12.8

Nuno Domingos

Giovana Capucim e Silva, Equipe Ludopédio

Licenciado em Sociologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e Mestre em Sociologia Histórica pela mesma instituição, Nuno Domingos realizou doutorado na School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres (SOAS), onde defendeu a tese Football in Colonial Lourenço Marques, Bodily Practices and Social Rituals, e onde posteriormente fez pesquisa de pós-doutorado. Em 2012, Nuno Domingos publicou o livro Futebol e Colonialismo, Corpo e Cultura Popular em Moçambique (Lisboa, ICS).

Foto: Arquivo pessoal.

Nuno Domingos, autor do livro Corpo e Cultura Popular em Moçambique. Foto: Arquivo pessoal. 

Primeira parte

No Brasil, é comum afirmar que todo garoto nasce querendo ser jogador de futebol. Isso também aconteceu ao senhor?

É provável que sim. Acho que levei isso durante algum tempo: não me importaria de ser jogador de futebol. Sempre foi uma coisa que gostei. Há pessoas que estudam objetos que não têm nada a ver consigo ou não têm necessariamente interesse pelos objetos que estudam. Mas eu sempre gostei imenso de futebol e sempre gostei imenso de jogar. Não sei até que ponto depois teria talento suficiente para ser um jogador a sério.

E esse gosto veio da família?

O futebol era algo muito presente nas escolas, na brincadeira entre amigos. A bola é talvez o objeto mais fácil para iniciar uma interação. É fácil as pessoas gostarem de jogar. É uma forma de sociabilidade, de se comunicar. Quando cresci o futebol encontrava-se em todo  lado, bastava ter um espaço e uma bola e é normal, sobretudo entre rapazes, que adquiria uma importância grande.

E qual é a relação do futebol com a identidade do cidadão português?

É um tema vasto. Acho que o futebol tem uma importância significativa naquilo que Michael Billig chamou de “nacionalismo banal”, o modo como o futebol constrói uma ideia de identidade nacional a partir as suas equipas e das competições em que participam e de como isso projeta formas de pertença. Algumas pessoas se aproximam do futebol um pouco também para projetar essa pertença a um país, um meio de reforçar e demonstrar o seu vinculo nacional. Não me parece que em Portugal seja diferente. Essa interpretação do futebol como “nacionalismo banal” é muitas vezes relacionada com a história política do pais, com um conjunto de processos que são muitas vezes o resultado das próprias políticas de Estado. Cada país tem uma história em que o futebol se torna importante em certos momentos e não em outros, adquirindo significados consoante, por exemplo, a natureza do regime político: se está numa ditadura ou se está numa democracia. Há um conjunto de circunstâncias, entre as quais a própria qualidade e o tipo de desempenho estético das equipas, que tornam o futebol contextualmente mais ou menos importante. Em Portugal, como noutros países, se a seleção nacional é bem sucedida, tem bons resultados, essas lógicas de produção nacionalista são sempre mais fortes. Quando a seleção falha, é um momento para repensar não apenas a seleção mas o próprio país, como se a equipa fosse uma projeção, ou uma metáfora, da realidade social, política e histórica. Vários pesquisadores têm trabalho sobre isso em Portugal. Se estamos num contexto ditatorial, como foi o caso da presença portuguesa no campeonato mundial de 1966, onde Portugal conseguiu o terceiro lugar, o melhor de sempre, as discussões sobre o papel do futebol enquanto instrumento de construção da identidade nacional são mais fortes, sobretudo porque na altura o pais estava a travar uma guerra colonial. Note-se neste contexto o significado da presença nessa equipe de atletas negros como Eusébio, Coluna ou Hilário. Depois, só bastante mais recentemente, sobretudo a partir dos anos 90, é que a seleção nacional voltou a ter bons resultados e a participar regulamente nos europeus e  mundiais. A partir daí, esse componente de dinâmica nacional foi importante. Talvez tenha sido com Luiz Felipe Scolari, um brasileiro portanto, que a exploração da relação entre a seleção nacional e o pais se tornou mais vincada. Sua função à frente da seleção portuguesa teve também uma dimensão simbólica. Ele operava com facilidade os símbolos nacionais, as bandeiras, etc.

