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Rinaldo José Martorelli

Equipe Ludopédio

Em tempos de Copa do Mundo no Brasil e Bom Senso FC, o Ludopédio traz uma entrevista com o ex-jogador Rinaldo José Martorelli, atual presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo. Goleiro titular do Palmeiras entre 1985 e 1987, atuou também no Náutico, Goiás, Paysandu, Taubaté e São Caetano. Antes de encerrar a carreira, aos 35 anos, já exercia o cargo de presidente do Sindicato. Ao longo dos anos procurou se especializar na área de Direito Esportivo, abordando a Lei do Passe, a questão contratual dos jogadores, a relação com os clubes e a legislação esportiva. 

Boa leitura!

 

 

Martorelli possui pós-graduação em Direito Desportivo. Foto: Max Rocha.

 

 

Primeira parte

Como começou sua vida no futebol?

Bom, como todo brasileiro, o futebol está no sangue. Eu sou de uma familia de futebolistas. Meu pai jogou na Ponte Preta e no Noroeste. Quando meu pai jogou na Ponte, Moisés Lucarelli era o presidente. Depois teve meu irmão, que foi uma zagueiro e que esteve em todas as seleções juvenis e chegou até treinar no Santos na época do Pelé. Ele jogou com Agnaldo Moreira, príncipe Ivair. Ele só não seguiu carreira porque ele era o irmão mais velho de sete filhos e o que se oferecia na época não valia a pena e acabou desistindo. Veio essa corrente de gostar de jogar e comecei a brincar e me destacava um pouco no time da escola, aí fui pro time do bairro e acabei indo parar na General Motors de São Caetano que disputava o dente de leite do Paulista. Eu ainda tinha um ano de infantil pela GM e acabei indo para o Palmeiras em novembro de 1974.

Acabei indo sem muita noção do que iria acontecer. Claro que eu gostaria de me tornar profissional, mas com 12, 13 anos, não se tinha noção, ainda mais naquela época. Bom, aí eu fui ficando. Com 16 anos, na categoria amadora, eu tinha idade para jogar no juvenil C, mas jogava no juvenil B e A. Eu fui um dos atletas no contexto amador e profissional que mais vestiu a camisa do Palmeiras. Tinha fim de semana que jogava três vezes. Eu era o quarto goleiro, tive uma oportunidade e subi para o time de cima aos 19 anos. Fiz seis partidas como titular e acabei ficando. Depois houve um remanejamento de goleiros. Ficou eu e o Leão, depois fiquei no lugar dele e assim me tornei profissional. Eu acabei depois indo jogar no Náutico, Paysandu, o próprio São Caetano, em que sou fundador, joguei no Taubaté, no Pelotas, Noroeste.

Quando eu estava no Taubaté em 1993, Toninho Cecílio me ligou me chamando pro Sindicato. Ele dizia “olha eu estou saindo e um cara que pode pegar isso aqui é você”. Ele me conhecia, haviamos jogado juntos no Palmeiras, e conhecia todos os questionamentos que eu fazia lá dentro. Me convidou e disse “estou te entregando e pega, senão isso vai fechar”. Peguei e comecei a trabalhar em abril de 1993.

A primeira coisa que eu fiz foi uma reunião com o Farah (ex-presidente da Federação Paulista de Futebol) e quero resolver nossos problemas negociando. Bom, nisso eu jogava e às segundas-feiras vinha pra cá dar o expediente e voltava depois para jogar. Na época, muitos jogadores estavam indo para o Japão e as taxas de transferência às vezes inviabilizavam uma negociação. Na época a Federação ficava na Brigadeiro e numa ruazinha ali (rua Bororós) ficava o Sindicato. O cara saia daqui dizendo “pô, Martorelli. Viabiliza. Os caras querem 40, 50 mil dólares de transferência”. Aí eu saía daqui e ia na federação falar com o presidente: “pô, presidente, os caras vão ganhar pouco. Quando você acha que tem que pagar? Consegue pagar uns 3 mil? Consegue?”. Então eu voltava lá e ia liberando as coisas.

Nesse meio tempo ele me nomeou para compor uma Comissão de Arbitragem. Eu cheguei lá e me sentia bem prestigiado, afinal de contas, nós iríamos entrar lá. Eu cheguei lá, tinha todos os clubes e eu para votar. Só que era voto aberto e foi algo assim: eu como presidente do Sindicato votei C, F, H; o clube 1 votou A, B, C, D; o clube 2 votou A, B, C, D; o clube 3 mesma coisa. Aí eu entendi. Filho da puta, só me levou pra legitimar uma coisa que já estava pronta.

