05.9

Rubens Minelli

Equipe Ludopédio

Jogador, treinador, diretor de futebol, comentarista… Rubens Minelli há mais de 60 anos vive aventuras dentro do futebol. Paulistano, teve uma curta carreira de jogador, destacando-se mais por suas conquistas como treinador de futebol em diversos clubes: Internacional de Porto Alegre, São Paulo F.C., S. E. Palmeiras, Paraná Clube, entre muitos outros. Primeiro treinador a ser tricampeão brasileiro (de forma consecutiva), é considerado um dos melhores técnicos da história do futebol brasileiro. Saiba mais nesta entrevista com o ‘poeta’ Rubens Minelli. 

O ex-treinador Rubens Minelli. Foto: Equipe Ludopédio.

 

Primeira parte

O senhor jogou profissionalmente tanto para o Ypiranga como para o Nacional-SP, times tradicionais do antigo futebol paulista. Como foi a sua carreira como jogador de futebol? Quais eram as características do jogador profissional naquela época?

Só passei a ser jogador profissional por causa de uma sequência de fatos que aconteceu. Meu pai gostava muito de futebol e jogou em tempos mais antigos, na época do Arthur Friedenreich. Depois, ele teve um fábrica de meias no bairro do Ipiranga e ele foi diretor do Ypiranga. Ele tomou conta das divisões de base. Eu sempre o acompanhava. Já jogava no Liceu Coração de Jesus, colégio em que estudava. Meu pai nunca tinha me convidado a ir para lá. Ele foi assistir a um jogo no Liceu, de pais e mestres contra alunos. Depois ele me chamou para jogar no infantil do Ypiranga. Fiquei no infantil e no juvenil, então comecei a jogar nos aspirantes. Depois fui para o juvenil do São Paulo em 1946. Quando saí do São Paulo em 1949, o Ypiranga me contratou como profissional. Foi meu primeiro time profissional. Fiquei uns três anos no Ypiranga. Na época, eu estava estudando Economia e era funcionário público federal, após passar num concurso para oficial administrativo dos Correios e Telégrafos. Não sobrava tempo, por isso fiquei um tempo fora. Numa ocasião no futebol de várzea, o Sul-americano do Bom Retiro, um time tradicional, pagou uma taxa e jogou contra o Nacional A. C. Joguei contra o Nacional, cujo treinador fora meu técnico no Ypiranga. Ele me levou para o Nacional e acabei jogando por lá mais dois ou três anos. Depois disso, quebrei a perna. Joguei ainda no Taubaté. Fui campeão pelo Taubaté quando a equipe subiu para a primeira divisão em 1954. Mas eu já estava formado e o futebol passou a ser um derivativo para mim. Não era meu objetivo. Depois que casei não joguei mais. Mas quando eu estava na faculdade, eu tinha quebrado a perna. Como não podia jogar, eu treinava a equipe, tomava conta. Era aquele negócio: leva as camisas e também escala quem vai jogar. Nós fizemos uma campanha muito boa. O Canhotinho da S. E. Palmeiras, Milton Medeiros, ponta-esquerda que jogou até na Seleção Brasileira, jogava junto conosco na faculdade. Depois de um tempo, quando eu nem pensava mais em futebol e jogava só na várzea de vez em quando, encontrei o Canhotinho e ele estava como auxiliar do Osvaldo Brandão no Palmeiras. Ele me chamou para ir trabalhar com ele lá nas categorias infantil e juvenil. Eu disse que não podia: estava casado, era funcionário público, já estava formado. Mas ele disse que eu iria ganhar um salário no clube. Apesar de todas as minhas atividades, consegui conciliar e fui trabalhar no infantil e juvenil do Palmeiras. Foi assim que comecei como treinador, entrei por acidente. Fiquei três ou quatro anos no Palmeiras, nas divisões de base. Numa ocasião eu era auxiliar do Armando Federico Renganeschi. O diretor de futebol, naquele tempo dos militares era um general, mas não lembro o nome, e o preparador físico era o Major Maurício Cardoso. O Renganeschi saiu após um jogo contra o Guarani de Campinas e me chamaram para ser o treinador. Mas eu disse a ele que teríamos que conversar, pois não dava para ser treinador com a quantidade de atividades que eu tinha. Não sei por quais motivos, quando chegou terça-feira, ele não me deu satisfação e apresentou o Maurício Cardoso como treinador. O Maurício Cardoso disse que militar era franco, falava cara na cara, olho no olho, e disse que eu não seria o auxiliar dele, pois não confiava em mim. Na hora, após um cinco minutos, ele falei para ele assim: “O senhor tem razão. Só que se eu fosse o treinador, o senhor também não seria meu preparador físico”. Fui embora. O Major não durou mais que dois meses. O Palmeiras então contratou o Geninho como treinador, que jogou no Botafogo do Rio de Janeiro, e eu voltei a treinar as divisões de base. Mas já pensava o seguinte: ‘aqui não vai dar para mim’. Eu era auxiliar do treinador, tinha sido técnico da seleção juvenil de São Paulo no campeonato brasileiro, fui vice-campeão (o máximo que podia alcançar, pois todos os campeonatos eram feitos no Rio de Janeiro, com inúmeras maracutaias). Fui tricampeão infantil e tricampeão juvenil no Palmeiras, com cinco ou seis jogadores maravilhosos que não eram aproveitados, pois tinha-se a ideia de que para jogar no primeiro time era preciso ter 25 anos. Hoje se joga com 16 anos, mas naquele tempo não tinha isso. Num dia em que meu juvenil estava jogando uma partida no interior, o presidente do América de Rio Preto estava vendo o jogo. Ele gostou dos nossos jogadores e armou uma estratégia (que ele me contou depois): contrato o treinador, ele traz também seus jogadores, depois mando ele embora e os jogadores ficam. Eu era chefe de seção nos Correios, estava em meu gabinete e chegou uma pessoa a mando do presidente do América para me contratar. Eu disse que não tinha a mínima condição de trabalhar. Dois dias depois, o presidente do América veio falar comigo e disse: “tenho uma solução. Peço sua transferência para a diretoria regional de Rio Preto. Você vai continuar trabalhando nos Correios e nós fazemos um contrato para você treinar a equipe profissional do América”, que estava disputando a segunda divisão. Conversei com a família, minha mulher estava grávida do terceiro filho, e decidimos ir para lá. Eles me trataram muito bem. Eu realmente levei cinco ou seis jogadores do Palmeiras para lá. Só que eles não esperavam que fosse acontecer o que aconteceu. Eu montei um time que foi campeão da segunda divisão, subiu para a primeira e ficou mais de 30 anos sem cair. Assim, minha carreira começou. Entrei por acidente e as coisas foram acontecendo e me tornei treinador de futebol.


