09.6

Richard Giulianotti (parte 2)

Equipe Ludopédio

O sociólogo Richard Giulianotti, professor da Loughborough University, é um dos principais estudiosos contemporâneos sobre o fenômeno esportivo. Publicou diversos livros que trazem interpretações sociológicas críticas do esporte moderno: The Sociology of Sport (2012), Globalization and Football (2009) e Globalization and Sport (2007), Sport: A Critical Sociology (2004). Um deles traduzido para o português: Sociologia do Futebol (2002, Ed.Nova Alexandria). A partir de temas como os Jogos Olímpicos, Copa do Mundo, migração, segurança, violência e hooligans, Giulianotti analisa a importância social, política, econômica e cultural do esporte. 

A entrevista foi realizada no Centro de Estudos Sócio-Culturais da Escola de Educação Física e Esportes (EEFE-USP).

Agradecemos a participação e ajuda da historiadora Giovana Capucim – colaboradora inestimável – na realização e edição da entrevista.

Boa leitura!

 

O sociólogo Richard Giulianotti analisa a importância social, política, econômica e cultural do esporte.. Foto: Max Rocha.

 

 

Primeira parte

 

A maioria dos atos racistas vem dos torcedores. Como você acha que os clubes poderiam mudar os pensamentos dos seus torcedores sobre o racismo?

Bem, para começar, os clubes têm um papel importante em termos de contratação de jogadores no início. Houve casos em que alguns clubes mudaram a sua política de recrutamento de jogadores, no que diz respeito a questões de racismo e intolerância. Na Escócia, o Rangers Football Club tinha uma proibição de inscrever jogadores católicos até início dos anos 90, final dos anos 1980, até quando assinaram Maurice Johnston, que era um ex-jogador bem conhecido do Celtic Football Club e também católico. Isto foi visto como uma quebra de tradição do clube de nunca assinar com os católicos e, como um caso de um clube naquela época se posicionar sobre essa questão.

O maior problema em todo o mundo tem, claramente, envolvido jogadores negros. Na Inglaterra, nos anos 70 e 80 particularmente, os jogadores negros sofreram muito e rotineiramente sofrem abusos, como por exemplo, as cantorias dirigidas diretamente a eles, tendo bananas atiradas para eles, e assim por diante. Mas uma grande pressão para a mudança veio de jogadores negros da Inglaterra, que se organizaram e mobilizaram oposição a este tratamento. E também, estas campanhas ocorreram em âmbito popular entre os movimentos de torcedores da Inglaterra. Por exemplo, o movimento de fanzines, que começou na Inglaterra em meados dos anos 80, tendeu a ver o racismo como um problema significativo.

Mas, se a questão é o racismo no futebol, em geral, devemos olhar também para os jogadores, os clubes, os meios de comunicação e o sistema do futebol de maneira geral. Na Inglaterra, vimos casos em que os jogadores usaram linguagem racista – em especial os casos de Terry e Suárez – e receberam apoio significativo de seus clubes. Podemos também perguntar se os meios de comunicação, por vezes, são culpados de colocar formas sutis de racismo na forma como os jogadores são, às vezes, descritos ou retratados. E o que dizer do sistema de futebol em geral – há muito poucos não-brancos nos principais cargos de tomada de decisão – como treinadores, executivos, membros do conselho dentro de clubes ou de federações de futebol.

O senhor aponta o futebol como um elemento que indica características sociais de cada período. Quais características sociais podem ser observadas através do futebol atualmente?

Há tantos ângulos aqui que você pode considerar sobre este assunto. Talvez um ponto chave agora seja a hegemonia do livre mercado; as políticas neoliberais, e como se conectam ao jogo. Nós temos praticamente um mercado livre global de jogadores, por exemplo. Há um foco muito mais forte entre os clubes, entre os organizadores do torneio, sobre a forma como eles podem gerar receitas e aumentar a renda. Os sistemas comerciais e de mídia sobrescrevem o jogo. E também, em termos de acesso aos estádios, há um foco na tentativa de maximizar a receita advinda dos “clientes/consumidores”. E o que vemos no futebol, em grande parte reflete o que aconteceu na economia política global de modo mais geral, através do aumento das políticas neoliberais no norte e imposta ao sul do globo. Dito isto, há variações notáveis sobre como esses modelos neo-liberais são desenvolvidos no futebol, por diferentes nações, ou mesmo em diferentes ligas e clubes. Há também formas notáveis de oposição em relação a esses processos, que também são expressos e organizados de diferentes formas. E há também uma boa dose de aprendizado e empréstimo de diferentes sociedades. Se você olhar para a Alemanha, por exemplo, é muito mais barato ir aos jogos, e muito poucos dos movimentos de torcedores ingleses apontam para o modelo alemão como o caminho a seguir para o jogo Inglês.