Fim do ano. Ele me chamou para discutir o campeonato de 1995. Eu preparei o que a gente queria, os pontos que deviam ser feitos e melhorados. Chegando lá na churrascaria OK, aqui na marginal e estava o circo armado. Eu disse: “olha presidente, eu vim aqui para discutir o campeonato, etc.”. Ele respondeu que bom Martorelli, por favor, protocola aqui, aqui e aqui. E eu não sabia o que tinha lá. No fim, eu disponibilzei para imprensa. Pronto, acabou minha relação com o Farah.

Em 1995 eu tive que pedir licença para poder jogar fora. Fui jogar no Desportivo de Passos. O Tata, auxiliar do Muricy, que tinha sido meu treinador, estava assumindo o São José e me chamou. Disse que ia me ligar daqui a dois dias. Nada dele me ligar. Resolvi ir até São José. Aí que eu tive uma notícia que havia uma ordem expressa de time que me contratar cai. Aí eu parei. Já havia feito Administração de Empresas, uma parte de Educação Física e comecei a fazer faculdade de Direito. Comecei a gostar da brincadeira, me pós-graduei. Começamos a trabalhar para o fim da lei do passe. Organizamos um seminário com o pessoal do Departamento de Desporto e Cultura da PUC, com o Ricardo Millani e Ronaldo Negrão sobre o fim do passe, senão me engano em outubro de 1994. E na assistência estava o Arlindo Quinalha, iniciando sua carreira na política. Eles se interessaram e propusemus um projeto de lei que acabava com o passe. Esse é o arranque da minha vida sindical.


Na Gazeta Esportiva de 1986 você foi considerado o melhor goleiro do Paulista daquele ano e mesmo assim acabou saindo do time. O que aconteceu?

Eu era um menino que questionava muito as coisas que aconteciam. Não concordava com elas e precisava ser convencido. Eu era um cara muito agressivo também. Por exemplo, eu queria saber por que a gente tinha que sempre comer arroz, carne, purê e salada de tomate. Eu queria saber por que a gente não podia comer diferente. Aí nós classificamos para o Brasileiro de 1986 e que acabou em 1987 – inclusive acabamos na frente do São Paulo na primeira fase, mas o São Paulo foi campeão. Fomos jogar contra o Botafogo, já classificados, no Rio. Havia uma greve de aeroviários e fomos por Cumbica à noite e não havia restaurante aberto naquele horário. O médico disse então vocês podem comer no McDonalds. Bom, eu questionei isso e não comi. Por que agora pode? Por que estamos classificados?

Um outro exemplo foi quando eu jogava no Náutico e o treinador não me deixou jogar a final contra o Sport por que não me deixava tomar água durante o treino. Eu questionava o por quê e ele dizia porque não! Naquele sol de 40 graus eu peguei a garrafa d´água e tomei. Ele me deixou fora da final.

No Palmeiras eu vinha bem, já havia pedido duas dispensas da seleção brasileira, inclusive tive uma sondagem da Juventus de Turim em 1984. Mas com esse temperamento e a minha forma de agir, eles estavam esperando para me dar uma ferrada. Num jogo contra o Guarani, 1 a 1 aqui no Pacaembu, um cara deles foi expulso e eu fui tirá-lo de campo, ele agarrou em mim e fomos pro chão. Aí veio o Oswaldo, o árbitro que era amigo meu de Santo André, e me expulsou. Essa foi a brecha que eles queriam. Aí veio o Zetti, ele entrou bem pra caramba. Mas aí é engraçado, fiquei uma partida fora. O Zetti entrou e perdemos de 1 a 0 contra o São Bento de Sorocaba. Aí mandaram embora o Carbona, que era nosso treinador, e veio o Minuca, que faleceu recentemente, interinamente. Ele chegou na concentração e chamou eu e o Zetti. O Mauro, que era meu preparador, me disse: “você tá tá fora”.

