03.10

Paulo Calçade (parte 2)

Equipe Ludopédio

 A entrevista deste mês é com o jornalista Paulo Calçade, que também ministra aulas de jornalismo esportivo na Universidade de São Paulo-USP.  Este é um dos temas abordados ao longo da conversa realizada nos estúdios da ESPN Brasil, no bairro de Perdizes, em São Paulo.

 

Paulo Calçade iniciou sua carreira na década de 1980 como repórter de A Gazeta Esportiva. Foto: Equipe Ludopédio.

 

Segunda parte

 

Ainda sobre a saturação do calendário futebolístico, podemos destacar um efeito colateral: a perda de interesse na Copa São Paulo de Futebol Júnior.

Perde. E era uma coisa muito legal. A Copa São Paulo era demais. Eu, ainda garoto, fui assistir jogos da Copa São Paulo, vi jogadores que até já pararam de jogar: Jardel, Casagrande, Valdir Bigode etc. Hoje, na Copa São Paulo, a primeira fase tem 600 clubes, a maioria de empresários. Quando dá aquela filtrada na Copa, começa o Paulistão. É uma pena. Estamos distante do ideal e do razoável. Tem muito a melhorar. Mas cada um faz sua parte. Por isso que ter conhecido um pouco mais treinamento, de como funciona, o que é a recuperação, a importância da recuperação para o atleta. Mas isso não entra na cabeça das pessoas. Para as pessoas, o atleta é vagabundo, preguiçoso, “o cara joga na várzea sábado e domingo e ele aguenta, e o cara que ganha para jogar é um vagabundo”. O que mais me chateia é gente com formação falando isso. Por exemplo: como é que vou discutir o programa nuclear brasileiro? Posso discutir se sou a favor ou contra a usina nuclear, mas não o programa nuclear ali em seus detalhes. É assim: sou formado, tenho um curso superior, saio discutindo tudo. Mas não tenho formação para falar. Então, fala-se muita bobagem: “jogador é vagabundo”, “porque antigamente não se fazia isso”. Nós estamos ainda muito presos ao passado. É como alguns treinadores: o cara jogou nos anos 60, na década de 1980 ele se tornou treinador, e hoje ele continua aí. Sabe de onde vem o conhecimento dele? Da década de 1960, dos profissionais com os quais ele aprendeu. Então, o que está acontecendo hoje, só daqui umas duas gerações. Demora. “Ah, o fulano fala a linguagem do futebol”. Ok, José Mourinho deu só uns dois chutes na bola e tem resultado, é bom, marrento etc. Outros que atuam na área e que foram muito bons jogadores, não conseguem esse nível de rendimento. No futebol tem lugar para todo mundo. Mas para aquele que vai atrás de conhecimento a porta está escancarada. Pequenas informações e detalhes hoje mudam o que acontece dentro de campo. Só ficar lá atrás, nas tradições, não é para mim. Por isso, dói ver que a universidade está distante do futebol, do jornalismo etc.


Como compreender a posição atual do jornalismo esportivo dentro do campo maior do Jornalismo, tendo em vista sua “condição marginal” desde seu início e, ao mesmo tempo, seu potencial de lucro e retorno financeiro para as mídias?