Ouço, desde que cheguei a Portugal, de que antes da vinda do Scolari não havia o hábito de colocar faixas e bandeiras portuguesas nas ruas e janelas. Pela seleção brasileira, em 2002 e 2014, o Scolari também acionou esse discurso de patriotismo, por exemplo, de chorar com o hino, de emoção.

Desde sempre há características que unem o país à seleção, Scolari não inventou isso em Portugal. O que ele fez foi utilizar uma prática que já utilizara no Brasil. Usou aqui instrumentos semelhantes para criar esse sentimento nacional. Aplicou a Portugal coisas que já conhecia, também para ter um efeito psicológico sobre a seleção, é um jogo mental que ele domina. Enfim, reforçou lógicas que já existiam, mas que com ele se tornaram muito mais fortes.

Como o futebol passou a ser um gosto de garoto a um objeto de investigação acadêmica?

É uma boa pergunta. Quando as pessoas têm curiosidade com um objeto qualquer, mesmo de forma espontânea, elas vão pensando formas de analisar, tentando estabelecer relações. Eu vinha num percurso nas ciências sociais e possuía alguns instrumentos que me permitiam interrogar o futebol de um modo diferente. A oportunidade de os utilizar em pesquisa surgir com  a Eurocopa de 2004, que se realizou em Portugal. A Câmara Municipal de Lisboa promoveu, a partir do seu Arquivo Fotográfico, um projeto sobre futebol que envolvia o trabalho de três fotógrafos contemporâneos, o Paulo Catrica, que liderou o projeto, o Pedro Letria e o António Júlio Duarte. O Paulo Catrica, que eu conhecera de um trabalho anterior sobre sociologia da leitura, pensou que esta proposta do Arquivo Fotográfico podia incluir também uma dimensão de pesquisa em ciências sociais, algo que dialogasse e complementasse os trabalhos dos fotógrafos. A partir deste trabalho, fizeram-se dois livros, um com fotografias contemporâneas e de arquivo (Uma Cidade de Futebol, Lisboa: Assírio e Alvim, 2004) e outro (A Época do Futebol. O jogo visto pelas ciências sociais, Lisboa: Assírio e Alvim, 2004) que reunia um conjunto de pessoas com interesse por futebol, mas que nunca o haviam pesquisado. Este livro foi coordenado por mim e pelo historiador José Neves. As leituras mais específicas sobre o fenômeno do futebol e do desporto em geral levaram a que me continuasse a dedicar ao tema, a que regressei de forma mais sólida e profunda na minha tese de doutorado. Pesquisei nessa ocasião o futebol no contexto colonial português, mais concretamente em Moçambique.

O senhor encontrou dificuldades de estudar o futebol no ambiente acadêmico?

Sim. Acho que é um problema que se repete em muitos países e que depende em grande medida do grau de desenvolvimento da academia em cada país. No caso da academia inglesa, ou mesmo no caso da academia brasileira, se comparadas ao caso português, há uma evolução maior das pesquisas sobre futebol e esporte de modo mais geral.  Em Portugal, no que diz respeito às ciências sociais, não havia praticamente estudos, a não  ser alguns trabalhos pioneiros. Os estudos sobre esporte ficaram muito confinados às faculdades que ensinam Desporto e Motricidade Humana, onde existem disciplinas de ciências sociais, mas de certa maneira mais ligadas à epistemologia ou à filosofia, embora também com investigadores em ciências sociais como a Salomé Marivoet ou a Ana Santos, que tem um recente e importante trabalho sobre o ciclismo em Portugal e sobre a volta a Portugal em bicicleta, um excelente objeto para trabalhar as questões da identidade nacional. Dentro dos departamentos Ciências Sociais, na Sociologia, na Antropologia, na Geografia e mesmo a na História é menos evidente o interesse pelo desporto, embora nas duas últimas décadas a situação tenha melhorado, o que resultou também do crescimento da universidade portuguesa e da diversificação dos seus públicos que trazem para a pesquisa os seus interesses pessoais. E ainda assim, há poucas pessoas no quadro dessas universidades que se dediquem ao desporto. Mesmo pessoas como eu ou o José Neves, como outros investigadores, embora tenhamos esse interesse, também trabalhamos com outros temas, o esporte e o futebol não são áreas de especialização. Na universidade portuguesa permanece um certo preconceito social, o que se traduz numa forte hierarquização dos temas e das disciplinas. Neste contexto, o futebol é um tema considerado fraco. Claro que este desinteresse contrasta com a presença que o futebol e o desporto têm no cotidiano português. Há um contraste grande entre essa marginalidade acadêmica e a importância do futebol na vida de todos os dias. Esse grande desequilíbrio mereceria por si só uma pesquisa.