Aí veio uma fase muito boa do Zetti, 10 jogos sem tomar gol. Bom, então veio um jogo contra o Corinthians que perdemos por 3 a 1, contra a Portuguesa 4 a 1, e a torcida queria que eu voltasse e os caras me seguraram fora pelo meu temperamento e não pela minha bola. Quando o Rubens Minelli chegou eu fiquei sabendo que iam me colocar para terceiro goleiro. Aí eu fui embora para o Náutico. Até tinha proposta para Corinthians e São Paulo, mas o Palmeiras não liberava. Bom, fiz uma grande burrada, porque se hoje nós temos pouca informação de lá, imagine em 1988. Minha mãe torcia pra eu tomar gol para que eu pudesse aparecer no fantástico.

Quando eu voltei o Zetti tinha quebrado a perna e o Ivan tinha quebrado a mão, mas o técnico era o Leão. Aí eu fiquei um ano e meio parado, sem poder jogar e sem salário. Por isso que eu lutei tanto contra esse maldito desse passe.

Martorelli defendeu o Palmeiras durante 206 jogos.

Qual era a expectativa em relação ao futebol após o fim da lei do passe? Quais os ajustes necessários diante da primazia dos empresários nesse mercado?

Primeiro, precisa ficar claro, que o empresário só existe porque o clube permite. Quando nós eliminamos o passe, os clubes vieram a tona com o discurso mentiroso de que os atletas não são mais dos clubes e sim dos empresários. Outra coisa: existe empresário oficial de cada clube. Só entra no clube x com empresário A ou B. O empresário é um mal que acabou se concretizando porque havia interesse dos diretores, para eles ganharem as comissões.

Jogador nenhum pode ficar sem receber salário. Ainda hoje o cara para sair de um clube precisa pedir a liberdade dele no tribunal do trabalho. E tem gente que entende que não é e não dá. E quando o clube quer mandar embora consegue na hora e fica seis, oito anos para pagar. Que equilíbiro é esse? Você ainda tem que proteger o hipossuficiente que é o jogador, o trabalhador.

Nós atletas somos a única categoria cujos patrões têm torcida. As outras não têm. Eu, há algum tempo, fiz com que o São Paulo mudasse uma situação sobre a emancipação de atletas menores de idade para assinar contrato de trabalho. Eu recebi um monte de ameaças de morte na minha caixa. Quando eu resolvi a questão do Felipe do Corinthians foi a mesma coisa. Os caras não percebem que você está tentando proteger o direito do cidadão. Eles imaginam que você quer ferrar o clube deles. Isso não é só o torcedor organizado. É também o juiz de direito.O Lula também pensa assim, os políticos pensam assim. E todo discurso que o dirigente usa encaixa, porque é a defesa do clube. A imprensa também. Veja esse caso da Portuguesa. Ela errou, é horrível, lógico que eu não queria que ela caísse. Mas existe uma condição na regra que diz e pronto. Podemos até discutir o sistema, se a Portuguesa poderia perder os pontos na próxima competição, o Fluminense que perdeu em campo deveria cair mesmo, mas a aplicação da regra não dá para discutir.


Se você presidisse a mesa do julgamento da Portuguesa que posição você tomaria? Qual melhor procedimento para a aplicação de uma regra?

A aplicação da regra no direito é para caracterizar uma irregularidade. A Portuguesa alega que a atitude dela não foi irregular, e foi. Escalou o cara errado na hora errada. Eu sou um cara mais técnico nesse aspecto.


A existência do STJD é algo necessário, tendo em vista as diversas possibilidades de manobras?

Acontece, mas porque muito auditor julga com o coração. Não foi neste caso, mas questionar voto é um direito. Mas acho necessário, tanto que estamos pleiteando um tribunal para a Conmebol.

Martorelli foi um dos entusiastas da Lei Pelé. Foto: Max Rocha.


Você confia nas decisões nas decisões do STJD?

Eu tenho que confiar. Eu não presumo a má fé.


Talvez por uma questão de inoperância ou incompetência?

Não, porque vocês não conhecem. O que se transita ou que se divulga, bom, teve esse caso agora, mas o resto do ano não aconteceu nada, jogaram tudo direitinho. Outros tanto casos, julgaram direito. Teve um caso do Emerson, volante que jogou no Guarani, que jogou com o nome do irmão. Eu trabalhei na defesa e pedi a pena mínima. Porque não houve prejuízo para ninguém, porque ele não jogou no juvenil com o nome do irmão, ele começou a vida dele como profissional com o mesmo nome.

