05.10

Rubens Minelli (parte 2)

Equipe Ludopédio

Jogador, treinador, diretor de futebol, comentarista… Rubens Minelli há mais de 60 anos vive aventuras dentro do futebol. Paulistano, teve uma curta carreira de jogador, destacando-se mais por suas conquistas como treinador de futebol em diversos clubes: Internacional de Porto Alegre, São Paulo F.C., S. E. Palmeiras, Paraná Clube, entre muitos outros. Primeiro treinador a ser tricampeão brasileiro (de forma consecutiva), é considerado um dos melhores técnicos da história do futebol brasileiro. Saiba mais nesta entrevista com o ‘poeta’ Rubens Minelli.

O ex-treinador Rubens Minelli. Foto: Equipe Ludopédio.

 

Segunda parte 


Como o senhor lidava com empresários de futebol?

Nunca lidei com empresários. Eu trabalhei 43 anos na profissão, fui para a Europa uma vez, para treinar o Sevilha, estive na Arábia Saudita três anos e nunca trabalhei com empresário. A Arábia Saudita, na ocasião, tinha enviado um telegrama à CBF pedindo o nome do melhor treinador do Brasil e eles me mandaram para assim ficarem livres de mim, pois eu era um nome forte para a Seleção Brasileira. Eles me indicaram para lá e me encheram de dinheiro. Eles vieram e me contrataram. Então, nunca trabalhei com empresários, mas sou amigo de muitos deles. Sou um cara privilegiado porque muitas das pessoas que conheci quando estava no auge ainda estavam começando (e tenho uns 20 anos a mais desses treinadores que estão no auge hoje). Jornalistas como Flavio Prado eram ‘minhoquinhas’ e vinham me entrevistar com o microfone tremendo. Muitos são meus amigos até hoje, nunca maltratei ninguém. Quando voltava dos treinos no São Paulo, eu dava carona até a Av. Paulista, na Gazeta, na Jovem-Pan. Quando fui trabalhar no São Paulo F.C. fiz só duas reuniões com o presidente e fiquei um ano lá. Numa delas ela falou para mim: “você toma conta do CT e dos jogadores, quem contrata sou eu e quem paga é o tesoureiro”. Ele e o tesoureiro ficavam no Morumbi e eu no CT. Cortei empresários do CT. Falei: “não vem, pois eu não contrato ninguém. Tem que ir lá ao Morumbi falar com o presidente”. Um dia chegou a Torcida Independente querendo fazer reunião com os jogadores. Eu perguntei “para quê?”, “conversar o quê?”. Eu disse que se eles quisessem assistir ao treinamento, era só ir para a arquibancada, sem xingar, sem nada, se não mandaria os seguranças os tirarem de lá. Eu disse que se eles estavam achando que o time estava mal, o time iria ficar pior ainda, pois cancelaria o treino, cada um iria embora para suas casas. Perguntei o que eles estavam fazendo ali numa terça-feira, se eles trabalhavam, se só estudavam, pois os jogadores estão trabalhando. Nunca entraram, não deixava. Numa ocasião, íamos jogar contra o Rio Branco de Americana num sábado e estávamos concentrados. Naquele tempo, quase todo mundo ainda podia entrar. Tinha um conselheiro lá que levou o Neto e uns cinco amigos do Neto. O pessoal estava no campo, os moleques invadiram a concentração e começaram a jogar snooker. Uma barulheira. E rasgaram o pano da mesa. Dali em diante proibi a entrada de algumas pessoas no sábado. No sábado seguinte iríamos jogar contra o Guarani de Campinas. E saiu aquele negócio de que ninguém poderia entrar. Avisei ao chefe da segurança, um uruguaio: “Pablo, não entra ninguém. Só o presidente e os diretores de futebol. Fora disso, nem imprensa, nem torcida, nem ninguém”. O presidente do Conselho e a esposa vieram visitar os jogadores. Não entraram. Chegamos no Morumbi e tinha uns 10 conselheiros na porta do vestiário, e o presidente do Conselho estava lá. Ele incendiou tudo. Na porta do vestiário, para passar por eles, eu falei: “boa tarde, com licença”. Fechei a porta e eles ficaram lá fora. Empresário a mesma coisa. Tem muita gente ficou milionária. Nunca pedi nada para eles e eles nunca lembraram de mim. Ajudei muita gente que estava começando, que ainda são meus amigos, mas que profissionalmente nunca trabalhei com empresários.


A partir de tudo isso que você, porque todos consideram o São Paulo um clube diferenciado?

