08.5

Norton Cassol

Equipe Ludopédio

A primeira entrevista desse mês é com o preparador físico Norton Cassol, que já atuou em diversos clubes do sul país, e também do interior de São Paulo, Goiás e Maranhão. Nos últimos anos, Norton tem tido a oportunidade de vivenciar o universo do futebol profissional da Costa Rica. Confira este e outros assuntos na entrevista abaixo. Boa leitura!

 

Norton Cassol observando treino. Foto: Arquivo pessoal.

 

Era um sonho de criança ser um jogador de futebol? Como foi o seu primeiro contato com a modalidade?

Como 99% dos meninos do Brasil, eu também tinha o sonho de ser jogador de futebol, sempre fui apaixonado por este esporte, jogava desde pequeno na rua de casa e depois comecei a jogar pelos times da escola e clubes. Joguei até os 18 anos.

O que o fez estudar Educação Física?

Com 19 anos entrei na faculdade de Educação Física, era o que sempre tinha pensado em fazer e como era um jogador comum, decidi que ia estudar e fazer minha carreira como preparador físico. Assim estaria onde eu queria estar, apenas em outra posição.

Como foi o início de carreira no Coritiba?

Mais ou menos com uns três meses que estava na faculdade, um amigo da época, que era diretor das categorias de base do Coritiba, me convidou para ser preparador físico da categoria infantil. Foi em 1990, comecei sem muito conhecimento teórico, mas tinha a vivencia prática. Sempre fui muito preocupado em aprender, e vejo que foi super importante poder trabalhar na área antes mesmo de terminar a faculdade; foi super importante confrontar a teoria com a prática, me fez crescer muito e ter experiência para saber desenvolver bem minha função.

Norton Cassol no futebol costa-riquenho. Foto: Arquivo Pessoal.

Além das questões técnicas e materiais, o que você destacaria como grande mudança na sua área nos últimos 20 anos?

Mudou muito, me lembro que quando comecei usava muitos exercícios de atletismo e exercícios balísticos, mais parecido com um treinamento de exército. Lembro bem que comecei a usar bolas nos treinos físicos e era criticado, mas sempre tive a visão que o atleta de futebol tem que fazer tudo com bola, que é sua ferramenta de trabalho. Depois começamos a usar bolas de borracha para trabalho de técnica e coordenação e outra fez veio as críticas, como sempre estava ciente e seguro do que estava fazendo e não deixei as críticas atrapalhar minha metodologia de trabalho.

Você trabalhou em diversos clubes do sul do país. Em que estágio da preparação física se encontra clubes como Paraná, Coritiba e Atlético-PR?

Sim, trabalhei em vários clubes do sul, também interior de São Paulo, Goiás e Maranhão. E do meu ponto de vista e conhecimento, as equipes do sul do Brasil estão num excelente estágio de preparação física. Os clubes sempre buscam profissionais bem preparados para esta função e são mais estruturados e com uma visão mais moderna de ver o esporte.

Embora você tenha começado pelos clubes de elite paranaense, você acabou circulando por equipes de menor expressão. Quais os grandes obstáculos nesta fase?

Sim, é verdade, penso que foi uma questão de oportunidade, de estar na hora certa no lugar certo. Mesmo trabalhando em equipes de menor expressão, conseguimos ótimos resultados e alguns campeonatos.

Norton Cassol concede entrevista coletiva. Foto: Arquivo pessoal.

A que você atribui sua circulação nestes anos? A descontinuidade é uma característica da profissão no Brasil?

No Brasil há muita rotatividade e descontinuidade de trabalho. Para você ter uma ideia, teve um clube em que eu trabalhei três vezes. Gosto de continuidade, de poder implantar uma metodologia, de ver a sequência do trabalho, por isso a opção de trabalhar fora do Brasil.

Como foi o convite para trabalhar fora do país?

Foi através do treinador Marco Otávio, trabalhamos juntos no Internacional de Limeira (SP), ele estava em outro time aqui na Costa Rica e foi convidado para trabalhar na Liga Deportiva Alajuelense e me convidou. Eu fui ele, ficou 6 meses e eu sigo aqui há 4 anos, onde já conquistamos 4 campeonatos.

Como foi a chegada à Costa Rica? Quais as diferenças entre a preparação física brasileira e costa riquenha?

Foi tranquila, me adaptei rápido, e o motivo principal foi o carinho e o respeito de todos que trabalham no clube e a confiança da torcida. Eu tenho uma formação e metodologia de treinar mais forte do que eles estavam acostumados, que o time seja mais dinâmico dentro do campo, eles aceitaram a ideia e com os resultados fica mais fácil de que todos acreditarem e sigam fazendo ou usando a metodologia que implementamos.

Norton Cassol aquecendo atleta antes da partida. Foto: Arquivo pessoal.

Curiosamente, hoje no Liga Deportiva Alajuelense você tem seu trabalho mais longo. A que motivos você justifica essa longevidade?

Primeiro, porque existe um respeito e confiança entre eu e o clube, e depois porque conquistamos 4 campeonatos. Isso, no futebol, é muito importante, para ter uma vida longa em um clube, Mas também fiz trabalhos de longo prazo no Brasil, no Clube J.Malucelli. Tive três passagens por este clube, uma durou 3 anos.

Você se refere em outras entrevistas ou mesmo em seu perfil do Facebook a uma nova metodologia de trabalho na LDA. Quais as grandes mudanças implementadas?