E frente à ampla possibilidade de estudos sobre futebol…

Sim, as possibilidades são infinitas e está quase tudo por fazer. Por exemplo: não há estudos acadêmicos profundos sobre os três maiores clubes portugueses. Há apenas fragmentos. Mas há um trabalho jornalístico importante. Boa parte dos trabalhos sobre o desporto em Portugal foi feito ao longo de décadas nos jornais, por jornalistas. As páginas dos jornais contam a história do esporte em Portugal, de certa forma e à sua maneira.  Sem o trabalho jornalistas seria difícil recuperar essa história. Mas à parte disso falta muita coisa. O mais terrível, claro,  é que há pessoas vão desaparecendo e nós vamos ficando sem entrevistas, depoimentos sem ter uma abordagem próxima de história oral que tão importante seria para recurar um conjunto de processos. Com esses indivíduos morrem as suas histórias.

Além do projeto do livro, o senhor também fez parte de um projeto de investigação internacional DIASBOLA que se dedicava a estudar o papel do futebol entre emigrantes portugueses e lusodescendentes. Como foi realizar este trabalho?

Este é um trabalho liderada pela Nina Tiesler, um a investigador alemã que esteve no ICS. Ela tem um percurso pela sociologia, pelos estudo das migrações e pelos estudos religiosos, nomeadamente sobre o Islão, e mais tarde desenvolveu também  um interesse pelo futebol. Neste momento, pesquisa a questão do futebol feminino e da diáspora das jogadoras portuguesas. No Diasbola  juntou futebol e emigração, neste caso a emigração portuguesa a partir de um conjunto de estudos de caso, em Londres, Maputo, Paris, Hannover e Rio de Janeiro também. No Brasil quem trabalhou no projecto foi o sociólogo Marcos Alvito. Foi um projeto interessante que pretendia perceber o papel do futebol na diáspora portuguesa, de como estimulava os laços entre estas ditas comunidades portuguesas no exterior. Embora a emigração não seja um dos meus principais temas, eu tinha algum material sobre Londres e Maputo que poderia adaptar aos Diasbola. O estudo sobre Moçambique foi um prolongamento da pesquisa sobre futebol no contexto colonial.

A escolha de Moçambique no estudo de doutoramento está relacionada à figura do Eusébio?

Em parte, mas não foi assim tão importante. Teve alguma relevância, tal como a história de outros jogadores. O Moçambique colonial tornou-se num sítio importante para a formação de jogadores que fizeram a história do futebol português. Isso teve algum peso na escolha de Moçambique, mas não foi apenas por isso. A  alternativa seria Angola, mas na altura Moçambique oferecia mais condições, em termos da qualidade dos arquivos e das condições de investigação.

E como analisar a figura do Eusébio – um jogador negro e africano – dentro do contexto português e da realidade portuguesa atual?