Ele já foi. O São Paulo tem duas épocas (e isso foi dito por um vice-presidente do São Paulo): antes do Minelli e depois do Minelli. Quando eu cheguei no São Paulo, nós mudamos tudo o que vinha sendo feito anteriormente. Um dia eu fui almoçar com um grupo que faz sempre o “Nhoque da sorte”, e o Serginho Chulapa, que jogou comigo, estava lá. Sabe o que fiz no São Paulo quando estive lá? O jogador entrava no campo 8h, treinava, almoçava no clube, descansava, voltava a treinar 15h30 e depois ia embora para casa. No começo, foi difícil. “Você tem que ir ao banco? Então vai depois do almoço e volta 15h”. Tive problemas no começo, mas no fim os próprios jogadores não iam embora, ficavam lá batendo bola. O problema do jogador de futebol é a hora ociosa. Aquilo que você enche de energia nele, ele joga fora, vai beber, vai fazer festa. As concentrações funcionavam assim: sexta-feira de noite chegavam os solteiros; sábado de manhã vinha todo mundo; e todos iam embora domingo, depois do jogo. O tempo todo que fiquei lá no São Paulo foi feito desse jeito. Tanto que quando o São Paulo foi campeão, ninguém acreditava que iria ser campeão. O time treinou muito e por isso que chegou.

Rubens Minelli foi o primeiro técnico a conquistar o tricampeonato brasileiro. Foto Equipe Ludopédio.

O senhor, como treinador, e consequentemente como membro de uma comissão técnica, viveu um momento de transição da filosofia do futebol no que concerne à preparação física dos atletas e às táticas de jogo (década de 60). Como, em sua opinião se deu essa transição e quais o senhor acha que foram os motivos para ela acontecer?

