03.9

Paulo Calçade

Equipe Ludopédio

 A entrevista deste mês é com o jornalista Paulo Calçade, que também ministra aulas de jornalismo esportivo na Universidade de São Paulo-USP.  Este é um dos temas abordados ao longo da conversa realizada nos estúdios da ESPN Brasil, no bairro de Perdizes, em São Paulo.

 

O jornalista esportivo Paulo Calçade da ESPN. Foto: Equipe Ludopédio.

Primeira parte


Qual a sua formação e as razões para a escolha do jornalismo como profissão?
 

Bom, a minha formação foi primeiro em jornalismo na Cásper Líbero, isso em 1983, quando me formei. Passei depois 10 anos em jornais impressos: Gazeta Esportiva, Diário Popular, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo. Em seguida, vim pra ESPN, na época ainda era TVA Esportes. Neste momento, mudou um pouco a formação. Passei a ter um pouquinho mais de tempo e percebi que podia melhorar um pouco a formação, porque a só jornalística não era uma boa, faltava alguma coisa. Gosto de esportes, gosto de futebol, mas só gostar é muito pouco hoje pra você trabalhar com jornalismo esportivo. Aí eu fiz um curso de arbitragem, em 1994, na Federação Paulista de Futebol, que abriu muito a minha cabeça. Vi que tão perto de mim tinha um mundo tão diferente, o da arbitragem, que pouco se conhecia, que era difícil, complexo. Só ler o livrinho não adiantava nada [risos]. Aí eu fiz o curso, falei: “puxa, acho que dá para ampliar esse negócio aqui”. Eu fui fazer outros. Fiz de treinador no Sindicato dos Treinadores, fiz cursos de cinco dias. Fiz extensão na USP, tinha uma extensão bem curtinha lá na Escola de Educação Física e Esportes. Aí parti para uma pós-graduação. Aí fiz um curso de administração para profissionais do esporte. Um curso da Fundação Getúlio Vargas. Fiz uma pós lá na Escola de Educação Física e Esportes em treinamento.  O que foi bom para mim porque como a minha formação é de esportes e não era em Educação Física, você cair do jornalismo numa pós-graduação em treinamento convenhamos que está faltando um monte coisa, você está sem um monte de informações que deveria ter [risos]. Então, ter feito essas duas (e foram diferentes) foi muito legal. Eu fiz a minha monografia em velocidade. Mas eu sou chato, poderia ter feito em jornalismo, não é verdade? [risos] A influência de alguma coisa no jogador e, puxa, estava ótimo. Não, eu fiz em velocidade, foi uma delícia, foi ótimo. E aí estava estabelecido: “pô, esse aqui é o meu mundo agora, quero ficar aqui”. É onde você sabe pelo menos para onde correr quando precisa de uma informação. Conhecer tudo você não vai conhecer nunca, mas pelo menos você sabe para que lado correr, conhece as pessoas certas, então, foi a minha formação. A gente faz um monte de cursos, sempre pinta alguma coisa, tal, uma coisinha curta. Isso é bem bacana. E adorei, quero ficar com essa turma aí. Acho que é isso, acho que não esqueci nada não.


Isso foi em que ano?

Eu fiz minha monografia [pausa], ah, deve ter sido 2003, 2002-2003. A minha memória falha.


Nesse momento você estava envolvido com o jornalismo?

Eu estava o tempo todo no jornalismo, isso desde 1983, sempre no jornalismo. A única coisa que mudou foi a televisão. Saí do impresso para a televisão, depois fui para o rádio. Eu acho bom, essas ferramentas são boas para você usar o conhecimento também. É difícil porque é uma área de muita paixão, de muito achismo. Então, tem o torcedor que vive o futebol. Você não põe o time dele entre os favoritos – ainda que o time esteja para ser rebaixado -, mas ele acha que você tem que por. Têm aquelas coisas. Você se acostuma a lidar com esse tipo de gente, que é o público mais difícil. Porque todo mundo entende de futebol e de esportes, ninguém está preocupado se aumentaram a taxa Selic, se vai ter discussão na rua, ninguém vai sair na mão porque aumentou a taxa, mas no futebol os caras saem. Então, é difícil às vezes você chegar com uma posição, com uma ideia um pouco diferente que esse mundo está acostumado, porque na verdade você está fora, está fora da curva, do padrão. O padrão é você jogar uma polêmica besta no ar, diz que é contra alguma coisa e sabe que vai fazer espuma. Isso é o padrão. Eu não estou muito preocupado com o padrão. Então, eu preferi um caminho que às vezes é mais difícil, mas me faz muito bem. Dá segurança para falar as coisas, não significa que eu saiba tudo, mas você sabe como as coisas funcionam. Então, a minha formação é essa. Estamos aí sempre de olho. Pena que não tem muita coisa na área, ainda é frágil. Eu estou vendo aquela História da USP, d o Hilário Franco Junior e do Flávio de Campos. Entrevistei os dois para Os Segredos da Copa, foi espetacular. Fiz um programa antes da Copa, foi muito bom. Você vê como tem informação, como tem conhecimento no esporte e fica assim represada. Esse é o maior drama, a coisa que mais me faz mal é isso. É saber que tem muita informação e fica em setores, porque o mundo do futebol, especificamente o nosso tema, ele não aceita. Então, quem chega com algo um poucho diferente é um ET, é uma pena. Mas vamos em frente.