No futebol, por exemplo, estamos discutindo o doping. Tem uma estatística da FIFA que é assim. Desde 1994 tem 34 mil provas. Destas, 36 casos positivos e apenas 8 casos cujas substâncias tem efeito para buscar o resultado esportivo. No futebol, portanto, temos que discutir a reabilitação do atleta. Não pode penalizar o cara porque tomou remédio de nariz. Tem advogado que cheira cocaína antes de audiência e aí? Tem médico que cheira cocaína para operar. Você não pode travar a vida do trabalhador. Essa é uma questão controvertida, mas que precisa ser discutida.

Eu entendo que o Ministério dos Esportes devia ter uma atuação diferente. Os homens do governo e suas paixões clubísticas atrapalham muito. O Lula atrapalhou muito a vida do atleta. Quando ele assumiu a presidência com Agnelo [Queiroz] no Ministério qual era o discurso? Precisamos fortelecer financeiramente os clubes. Mas faltou ele dizer “sem prejudicar a vida do trabalhador atleta”.


Quais as principais atividades do Sindicato e da FENAPAF? Como é o dia a dia?

Temos aquilo que os Sindicatos têm: convênios com dentistas, médicos, escola. Temos um núcleo de reintegração com ex-atletas e meninos numa escolinha. Regulamentamos as férias, recentemente, em 2004. Tem uma ação correndo sobre o desrespeito ao tempo do intervalo dos jogos.


Existe uma distância muito grande entre o Sindicato de São Paulo e as demais praças?

A vida sindical no futebol nasce em São Paulo, isso é preciso entender. Existimos desde 1947. Ficou muito tempo parado, mas temos mais estrada. Os Sindicatos atuam de acordo com as necessidades da região. Compara-se muito com o Sindicato na Argentina. Mas eles defendem lá a prorrogação unilateral de contrato com opção para o clube com jogadores com até 23 anos. É uma outra cultura de povo, diferente da nossa. Em termos de futebol o Brasil é sui generis. Não existe nada parecido com isso aqui. E aí que tem gente que quer enquadrar o nosso calendário com o da Europa, isso não dá para fazer. Isso é uma bobagem. Os países que mais se assemelham ao Brasil em número de clubes, dimensões geográficas é India e Congo. E ninguém fala em equiparar. Você vai para Inglaterra, bom, em 1200 eles estavam botando o Rei para correr. Quando eu falei na FIFA que haviamos ganhado uma ação para regulamentar férias eles não entenderam. Isso não existe lá. Eles falam lá em negócio. Aqui buscamos direito, e na América Central é pior ainda, lá é outro mundo.

Martorelli exerce o cargo de Presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo. Foto: Max Rocha.

Como você se defende das críticas em torno da sua longevidade no Sindicato (1993-2014)?

Com muita tranquilidade. Primeiro pois me preparo para estar aqui. Segundo, quantas vezes teve gente querendo pegar? Nunca. Eu nunca concorri a eleição aqui. Eu monto uma chapa e é a única que aparece. Já fui muito atrás de atletas e os caras não querem participar. E por fim, o Sindicato, na verdade, destes vinte anos, doze eu trabalhei sem receber nada.

Com o tempo, você vai aprendendo, se relacionando, encontrando aberturas e atalhos. Como você vai deixar isso? Estamos discutindo seguro-desemprego de atleta desde 2004. Isso não acontece de um dia pro outro.


Como você entende essa falta de interesse das pessoas?

Não sei. É importante entender uma coisa do ser humano. Um atleta com 28 anos está pensando em sair da categoria. Só o Paulo André com 30 que tem uma outra cabeça. Você começa amadurecer para vida com essa idade, e o atleta quer abandonar o futebol – “isso não é mais pra mim”. Eles não querem. A maioria também não entende o que é isso. Chegou um determinado momento que este movimento [Bom Senso FC] chegou no “e agora?”. Por fim nos ajustamos. Mas era um movimento que não tinha condição de brigar do jeito que eles queriam. Fazer greve, etc. Quem tem essa legitimidade somos nós. E tem um procedimento legal para preparar uma greve. Mas felizmente sentamos e pudemos resolver. Hoje eu sei como negociar. Uma coisa importante para se ter sucesso numa negociação é confiança. Esses caras hoje sabem que eu não minto. E jogo sempre limpo. Quando eu consegui colocar no regulamento do campeonato a inibição do inadimplente salarial eu comecei a entender melhor. “Federação, você precisa ver o lado do atleta”.

Confira a segunda parte da entrevista no dia 22 de janeiro de 2014!