Eu peguei ainda a época do treinador que fazia tudo. Eu dava a parte física, eu treinava os goleiros. Quando fui para o América de Rio Preto, eu inclusive contratava o ônibus e o hotel. Eu fazia tudo. Era um manager. Naquele tempo era. Depois, quando eu cheguei no Palmeiras, lá já tinha um preparador físico. Até chegar no Palmeiras, passando pelo Guarani, que tinha sido meu último time, eu sempre fiz tudo. Era mais fácil. Do jeito que é hoje, a participação do treinador não é total. Antes, estávamos junto na ginástica, no treinamento de goleiros, no coletivo, no treinamento técnico. Hoje não. Tem treinador de futebol que não troca nem de roupa. Tem clube com dois preparadores de goleiros. Tem treinador que não faz nem a parte técnica, que é feita por assistente orientado por ele. Tem treinador que só troca de roupa no dia do coletivo. Na concentração, era só o treinador e os jogadores. Quando comecei, só tinha o goleiro reserva sentado no banco. Até o treinador ficava fora do banco. Depois, puseram o goleiro e o treinador. Depois, puseram o goleiro, treinador e mais um. E assim foi indo. Numa aula do Sindicato dos Treinadores pediram que eu falasse sobre a evolução da comissão técnica. Eu comecei a fazer pesquisa desde a década de 30. Na Copa de 1930, foi o treinador, um chefe de delegação, que era médico, e não tinha roupeiro. Naquela delegação tinha três pessoas e mais os jogadores que jogaram. As roupas iam num saco grande e cada jogador pegava a sua. Na Copa de 2002, a comissão técnica tinha 21 pessoas. 22 jogadores e 21 na comissão técnica. Na palestra me alonguei mais, falei de 1934, 1938, até chegar em 2002, pois a palestra foi em 2003. A participação do treinador passa a ser muito menor hoje em dia. E com esse agravante de que o treinador de futebol passa a ganhar muito dinheiro, fica ainda mais difícil. As coisas se modificaram, os valores são outros. Antigamente, você falar que um jogador era habilidoso, era aquele cara que driblava muito. Hoje em dia o habilidoso é o “Foca”, faz isso e aquilo com a bola, mas nada dentro do jogo de futebol. Até isso mudou hoje. O campo é muito grande, mas parece tão pequeno, que não sobre espaço. Os times têm um preparo físico astronômico. Por isso que esse garoto Neymar é um fenômeno. Espero que ele não se estrague, com aquele físico dele, jogando sempre de forma objetiva, procurando a área e o gol. O Lucas também é um garoto bom, mas ainda um pouco dispersivo. O outro já tem mais maturidade. Mas deve ter um grande futuro. Olha como são as coisas no futebol. Outro dia vi o Palmeiras jogar contra nove jogadores e acabou empatando o jogo 1 x 1. Não me conformo com aquilo, com a maneira que o time jogou. Não existe isso. Presta atenção: você tem 11 jogadores e a outra equipe tem nove jogadores. Para que ficar com quatro jogadores atrás? Para marcar um ou ninguém? Os outros oito estão defendendo lá com o goleiro. Se você fica com quatro atrás, mais um que fica na intermediária, são cinco no total. Sobram cinco jogadores de ataque para serem defendidos por nove jogadores? Dois para um? Fica difícil para fazer e concluir a jogada. Eu sempre usei esse sistema: quando meu time tem um a mais, ele pega o adversário no mano a mano. Sobra um para pegar a bola. Esse que pega a bola fará as jogadas que vai permitir que eu chegue na frente do goleiro e consiga chutar a bola em gol. Se eu estou com a bola e vem um adversário, já eliminei um, pois passei a bola para você. Esse toca para outro companheiro e elimina mais um. Com dois então, ah, não existe. Abre três de cada lado. Ou eles ficam livres, ou você elimina seis jogadores deles que terão de marcar. Jogou 45 minutos assim. É brincadeira. Não estou dizendo que o Felipão errou. O jogador é que não tem a pré-disposição. Ficaram tocando a bola de lado e devagarinho. Pô, vai marcar eles em cima. Cada bola que ganhar já gera um chute em gol. Se abre três de cada lado, se um ficar livre consegue chegar na linha de fundo. Não é isso? Vai sobrar espaço. É o que o Barcelona faz. Pega os dois jogadores de meio de campo e desloca para os lados do campo, puxando a marcação, pois são jogadores habilidosos, abrindo espaço para a chegada dos caras de trás. Na Copa de 1982, em que fui comentarista, qual era o esquema que o Brasil tinha? Nenhum. Tinha um monte de craques. Não tinha jogo pela ponta direita, pois não tinha ponta direita. Não tinha marcação, só cercavam. No primeiro jogo, ganhamos da URSS por 1 x 0, sendo que deixaram de marcar um pênalti para a URSS, pois o Luizinho pegou a bola com a mão. Ganhamos da Escócia de 4 x 1 no segundo jogo e estava duro o jogo contra o time ruim escocês. Todos sabiam jogar. O grupo de jogadores era muito bom, mas o time não era bom. Alguns dizem: “foi a melhor seleção…”. Foi nada. Jogamos contra a Argentina, foi um jogo muito igual e o Waldir Peres fez quatro defesas muito boas. O Maradona foi expulso faltando 4 minutos. Depois perdemos da Itália. Uma seleção que só sabia jogar de contra-ataque. Demos contra-ataque durante os 90 minutos para a Itália e jogamos pelo empate. Eu não estou culpando o treinador. E suas excelências, seu Zico, Sócrates, Falcão, não se mancaram? Entende? Outro dia, conversando com o pessoal de uma rádio que me telefonou, falamos sobre o Barcelona. Eu disse que o segredo do Barcelona não é o ataque, mas a defesa. Aqueles jogadores talentosos não deixam os adversários jogarem. Quando eles estão sem a bola, eles não deixam jogar. Todos eles marcam. Aqui é difícil fazer o jogador marcar. Aqui gostam de cercar. Assim, ou o adversário sofre uma falta, e você recebe um cartão, ou ele passa por você com a bola dominada. Se encostar nele, ele não recebe mais a bola. Nem encostar eles querem. Futebol brasileiro está assim. E as pessoas reclamam que o jogador perdeu o gol, chutou a bola. Mas não são esses detalhes que estão levando a uma queda de produção do futebol brasileiro. É difícil botar isso na cabeça dos jogadores, ainda mais com o dinheiro que eles estão ganhando. Os times que trabalhei, como aquele grande time do Internacional da década de 1970, marcavam na pressão. O goleiro adversário tinha sempre que chutar a bola para frente, pois não tinha para quem tocar. Era um time grande, forte, técnico e super aplicado tecnicamente. Foi um sucesso. Não podia dar outra coisa.


O que o senhor pensa da unificação dos títulos nacionais colocada pela CBF no início do ano, sendo que você foi o técnico campeão em 1969 pelo Palmeiras do Robertão?