Seu primeiro título como jogador foi com o “Gigante do Vale” (E. C. Taubaté). Comente um pouco sobre a importância desta primeira conquista e a projeção como jogador profissional.

Foi uma experiência muito boa. Quando joguei pelo Taubaté, estava fazendo faculdade de noite em São Paulo e trabalhava nos Correios. Eu só ia duas vezes por semana para Taubaté, terça e quinta-feira. Depois ia sábado de manhã para treinar, concentrar e jogar no domingo. Não era só eu. Tinha uns quatro jogadores do Palmeiras que faziam isso. O treinador não gostava desse tipo de coisa, mas quase todos eram titulares. Mas sempre que possível ele tirava do time um ou dois daquele pessoal que só ia de terça e quinta-feira. Era uma situação difícil. Só depois que passei a ser treinador eu percebi. O cara treina a semana inteira e que só vai dois dias depois joga? Numa ocasião, o Taubaté jogou contra o Comercial de Ribeirão Preto, um dos jogos para tentar subir. Meteu seis no Comercial. Mas colocou um jogador que estava sem contrato e depois perdeu os pontos. Daí ficou conhecido depois como “Burro da Central”, pois ganhava no campo e perdia fora. Estávamos perdendo aquele jogo de 3 x 0, e viramos o jogo para 6 x 3. Como o treinador tinha problemas conosco, quando estávamos perdendo de 3 x 0, ele meteu a boca no time: “mas também, com esse pessoal que só vem duas vezes por semana…”. O presidente disse que depois do jogo faria uma reunião para resolver esse problema. Nós fizemos seis gols e vencemos. Mas teve a reunião. O presidente veio jogando fogo pelas ventas, pois o treinador tinha ficado falando no ouvido dele. Todos ficaram ouvindo. Então eu cheguei para ele e disse: “o senhor me desculpe, mas está acontecendo um contra-senso aí”. Se nós estivéssemos ganhando de 3 x 0 e terminássemos perdendo de 6 x 3, ele poderia fazer esse discurso de que está faltando perna ao time, mas viramos o jogo, então estava sobrando perna no segundo tempo. Isso não era argumento. Mas o Taubaté acabou subindo para a primeira divisão.