Com os preços dos ingressos mais caros, o que você acha sobre elitização dos torcedores de futebol?

Bem, não há muita dúvida de que os ingressos para o futebol de alto nível tornaram-se caro. Os preços subiram bem acima da taxa de inflação se você comparar os custos de admissão no final dos anos 80. A Inglaterra é frequentemente vista como o modelo a ser seguido por alguns líderes executivos do futebol em outros lugares. Você sabe, no Reino Unido, estão pegando algumas destas afirmações do Brasil, onde os diretores de clubes comentam que eles pretendem conduzir as pessoas pobres a sair do futebol, a fim de atingir os ricos. Como acadêmico, como um sociólogo crítico, eu penso sobre estas questões em termos da distribuição de recursos, e na justiça social de como esses recursos são distribuídos – por exemplo, com o acesso ou a entrada ao futebol de alto nível como uma espécie de bem restrito ou recurso. Então, é justo que o acesso a estes jogos seja feito puramente tendo como base o dinheiro? Quanto você está disposto e capaz de desistir, ou quanto dinheiro você pode ter acesso, a fim de participar de um jogo importante, por exemplo, para ver a seleção, ou para ver sua equipe jogar uma partida de alto prestígio? Adrian Walsh e eu escrevemos sobre essas questões no livro Ethics, Money and Sport (Ética, dinheiro e Esporte).

O resultado é que, todas as coisas sendo iguais, se você usar o mercado para decidir este tipo de acesso, então é provável que você acabará com uma espécie de “elitização” no meio da multidão, como você disse. Na Inglaterra, eu acho que isso afetou na composição de multidões por classe e idade dentre os clubes. Isso não quer dizer que não houve grandes e amplas mudanças sociais na sociedade do Reino Unido – por exemplo, a “classe trabalhadora” não é o que era na década de 1970. E, vimos relativamente níveis mais elevados de desemprego, e mais pessoas recebendo baixos salários, assim desigualdades têm crescido desde que a crise financeira começou, sendo sentida também a longo prazo. Então, nesse tipo de contexto, se o futebol tem altos preços dos ingressos, você vai inevitavelmente enfraquecer o potencial envolvimento de muitos destes grupos sociais.

O sociólogo Richard Giulianotti é um renomado estudioso contemporâneos sobre o fenômeno esportivo. Foto: Max Rocha.

Esses grupos que são excluídos dos estádios ainda podem ser violentos fora dos estádios.

Você poderia argumentar que, de certa forma, o alto preço dos ingressos não irá acabar com o hooliganismo. É realmente uma justificativa ideológica para promover a mercantilização do futebol. Você também tem um conjunto mais amplo de questões para se considerar. Se o hooliganismo ocorre, em grande parte, fora do estádio, então que diferença realmente faria os preços dos ingressos?

O amistoso entre Inglaterra e Holanda (10.08.2011) foi cancelado devido à onda de protestos na ilha britânica. Sabemos também que não é incomum o futebol se tornar palco de tensões da sociedade. Para um pesquisador, quais os maiores problemas de análise que provém desta situação?

Existem alguns pontos sobre isso. Primeiro de tudo, quando os tumultos ocorreram, este investigador particular para o qual vocês estão olhando estava de férias, por isso incapaz de olhar para o futebol diretamente! Mas, esses eventos precisavam ser entendidos em relação às medidas de austeridade que foram introduzidas pelo governo de coalizão no Reino Unido.

Em termos práticos, como pesquisador, houve partidas canceladas. Mas você também pode olhar para explorar os possíveis impactos desses eventos sobre o futebol. Há mais policiamento? A segurança é mais intensa? Está a cultura dominante, a atmosfera geral, em torno do estádio de forma diferente? E sobre as relações comunitárias que envolvem o clube, elas mudaram? E, é o esporte utilizado por diferentes instituições, como a polícia ou organizações da sociedade civil, para tentar construir um relacionamento melhor com os jovens? Há algumas questões a explorar, tendo em conta o contexto mais amplo.

Como podemos entender porque eventos como a greve de abril de 2010 que parou a federação espanhola não se repetem com frequência?

Bem, o futebol é fortemente influenciado pelas políticas e estratégias econômicas neo-liberais. E, como vimos com a economia em geral, esse tipo de desregulamentação do mercado livre também leva à instabilidade, às crises, assim como bolhas. Muitos clubes faliram nos últimos anos. Então, você também terá um número maior de conflitos emergindo em tempos de crise, inevitavelmente.

