03.12

Roberto DaMatta

Equipe Ludopédio

Roberto DaMatta vem, desde a década de 1970, estudando a sociedade brasileira a partir de alguns dos seus temas ditos marginais, como carnaval e futebol. Organizador do livro Universo do Futebol, DaMatta foi o primeiro pesquisador a elaborar uma reflexão mais apurada sobre futebol, bem como um conjunto de temas a serem abordados por pesquisadores de uma geração posterior. Nesta entrevista, o antropólogo aborda alguns dos vários temas trabalhados ao longo de sua obra.

Roberto DaMatta é Organizador do livro Universo do Futebol. Foto: Equipe Ludopédio.

Quais eram os principais desafios nos estudos iniciais sobre a temática esportiva, principalmente sobre o futebol?

O principal era colocar o “esporte” como um objeto digno de estudo sociológico. A sociologia não foi inventada nem na natureza nem no céu, mas na Europa de Descartes que reduziu tudo a uma questão de medidas e método. Como, a partir do paradigma das ciências naturais e físicas, entender o mundo humano do capitalismo e da indústria, sem ser crítico ou moralista? Lembro que um dos pontos principais do meu trabalho foi desmontar a tese super-moralista (de origem supostamente marxista, mas no fundo ultra-redicionista) que dizia que o futebol era o ópio do povo. Lembro igualmente que quando escrevi um capítulo e organizei como editor o livro Universo do Futebol, no ano de 1982, o assunto e o livro sequer foram noticiados como alguma novidade. Foi provavelmente uma das primeiras tentativas de dentro da academia de compreender o elo entre o futebol e o Brasil. Foram precisas algumas décadas para que esses grilhões ideológicos fossem rompidos.


Qual é a releitura que podemos fazer hoje da ideia do futebol enquanto “ópio do povo”? Você acredita que houve uma leitura equivocada de algumas de suas propostas que teria gerado uma recusa aos estudos sobre a dimensão política nos estudos sobre futebol? Como se tivessem tomado a ferro e fogo a expressão “futebol não é ópio do povo” em vez de “futebol não é somente ópio do povo”.

Como disse acima, a tese do ópio do povo reduz um fenômeno complexo e múltiplo, com significados variados, a uma só função ou papel. É como dizer que o mercado é um instrumento da exploração do trabalho ou que Freud só pensa naquilo. O que fiz foi interpretar em vez de explicar o futebol. Assim sendo, li o futebol como algo complexo. Como parte da vida social brasileira e europeia. Com isso, pude ver que dentro de uma sociedade que privilegiava a racionalidade, surgia um campo — o do esporte; que trazia de volta a incerteza, o drama da insegurança, o jogo no sentido brasileiro do termo, o que permitia ver a vida de modo renovado. Não apenas pela conta bancária, pela profissão ou diploma; ou pelo partido político, mas também pelas ligações livres com um time ou clube ou atleta. Essa perspectiva muda muita coisa.

Roberto DaMatta. Por Toni D´Agostinho.


Em 1994, a academia abre mais um importante espaço ao futebol com a publicação de um especial da Revista USP. Este especial traz o artigo “Antropologia do Óbvio”, de sua autoria, que se tornou uma importante referência na área. Nele, você afirmou que o futebol é “uma atividade dotada de uma notável multivocalidade – uma vocação complexa que permite entendê-lo e vivê-lo simultaneamente de muitos pontos de vista”. Podemos afirmar que as diferentes dimensões dessa multivocalidade foram pesquisadas nos anos seguintes?

Penso que sim. Hoje temos trabalhos sobre torcidas, sobre a violência, sobre a organização dos clubes, sobre os futebolistas. Eu não menciono nomes porque não quero cometer a injustiça de esquecer, mas — no Brasil — houve um progresso enorme com o trabalho da Simoni Guedes, do Luiz Henrique de Toledo e de muitos outros. No exterior, eu situo como emblemático a obra do Eduardo Archetti.


Em entrevista à revista Pesquisa de Campo, publicada logo após a Copa do Mundo de 1994, você afirmou que mais do que arte, futebol no Brasil é um drama, uma metáfora da vida. Esta definição ainda permanece? A raiz dramatizante que compõe o universo futebolístico é amparada principalmente na dualidade tradicional-moderno, analisada em muitos de seus trabalhos?

Penso que sim. O futebol, como o cinema e a literatura, obriga a ver coisas maravilhosas como a vitória, o êxito e a excelência, mas também a entrar em contato com o nosso lado mais mesquinho e odioso como o ódio ao outro, a frustração, a derrota e a perda. Esses sentimentos são ensaios sobre a vida como ela é como diria Nelson Rodrigues. Ele ajuda ainda a responder quem somos nós, que matéria é essa que constitui o nosso interior.

O antropólogo Roberto DaMatta estuda a sociedade brasileira a partir de alguns dos temas carnaval e futebol. Foto: Equipe Ludopédio.


O que o acompanhamento dos fatos e eventos cotidianos nas suas colunas publicadas semanalmente no Estadão contribuiu para uma compreensão antropológica do universo esportivo?

Ajuda na medida em que ocorrem eventos esportivos que chamam minha atenção. Mas o meu jornalismo vem a reboque da minha antropologia e não o contrário.