Rubens Minelli foi o primeiro técnico a conquistar o tricampeonato brasileiro. Foto Equipe Ludopédio.

Seus trabalhos como treinador iniciaram-se na categoria de base da Sociedade Esportiva Palmeiras no final da década de 50.

Treinei o Palmeiras cinco anos: em 1958, 1959, 1960, 1961 e 1962.

Provavelmente você ajudou a formar uma das melhores equipes da década de 60 no futebol brasileiro. Como foi essa experiência?

O Palmeiras teve duas ‘Academias’. Participei da segunda Academia. Na primeira, tinha aquele pessoal: Ademar, Zequinha, Chinesinho. Na segunda, tinha Ademir da Guia, César, essa foi comigo. Quando eu trabalhava nas divisões de base, não se aproveitava jogadores jovens. Preferiam contratar. Tinha um problema na própria formação intelectual dos dirigentes. A meta deles não era pensar em termos de futuro. Viviam dentro da realidade do momento. Naquela ocasião, eu sentia a dificuldade de trabalhar nas divisões de base. Os materiais que nos eram dados eram usados, tudo o que sobrava dos profissionais. Então, via-se um garoto de 50 quilos usando a camisa do Vavá. Não precisava nem de calção. Mas era desse jeito. Num momento, percebi que estava na hora de pensar em alguma coisa. Fiz um projeto de Centro de Treinamento. Naquele tempo eu era também o treinador contratado pela Federação Paulista de Futebol para as seleções juvenis. Fiz um plano, pensei em todos os detalhes. Antes, aquela área onde o São Paulo e o Palmeiras têm centro de treinamento, era tudo do Palmeiras. Aquilo tudo era do Matarazzo. Nos tempos da Guerra, com medo de perder aquilo, Matarazzo deu para o Palmeiras. O Palmeiras tinha um prazo para fazer algo lá, não fez e perdeu. O São Paulo por meio da maneira que tinha, com força dentro do governo, conseguiu aquela área. E só depois o Palmeiras foi fazer o Centro de Treinamento. Então, eu levei o plano do Centro de Treinamento para o presidente e ele perguntou quanto iria gastar. Ele disse que com aquele dinheiro poderia comprar um craque, pôr para jogar e encher o estádio. (naquele tempo, o dinheiro que entrava no clube era arrecadação de sócio e venda de ingressos). O presidente disse que assim não teria dor de cabeça com moleques, que ficariam treinando dois ou três anos e depois não seriam aproveitados. Eu estava na Federação Paulista de Futebol, e o João Mendonça Falcão era o presidente. Ele foi como chefe da deleção conosco na disputa do campeonato brasileiro juvenil. Ele estava bravo, pois era corintiano e não tinha nenhum jogador do Corinthians na seleção. Ele falava para mim: “pô, não tem jogador do Corinthians…”. O Corinthians estava mal classificado na época, não tinha jogador para levar. Eu levei seis ou sete jogadores do Palmeiras porque tínhamos sido bicampeões e eu estava acostumado a trabalhar com eles. Mas tinha jogador do Santos, Juventus, Portuguesa etc. Eu falei para ele: “quando você tiver um tempinho, dá uma lida nesse negócio aqui…”. A ideia era que se a Federação topasse fazer aquilo, seria muito mais fácil conseguir um terreno com a Prefeitura. Depois, a Federação poderia montar o sistema e os jogadores formados ali poderiam ser cedidos ao clube e receberiam um determinado valor pelos custos do garoto. Ficamos 15 dias juntos, almoçando e jantando, e eu sempre cobrava: “Já leu? Não, ainda não li”. Um dia ele falou para mim: “ontem eu estava de saco cheio, peguei aqueles papéis que você tinha me dado e li aquilo…”. Perguntei o que ele tinha achado e ele disse: “eu acho que você é um poeta”. Hoje, 40 ou 50 anos depois, todos os clubes têm, aquilo que eu estava pensando muitas décadas atrás.

