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Paulo Henrique Fontenelle

Equipe Ludopédio

Confira entrevista com Paulo Henrique Fontenelle, um dos diretores do curta “Mauro Shampoo: Jogador, Cabelereiro e Homem”, dedicado ao famoso centroavante do Íbis, o pior time do mundo.

Melhor Curta-Metragem: “Mauro Shampoo – Jogador, cabeleireiro e homem”, de Leonardo Cunha Lima e Paulo Henrique Fontenelle (RJ). Foto: Cinefoot | Arquivo pessoal.

 

Como ocorreu o seu contato com o mundo do futebol? É um contato pontual ou representa um aspecto significativo da sua vida?

Eu sempre fui um grande fã de futebol. Cresci vendo aquele timaço do Flamengo sendo campeão do mundo e vendo a seleção de 82 encantar o mundo. Eu acho que o futebol é o esporte que mais se aproxima da arte. Se o cinema é a sétima arte o futebol é a oitava.


Como surgiu a ideia de produzir o documentário Mauro Shampoo – jogador, cabelereiro e homem?

Eu e Leonardo Cunha Lima estavamos desesperados para fazer um filme de preferência de ficção. Mas como estacamos sem grana nenhuma na época, decidimos que a maneira mais barata de fazermos um filme com nossos próprios recursos seria investir num documentário. Começamos a pensar em algum tema curioso que se não fosse verdade, daria um ótimo filme de ficção. Foi aí que o Leonardo, que nasceu em Recife, se lembrou do time do Íbis que nos anos 80 ganhou o curioso título de “pior time do mundo”após passar três anos sem ganhar uma única partida. Eu já conhecia a historia do Íbis de tanto acompanhar os noticiários esportivos na adolescência. Partimos então para a pesquisa a fim de fazer um longa sobre o time. Como não tínhamos experiência suficiente para captar recursos na época, decidimos fazer um curta com nosso próprio dinheiro mesmo sobre um dos jogadores do time. Nas nossas pesquisas, o nome do Shampoo era o que mais aparecia. Entramos em contato com ele que ficou muito feliz com o convite. Juntamos nossas milhas de viagem, ficamos hospedados em casa de parentes com equipamento emprestado e iniciamos o filme com uma equipe formada apenas, por mim, pelo Leonardo e pela produtora Daniele Abreu e Lima, todos se revezando nas mais diversas funções.

Capa do  Documentário sobre Mauro Shampoo.


Qual foi o principal desafio na elaboração do roteiro e das filmagens?

Quando chegamos em Recife, tudo o que nós sabíamos sobre o Mauro Shampoo era o que havíamos pesquisado na internet e nos arquivos de vídeo. Não sabíamos muito bem o que iríamos encontrar. Mas no nosso primeiro encontro com ele já nos demos conta de que, além de seu famoso senso de humor, estávamos diante de um grande ser humano sempre preocupado com a família, com os amigos e que ama o futebol acima de tudo. Passamos um mês filmando e convivendo com ele e, no final, o grande desafio foi transformar as 48 horas de gravação em 20 minutos de filme.


O filme ganhou vários prêmios. Como avalia o sucesso do curta?

Apesar do filme ter sido rodado com um orçamento quase inexistente, nossa grande preocupação foi evitar que essas dificuldades técnicas, não interferissem na qualidade final do filme. Tivemos muito cuidado na fotografia, na montagem, no roteiro. Creio que isso foi muito importante para a visibilidade do filme. Porém a força do filme está mesmo no carisma e na personalidade do Mauro Shampoo, que através do seu humor e de sua humildade conquistou corações de muita gente. Mais do que isso, o filme nos mostra um pouco da realidade de nosso futebol pentacampeão mundial fora dos grandes centros, onde jogadores como Mauro Shampoo, mal recebem salários, vivem dificuldades e, mesmo sabendo que dificilmente irão conquistar um título de destaque, eles continuam firme nos seu sonho pelo simples fato de amarem o futebol acima de tudo.


A maravilhosa música do Oswaldo Montenegro é uma trilha original. Como se estabeleceu esse contato com o cantor?

Eu e Oswaldo Montenegro somos amigos de longa data. Na época, eu já tinha dirigido ele em programas de TV para o Canal Brasil e, naquele momento, estávamos trabalhando juntos na montagem de uma peça de teatro dele. Mostramos uma versão não finalizada do filme para o Oswaldo que ficou encantado. Convidamos ele para fazer a música tema do filme e ele aceitou de imediato. Meia hora depois ele me telefonou com aquela linda música inteira pronta.

Cine Odeon – Estreia no Festival do Rio. Foto: Arquivo pessoal.

O Mauro Shampoo gostou do resultado final do documentário? Vocês mantiveram algum contato depois de finalizado o filme?

