02.13

Roger Milla

Tiago Carrasco, João Henriques, João Fontes

Milla, o embaixador que ainda sonha com o golo
(Yaoundé, Camarões, 28 de Abril de 2010)


Roger Milla está uma hora atrasado. Esperamos por ele na esplanada do seu jardim, de frente para um Bentley e um Porsche estacionados em frente à vivenda, enquanto enganamos a fome com mãos cheias de amendoins. São 10h30m. À medida que o tempo passa, o terraço vai-se enchendo de visitantes que marcaram um encontro com o ex-jogador; padres, advogados e contabilistas. A sala de jantar, barroca, decorada em tons de dourado, é varrida por um grande corrupio. Como manda a tradição africana, dezenas de familiares e amigos vivem em casa do antigo craque da selecção.

Finalmente, Milla, considerado o melhor futebolista africano do século XX, sai de casa. Vem com t-shirt, calças e ténis brancos e com uma cara ensonada. Os visitantes cumprimentam-no: “Bom dia, sua excelência”. Roger Milla é hoje Embaixador Itinerante da República dos Camarões e um dos melhores amigos do presidente Paul Biya (no poder desde 1982). Talvez pelo peso do seu novo cargo ou pela idade, já não carrega a mesma alegria, o mesmo toque de anca, o bigode carismático, o mesmo talento para surpreender com que brindou o mundo nos Mundiais de 1982, de 1990 e de 1994. Mas, aos 57 anos, continua irreverente. Critica o egoísmo de Eto’o e afirma que, diante do guarda-redes, não perderia a oportunidade de marcar ainda neste Mundial. Como em 1994, já com 42 anos, quando estabeleceu contra a Rússia um recorde de longevidade nos golos. Ou, especialmente, como em 1990, quando ofereceu ao seu país, com quatro golos, o sonho de disputar os quartos-de-final do Mundial. No imaginário de todos, ficou o lance em que roubou a bola a René Higuita, guarda-redes da Colômbia, e carimbou o feito histórico – nunca outra equipa africana chegou tão longe na prova. Essa e outras recordações foram lembradas ao longo de uma conversa de 24 minutos. Não dava para mais. Esperavam-no mais de dez pessoas.

Roger Milla. Foto: João Henriques.

Em 1989, quando tinha 37 anos, recebeu um telefonema do presidente Paul Biya, que lhe pediu para voltar à selecção a tempo do Mundial’90. Esse telefonema mudou a sua carreira?

Não foi só um telefonema. Naquele momento, jogava no Saint-Pierroise, das ilhas Reunião, mas vinha muito aos Camarões. O Presidente pediu-me para voltar a jogar e eu tive que tomar a decisão mais difícil da minha carreira. Acho que acertei.

Muitas coisas mudaram na sua vida depois desse Mundial?

Hummm…acho que muda coisa mudou no seio da selecção camaronesa, não na minha vida pessoal. Eu fui sempre a mesma pessoa, antes e depois do Mundial’90.

Com 38 anos, marcou quatro golos no Mundial. Como reagiram os seus colegas no balneário?

Foi fantástico, foi um acontecimento nacional nos Camarões. Ninguém nos dava a mínima hipótese na competição e conseguimos chegar aos quartos-de-final, onde só perdemos contra a Inglaterra por 3-2 num grande jogo. O Mundo ficou de boca aberta. Mais do que um acontecimento, foi uma surpresa mundial.

Quando partiu para Itália imaginava que, quase com 40 anos, poderia marcar quatro golos às melhores selecções do Mundo?

Ninguém pode dizer o que vai fazer antes de entrar em campo. Quer tenha 10, 20 ou 30 anos…é sempre imprevisível. O que conta é a capacidade física que o atleta demonstra ter em campo. Isso é que marcou a diferença – eu estava bem fisicamente. Mas, no início, ninguém pode adivinhar como vai correr um Mundial.

 A seguir à mão de Maradona, a imagem que mais passa nos vídeos do Mundial é a do golo em que rouba a bola dos pés de René Higuita, guarda-redes colombiano. Como o conseguiu?

É o meu papel de avançado-centro. Quando se joga nessa posição, conhecemos bem os guarda-redes e os defesas e conseguimos antecipar-lhes os movimentos. Também ajudou ter jogado com o Valderrama no Montpellier. Ele ensinou-me alguns truques do Higuita e mostrou-me vídeos e fotografias do guarda-redes. Quando ele me estava a tentar fintar, lembrei-me do que ele me tinha dito, fui mais esperto e roubei-lhe a bola.

Falou com Higuita sobre o lance depois do jogo?