O senhor se sentia solitário nessas propostas de pensar o futebol de forma diferente? Tinha mais gente que partilhava desses interesses?

Não tinha. Eu digo até que existiam dois times que dopavam as equipes de jovens naquela época. Naquele tempo existiam pessoas com outro tipo de interesse nos garotos. Quase sempre a pessoa que trabalhava ali não era profissional, não ganhava dinheiro, ao contrário, até punha seu próprio dinheiro.


Você acha que sua formação acadêmica o ajudou a pensar dessa forma, diferente dos demais?

Quando comecei a trabalhar nos Correios, após um concurso, comecei a aprender. Fazia o pagamento de 6.000 funcionários de todo o Estado de São Paulo e de uma parte do Rio de Janeiro. Vinha da agência um atestado de frequência e essa frequência ia para o departamento pessoal. O departamento pessoal tinha 15 ou 20 funcionários. O trabalho nesse sistema me deu essa disposição de trabalho. Quando era treinador de futebol, sentia dificuldade com a má vontade nas divisões de base. Eu treinava de noite, era o tempo que tinha. Em certos momentos, não faziam questão de nem acender os refletores. O Parque Antártica antigo, que vocês não conheceram, não tinha o gol da entrada. Ali tinha uma arquibancada com uns vinte degraus, coberta com lata em cima. Entre essa arquibancada e o alambrado havia uns vinte metros de largura. Era ali que eu tinha que treinar os jogadores. Só entrava no campo para fazer o coletivo. Se estivesse chovendo não entrava. E eles não acendiam todas as luzes. Treinávamos bastante naquele pedaço escuro. Trabalhava assim, frente a toda essa má vontade. Era difícil. Comecei a pensar. Existiam muitos garotos bons. Mas muitos sumiam, ou iam jogar no interior, ou paravam de jogar, ou iam jogar na várzea. Existiam também campeonatos de ligas industriais, comerciários. Quando o jogador era realmente bom, arrumavam um emprego para o cara jogar nesses campeonatos. Aconteceu com muitos jogadores. Isso é que me deu vontade de fazer alguma coisa diferente. Não havia interesse. Hoje o jogador de futebol passou a ser moeda. Um moleque de 15 anos já tem dois procuradores, agente etc. É uma pena. Algo que aconteceu após a Lei Pelé e a Lei Zico. Elas tiraram a força dos clubes e deram força aos empresários. Hoje quem ganha dinheiro são os empresários e jogadores, e os clubes estão devendo, mais ou menos, 100 milhões de reais. O pior é que os clubes continuam a comprar jogadores, principalmente no Rio de Janeiro, onde não pára ninguém (risos). Não vou dar o nome e nem o clube, para não identificar, mas numa ocasião, antes de treinar o Palmeiras o presidente veio me contratar. Eles me ofereceram um valor e eu disse que não valia a pena nem sair de casa. Eu disse o quanto queria e o presidente falou: “eu pago”. Não fui para lá. Quando eu fui para o América de Rio Preto, clube bom, sólido, de uma região rica, mas o América estava com fama de mau pagador. Ficava muito difícil de trabalhar. Eu disse para o presidente que seria muito difícil contratar jogador, pois o clube tinha fama de mau pagador. O clube passou a pagar por quinzena e os jogadores de clubes de segunda divisão vieram todos correndo para Rio Preto. Levei cinco ou seis jogadores do Palmeiras, contratamos alguns jogadores e o América foi muito bem. No primeiro campeonato que o América disputou, chegou em quinto lugar, na frente da Portuguesa e do Santos. E com um time de moleques. Esses jogadores são meus amigos até hoje. Três anos atrás fiz 80 anos e para minha surpresa aparecem doze daqueles meus jogadores no meu aniversário. Eu consegui quatro títulos brasileiros e ao todo ganhei 19 títulos, mas o bom mesmo era trabalhar categorias de base. Sabe por quê? Quando você pega, é tudo perna de pau. Depois de poucos meses, dá para perceber que alguns levam jeito, já começa a ver a evolução. É tão gostoso ver que montou um time e ele começa funcionar. Trabalhar nas divisões de base é encantador. Isso naquele tempo, quando havia mais romantismo. Hoje existe o profissionalismo. O pai acha que o filho dele vai ser o Ronaldinho. Lembro até uma vez que um treinador das divisões de base de um determinado time me contou que tinha um jogador que não jogava nada, mas o pai era amigo de um diretor que colocou o jovem para jogar. Uma vez, o pai e a mãe de um jovem dispensado foram falar com esse treinador: “como você manda meu filho embora?”. Ele era um gozador e disse: “sabe o que é meu senhor? Vocês me desculpem, mas estou trabalhando aqui todo dia com esse pessoal. E quando seu filho chegou ele era muito ruim mesmo. Mas depois, ele foi piorando, piorando e piorando, e tive que mandar ele embora. Sabe quem era o treinador? O Pepe (risos). Ele é divertido.