Nossa primeira exibição foi no encerramento do Festival de Recife para um público de quatro mil pessoas que aplaudiu de pé no término da sessão. Era a primeira vez que o Mauro via o filme e ele não conseguiu conter as lágrimas diante de tanta emoção. Quando o filme passou no Festival do Rio, chamamos ele para ficar na minha casa durante todo o evento. Ele acabou virando uma celebridade no Festival e ajudou o filme a sair como o grande vencedor com três prêmios, entre eles o de melhor curta metragem pelo voto popular. Ele repetia radiante que finalmente ele poderia contar para todo mundo que um dia ele ganhou uma competição. Continuamos sempre em contato. Ele está sempre me telefonando para contar as novidades do salão e sempre quando eu vou a Recife e ele para o Rio, nos encontramos. Ele continua com o mesmo bom humor e humildade de sempre. Só que agora, quando ele atende o telefone ele inclui: “Mauro Shampoo, Jogador, cabeleireiro, Homem e agora artista de cinema”.


Pelo nosso ponto de vista, o documentário “Mauro Shampoo – jogador, cabeleireiro e homem” pode ser visto como uma tragicomédia e inicia a narrativa de forma cômica e termina mostrando as agruras dos personagens. Parece então que a proposta do curta é partir da imagem do mito até alcançar a condição de ser humano do jogador. Em que medida você concorda com essa leitura?

Sim, concordo plenamente. Quando concebemos o filme, queríamos evitar mostrar apenas o personagem Mario Shampoo. Isso já havia sido feito em centenas de reportagens de TV com ele. Por isso, decidimos iniciar o filme mostrando o mito que ele se tornou e a medida em que o filme avança, vamos conhecendo aos poucos o lado humano de Mauro que no final se revela tão fascinante quanto.


O Íbis, ao reivindicar a condição de pior time do mundo, aciona o já tradicional humor nordestino que, por diversas vezes, busca brincar com seus próprios costumes e flerta com o grotesco (usado aqui na condição de escrachado e auto satírico). Essa vertente parece estar presente também na fala do Mauro. O fato de ele ter sido jogador do Íbis promove um interesse maior pela narrativa de sua história?

Sem dúvida. É impossível desassociar a história do Íbis da vida de Mauro e vice-versa. Como o camisa dez titular que em quinze anos só conseguiu fazer um gol (numa partida em que perderam por 8×1), Mauro se tornou o atleta símbolo do Íbis e isso ele fez dele uma figura folclórica que sabe encarar com bom humor as dificuldades que ele teve na profissão e usa isso a seu favor.

Pausa durante as filmagens. Foto: Arquivo pessoal.

O título do filme “Jogador, cabeleireiro e homem” apresentado pelo personagem sugere uma relação entre esporte, estética e masculinidade. Muitas vezes essas categorias aparecem como antagônicas e, portanto é necessário afirmar a condição de homem em diversos momentos. No entanto, em outros momentos elas aparecem como complementares. Como você vê a relação entre essas qualidades distintas?

No início da carreira, Mauro sofreu muito preconceito pelo fato de ter adotado a profissão de cabeleireiro em paralelo a de jogador, por isso ele adotou esse slogan de “Jogador, cabeleireiro e homem”. Com o passar do tempo, felizmente, o preconceito foi diminuindo e hoje, jogadores como o Cristiano Ronaldo por exemplo, mostram que o futebol e a estética estão cada vez mais caminhando juntos. Hoje em dia tem muito jogador famoso que se destaca muito mais pelo penteado do que propriamente pelo futebol em campo.


A narrativa do filme sugere que Mario Shampoo é um mito já consolidado, tamanho é o número de narrativas da imprensa sobre o personagem. Auto identificado com Maradona, auto apelidado de Shampoo devido a uma produção cinematográfica estadunidense, entrevistado pelo Jô Soares, a comparação estabelecida por ele entre o Íbis e o Globe-trotters, o jogador apresenta-se como um fantástico caldo de cultura pop. É possível avaliar em que medida a cultura pop permeia a trajetória de vida de Mario Shampoo?

Mauro Shampoo sempre quis ser famoso e, na incapacidade de ser o melhor jogado do mundo, conseguiu se tornar uma celebridade sendo o melhor dos piores. Ele soube usar muito bem esse marketing a seu favor e, fazendo graça com a história do Íbis e com a sua própria história, acabou se tornando uma figura cultuada. Hoje em dia as pessoas gostam de dizer que torcem para o Íbis e disputam a tapa a bela camisa do time, querem conhecer o salão de Mauro Shampoo e de ter seus cabelos cortados por ele, de preferência com uma foto no final para a posteridade. Mauro frequentemente é chamado para participar de eventos, de reportagens, de curtas metragens. É um culto que só tende a crescer com o tempo e eu fico muito feliz que o filme tenha ajudado nisso de alguma forma.

Fontenelle, o cineasta Tony de Luc e Mauro Shampoo. Foto: Arquivo pessoal.