto, o que é um absurdo por que vive nisso, muitos colegas repetem como se fossem fantoches, papagaios: “Não pode isso, não pode aquilo.”. Aí quando tem um jogo como o do River Plate na final da Libertadores do ano passado, em que a torcida fez aquela puta festa, a imprensa diz: “Nossa, que espetáculo!”. Agora, na quinta-feira que vem, vai ter Rosario Central e Grêmio, no Gigante de Arroyito, e a torcida deles faz sempre uma enorme festa. Depois que o time ganhou o primeiro jogo fora, imagina como os caras estão. Nunca ganharam a Libertadores, não ganham o campeonato argentino desde 1987, sendo que já estão fora da briga neste ano. Eles vão com tudo. Aí a imprensa vai dizer de novo: “Nossa, que espetáculo!”. E aqui não pode nada. A imprensa estimula isso ou se omite. Então, os estádios no Brasil estão perdendo a alma.

Você acha que as organizadas e as torcidas jovens estão, neste momento, na maior ameaça da sua breve história, que tem uns 50 anos?

Eu acho que não. As organizadas podem ser forçadas a passar por alguma transformação se de fato, o que nunca aconteceu, forem aplicadas as punições previstas em lei para quem tem atitudes que ferem a lei. Simples assim. Mas elas, de uma forma ou de outra, elas vão existir e vão se reinventar. Ainda bem, porque se não existir um grupo comandando a festa, você vai ter a plateia, o estádio do Arsenal, por exemplo, que é uma geladeira também. Lá quando sai um gol, o cara levanta e aplaude. Não dá… É claro que existem exceções, em um “jogo da vida”, contra um rival, mas são muitas partidas assim, porque houve uma elitização.

Na Inglaterra, acho até mais compreensível porque eles estavam com o hooliganismo como um problema muito sério. Então, quando houve a tragédia de Hillsborough, em que morreram 96 pessoas, eles fecharam todas as “torneiras”. E funcionou porque os hooligans saíram dos estádios. Raramente acontece problema dentro de estádio lá e até nas imediações. Agora, não tem a quantidade de crimes lá como tem aqui. Um policial no Brasil vai levar um torcedor no dia seguinte ao jogo para o juiz por que ele invadiu o campo? Não vai, porque outros tantos caras invadiram casa, atiraram, mataram e fizeram de tudo. Essa diferença é fundamental.

Noutro dia eu vi um estudo publicado em que, entre 2013 e 2014, no Reino Unido os policiais deram três tiros… E não mataram ninguém. Então, são sociedades completamente diferentes. Lá o policial de rua não anda armado, a não ser polícia especial. Aquele caso do Jean Charles é uma puta cagada dos caras, é óbvio, mas é um azar do azar do azar do azar, pois acharam que ele era um terrorista. Se um torcedor invade um campo hoje lá, amanhã estará diante de um juiz. E o juiz irá acabar com a vida dele, terá de pagar uma multa pesada, fará trabalhos sociais ou será preso.

No Reino Unido já existe muita discussão sobre a perda da alma dos estádios e a necessidade de se recuperar setores para torcer em pé, como na Alemanha. O problema é que os grandes clubes ganham muito dinheiro, seus estádios estão sempre cheios e têm donos. Aqui, não. Os estádios estão sempre vazios, e a gente fica imitando as coisas ruins dos europeus, que é tirar a liberdade de torcer: não pode ter bandeira, não pode ter pisca-pisca, não pode ter isso, não pode ter aquilo… Sim, não pode ter faixa de protesto, mas isso a UEFA também pune, o que não deixa de ser ridículo do mesmo modo. O Celtic foi punido há uns dois anos porque sua torcida, obviamente pró-emancipação do Reino Unido, levou uma bandeira do William Wallace, uma de outro personagem que não me recordo qual, e várias faixas pró-separação, quando se estava se aproximando do plebiscito. Aí a UEFA puniu o Celtic, o que é uma burrice porque é a origem histórica do clube. O Celtic é um clube de irlandeses, católicos e pró-separação da Inglaterra. Já o rival Rangers é tudo ao contrário: protestantes, adoram a Rainha, usam a bandeira do Reino Unido. Pô, todo mundo sabe. Não entender isso é de estupidez imensa. Isso tem lá e tem aqui também, outra bobagem que se copia.