Queríamos fazer uma das perguntas centrais de Soccernomics, de Kupfer e Szymanski. Quando a Inglaterra voltará a ganhar uma Copa do Mundo?

As perspectivas não são grandes. Esta colocação foi feita pelo presidente do FA (Football Assocication), Greg Dyke, que estabeleceu o objetivo para os ingleses de ganhar a Copa do Mundo de 2022 no Qatar. O objetivo inicial, como ele indica, é desenvolver mais jogadores de alto nível, e a proporção de jogadores ingleses na EPL (English Premier League) é ainda muito baixo, portanto desenvolver esses talentos é uma questão muito importante. A exposição dos jogadores ingleses com managers e jogadores internacionais de alto nível na EPL (English Premier League) será um benefício real, desde que haja uma massa crítica suficiente de talento para trabalhar, vindo através do sistema inglês. Mas, o sistema em si não está orientado para a produção de tais jogadores ingleses, tal como é na França, por exemplo; e a EPL (English Premier League) é vista como o ator mais potente, e, é claro, com prioridades que são diferentes para a FA (Football Association) e que também não tem um pensamento unificado.

Talvez eles tenham uma chance no Brasil.

É muito cedo para isso!

O sociólogo Richard Giulianotti, durante entrevista para o Ludopédio. Foto: Max Rocha.

A respeito do hooliganismo, o senhor acha possível utilizar esse conceito para avaliar as manifestações de violência nos estádios brasileiros?

A palavra “hooligan” é um rótulo negativo, é claro. Mas, como vimos, pelo menos no norte da Europa, como as diferentes “subculturas” de fãs se apropriaram deste rótulo como um termo de auto-identificação. Então, eles se definem como “hooligans”, como parte de grupos hooligans (firms) que estão envolvidos na violência competitiva com outros grupos semelhantes.

Eu não sei o suficiente sobre “subculturas” de torcedores brasileiros para dizer se esses grupos também se definem como “hooligans”. Claro que, também seria interessante explorar comparativamente o grau em que essas diferentes formas de violência de torcida no Brasil possuem semelhanças ou diferenças em relação às nações da Europa do norte.

Mas, uma observação aqui é que, usando a teoria da rotulagem advinda da criminologia, podemos ver a ironia de como um rótulo tão negativo sai pela culatra, para se tornar um rótulo que algumas pessoas adotam e abraçam. Talvez um processo semelhante irá acontecer aqui, ou aconteceu aqui?

Um ponto mais profundo é que “hooliganismo” tornou-se parte da cultura de consumo popular que envolve o futebol. Vimos, por exemplo, ao longo das últimas duas décadas, os níveis reais de incidentes com hooligans caíram no Reino Unido, em comparação com meados dos anos 1980. Mas uma nova indústria surgiu: a venda de filmes “hooligan”, livros e apetrechos, com um forte aspecto nostálgico ao hooliganismo, e uma oportunidade para os não-hooligans em explorar esta “subcultura”.

Como um turismo hooligan…

Sim! E, para o ponto de vista do controle social, a partir dos anos 1960, isso parece ter tomado algumas direções erradas!

As redes sociais estão sendo usadas aqui no Brasil para encontros violentos entre os torcedores. Eles estão usando as redes sociais para conhecer uns aos outros, marcar esses confrontos. Existe algo parecido no Reino Unido?

Na década de 1980 eles usavam os telefonemas para marcar com rivais antes dos jogos, e com o aparecimento dos telefones celulares abriu-se mais oportunidades para os contatos serem feitos. Houve relatos durante os motins ingleses em 2011 que os participantes tinham vindo a utilizar o BBM (BlackBerry Messenger) para se comunicar e para chamar as pessoas. Portanto, deve haver possibilidades no que diz respeito à violência das torcidas. Mas eu acho que nós precisamos ser cautelosos sobre a possibilidade de fazer muito disso, não menos do que realmente é, pois é um tipo interessante de história. Outro ponto a ter em mente é que essa tecnologia serve para ambos os lados, e geralmente é aproveitado em benefício das instituições mais poderosas, e neste caso estamos falando da polícia e do sistema de justiça criminal em geral. Você pode voltar a ver como sistemas de CCTV (Televisão em Circuito Fechado, em inglês) foram introduzidos no interior e em torno de estádios para destacar como as novas tecnologias foram utilizadas para auxiliar o controle social dos torcedores. E vemos também como a polícia pode verificar os registros de telefonemas e mensagens de pessoas que eles prendem, e manter um olho sobre as mídias sociais também. Assim, seria razoável concluir que a tecnologia é mais eficaz para a aplicação da lei do que como uma ameaça à aplicação da lei.