Sim, ele deu-me os parabéns. Acho que compreendeu que no futebol não se devem fazer muitas coisas que se afastem da normalidade. Dançar em frente de um avançado, ainda por cima um avançado realista, não é a melhor opção. Foi uma aventura que deu para o torto…

Este foi o seu Mundial do meio. Jogou um antes, em 82, e um depois, em 94. O futebol mudou muito nesses 12 anos?

A nossa selecção é que mudou. O Mundial de 94, nos Estados Unidos, foi diferente dos outros. Não estávamos habituados ao clima e tínhamos muitos problemas no balneário. Tudo correu muito mal e só o meu golo contra a Rússia ( os Camarões perderam 6-1, com cinco golos de Oleg Salenko) escondeu um pouco a má prestação que tivemos nos Estados Unidos.

Em 1994, com 42 anos, ainda se sentia bem para jogar ou já sentia algumas dores?

O que é preciso é disciplina, respeitar o adversário e as ordens do treinador. Como eu estava bem fisicamente e tecnicamente, a idade não contou. Eu chegava onde os miúdos chegavam, corria o que eles corriam. Podia entrar em campo a qualquer altura.

Jogou em muitos clubes mas foi na selecção que se tornou ídolo. Não sente que à sua carreira faltou projecção nos clubes?

Os meus momentos altos foram os Campeonatos do Mundo e sinto muito orgulho nisso. Participei em três e isso não é para todos. Sabemos que muitos bons jogadores se retiraram sem ter o prazer de jogar num Campeonato do Mundo. Eu estive em três! Isso faz-me ter orgulho no meu trabalho, tanto nos Camarões como em França (Milla jogou em equipas como o Mónaco, o Bastia e o Montpellier).

Roger Milla. Foto: João Henriques

Roger Milla, jogador mais velho a marcar um gol em Copa do Mundo. Foto: João Henriques.

Porque dançava com a bandeirola sempre que marcava um golo?

Foi espontâneo. Dancei logo quando marquei o primeiro golo, quando ainda era uma criança.

Mas é bom dançarino?

Sou. Todos os camaroneses são bons dançarinos. A dança nasce na rua como o futebol. O meu passo de dança com a bandeirola foi também uma forma de fazer qualquer coisa para agradecer a todos aqueles que me apoiavam, que acreditavam na minha estrela. E também para homenagear Pelé, que vi jogar quando o Santos fez uns jogos de exibição nos Camarões. Apaixonei-me por essa equipa e adoptei o samba. Admiro muito o Pelé. Ganhou o seu primeiro Mundial com 17 anos. É extraordinário!

É para si o melhor jogador…

Quem? O Pelé? Sem sombra de dúvidas. É o melhor jogador de sempre.

Também Milla foi ídolo de muita gente. Eto’o diz que decidiu ser futebolista quando agarrou a camisola que você lançou num Camarões 2 – Zâmbia 0. Sente-se honrado por isso?

Isso agrada-me. Claro que gosto de saber disso. Mas gostava que Eto’o fosse um jogador à minha imagem. Um jogador correcto, um jogador agregador, obediente. E, por enquanto, está longe de sê-lo.

Quais as diferenças entre si e Eto’o, os dois melhores atacantes da história do país?

A diferença é que eu era optimista, leal, correcto, alguém que defendia sempre a união. Sempre que havia um problema na selecção, chamavam-me para unir o balneário e para encontrar uma solução que agradasse a toda a gente. Algo a que Eto’o não se aproxima nem um pouco.

Acha que a actual selecção pode superar o vosso registo histórico de 1990?

Tudo depende da organização antes do Mundial. O que a Federação e o Ministério dos Desportos decidirem agora e o que acontecer nos primeiros treinos vai ser decisivo. Temos um bom ambiente, os jogadores entendem-se bem, mas têm de estar muito bem sintonizados para o torneio. Se houver preparação, organização e disciplina, estou seguro que estes rapazes têm tudo para fazer coisas extraordinárias. E isso aplica-se a qualquer uma das seis selecções africanas. Todas têm as mesmas hipóteses e tudo vai depender da disciplina. Aquela que estiver mais organizada vai ser a melhor e talvez chegar onde nenhuma outra equipa africana chegou.

Ainda por cima a jogar em casa. Alguma vez acreditou na possibilidade de um Mundial em África?

Eu sempre acreditei que a África do Sul poderia organizar um Campeonato do Mundo em nome do continente africano. É o melhor anfitrião possível. E agradeço a Sepp Blater por ter concretizado o nosso sonho. Vai ser um Mundial rico em cor e animação mas é preciso que quem for à África do Sul seja correcto com África. Têm de saber que em África não moram os selvagens, que não somos selvagens. Quem vier para atacar África, será atacado. Os estrangeiros que vierem para desfrutar do futebol e do povo africano serão bem recebidos.

Quais são para si os favoritos?