Então, fora do campo eu acho mais triste do que dentro. Porque dentro, mesmo que o jogo seja ruim, como as pessoas amam os seus clubes, elas vão continuar torcendo, acompanhando e fazendo tudo por eles. É uma mentira dizer que as pessoas não vão ao jogo por que a qualidade do jogo é ruim. Não, é por causa da paixão, ou melhor, da falta dela. O livro Soccernomics tem uma passagem muito boa, em que os autores dizem em outras palavras que, quando um time é rebaixado, se ele for bem administrado, é uma grande oportunidade de organizá-lo. Por quê? Vai passar a trabalhar com um elenco bem mais barato, gastando-se menos no dia a dia e dando uma folga para o orçamento, e não vai perder totalmente as receitas, uma vez que o seu “cliente” é o torcedor. Esse torcedor, quando o time é rebaixado de divisão, não irá trocar de time, mas sim irá acompanhar, irá atrás do clube na segunda ou na terceira divisão. Ou seja, o clube ainda tem a possibilidade de continuar trazendo essas pessoas no estádio para comprar ingresso, camisa, comida, cerveja…. Então, a máquina continua funcionando. Se a Apple, por exemplo, passar a fazer telefones ruins, as pessoas vão mudar para a Samsung ou a LG, e ela irá falir. Só um imbecil tatuaria a maçãzinha da Apple no corpo, agora o clube a pessoa tatua no corpo e quer carregar durante a vida inteira. Esta pessoa não é um cliente, é um torcedor.

Agora, brasileiro está muito ligado ao resultado do time dele, mais do que torcedores de outros países. Só se motiva quando o time está ganhando e tal. Isso é uma coisa que precisaria mudar. Ao invés de tentar mudar isso, a gente trabalha com coisas que não são boas. Essa coisa do sócio torcedor, por exemplo, a gente tem um caso bem-sucedido que é o Corinthians, mas na melhor fase da história do clube. Como vai ser quando o Corinthians não estiver mais nesta fase? Se ficar cinco anos sem disputar a Libertadores, sem poder montar boas equipes, sem ganhar títulos, será que vai ficar enchendo o estádio como está enchendo? Pode ser que encha, mas vão ter que baixar o ingresso lá embaixo. Aí o cara que mora na zona leste vai poder ir ao jogo, porque muitos que vão ao estádio nunca pisaram dentro daquela região.

O Palmeiras já teve jogo de 15 mil pessoas e nem assim reduz preço. Será que é tão difícil você, sabendo que em determinado jogo vai ter um público que é um terço ou menos da capacidade do estádio, pegar as diferentes categorias de sócio torcedor e falar: “Se você emitir seu ingresso até tal dia, vai pagar ainda mais barato. Você desse setor aqui não irá pagar nada. ”. O que sobrar de ingresso até quinta-feira, sendo que o jogo é no sábado, por exemplo, você vende para quem não é sócio torcedor a um preço acessível, a uns vinte ou trinta reais. Fale: “Você, palmeirense, venha ao jogo! O ingresso está mais barato. É a sua oportunidade de conhecer a nossa casa. Se você não é sócio torcedor, venha ao jogo, assista, veja como é legal e entre de sócio no Palmeiras. Tem vários planos: R$ 9,90, R$ 12,50, R$ 100,00.”. A pessoa que vai, mesmo que compre ingresso barato, se ele for de carro vai estacionar, vai comprar alguma comida ou bebida, se levar o filho vai comprar alguma pipoca. Ele ainda vai gastar algum dinheiro ali. E o mais importante: fidelizar esse torcedor. Hoje não se trabalha dessa maneira. Isso tudo me entristece. A parte mais melancólica é fora do campo. Dentro, se o jogo não é tecnicamente aquilo que a gente gostaria que fosse, isso não é o maior dos problemas, não. Nossa, eu já torci para tanto time ruim e não deixava de ir aos jogos. Eu comecei a acompanhar o Racing por que o time era uma merda, mas a torcida era maravilhosa e aquilo me cativou. Então, não tem essa. Isso é uma visão de comentarista. Se você se colocar no lugar do torcedor, vai ver: “O time é uma merda, mas porra está ganhando, joga com raça e tudo. ”. O torcedor vai. Agora, se o ingresso custa R$ 200,00, o cara não vai. Não tem como. O preço do ingresso é o maior obstáculo para isso. Quanto a isso, eu não tenho a menor dúvida!

Não é a questão da violência. A violência está na rua. O futebol está dentro da nossa sociedade e da nossa rotina. Como ele vai ser diferente? No estádio de futebol hoje, o mais difícil é ter briga. Tem briga longe, fora do estádio. Dentro não tem briga. Então, o problema não é esse. “Ah, o cara não vai por que tem medo. ”, isso é uma balela! Se fosse assim, a gente não sairia de casa. Daqui da ESPN Brasil, por exemplo, ao metrô é perto. A partir das seis da tarde, a firma coloca um carro que vai e volta do metrô. Por que se faz isso? Porque às vezes sai uma mulher sozinha e vai andando pela avenida e pode ser assaltada, abordada. Se a firma tirar o carro, ela vai ter que andar a pé até o metrô. Não tem jeito, ela trabalha aqui. Vai fazer o quê? Não vai trabalhar mais, não vai se expor? Estou falando de uma avenida importante, conhecida, em um bairro valorizado na cidade… Se for assim, as pessoas não saem na rua. Então, não é por isso que as pessoas não vão ao futebol. Pode até ser que alguns não vão porque têm medo e tal.

