08.6

Samuel Valencia Gimenes

Equipe Ludopédio

A segunda entrevista desse mês é com o preparador físico Samuel Valencia Gimenes, que já atuou em diversos clubes brasileiros, principalmente do interior de São Paulo. Nos últimos anos, Samuel teve a oportunidade de trabalhar no futebol profissional do Egito e dos Emirados Árabes. Confira este e outros assuntos na entrevista abaixo. Boa leitura! 

 

Egito – Stadium Cairo. Foto: Arquivo pessoal.

 

 

Você tinha o desejo de trabalhar com o futebol desde o início do seu ingresso no curso de Educação Física? Como foi esse processo?

Sim, desde que iniciei o meu curso de Educação Física em 2002, vislumbrava trabalhar com futebol. Assim como milhares de garotos, também busquei realizar o sonho de ser futebolista. Iniciei jogando na minha cidade (Taquaritinga-SP), participando de escolinhas de base até chegar à equipe de juniores e participações na equipe profissional do C.A.Taquaritinga, onde me sentia cativado pela profissão de Preparador Físico e Treinador. Foi então que decidi concorrer a uma vaga no curso de Educação Física e me engajei na Unesp, campus de Bauru-SP, onde durante os cinco anos de curso obtive mais apreço pela profissão e mais convicção pela função de Preparador Físico, principalmente no futebol.

Em que medida o curso de Educação Física forneceu elementos concretos para a sua atuação profissional?

O curso foi extremamente importante, sendo responsável pelos pilares alicerçadores que compuseram e subsidiaram as bases de informações e conhecimentos, dando condições de iniciar e desvendar um aspecto um tanto quanto novo e proporcionar recursos para avançar e me estabelecer profissionalmente. Outro aspecto muito importante foi o corpo docente, muito competente, e os companheiros de sala, que muito contribuíram para enriquecer minha formação acadêmica e minha carreira.

Em algum momento houve algum tipo de resistência por parte dos demais membros da comissão técnica, jogadores ou dirigente quanto aos conhecimentos científicos implantados na preparação física nos clubes em que trabalhou?

Não houve necessariamente uma resistência no sentido de oposição, mas sim quanto a não se envolverem ativamente com a idéia e a necessidade, ou seja, entendiam e compartilhavam a importância e a relevância de tais aspectos, no entanto não buscavam proporcionar a realização de fato, ou tentavam “dar um jeito”.

Treino físico de Samuel Valencia Gimenes. Foto: Arquivo Pessoal.

Desde o início no Noroeste, você circulou por diversos clubes inclusive trabalhando fora do país. Havia algum tipo de parceria entre a Unesp de Bauru e o clube? Quais experiências foram as mais marcantes/satisfatórias?

Não. Não havia uma parceria de fato entre a Universidade e o E.C. Noroeste. Havia sim a necessidade de cumprir o estágio exigido pela Faculdade, e a partir dessa necessidade eu consegui participar da rotina do clube e que seguidamente me convidou para trabalhar junto à agremiação. Em seguida, eu comecei minha caminhada profissionalmente na função de preparador físico.

Como surgiu o convite para trabalhar no Egito e posteriormente nos Emirados Árabes?

Primeiramente, minha ida para o Egito se deu através da indicação de um amigo, Carlos Rogério, ao treinador brasileiro Carlos Cardozzo que já estava no Aswan S.C. e precisava de um preparador físico. Já para os Emirados Árabes (Hatta Club) se deu por meio do convite do treinador Sérgio Alexandre, com quem anteriormente tive oportunidade trabalhar junto no Brasil.

No Egito o futebol é um esporte, senão popular, é ao menos capaz de mobilizar grandes públicos. Um episódio como o massacre de Port Said do ano passado te surpreendeu?

Com certeza o futebol é o esporte número um dos egípcios, grandemente praticado pela maioria e também mobilizador de multidões. Realmente esse trágico episódio me surpreendeu devido à forma como tudo ocorreu e pelas dezenas de vidas que foram interrompidas de maneira absurda e violenta. O massacre de Port Said não pode ser esquecido pelo tempo, no entanto, a importância e a relevância que o futebol tem e proporciona àquele povo é que merece destaque.

A política conturbada do país interferiu de alguma forma o trabalho?

Não, pois nessa ocasião eu me encontrava no Brasil.

Apesar das inúmeras diferenças visíveis podemos falar que existe uma certa cultura futebolística, quase universal em alguns aspectos, tanto dentro e fora de campo?

Sim, a linguagem futebolística é universal, e se faz presente também nos países do Oriente Médio, por lá nota-se grande influência das grandes equipes européias e das grandes seleções do mundo na relação com as torcidas por tais equipes e seleções.

 

Samuel Valencia Gimenes durante o período em que atuou no Egito. Foto: Arquivo Pessoal.

Você sofreu algum tipo de preconceito pelo fato de ser brasileiro ou não muçulmano? Existem muitos brasileiros trabalhando nesta área no Oriente Médio?