Eu não sei, honestamente. Você me perguntou o que eu achei da unificação? Isso é uma imbecilidade que não tem tamanho. A determinação do nome não pode influir na conquista de um clube. Quando foram campeões, era o Campeonato Brasileiro, só que tinha outro nome. Eram 20 clubes. Como não reconhece, se foi a CBF que fez o campeonato? Foi um campeonato oficial. Eram 20 clubes divididos em duas chaves. Então foi campeão. Isso em 1969. O Palmeiras começou o campeonato com 9 pontos perdidos. Nós perdemos as quatro primeiras partidas e empatamos uma. Éramos o último colocado e fomos campeões. No ano seguinte, o Palmeiras perdeu a última partida e foi vice. Ficou invicto durante todo o campeonato e foi perder para o Flamengo do Rio. Em 1969, mesmo com os pontos perdidos no início, só não fui mando embora pois o gerente de futebol na época acompanhou o meu trabalho e me manteve lá. Ele enfrentou a diretoria do clube. Teve até uma reunião no clube. O gerente disse que não iria a uma reunião para dar satisfação ao cara que cuida da bocha no clube. Ele falava: “o cara da piscina, em vez de comprar cloro, vai lá perguntar por que não joga tal jogador”. Os dirigentes se reuniram para discutir e o gerente foi lá e disse: “parem, pois o treinador é esse e ele vai ficar. Se não vou mandar medir e calcular os custos de algumas obras que estão fazendo no clube e vou botar vocês na cadeia”. Em seguida, fomos jogar contra o Santa Cruz de Recife. Foi uma angústia. Mas perdemos os primeiros jogos porque naquele ano excursionamos para a Europa. Íamos retornar 10 dias antes do início do campeonato aqui no Brasil. Quando íamos jogar em Londres, fomos avisados que o campeonato iria começar três dias depois, mas 15 dias antes do que esperávamos. Tivemos que voltar. Chegamos num dia de manhã para jogar na noite do dia seguinte no Maracanã. Sabe o que fizemos? Deixei o pessoal ir para casa de manhã e eles se reapresentaram 19h no hotel, dormiram, e no dia seguinte alugamos três ônibus leito. Jogamos no Maracanã, perdemos de 2 x 0. No sábado, fomos jogar contra o Internacional em Porto Alegre. Perdemos de 3 x 0. Voltamos e jogamos contra o Cruzeiro. Faltando poucos minutos para acabar o jogo, o Tostão fez o gol e perdemos de 1 x 0. Depois jogamos contra o América do Rio. Estávamos ganhando de 2 x 0 no primeiro tempo. Começou a chover e o América empatou o jogo. Em seguida, fomos jogar na Bahia. O goleiro deles fechou o gol. Perdemos de 1 x 0. Depois fomos jogar contra o Santa Cruz em Recife. Faltando 10 minutos para acabar o jogo, ganhávamos de 3 x 0. Eles fizeram dois gols. Ganhamos de 3 x 2. Dali não perdemos mais. Curioso, não? Ganhamos o campeonato, mas foi difícil. Era o meu primeiro time profissional grande. Se eu fosse mandado embora naquele momento ruim, eu teria sido um treinador de times pequenos ou intermediários. Nunca tive problema maior com jogador de futebol. Sempre fui um cara, assim, sem concessões. Se eu tiver que falar, eu falo. Sempre fui assim. Quando estava no XV de Piracicaba trabalhei com o Rolim, dono da TAM, que começou a cuidar do clube. Eu conhecia o Rolim desde antes, quando utilizávamos os teco-tecos dele para viajar para os jogos. No XV, montamos um time bom. Mas tinha muito jogador problema. Depois das primeiras rodadas, agendei uma reunião com o Rolim para ver o que precisaríamos, pois não tínhamos reservas. Coincidentemente, no momento da reunião, estávamos em primeiro lugar. Eu falei que estávamos precisando de cinco jogadores. Rolim falou: “chefe, eu não tenho bala na agulha para ser campeão. Você que ser campeão, você está louco?”. Não tivemos substitutos e perdemos. Foi o que aconteceu. Um repórter me perguntou (e eu não sabia que tinha um microfone perto): “Se você fosse o presidente do XV de Piracicaba demitiria o treinador?”. E eu era o treinador. Respirei fundo e disse: “Se eu fosse presidente não mandaria o treinador embora. Eu só contratei o treinador porque vi que ele tinha qualidade e condição para trabalhar. Agora, se eu fosse o dono da sua rádio te mandava embora, pois você é um imbecil”. O cara gravou, mas não soltou a gravação. Porém, contou para todo mundo e o corporativismo da imprensa causou um alvoroço, falando que eu maltratei um decano do jornalismo esportivo de Piracicaba. Mas eu nunca abaixei a orelha. Fui bastante independente na profissão. Nunca tive a necessidade de ser subserviente. Sempre tive emprego, era funcionário federal. Minha família não iria morrer de fome. Isso me dava uma certa independência de resolver os problemas de uma outra maneira. Talvez, com dois filhos pequenos e a mulher grávida, eu tivesse abaixado um pouco as orelhas e engolido alguns sapos. Acho que essa independência me tirou da Seleção Brasileira. Eu ganhei todas as enquetes, fui quatro vezes campeão e não fui para a Seleção. Estive bem perto. Ninguém sabe, mas quando estive mais próximo foi em 1986. Eu estava no Corinthians, o Brandão era meu supervisor. Dentro daquela sutilidade de elefante dele (risos), nós fomos jogar um torneio internacional de verão na Vila Belmiro. Nessa época, começaram a falar que eu seria o treinador da Seleção. Antes de um jogo, eu estava fazendo a preleção, o Brandão entrou e disse que eu era o novo treinador da Seleção Brasileira. Minha contratação estava sendo referendada naquele momento na Federação Paulista. Eu disse que não sabia de nada. Logo depois, no Rio de Janeiro, confirmaram a volta do Telê Santana para a seleção. Aqui em São Paulo tinham resolvido que eu seria o treinador. Mas no Rio de Janeiro estavam convencidos que não.