Foto: Max Rocha

Foto: Max Rocha

E a questão dos horários?

Ah, também. Mas aí é aquela coisa: a TV Globo impõe um horário. E os clubes tentam mudar? Então, quem é o maior vilão aí? Os dirigentes aceitam. Eles não se preocupam com esse torcedor. Para eles: “Que se dane o torcedor!”. O Caixa D’Água, que presidiu a Federação do Rio, depois de um tempo eu percebi que era um profeta. Em 1989-1990, a FERJ vendeu o Campeonato Carioca para a TV Manchete. E ela mostrava os jogos ao vivo no Rio no domingo, em um horário imposto por ela, às seis da tarde, quando o horário clássico no Rio sempre foi às 17 horas. Então, os clássicos de domingo passavam na TV aberta para o Rio de Janeiro. Naquela época, as pessoas não estavam acostumadas com isso. Hoje quando tem um jogo de grande apelo, as TVs podem transmitir que mesmo assim as pessoas vão ao estádio. Mas isso na época reduziu a presença de público. Eu me lembro que em 1988, no famoso gol do Cocada, Flamengo e Vasco jogaram para trinta e poucas mil pessoas. Tudo bem, basicamente só tinha vascaíno, já que o Flamengo estava quase entregue, porque tinha que ganhar o jogo para provocar outro, mas mesmo assim. Hoje, se tiver um jogo desse no Maracanã decidindo título, mesmo com o Flamengo sem chance, a torcida do Vasco iria encher o estádio inteiro. A TV era uma novidade na época e gerou uma acomodação. O Caixa D’Água falou na ocasião: “Eu não estou preocupado com o público no estádio. A televisão me paga mais do que seria arrecadado se vendesse todos os ingressos em todos os jogos.”. Ele estava pensando no dinheiro só. Mas não é só dinheiro! É o dinheiro, o estádio cheio, a torcida participando…. É muito melancólico o estádio vazio.

Alguns clubes europeus provam que isto é possível: ter um estádio cheio com espetáculo da torcida e o dinheiro da TV também.

A questão é assim: na Europa os ingressos são caros, mas são mais proporcionais ao poder aquisitivo daquelas pessoas. Ainda assim, agora na Inglaterra eles conseguiram algumas vitórias. O Liverpool, por exemplo, não estourou o preço como queria. A partir da próxima temporada, vai haver um limite de 30 libras para o ingresso do visitante. Então, vai acabar com a exploração do torcedor que vem de fora. Isso acontece muito aqui no Brasil, principalmente com Flamengo, Corinthians, São Paulo, Vasco, que têm torcidas grandes, nacionais, sobretudo quando esses clubes vão para outras praças. Em Goiânia, por exemplo, a torcida de fora paga, pelo mesmo setor que um torcedor do Goiás pagou na promoção um real, R$ 80,00 ou R$ 100,00. Um absurdo! O Mineirão já fez isso. No Cruzeiro e Flamengo do ano passado, um amigo meu, flamenguista, que estava em Belo Horizonte naquele dia, não foi ao jogo porque tinha que pagar R$ 120,00 por um lugar na arquibancada. Quer dizer, são pequenas vitórias que os torcedores ingleses estão conseguindo lá. Em alguns momentos, também se discute a questão do preço. E olhe que lá a demanda é grande, os torcedores compram tudo. Se você quiser comprar um ingresso no jogo do Chelsea ou do Manchester United, é dificílimo. Lá é outra realidade. Aqui, não. O dirigente prefere um lugar vazio do que tentar viabilizar a ida de um torcedor que não vai.

Aí entra de novo a discussão política. Essa gente, esses dirigentes que pensam assim – não vou dizer que são todos, mas muitos –, querem que se dane o pobre que não pode ir a um jogo de futebol. O geraldino típico, eles querem que se dane! Assim como eles não gostam de ver a empregada doméstica deles comprando uma televisão de LCD, não querem assinar a carteira dela, não querem pagar o 13º ou ficam putos ao verem um senhorzinho humilde do Nordeste, que antes andava três dias de busão, hoje comprar passagem aérea. Essa falta de sensibilidade existe na sociedade, e no futebol é a mesma coisa. Enfim, eu acho que fora é muito mais triste do que o que acontece dentro de campo.