Mudou bastante, ainda bem. O que ajudou muito foram as pesquisas. Os jornais começaram a fazer pesquisas e perceberam que no futebol existe a paixão. Hoje já não está naquela condição periférica, merece ter o status dentro de uma redação como qualquer outro jornalista. Ainda tem os locais mais nobres na redação. Política, por exemplo, Economia. Fico olhando as manchetes dos jornais de política ou economia: “Obama vai…”. Fico pensando: “o que interessa para o brasileiro que o Obama tomou tal decisão no Estados Unidos que não tem nada a ver com a gente?”. Tem assuntos que não tem o menor interesse nos jornais. E tem outros de maior interesse e que vão para o cantinho da página porque não interessam. Basta olhar a capa. Os jornais trabalham mal o esporte. Não estou só defendendo a minha área. Estou defendendo o interesse do leitor, que tem um interesse grande pelo esporte, mais pelo futebol. O Brasil é um país de futebol. Infelizmente, mas é um país de futebol. Na redação, melhorou muito. Afirmar que é igual, do mesmo nível, seria um exagero. Melhorou. Olha o que vai acontecer com o Brasil até 2016. Copa do Mundo, 2014; Copa América, 2015; Jogos Olímpicos, 2016; Copa das Confederações, 2013. Jogos Militares, 2011. Cabe ao jornalista que trabalha com esportes dignificar um pouco a sua área, melhorar o nível das informações, o conhecimento, e oferecer algo melhor. Que é um produto importante para os jornais, televisão e rádio, isso é. É só pegar o que é a transmissão de futebol dentro da rádio, o que representa do orçamento de uma rádio. E também na televisão. Compara com o noticiário político. Percebam como as redes de televisão lidam com o noticiário político e o esportivo. O esporte é um mundo a parte, onde não tem picareta, não tem sacanagem, falcatrua. Tudo isso só tem na política. E tudo isso está ali no esporte. Os personagens, muitas vezes, são os mesmos. Mas na cobertura de política, aparecem todo dia. Quando entra no esporte, é só sorriso. E ali tem mais política do que no resto. Porque tem dinheiro, tem poder, licitação, tem Copa do Mundo. Isso é fantástico. Fico assistindo e dando risada. Quando você alerta, você é do contra. Quando alerta que vai atrasar, demorar para sair estádio, vai ficar pronto um mês antes da Copa, porque quando mais atrasado entra mais grana, não tem licitação, você é do contra. Faz três anos que a FIFA definiu o Brasil como sede da Copa do Mundo. O que tem de Copa do Mundo até agora? Nada. Isso aí daria um trabalho legal. Olhar para a televisão e ver como se trata o futebol (e o grandes eventos esportivos) como trata a política. Percebe-se a existência dos mesmos ingredientes, mas o tratamento é diferente. Porque é negócio. É uma proposta boa de pesquisa.

Paulo Calçade cobriu as Copas do Mundo de 1998, 2006, 2010 e 2014. Foto: Equipe Ludopédio.


A mídia, então, é um ator fundamental no processo de “modernização” que vem marcando o futebol brasileiro nas últimas décadas, bem como para a construção do imaginário futebolístico no Brasil desde o início do século XX? Por quê?

Opa, com certeza, é fundamental. É só pegar as falsas polêmicas, essas coisas “armadas”, isto é, o jogador tomou uma cerveja e o time dele perdeu, a culpa é da cerveja. A imprensa faz essa ligação. Não tenha dúvida que é um ator fundamental: de como difunde essas informações; de como escolhe qual é a notícia; coisas importantes que são abandonadas, tal como a questão do regulamento, de perceber que o jogador não é máquina de rendimento, de que isso interfere na qualidade do produto e do jogo, e que o consumidor/torcedor está sendo lesado. O jogador jogou 10 partidas em trinta e poucos dias. Quem está pagando para ir ao estádio está sendo lesado, pois está pagando o tanque cheio no posto de gasolina, mas recebendo na verdade com o tanque pela metade. Assim, propaga pensamentos desconectados da realidade do jogo. “Sou do tempo em que se jogava duas vezes por semana”. Esse negócio de que sou do tempo, morreu. A âncora foi jogada lá atrás e ficou. A maior dificuldade do jornalista esportivo hoje – bem como de todas as mídias e áreas -, é tentar entender que as mudanças da sociedade são dinâmicas, está tudo muito veloz, interfere no esporte, interfere no jogo, no jornalismo e dentro de campo. E nós usamos ferramentas que não cabem mais. A ferramenta do “Sou do tempo…” ou do “No meu tempo era diferente…”. Hoje temos que saber como funciona o consumo de energia na questão do rendimento. De onde vem as reservas de energia para o atleta? Como funciona isso? Se não estivermos preparados – a velocidade da mudança é maior do que a nossa percepção de velocidade da mudança -, será um grande problema. Eu tenho uma dificuldade também. Mas temos que discutir isso. Por que eu acho que é inevitável a mudança na maneira de olhar a arbitragem – pelo olhar eletrônico? Se você olhar para a sociedade, para o desenvolvimento dela e para o desenvolvimento do futebol, que acompanhou todas estas transformações, porque agora vamos estabelecer uma barreira e afirmar “acabou aqui”. Tem que continuar. Pode ser bom ou não, mas não podemos barrar o ritmo das coisas e achar que o futebol é uma coisa desconectada da realidade. O mundo segue e o futebol fica parado, sempre do mesmo jeito. Uma coisa que precisaremos administrar em breve.