Rubens Minelli conquistou três brasileiros de forma consecutiva. Foto Equipe Ludopédio.

Entre 1998 e 2003 o senhor vivenciou o ambiente dos cartolas, passando pelo São Paulo Futebol Clube, Clube Atlético Paranaense e Avaí. Qual sua avaliação de sua experiência como Superintendente de Futebol? Quais foram os maiores desafios?

Eu estava no Coritiba em 1997. Nós ficamos fora do Campeonato Brasileiro, pois se classificavam oito equipes. Depois fizeram um torneio com Vitoria, Bahia, São Paulo, Corinthians, Coritiba, Paraná etc., e o Coritiba ganhou o torneio. Entrou um outro presidente no Coritiba, com outras ideias. A cada dia chegava um novo jogador. Chegamos a ter nove jogadores no meio de campo. Comecei a criar problemas, falei que não queria mais jogadores. O presidente estava esperando acontecer alguma coisa. E aconteceu. Nós perdemos um jogo do Iraty, de virada, num sábado de carnaval. Depois vim para São Paulo, para minha chácara em Valinhos. Ligaram e me dispensaram por telefone. Falei para minha mulher: “parei, não vou trabalhar mais”. Aquilo machucou. Já tinha iniciado um trabalho com importação de vinhos italianos. Chega um dia e me telefona o presidente do Atlético Paranaense, Mário Petraglia. Ele veio em casa. Convidou-me para ser o superintendente do clube. Eles tinham o Abel Braga como treinador. A ideia deles era contratar um burocrata, sem precisar pagar um salário muito alto, e quando o treinador sair o colocam para treinar o time. Assim, ficaria mais barato. Quando acertei com eles, coloquei uma cláusula no contrato que o se o treinador saísse, eu não seria o treinador. Quando cheguei lá eu senti que não era fácil trabalhar com eles, sempre dando palpite, chegando gritando no vestiário. Isso machucou um pouco o Abel. Afastei todo mundo e pensei em começar tudo só eu e o Abel. Começamos a trabalhar. Assim, o Abel ficou mais tranquilo, o livrei de uma série de coisas, com menos entrevistas. Dei um tratamento de choque, não deixei ninguém ficar entrando no vestiário. O Atlético, depois de nove anos, foi campeão paranaense. E aí entramos no brasileiro. E naquele tempo, o Atlético Paranaense estava metido com maracutaia de arbitragem e havia sido eliminado do campeonato. Nesse tempo, tínhamos poucos jogadores. Formou-se um grupo de jogadores com metade do time do Paulista de Jundiaí. Começou o campeonato e começamos a pegar os times mais fortes. Nós perdemos as três primeiras fora. Então jogaríamos com a Ponte Preta, e depois teríamos três jogos em casa com times mais fracos. Mas jogamos muito mal com a Ponte Preta. Assim que acabou o jogo, dois entraram gritando no vestiário. Aí eu virei e disse: “olha só, vamos abaixar a bola que tá todo mundo de saco cheio, não jogaram nada e perderam o jogo”. No dia seguinte, em Curitiba, à tarde, me ligaram dizendo que tinha reunião às sete. Os dois vieram esbravejando dizendo que o time não tinha perna. Eu disse que discordava, mas mandei realizar um exame de suficiência física nos atletas, igual ao que havíamos feito no início do ano. Ninguém acima do peso, todo mundo inteiro, a semana havia sido muito desgastante, por causa da chuva e a sequência de jogos. Bom, peguei o resultado e levei pra discutir. Mas eles já haviam decidido. Iam mandar o Abel embora. Eu argumentei: “ele acabou de ser campeão faz um mês!”