Eusébio morreu há pouco tempo. Escreveu-se bastante sobre ele, uma figura importante no Mundial de 1966, mas também em 1962, quando o Benfica ganhou a Taça dos Campeões. Em 1961 o Benfica não contou ainda com ele. Uma das discussões que envolve a figura a Eusébio tem a ver com o modo como ele foi ou não um instrumento político usado pelo regime do Estado Novo. É uma discussão complexa. É possível apontar alguns caminhos de investigação, mas faltarão novas pesquisas. Eusébio vem de um contexto bastante pobre, dos subúrbios de Lourenço Marques, como era denominada Maputo, a capital do Moçambique, na época colonial. Já num contexto de maior abertura do regime colonial português, mas também de semi-profissionalização do futebol, Eusébio consegue passar do futebol do subúrbio para os chamados “clubes da baixa” da cidade, clubes originalmente fundados por colonos. A história do futebol em Moçambique foi marcada por uma discriminação forte. Existiam dois campeonatos: o do subúrbio e o do centro da cidade. Apenas um número muito pequeno de jogadores transitava de um lado para o outro, quase todos mestiços, com o estatuto de assimilados, pessoas com uma pertença de classe minimamente estável. Não eram os mais pobres. Foi nesse contexto de segregação que aos poucos, a partir dos do final dos anos quarenta, começam a partir alguns jogadores africanos para a metrópole.  Mário Wilson, um mestiço seguir para Lisboa em 1949, com Juca, um branco europeu. Depois, já nos anos cinquenta, transferiram-se Matateu, Vicente, Coluna e Hilário, entre outros. Estes jogadores tiveram êxito e os clubes da metrópole começam a interessar-se cada vez mais pelo mercado africano. Eusébio aparece depois, no final de 1960. Chegou em Portugal e acompanhou este grande momento do Benfica e do futebol português, que prossegue com o desempenho da seleção nacional em 1966. Num contexto em que já havia guerra colonial em três frentes (em Angola, na Guiné e em Moçambique) e a existência de uma seleção multirracial foi apontanda pelo regime como um exemplo da excepcionaldiade do colonialismo português. Os jornais acabaram também por promover esta imagem de uma seleção com jogadores de origens diferentes, o que propiciaria a ideia de que o colonialismo português era diferente de outros colonialismos, por permitir a mistura racial, por não discriminar. Claro, basta perceber o que foi a história do futebol em Moçambique, para ficar evidente que que isso não é verdade, pois durante muito tempo foi um futebol praticamente segregado. Mas Eusébio nunca produziu um discurso político sobre estes acontecimentos. Ele sempre disse que o que fazia era jogar futebol e o que se passava à volta não era do seu interesse. É verdade que relevância social qual alcançou tornou-o um objeto de pesquisa mais complexo.  Mesmo no quadro de um regime político que beneficiou do seu exemplo enquanto futebolista de exceção, o fato de ser negro produziu um impacto, ele foi um negro com uma posição relevante na cultura popular portuguesa, o que era quase inédito. Essa subida de um negro futebolista a um patamar elevado da cultura portuguesa indicava também a importância crescente da cultura popular e dos meios de comunicação social na criação de um espaço público, mesmo num regime político ditatorial. A gestão atual da memória de Eusébio é também um tema interessante. De um lado, ele é cooptado pelos portugueses, nomeadamente pelo Estado português, como seu patrimônio; mas por outro lado, Eusébio é moçambicano. Digamos que existe um problema com o modo como a sua história pode ser reclamada Por altura de sua morte, houve um conjunto de figuras de Estado que procurou defender a ideia de que Eusébio fazia parte da história portuguesa e da sua identidade. Ora isto é um assunto tenso, pois os moçambicanos também têm o direito de dizer que Eusébio é um símbolo de Moçambique. Algo de semelhante também se passou com Mário Coluna, que morreu alguns meses depois de Eusébio. Coluna foi o outro grande jogador moçambicano a vir para Portugal, também para o Benfica. Aliás é o jogador que mais minutos jogou com a camisola do Benfica. Depois da independência Coluna, um indivíduo mais politizado, voltou a Moçambique e chegou a treinador da seleção nacional. Ao contrário do caso de Eusébio, a morte do Coluna foi apropriada pelo Estado moçambicano. É interessante essa diferença entre os dois, ambos jogadores do Benfica e da seleção nacional portuguesa, ambos moçambicanos, ambos diferentemente nacionalizados a patrimonizaliados. Mais um exemplo de como o futebol rapidamente se pode transformar num assunto de estados e de construção da identidade nacional.

Confira a segunda parte da entrevista no dia 28 de maio de 2015.