Isto seria uma peculiaridade brasileira? O que pode ser destacado a partir de uma comparação entre a imprensa esportiva brasileira e a de outros países? O que diferencia o nosso debate? Ou existem muito mais coisas em comum?

No mundo todo. aqui temos um estilo diferente, com mais liberdade. A maneira de lidar muda mesmo de cidade para cidade: Rio de Janeiro, cidade de praia; São Paulo; tem a imprensa gaúcha; imprensa de cidade do Nordeste. Tem cidade pequena que tem um time só, outras têm dois times. É difícil estabelecer um olhar panorâmico geral sobre a imprensa é difícil.


Quais serão os desafios, para os próximos anos, das políticas editoriais das diferentes mídias para lidar com a principal paixão – o futebol – de um país onde o setor de comunicações caracteriza-se por monopólios políticos e familiares?

O desafio para nós jornalistas é tentar entender a velocidade das coisas para não ficar parado no tempo.

Paulo Calçade trabalhou nos jornais Diário Popular, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo e atualmente está na ESPN. Foto: Equipe Ludopédio.


A questão seria então pensar esta dinâmica, principalmente tecnológica, que vai se alterando dentro de um sistema que ainda se pauta muito por monopólios familiares tradicionais.

É uma questão que passa pela mídia, pelos clubes, pelas entidades esportivas etc. O esporte muda, aquele jogado dentro do campo, desde aquele exame que o atleta faz para saber se corre risco de lesão. Pode-se pegar uma gotinha de sangue, saber se o jogador vai se machucar e tirá-lo antes do jogo. Isso também nas tomografias, ressonâncias, cirurgias de joelho etc. Em 1960, um jogador que rompia o ligamento cruzado tinha a carreira encerrada. Hoje rompe-se muito mais. E por que rompe mais hoje? Por que a velocidade e o ritmo está num nível superior ao treinamento, ao conhecimento e ao o que o corpo humano consegue suportar. Talvez daqui 10 anos seja possível melhorar o rendimento e diminuir as contusões de ligamento cruzado. Uma contusão que ocorre a toda hora pode parar de acontecer. Hoje os médicos consertam este joelho e os jogadores voltam. O que os médicos especialistas falam hoje? “Não estamos conseguindo acompanhar. O deslocamento e a velocidade estão grandes, muda-se muito de direção, acelera, freia, e o corpo não está suportando isso”. A maioria das contusões não é traumatismo. Antes, nos anos 60 e 70, era muito mais frequente ter rompimento de músculo. Hoje é raro. Contusões de nível 3 são mais raras. Tem-se mais de nível 1 ou 2. Contraturas, estiramentos. O desafio é acompanhar este ritmo do esporte. Da mesma maneira que se aumenta a capacidade treinamento, o jogador suporta mais, mas vai se quebrar mais.


O que pode ser visto na última Copa de 2010, com o curto período de treinamento, menos de um mês. Para a Copa do Mundo de 1970, foram quatro meses de treinamento.

Foi um treinamento espetacular, inclusive com tempo de adaptação à altitude. A preparação brasileira para a Copa de 1970 foi supercientífica para os padrões da época. Teve um tempo extenso para adaptar à altitude, era um time que “engolia” os adversários no segundo tempo, que marcava recuado no seu campo etc. O Brasil foi muito moderno em 1970, põe a Holanda de 1974 no chinelo. A Holanda de 1974 jogou seis jogos. Perdeu um, empatou um e ganhou quatro. Uma revolução de quatro jogos. Em uma Copa só?