. Não teve jeito, e eu fiquei responsável por falar com o Abel pra comunicar a notícia. No dia seguinte, por volta das sete da manhã, indo a caminho do Centro de Treinamento, o Abel me liga no celular dizendo que havia sido dispensado por telefone já na noite anterior e que provavelmente “sobraria” para mim. Cheguei na minha sala, e lá pelo meio dia apareceu um diretor, um engenheiro que cuidava dessa parte no clube. Não era nenhum dos dois com quem eu havia conversado. Ele chega e diz que o novo treinador disse que não quer trabalhar com você. Eu respondi a ele que achava estranho, porque o meu cargo é quem define quem pode ou não pode ser o treinador. Como que chega um treinador no clube e demite um superintendente? O cara ficou sem resposta. Só pedi pra acertarem logo o que eu tinha que receber. Os caras me enrolaram oito dias ainda lá. Porque, por força de economia, meu salário era dividido em dois: uma parte por fora e uma parte por dentro. Aí vieram me pagar só a parte por dentro. Eu até tinha uma carta do contrato que fiz com eles que mostrava que eu ganhava tanto. Não sou peão de obra. Discutimos e acabei indo procurar meus direitos na justiça. No fim, pagaram até o ar que eu respirei, levaram uma ferrada lá que se um dia eu for lá me matam com metralhadora. Um dia o Carpegiani me liga, ele ia treinar o São Paulo, e queria que eu trabalhasse com ele. Ser diretor de futebol. Eu disse a ele que não havia problema nenhum. Quando eu saí do SPFC para ir para Arábia Saudita assinei um termo de compromisso que garantia que quando eu voltasse para o Brasil eu iria pro SPFC. E eu nunca fui procurado. Naquele tempo as coisas eram complicadas no SPFC. O conselho do SPFC era muito difícil. Queriam entrar no vestiário, viajar de graça, comer sanduíche dos jogadores. E quando eu estive lá eu cortei tudo. Eu falava pro Mario Juliato que era meu auxiliar: “Mario, bota esses caras tudo pra fora”. Eles tinham ódio de mim. Como eu fui campeão brasileiro, o maior título da história do clube até então, eles tiveram que me engolir, como dizia o Zagallo. Bom, falei com o presidente que vendia vinho, eu era importador de vinho, já nos conhecíamos. Combinamos que ele viria à minha casa para acertarmos. Vou mandar o diretor X, pois não posso ir, disse o presidente. O cara chegou aqui e já disse: só estou aqui porque o técnico quer que contrate você. “O treinador está com força hein?”, brinquei com ele. Eu dei o preço, ele argumentou e frisei: só quero o mesmo que recebia no Atlético. O cara levantou, foi no cantinho ali da minha sala e ligou para o presidente. Uma falta de educação, olha o preparo dos caras! Ele voltou e me disse: “teu salário é tanto, mas te dou bicho, prêmio igual ao do treinador e pago teu imposto de renda”. Ficava mais caro que a minha oferta. São esses os profissionais do futebol no Brasil! Bom, acabei ficando no SPFC um ano por causa do Carpegiani. Restavam apenas dois jogos para acabar o campeonato, e uma semana do meu contrato, mas não quis deixa-lo (Carpegiani) lá sozinho. Você acredita que um dos diretores que eu havia afastado me tirou do cargo uma semana antes do fim do meu contrato? Para mim foi uma beleza porque ainda me pagaram mais! O pior é que eu já sabia disso, sabe porquê? O genro de um amigo meu, que morava no meu prédio, no 14º andar, frequentava um clube também frequentado por um diretor do SPFC. Certa vez, esse diretor quis entrar no centro de treinamento e proibi a entrada, era uma bagunça. Chegava lá e encontrava cinco ou seis diretores no almoço, que era assim: entre 12h e 13h15, só os profissionais; entre 13h15 e 14h, só comissão técnica; depois das 14h ficava livre. Esse diretor conseguiu ser Diretor de Manutenção para poder entrar na hora que quiser no centro de treinamento. Uma ocasião, íamos viajar para os Estados Unidos e os alfaiates estavam lá para