Rubens Minelli conquistou três brasileiros de forma consecutiva. Foto Equipe Ludopédio.

Teve algum jogo inesquecível? Um jogo especial?

Um jogo inesquecível foi uma derrota. Um dos maiores jogos que vi. Foi Internacional e Cruzeiro em Belo Horizonte, 5 x 4, pela Libertadores da América. Perdíamos de 3 x 1, empatamos 3 x 3 e eles fizeram 4 x 3, empatamos 4 x 4 e no final do jogo o juiz argentino deu um pênalti que não aconteceu. Perdemos. Foi um jogo maravilhoso. Naquele tempo a Libertadores era feita de forma diferente. Era com o campeão e o vice. O primeiro adversário do torneio era exatamente o vice do campeonato que tínhamos ganho. Nunca esqueci desse jogo. Outro jogo que guardo é de quando eu era treinador do Grêmio e joguei contra o Internacional. É chamado de “Grenal do século” no Rio Grande do Sul. Perdemos o jogo. O Taffarel foi o melhor jogador em campo. Os dois gols que sofremos foram irregulares. Quando teve o centenário do Grenal me convidaram para ir lá. Treinei os dois times. Disputei 23 Grenais e perdi dois. O Taffarel pegou muito. Cristóvão, atual treinador do Vasco, jogava comigo. Jogava uma barbaridade. Uma belíssima pessoa. Um dos poucos jogadores que dá para guardar sem ressalvas. Torço para esse cara. Esse Alejandro Sabella, que hoje treina a Seleção Argentina, foi meu jogador no Grêmio. Um cara sensacional. Eu tive uns cinco jogadores argentinos, sendo três picaretas. Mas dois caras espetaculares: o Sabella e o centroavante Luis Artime. São dois caras maravilhosos. Eu sempre fazia reuniões coletivas com os jogadores. Nunca conversei com um jogador sozinho. Sempre foi na frente de todo mundo. Todos tinham direito de falar e ouvir. Reunia todos no centro do campo, longe da imprensa, para lavar a roupa. Mas sempre olho no olho.


O senhor acompanha e torce para a Seleção Brasileira hoje?

O futebol é muito difícil, principalmente ao entrar numa fase de renovação. O Falcão teve a maior boa vontade de fazer uma renovação e caiu. O Leão tentou fazer e também botaram ele para fora. Se só mantém os jogadores antigos, como fizeram Parreira e Zagallo, fica uma seleção enfadonha como vimos nesses anos. Acho que temos bastante tempo para montar uma equipe. Se bem que no Brasil, você tem que ganhar até treino. Se o time titular perde do reserva já querem te mandar embora por escalar o time errado. Eu sou um cara que estudei demais os outros times. Fui o primeiro a comprar um videocassete em 1978. Encomendei, mas foi um trabalho, pois eu não sabia que tinha que decodificar, pois nosso sistema era outro. Naquele tempo, transmitia um jogo e depois passava o vídeo do outro. Então eu gravava os jogos e ficava estudando. Quando o São Paulo foi campeão contra o Atlético Mineiro em 1977, sabe que horas eu fui dormir? 9h da manhã. Fiquei vendo quatro jogos diferentes do Atlético Mineiro. A partir daí eu fiz a estratégia do jogo.

Rubens Minelli dedicou a vida ao futebol atuando como Jogador, treinador, diretor de futebol e comentarista. Foto Equipe Ludopédio.