Vendo o jogo Brasil x Holanda de 1974, reprisado pela ESPN Brasil no período da última Copa, tive a ideia de como foi feito e violento…

Veja o Brasil contra Uruguai de 1970. Parecia que não tinha árbitro. Se tivesse árbitro, o Brasil iria seriamente desfalcado para a final. Então, existe aquela imagem do passado, da Holanda sensacional, que trouxe coisas novas. O Johan Cruyff explicou: “O Rinus Michels acabou com os jogadores”, treinaram muito, mas começaram a treinar tarde, tiveram maus resultados antes da Copa etc. Mas na Copa do Mundo funcionou, embora tenha perdido na final. Precisa tomar cuidado com essas marcas do passado. Se aceitar que se jogue hoje naquela velocidade do passado, podemos até validar a ideia de que o futebol no passado era melhor. Só que com o que correm hoje, não dá para querer que joguem como jogavam antes, pois o espaço e o tempo eram completamente diferentes. Tem uma imagem do Gérson andando com a bola no pé na Copa de 1970 e lançando para o Jairzinho matar no peito. E o adversário está do lado olhando. Hoje, se alguém fizer isso, torcida invade o treino. Então, querem o passado, mas dentro do padrão atual. As pessoas dizem que no passado tudo era melhor, mas andam com carro novo, têm notebook, Ipad etc. Adoram as novidades do tempo de hoje, mas o futebol tem que ser aquele do passado.

Paulo Calçade trabalha nos programas Bate-Bola, Linha de Passe, Bola da Vez, Futebol no Mundo e SportsCenter Brasil da ESPN. Foto: Equipe Ludopédio.


Uma pergunta sobre este tema. É interessante sempre pensar nisso a partir do olhar de uma criança de 10 anos, para quem a Copa do Mundo de 2010 deve ter sido maravilhosa.

Uma criança de 10 anos corre o risco de achar que nasceu na época errada. Ela vai ouvir o avô falando: “eu vi, você não vai ver; eu vivi, você não vai viver”. Tem que tomar cuidado, falar para ela que isso é bom, é diferente, não vamos comparar. Se não, sabe o que essa criança vai falar: “que azar, isso aqui é um lixo”. Tem uma coisa – e isso dá uma pesquisa de doutorado (risos): essa criança nasceu no futebol virtual. O jogo hoje é virtual. O jogo do estádio é para poucos. O jogo de hoje é da TV a Cabo, do Pay-Per-View, o jogo da quarta-feira a noite, o jogo dos 50 replays, mostra os erros, mostra os acertos, e compra o Playstation, e quando vai para ver o jogo no campo, fica assustada. Para ter ideia, a minha sensação de ir ao estádio pela primeira vez foi um baque. Cheguei à conclusão: “aqui eles erram mais que na televisão”. Quem foi para campo na década de 1970 já tomava esse susto. Imagina hoje. Sabe onde isso interfere? No jogo dentro de campo. Você acha que estes meninos que estão crescendo no futebol não estão crescendo no virtual, jogando no Playstation? O jogo agora é virtual e vertical. O que a Espanha e o Barcelona fazem incomoda, pois não é o padrão do jogo. Não é o padrão do Playstation, não é o padrão do jogo da televisão: pega a bola e sai correndo. O Santos do primeiro semestre de 2010, treinado por Dorival Júnior, era um time vertical, magnífico, destruidor, mas que não conseguia tocar a bola para segurar um resultado. Tocar a bola era segurar, observar o espaço para ganhar o jogo, umas das características do futebol brasileiro. E que irritava os europeus: toca aqui, toca ali, e no nosso ritmo, não no deles, e viu a brecha, lançou e foi gol. Hoje, quem faz isso? A Espanha e o Barcelona. Aqui, o Santos fazia muito e levava muito. Quando estava ganhando de três a um, não conseguia mudar o ritmo. Por isso, ficava aberto, exposto e tomava gol. O futebol está assim. Esse é o futebol virtual. E o menino de 10 anos está crescendo vendo este futebol. Um futebol difícil de explicar na televisão, difícil de lidar nos jornais. O jogo real é diferente, não tem esses 15 pênaltis que vemos na televisão, com oitenta câmeras. É uma loucura. E voltamos para o começo do papo? Como lidar com este futebol? Talvez, com a tecnologia, mude um pouco como ele é jogado. Pode ser bom, pode ser uma tragédia.

 

Confira a terceira parte da entrevista no dia 01 de dezembro.