Não. Não sofri nenhum tipo de preconceito devido à nacionalidade ou religiosidade. Ao contrário, pelos lugares por onde passei sempre fui bem recebido, sobretudo, quando me identificava como brasileiro. Talvez a maior dificuldade seja no processo de adaptação a qual temos que compreender seus usos e costumes e ao tipo de trabalho a qual estavam acostumados a realizar e gradualmente conseguir com que compreendessem a minha forma de trabalhar. Sim, há muitos brasileiros que trabalham nos países do Oriente Médio. No tempo em que lá estive pude conhecer vários brasileiros que compunham comissões técnicas e também jogadores.

Pelos clubes que trabalhou como foram as suas relações com os técnicos? Com quem trabalhou?

De uma maneira geral sempre tive ótimos relacionamentos com os técnicos com que tive a oportunidade de trabalhar em conjunto. Acredito que foi pela forma como estabelecia minha interação, através da comunicação e buscando fazer com que meu trabalho desse suporte à equipe que eles visualizavam e pretendiam. Trabalhei com treinadores como: Cezar Rizzo, João Ricardo, Sérgio Alexandre, Carlos Rossi, Play Freitas, Carlos Cardozzo, Emerson Alcântara, e atualmente com o Pinho.

Os técnicos se interessavam e opinavam na parte da preparação física?

Sim. A grande maioria dos treinadores não só se interessavam pela preparação física, como atribuíam grande importância a esse aspecto. Eles mais me solicitavam opinião do que propriamente davam opinião quanto ao meu trabalho na preparação física. Normalmente perguntavam e discutíamos sobre determinados treinamentos, sobretudo a exigência física em trabalhos técnicos e táticos.

Treino físico no deserto do Egito. Foto: Arquivo Pessoal.

Existe uma proposta interdisciplinar no futebol árabe? Ou seja, de integrar as ações do técnico com a proposta da preparação física, do fisiologista, do departamento médico etc?

Pelo que pude vivenciar e observar não vi essa proposta bem estabelecida pelos clubes que conheci. Essa tendência foi, pelo menos nos clubes em que trabalhei, por nós inicialmente implantada, mas não existia nada parecido anteriormente.


Os técnicos comentam com seus jogadores algo em torno das conhecidas discussões realizadas aqui no Brasil sobre o Futebol-Arte e o Futebol-Força? Isso aparece no treinamento dos atletas?

Não, os atletas nativos não têm essa visão e os treinadores locais pouco relatam ou discursam sobre isso. Esse tipo de embasamento não eram claramente apresentados nos treinamentos durante a temporada.


É possível identificar diferenças entre as escolas brasileira e a médio-oriental no que diz respeito à preparação física?

Sim, as diferenças são grandes, sobretudo quanto à forma das orientações metodológicas da aplicação das cargas de trabalho, bem como os meios de treinamento. Pude notar que os preparadores físicos locais utilizavam metodologias excessivamente fragmentadas sem um elo claro com a necessidade e especificidade técnica e sistemas e esquemas tático adotados pela equipe.

Samuel Valencia Gimenes no Stadium Cairo. Foto: Arquivo pessoal.

Como estão estruturadas as categorias de bases dos clubes que trabalhou?

As categorias de base existem, mas não são aproveitadas em sua totalidade, fato esse atribuído pela falta de maior incentivo e organização de se realizar um trabalho mais sistemático e de maior investimento no profissional, responsável pela formação de atleta e do próprio jovem. Nos países em que estive, sobretudo o Egito, nota-se um grande potencial em se produzir futebolistas, mas que se perde devido ao amadorismo e o empirismo que prevalece nas categorias formadoras e fomentadoras das equipes profissionais.


Como é o tratamento dos jovens estrangeiros?

O tratamento é muito respeitoso, aliado a uma grande cobrança, pois é devotada aos estrangeiros a grande responsabilidade de conduzir as equipes, pelas quais foram contratados, às vitórias e conquistas.


Dos lugares que passou, existe uma correlação entre a forma de jogar do time principal e as características de seus jogadores com a preparação tática e técnica dos jovens da base?

Sim, os clube possuem o time “B”, denominado Radifi, com o qual fomentam a equipe principal, que é orientado e direcionado a jogar na maioria das vezes igual ao time “A”, e essa seqüência é acompanhada pelas equipe de base.

Samuel Valencia Gimenes no Egito. Foto: Arquivo Pessoal.

Os jogadores criados no próprio clube têm espaço na equipe principal ou grande parte deles são contratados de outros clubes?

Os jogadores que compõem a equipe principal em sua grande maioria são formados nas categorias de base do próprio clube, e normalmente, mesmo após ter alcançado a equipe profissional, permanecem em seus clubes por várias temporadas até que sejam contratados por outras equipes.


Quais são os seus planos para o futuro? Você pretende em algum momento tentar a carreira como técnico?

Atualmente estou trabalhando no Fernandópolis Futebol Clube (Fernandópolis-SP), juntamente com o técnico Pinho, onde estamos preparando a equipe para essa temporada. Nesse ano e especialmente nesse clube, o desafio está um tanto quanto diferente, pois além de atuar como Preparador Físico, tal como vinha acontecendo, venho agregando a função de Auxiliar Técnico. Espero conseguir fazer o meu melhor, contribuindo efetivamente com a equipe, a comissão técnica e com o FFC. Não, atualmente não tenho a pretensão de tentar a carreira como técnico. Quero sim alçar vôos mais altos, mas através das funções na qual desempenho atualmente.