Como falamos da sua trajetória, você falou do curso de arbitragem. Naquela época, próximo da Copa de 1998, você comentava muito sobre arbitragem e hoje deu uma diminuída…

Você observou bem. Pelo seguinte. Primeiro, aquilo está muito fresco na sua cabeça. Aquele foi o primeiro curso, então você usa muito aquilo que você tem. Segundo, eu percebi que muitas pessoas começaram por me identificar como comentarista de arbitragem. E também não é isso. Não sou comentarista de arbitragem. Sou um cara que trabalha com futebol e que quis conhecer esse mundo da arbitragem para tentar entrar menos nas polêmicas e explicar um pouco mais, entender mais e mesmo assim convivendo num terreno muito difícil. Mas não é isso que eu quero, senão também você fica com carimbo, entendeu? Pior coisa que tem: comentarista de arbitragem! Não! E com o tempo, claro, você vai desconectando um pouco, mas esse foi um fator também. Hoje eu falo bastante, mas falo um pouquinho nas horas em que você passa a pinçar mais uns momentos. E você falou desde 1997. Estamos em 2010, 13 anos depois e não mudou nada [risos]. Você fala assim: então vamos maneirar um pouco. Mas só piorou, não é verdade? [risos] As pessoas acham que a gente tem um problema grave pra resolver na arbitragem que é esse humano decidindo coisas que só a máquina consegue resolver. Claro que também quando você pega os campeonatos inglês, italiano e espanhol, os árbitros erram menos. Por exemplo, o impedimento é grave. Eles erram muito menos que aqui. E aí qual é a resposta? Então, se alguém está acertando mais e trabalhando com as mesmas ferramentas nós estamos errados. A preparação deles talvez seja muito melhor. E isso é um ponto.

Paulo Calçade ministra aulas de jornalismo esportivo na Universidade de São Paulo-USP. Foto: Equipe Ludopédio.

O Andrew Jennings, que deu uma entrevista para o programa Bola da Vez da ESPN Brasil, afirma que a FIFA não quer a tecnologia porque perderá a parte da manipulação de resultados. Você concorda com ele?

Eu não consigo enxergar toda essa conspiração nesse mundo. Dizer que não tem picaretagem, também não tem nenhum ingênuo aqui. Claro que tem. Puxa vida, basta olhar as últimas notícias envolvendo a FIFA. Você vai ver que têm todos os galhos. Na política, no esporte, na economia, em todo lugar. Então, não vamos também achar que no futebol não tem, mas eu não acredito que isso vai acabar com os problemas. Um exemplo: você pega o Campeonato Brasileiro de 2005, o caso do árbitro Edilson Pereira de Carvalho. Eu entendo ainda que todos os jogos deveriam ter sido jogados novamente, porque a partir do momento em que aquele cara saiu de casa para apitar um jogo, todos os jogos, quem me garante que ele não recebeu dinheiro para fazer um resultado e não apostou também no outro lado? Você pode ver, vê se acha algum empate nos jogos que ele trabalhou? Não teve. Sempre teve um vencedor. Então, aí uma teoria conspiratória, bem plausível, ele pode ter faturado sempre, em todos os jogos. Se eu aposto em um lado e recebo do outro, alguma coisa vai acontecer. Bom, agora, qual foi o grande erro, escandaloso daquele campeonato? No Pacaembu, Corinthians e Internacional, pênalti do Fábio Costa [goleiro do Corinthians] no Tinga, do árbitro mineiro Márcio Rezende de Freitas, foi o grande erro. Então, o seguinte: o picareta, assumidamente picareta, não teve um erro maior do que o árbitro honesto.