tirar as medidas dos caras para fazer os ternos. Faltavam dois dias para a viagem. Clube de futebol é assim. Sabe-se que em setembro de 2014 a equipe fará uma viagem; mais ou menos no dia 9 ou 10 de setembro de 2014 é que vão procurar fazer a roupa. É sempre assim. E aí, na hora de tirar as medidas, o jogador Dodô foi embora. Uma das moças que estavam tirando as medidas disse que ele não tirou as medidas, estava com pressa. Além dele, o Nem e um meia-esquerda que não lembro o nome. Na época, o Nem estava renovando o contrato. O empresário dele entrou em contato dizendo que queria acertar as coisas. Eu disse: “Já está acertado. Você ficar com ele. Ele foi embora, não tirou as medidas. Então está fora. Não vai renovar contrato”. Aí o Nem apareceu correndo lá e o outro que estava junto com o Nem também. Mas o Dodô não apareceu. No dia seguinte, o Dodô apareceu para treinar. Eu disse para o Carpegiani cortá-lo da delegação. Expliquei e ele disse: “então vou deixar esse cara de fora”. E o tal diretor começou a dar palpite: “como? vai deixar o Dodô aí?”. Quando estávamos reunidos para discutir a viagem, ele entra na sala e fala que devemos levar o Dodô. Aí eu não aguentei. Falei com educação: “estamos aqui para resolver esse problema, é responsabilidade nossa. Você pode fazer o favor de sair da sala?”. Não levamos o Dodô. O genro desse meu vizinho escutou ele falar umas coisas lá no clube deles e disse para eu tomar cuidado com esse cara. Ele conseguiu entrar como diretor na mesma época que eu saí, o que para mim foi bom, pois eles tiveram que me pagar uma multa. Você vê: para fazer o contrato me deram a mais; depois, na hora de ir embora, a mesma coisa. Teve outro detalhe: eu achava que não tinha que ganhar bicho, pois não jogava e nem tinha participação nenhuma. Só que o Carpegiani ganhava bicho dobrado. Estava no meu contrato ‘bicho e prêmio igual ao do treinador’, eles sempre me pagavam o bicho simples. Mas como eles iam me mandar embora, eu disse: “presta atenção nisso aqui, é o meu contrato, vocês estão me devendo bichos do campeonato, tenho que receber igual ao do Carpegiani”. Por isso, entrou ainda um dinheiro a mais. Quando fui para o Avaí, fui porque sempre tive o plano de fazer um centro de treinamento e o Avaí não tinha. Quando eles vieram aqui conversar, o presidente disse que queria fazer um centro de treinamento e falou que tinha uma porção de pessoas que iriam cooperar. Eu acreditei nisso. Fui trabalhar e o Adílson Baptista era o treinador. Gostei muito do trabalho dele, trabalha bem. De todos o que eu vi, o melhor de trabalho de campo foi do Adílson. A preleção dele é um pouco comprida demais, eu falei para ele isso. Ele mexe bem no time. O que ele passou com o Rivaldo, eu vivi em outra época com o Pedro Rocha. Ele estava com 35 anos, jogava no meio de campo, estava atrapalhando, pois não conseguia fazer a função, isso em 1977. Um dia me encheu o saco, não pus mais para jogar e fui campeão brasileiro. Mas era assim: “põe o Pedro Rocha”, “cadê o Pedro rocha?”. Fui campeão sem que ele jogasse um jogo, embora ele fosse craque. Até hoje encontro gente que fala que eu acabei com a carreira do Pedro Rocha. Com o Rivaldo acontece a mesma coisa. Os grandes jogadores de futebol nunca querem sair, não têm senso de autocrítica, acham que sempre devem ser endeusados. O treinador fica na corda bamba por causa destes detalhes.


Confira a segunda parte da entrevista no dia 23 de novembro.

 

Rubens Minelli dedicou a vida ao futebol atuando como Jogador, treinador, diretor de futebol e comentarista. Foto Equipe Ludopédio.