A dinâmica do trabalho; a intensidade dos treinos; a ensinar o jogador a pensar e mover-se rápido dentro do campo; a fortaleza mental; a fazer o jogador acreditar que com o esforço dos treinos se pode conquistar o que o grupo tem como meta. E o que me deixa mais feliz, que conseguimos fazer os jogadores acreditarem que ninguém é mais forte que um grupo unido, que é muito mais fácil vencer fazendo um trabalho em grupo do que sozinho e que todos têm que lutar e ajudar a todos, formando assim uma grande família, e no final todos ganhamos.

Como o profissional brasileiro é visto na Costa Rica? Assiste-se ao campeonato brasileiro?

Aqui já passaram bons e maus profissionais brasileiros. Eu sempre tive a preocupação de deixar uma boa imagem, de um trabalho sério e de profissionalismo que é a maneira que eu sou. Aqui quase não se vê futebol brasileiro. Vê-se muito mais espanhol e outros da Europa, mesmo assim todos reconhecem que o Brasil é umas das grandes potências do futebol.

Norton Cassol comemora gol de sua equipe em torneio. Foto: Arquivo pessoal.

Existem muitos profissionais estrangeiros trabalhando com você? Como o futebol costa riquenho (riquense) se relaciona com o mercado do futebol? Existe um crescimento da modalidade no país tão apaixonado por beisebol?

Neste momento temos um jogador brasileiro. Quando cheguei não tinha nenhum e não era bem visto por aqui. Agora é normal, e em todas as temporadas temos pelo menos um jogador brasileiro. O futebol daqui está muito bem relacionado com o futebol Europeu e da Concacaf. E veja que curioso: dos países da América Central, na Costa Rica o futebol é o primeiro esporte, aqui são fanáticos por futebol, tem o segundo melhor campeonato da Concacaf, só está atrás de México. E a Seleção está nas eliminatórias lutando por uma vaga na Copa do Mundo.

Observando as inúmeras diferenças com o Brasil, é possível falar que existe uma certa cultura futebolística quase universal em alguns aspectos, tanto dentro e fora de campo?

Claro que sim, a cultura futebolística é universal e mesmo em países diferentes se mantém muitos aspectos parecidos. Hoje o mundo é globalizado, todo mundo sabe do que acontece em todo lado. Aqui é um pais desenvolvido na parte técnica dos jogadores. O que estamos mudando é a dinâmica do jogo, porque a técnica eles têm. O que faltava era o desenvolvimento da parte física que é 70% para qualquer esporte. Um atleta técnico mal preparado não desenvolve ou não atinge os mesmos resultados que um atleta técnico bem preparado fisicamente, e somos o exemplo disso: em quatro anos ganhamos 4 Campeonatos e 2 Copas.

Como foram as suas relações com o(s) técnico(s)? Os técnicos se interessavam e opinavam na parte da preparação física?

Sempre tive boa relação com os técnicos. Aqui já trocou quatro vezes, e para mim não são pontos separados, um é complemento do outro. É um trabalho integral, aqui não separamos trabalho do preparador físico e trabalho do treinador, é global e sequência um do outro, por isso a importância de uma boa relação de confiança da comissão técnica, para que todos saibam o que fazer e seguir a mesma metodologia.

Existe uma proposta interdisciplinar no futebol (ou no esporte em geral) costa riquenho? Ou seja, de integrar as ações do técnico com a proposta da preparação física, do fisiologista, do departamento médico etc.?

Conforme te respondi na pergunta anterior, tem que ter uma proposta interdisciplinar para que a máquina funcione bem, é uma engrenagem onde cada peça tem sua função e importância.

Norton Cassol dialogando com sua equipe em partida oficial. Foto: Arquivo pessoal.

Como é a estrutura das categorias de base do Liga Deportiva Alajuelense? No que mais se difere dos centros que trabalhou no Brasil?

Estamos melhorando muito desde quando cheguei aqui. Estamos trabalhando para que o clube tome consciência da importância de ter uma categoria de base bem desenvolvida; de que temos que fabricar nossa própria matéria prima para parar de contratar jogadores de outros clubes ou outros países. E a cada dia estamos conseguindo melhorar estes pontos. Para você ter uma ideia, hoje temos mais de 50% de jogadores feitos no próprio clube e a ideia é chegar a 75 %, por isso a importância de fazer um plano sério de longo prazo.

Como foi acompanhar a última Copa do Mundo imerso na cultura e sociedade de Costa Rica? É um evento muito acompanhado pela população?

Foi como se tivesse no Brasil. Futebol aqui é o evento mais acompanhado pela população, tem muita força e move a economia do país.

Quais são os seus planos para o futuro? Você pretende em algum momento tentar a carreira como técnico? Voltar ao Brasil ou buscar outro centro?

Já tive duas oportunidades de ser treinador, mas por enquanto não penso nisso, gosto de ser preparador físico e sei da importância de meu trabalho dentro do clube e quero continuar assim, procuro a cada dia me atualizar. Quem sabe em algum momento, mas não agora, porque ainda tenho muito que auxiliar aqui na Liga Deportiva Alajuelense, buscar um outro centro, ou quem sabe voltar ao Brasil. Você sabe que no futebol tudo pode acontecer.

Quais as impressões que chegam, na Costa Rica, sobre a Copa do Mundo de 2014?

São muitas, e todos estão esperando a classificação de Costa Rica para ir à Copa de 2014. É prioridade numero um aqui no país, e todos estão fazendo o possível para montar uma boa seleção. Os clubes dão total apoio. Da Liga Deportiva Alajuelense sempre são convocados quatro ou cinco jogadores.

Norton Cassol comemora título com sua equipe. Foto: Arquivo pessoal.