As 32 equipas qualificadas são todas favoritas. Só depois de sabermos quem se qualifica nos grupos, poderemos perceber quem está mais forte.

Entre Portugal, Brasil e Costa do Marfim, quem pode deixar quem de fora do Mundial?

Ahh, é preciso não esquecer a Coreia! A Coreia do Norte tem uma boa equipa e pode causar surpresas no grupo. Entre as outras três, a qualidade é tanta que as que tiverem mais maturidade vão seguir em frente. E os primeiros jogos são decisivos. Com a minha experiência de Mundial, posso dizer que o primeiro jogo é o mais difícil e o mais preponderante. Pode marcar o início de uma grande campanha ou de um fracasso absoluto. O primeiro jogo dos Camarões é contra o Japão e é fulcral.

Qual a sua opinião sobre o futebol português?

Dispensa apresentações. Não vou ser eu a apresentar o futebol português que é conhecido pela sua qualidade pelo mundo fora. Eu joguei em Portugal, contra o Benfica, quando estava no Montpellier, e os portugueses têm sempre um futebol bonito e tecnicista. Além disso, é um campeonato que tem recebido muitos camaroneses. Obrigado por nos acolherem tão bem e nos darem a possibilidade de jogar no vosso futebol.

Roger Milla. Foto: João Henriques

Roger Milla, defendeu Camarões na Copa de 1994 nos Estados Unidos. Foto: João Henriques.

Como atacante que foi, gosta mais de ver jogar Messi ou Cristiano Ronaldo?

Acho que Messi é mais completo. Não tem a necessidade de correr tanto porque com a bola colada ao pé, é capaz de fintar quatro ou cinco adversários. O Ronaldo é obrigado a correr mais, a fazer longos cursos para ultrapassar os defesas e isso cansa e torna-o num jogador menos fiável.  Messi é mais forte, cansa-se menos, tem mas pés e é mais regular.

Actualmente, está envolvido na política. Qual a sua função?

Sou Embaixador Itinerante da Presidência da República. É um título honorário que me leva a ser um símbolo dos Camarões em todo o Mundo. O Presidente pode enviar-me para qualquer lado para representar o país.

Como reagiu quando foi honrado com esse título? E qual é a reacção dos diplomatas quando se cruzam consigo nas cerimónias oficiais?

Não sei o que eles pensam. Acho que o Presidente quis somente enaltecer os Camarões, dar mais projecção e visibilidade ao país e foi para isso que me nomeou.

Nasceu no litoral mas agora vive em Yaoundé, no coração do país. Não tem saudades do mar?

Antes de tudo, sou camaronês. Posso viver em qualquer parte do país; no norte, no sul, no oeste. O que me importa é que esteja nos Camarões, que é o único sítio onde me sinto bem. Vivi em França mas é aqui, com a minha família e com os meus amigos, que me sinto em casa.

O que distingue os Camarões do resto de África?

Os Camarões são África em miniatura. Pode-se encontrar de tudo aqui; mar, savana, montanha, sol, selva. Quem faz turismo nos Camarões não se arrepende. Tem aquilo que pedir. Temos o melhor peixe e o melhor marisco do mundo, em Douala, e ainda o ndolé ( prato de espinafres triturados, parecido com esparregado) , o meu favorito, que se come com carne ou peixe fumado. Temos muitas coisas boas. Além disso, somos um povo pacífico, acolhedor e gentil. Detestamos a guerra e adoramos receber estrangeiros.

Um desafio…se o Presidente lhe telefonasse para o convocar para este Mundial, aos 57 anos, ainda poderia marcar um golo?

(risos). Acho que não. Já passou o meu tempo. Já não tenho idade para isso. Falta-me a força para entrar dentro de campo e a velocidade para correr.

E se a bola lhe viesse ter aos pés só com o guarda-redes pela frente?

Bem, meu filho, há coisas que não se esquecem…até com um defesa pela frente, podia fazer uma finta e meter a bola no fundo das redes! Mas já não tenho lata para participar num jogo internacional. Há limites para tudo, não é?

Roger Milla. Foto: João Henriques

Roger Milla é embaixador Itinerante da Presidência da República. Foto: João Henriques.

Depois da entrevista, fizemos mais de 300 quilómetros em direcção a Djoum, à entrada da selva no sul do país. Foi nessa pequena vila que tivemos oportunidade de ver a qualificação do Inter de Samuel Eto’o e de José Mourinho para a final da Liga dos Campeões. Os habitantes de Djoum celebraram euforicamente a presença do avançado camaronês no jogo mais importante do ano. Amanhã entramos no Congo.

 *Tiago Carrasco, João Henriques e João Fontes estão rumo à África do Sul no projeto Road to World Cup. Foi mantida a grafia original do português de Portugal.