Tanto que nos 11 jogos do Edilson Pereira não houve muita polêmica…

Nada. Você fala aqui a prova do roubo, aqui o ladrão, não teve. Alguém botou o Márcio na polícia? O honesto foi o que teve o maior erro, quer dizer, então, a coisa é tão subjetiva que a FIFA pode colocar o que ela quiser. Não conseguem nem licitação fazer direito. Essa tese do Andrew Jennings, a origem é do cara cético porque conhece tudo muito a fundo, mas nesse caso acho que não é isso. Tem uma história engraçada na Copa de 1998. Eu gosto desse tema. 1998, aí está a última entrevista do João Havelange. Vou entrevistar, perguntar de arbitragem profissional. O cara que me antecedeu na pergunta, um brasileiro também, José Isaias, perguntou de arbitragem profissional [risos]. Aí eu falei assim: pelo amor de Deus! É muito azar! Ninguém pergunta disso. Aí já veio logo para mim, pensei: “vou continuar no tema, por ser um tema muito importante, mas o que eu vou falar agora?”. Porque a resposta dele foi que não se profissionalizava porque não havia dinheiro no mundo disponível, tinha que ser igual no mundo todo e em locais mais pobres não conseguiriam fazer isso. Mas por que então, com tanto dinheiro que rola no futebol, não se cria um fundo para isso? Não é que o Havelange gostou da ideia, disse que ia sair dali e ia levar a ideia para o Blatter que era o novo presidente, que a ideia era boa. Aí eu falei: “se isso pega, criei um monstro”. Senti assim, inventei a bomba atômica, porque na verdade eu criei um fundo para por mais dinheiro na mão de quem você não tem a menor confiança para administrar essa grana. Mas o fundo jamais foi criado. Mas é só para ilustrar, era curioso. Tem muito da essência do futebol. Mas se você pega o futebol lá na Inglaterra… O Hilário Franco Júnior, no livro A Dança dos Deuses, tem uma linha bastante bacana sobre isso: se o futebol é fruto da Revolução Industrial e é, você pega aqui no Brasil o mesmo cenário de início de século das greves operárias, da industrialização, os centros urbanos, o Rio era a capital, São Paulo crescia, então, o futebol tinha ali diria o terreno fértil para crescer e você enxerga a evolução do futebol junto com a sociedade. Se a sociedade hoje é essa que a gente vive, super informatizada, a sociedade do conhecimento, vai chegar num ponto que isso vai ser inevitável. Quer dizer, o futebol ainda tem uma âncora prendendo ele lá num outro mundo. Eu era contra essas mudanças, mas acho que não vai ter jeito, eu não tenho uma ideia precisa do que é o melhor, não tenho condições de afirmar: olha o melhor é a arbitragem virtual. Não tenho condição, porque tenho certeza que em alguns lances, por exemplo, a polêmica está garantida, têm lances que dez câmeras não dizem absolutamente nada e aí é pior porque uma decisão vai ser tomada em cima daquilo que está absolutamente dividido e com o campo virtual observando. Então, a polêmica vai continuar, vai diminuir, mas vai ter. Para quem quer polêmica, pode ficar tranquilo. Se acha que o futebol é polêmica, vai estar garantido. Então, é emocionante.


A dinâmica interpretativa não vai mudar…

Não. Tudo bem, vai diminuir. Se a bola entrou ou não entrou está mais fácil. Agora, como é que a gente vai usar isso? A gente vai parar o jogo o tempo todo? Você vai dar para cada capitão três lances para ele decidir? Você já pensou o capitão ter que decidir? Ele tem seis lances no jogo, escolhe três que é contra ele, os três que ele não escolheu mudariam o resultado do jogo. O cara está morto, muda de país. A Gaviões vai lá arrebentar tudo, a Mancha Verde também. Então, não existe saída perfeita, ninguém descobriu, mas vamos em frente, vamos ver para onde vai o futebol. Mas tudo isso muda o esporte. É como acabar com o impedimento. Isso não existe. Se acabar com o impedimento, acaba com o jogo. Tem um livro, chamado “La Teoria del Fútbol”, de Ricardo Oliva Royos, um advogado espanhol. É sensacional. Ele escreveu um livro só sobre o impedimento. O que é perfeito, pois o futebol é a regra do impedimento. Se você tirar a regra, todo mundo vai ficar dentro das áreas, o meio de campo ficará vazio, com cinco atacantes na área e seis zagueiros e mais o goleiro. Vai acabar com o futebol. Ninguém treina pensando na regra do impedimento, nas movimentações. A regra do impedimento dá para a defesa o domínio do espaço. Até a linha do meio de campo, você pode se posicionar onde quiser e o ataque tem que acompanhar. O futebol tem coisas maravilhosas. Mas as pessoas querem acabar até com isso. O pessoal gosta do jogo, mas não conhece. O futebol é simples, mas é difícil. Simples para o Messi, difícil para o Souza (atacante do Corinthians)…

Paulo Calçade é formado em jornalismo pela Fundação Cásper Líbero e pós-graduado em futebol pela Escola de Educação Física e Esporte da USP. Foto: Equipe Ludopédio.

Como surgiu a ideia de criar uma disciplina de jornalismo esportivo dentro da EEFE (Escola de Educação Física e Esporte-USP)?

Eu não criei. Ela já existia na faculdade, aliás, tem dois cursos: Esporte e Educação Física. Acho fantástico que uma faculdade de Esporte tenha jornalismo esportivo. O objetivo não formar jornalistas, não é ensinar a ser jornalista – eu não teria competência para fazer isso -, mas mostrar esse mundo do jornalismo esportivo para eles. Sinto em algumas turmas a existência de certo romantismo, coisas como: “o dinheiro é o problema do esporte”. Não, as pessoas vão trabalhar de graça? O dinheiro faz parte de tudo. Como você usa o dinheiro e se entra corrupção no meio é outra história. A ideia do curso é mostrar este mundo, onde está o esporte, onde está o jornalismo esportivo, o que é entretenimento, os interesses, como funciona a maquininha do Ibope etc. Ao longo dos anos fomos desenvolvendo, optando por levar a turma à rua, ao jornal, à televisão etc. Eu estou muito animado com minha turma atual. É possível perceber quando eles estão curtindo. O que é bom, pois ninguém é obrigado a curtir. Eu acho que vai dar alguma coisa bacana para eles depois. Ter uma visão diferente, conhecer a televisão por dentro ou o jornal. Levei ao curso pessoas bacanas para falar de tecnologia, inclusive um ex-aluno da EEFE, formado em jornalismo e que hoje trabalho no Lance! Vamos conversar, vamos debater. Então, a disciplina foi criada há alguns anos, quando formaram a grade de cursos. Enquanto existir esta disciplina, estaremos colaborando.


Quais são as principais referências e temas trabalhados no curso?

Não tenho a teoria como pilar. Acho que ali, em 15 aulas, 30h aula, não dá para abraçar o mundo. Meu objetivo é inserir o aluno neste mundo. Mostrar como ele funciona e o que compõe o jornalismo esportivo: onde estão os problemas, os defeitos, o que poderia melhorar, o que é bom ou ruim, para onde vai etc. Hoje, ao lidar com esporte e tecnologia, o mais difícil é apontar para onde vai, no que vai dar. Nas plataformas com as quais trabalhamos hoje – televisão a cabo, internet, celular, netbook, Ipad -, quem faz o jornalismo não sabe qual é a antena deste conteúdo. E quem está consumindo também precisa perceber isso. Então, é importante que estes futuros profissionais de esporte, que amanhã podem ser treinadores de clubes, preparadores físicos ou técnicos olímpicos, conheçam esse mundo do jornalismo esportivo. Meu objetivo é este e acho que estou conseguindo.


Existe, assim, um contato com uma coisa mais prática…

Eu tenho três módulos. No primeiro, mostro um pouco o que é o jornalismo, a estrutura de uma notícia, que tipo de informação tem que ter, quando é uma opinião e quando é informação (algo que pode ser bem nítido neste período eleitoral), o que é levar informação etc. Eu mostro um pouco disso nestas primeiras aulas. Falamos muito sobre futebol. Mas também mostro a questão da ciência, que está fora do jornalismo esportivo, e que é importante para estar mais bem informado, para conhecer mais sobre esporte. Em seguida, faço um módulo com convidados. Pessoas que estão atuando na área, para assim gerar debates dentro da sala. Levei o Cássio Brandão, da ESPN Brasil, que escreve sobre novas tecnologias, para falar sobre o que está acontecendo e para onde vai este mundo; o Júlio Gomes, que trabalhou como repórter na Europa e hoje cuida do site da ESPN, para falar sobre internet, reportagens, vida fora do país, sobre o jornalismo na Inglaterra e Espanha em comparação com o nosso aqui (inclusive foi meu aluno); a Renata Falzoni, para falar de aventuras e esportes radicais, sobre a mistura de esporte e sustentabilidade, de olhar o mundo de um modo diferente a partir das ciclovias e bicicletas. Foi bem bacana, divertindo-se e aprendendo bastante. O último módulo é composto pelos trabalhos dos alunos. Muitos vêm para a ESPN, outras para sites ou jornais, assessoria de imprensa, falar com ex-atletas.

Paulo Calçade iniciou sua carreira na década de 1980 como repórter de A Gazeta Esportiva. Foto: Equipe Ludopédio.

De uma posição diferenciada – jornalista e acadêmico -, como você analisa a conturbada relação entre os campos “acadêmico” e “jornalístico”? Existe hoje no Brasil um diálogo entre estes campos? Ou é um não-diálogo, decorrente da disputa entre duas áreas que compartilham elementos?

Não tem diálogo. As universidades têm uma barreira. O conhecimento fica represado lá dentro. Quem está fora não vai, não tenta romper esta barreira, e quem está dentro também não. É muito difícil ver uma sintonia de transferência de conhecimento. Percebo que no jornalismo esportivo, minha área, não sei nas outras, mas não dá para trabalhar com esporte só por que gosta. É muito pouco. Se vou trabalhar no Caderno 2 do Estadão, adoro arte, vou comentar sobre uma peça, mas não sei nada sobre atores, roteiros, cenografia, história da arte, com que base comento uma peça ou entrevisto alguém na área? No esporte é e a mesma coisa. Meu pensamento era este: garoto de 15 anos, o que vou fazer da vida? Imagina se vou trabalhar com exatas, meu deus! Acho que vou ser jornalista, adoro futebol, sei tudo, ficava vendo programas, horas e horas por semana, lia jornais etc. Depois de um tempo, percebe-se que só gostar não serve. Então, neste momento decidi ir atrás de outras coisas. Mas você pode buscar lá dentro do mundo acadêmico, tem muito conhecimento, mas não tem essa interação. É uma pena. Seria uma forma de abastecer o esporte com informações precisas. É possível ver o que está acontecendo agora no Campeonato Brasileiro. Acabou a fase de dois jogos por semana, 15 jogos em 50 dias. Assim, a qualidade vai para o espaço. Inúmeras contusões. Mas para onde se olha? Para a exceção: “mas aquele time ali conseguiu”. Não olha para todos os outros que são a regra. Vivemos da exceção. Tem muita gente que “derreteu”, por uma série de motivos. Algo que temos que explicar. Mas não se escuta falar nisso. Eu falo todo ano, todo programa, até fica chato, repito mil vezes. Sabe o que vai acontecer? O Paulistão, por exemplo. Os times voltam a treinar dia 5 de janeiro. Isso para aqueles que respeitarem as férias de 30 dias. Se não quiser respeitar as férias, outro problema. É outro absurdo. Mas quem respeita 30 dias de férias, termina no início de janeiro. Depois deste período, os times voltam. Em 33 dias, a partir da volta do treinamento em janeiro, os clubes terão jogado sete vezes e feito a pré-temporada. Isso é crime, coisa para a polícia. Dia 15 já começa o Paulistão. Os jogadores treinarão do dia 05 ao dia 14 de janeiro. Depois, a cada três dias, bola rolando. Mas aqui no Brasil a gente trabalha assim até aparecer um primeiro defunto. Quando aparecer o primeiro rabecão dentro estádio para levar o cara que pifou, pois jogou na estação mais quente do ano, com 10 dias de preparação e 7 jogos no lombo, aí vai mudar. A gente espera que não aconteça, mas não dá garantir que não vá acontecer neste cenário. Depois vem o Ministério Público, aparece todo mundo, vem a Federação Paulista de Futebol, surpresa com isso. Acho até que vou escrever uma coluna sobre isso.

Confira a segunda parte da entrevista no dia 18 de novembro