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Sebastião Lazaroni

Equipe Ludopédio

Lazaroni nos recebeu em sua residência no Rio de Janeiro. Em uma conversa franca ouvimos as histórias de um dos treinadores que foi acusado de mudar o estilo de jogo brasileiro. Eis a sua versão dos fatos. Nesta primeira parte da entrevista, Lazaroni fala de suas origens, da paixão pelo futebol, de sua atuação como goleiro amador, de sua formação acadêmica, de seu início como preparador físico e auxiliar-técnico até as primeiras oportunidades enquanto treinador. Fala, portanto, da primeira passagem pelo mundo árabe e do sucesso profissional no Flamengo e no Vasco, na segunda metade dos anos 1980.

Sebastião Lazaroni fala com a Equipe Ludopédio. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Lazaroni, como o futebol apareceu em sua vida?

Eu sou mineiro, natural de Muriaé. Meus pais vieram cedo para o Rio de Janeiro, eu tinha nove meses. Moramos em muitos lugares, mas o mais marcante para mim foi na Zona Norte do Rio, no Rocha, onde ainda naquela oportunidade se jogava pelada na rua. O gol era ou de um paralelepípedo, ou de uma pedra, ou entre um poste e uma parede. Era uma época em que as ruas não eram de asfalto nem havia calçamento. Jogava-se bola de gude, soltava-se pipa, jogava-se futebol… Isso foi criando uma paixão.

Desta paixão, eu acabei jogando futebol de salão na época – hoje futsal – à noite, num clube perto de onde morava. Primeiro no Garnier, depois no Magnatas. Estudando, também, tive a felicidade de passar para o curso de admissão para o Colégio Pedro II, em São Cristóvão. Ficava semi-interno, entrava às 7h00 e saía às 17h00. No colégio, ou na Educação Física, ou nos intervalos e recreios, a gente jogava bola, com bola de papel, bola de meia, com tudo o que era possível, com qualquer objeto que pudesse ser chutado. Jogávamos com bota, sapato, tênis… O noticiário de futebol no período era constante. A rádio dava a você, também, a possibilidade de uma imaginação de tudo o que era vivido dentro do campo.

Depois do ginásio, no Científico, a gente tinha uma flexibilidade maior. Estudava pela manhã e à tarde podia algumas vezes até sair. Então, foi aí que eu fui ser jogador, fazer teste no São Cristóvão. Fui aprovado… E o que fazer da vida? Eu gostava do esporte e fui por me decidir por Educação Física para continuar nesse prazer pela atividade física, fosse à noite, nos finais de semana, no São Cristóvão. Então, seria um prolongamento desse prazer a Escola Nacional de Educação Física. Em minha vida, o início da paixão, do praticar, do fazer laboratório, da linguagem da rua, do futebol de rua é que me levou depois, com a especialização na Educação Física, a me tornar um profissional do futebol.

Essa ação no São Cristóvão era no futsal ou no campo?

Era no campo. Eu cheguei a jogar, na nomenclatura atual, no juvenil e nos juniores no São Cristóvão.

Qual era a posição?

Eu era goleiro, tanto no futsal quanto no futebol de campo… A paixão acima de tudo pela bola era a grande fixação… não só minha, mas de milhares de brasileiros. E nós tínhamos a oportunidade antes do crescimento imobiliário de jogar em tudo quanto era lugar: em terreno baldio, na rua, em campos de pelada, em campos normais, em campeonatos. Aí que se deu dessa forma todo o prazer e minha paixão pelo futebol.

Mas aí você não chegou a… [se profissionalizar]

Não, porque aí eu tive que decidir no limite da categoria: vai se transformar num profissional ou vai fazer Educação Física? Eu optei por fazer Educação Física, que não era muito compatível porque Educação Física na universidade era sempre pela manhã. Então, ficava difícil. Aí eu abandonei os campos para me dedicar plenamente à Escola Nacional de Educação Física, à formação. Depois de três anos, fiz um ano de especialização em futebol… Que antes não existia. Hoje nós já temos a CBF ministrando curso de formação de treinadores. Antes só era feito pela universidade.

Nessa sua trajetória, com a universidade, já era um desejo de atuar como um…

De atuar dentro do esporte, dentro do futebol, fosse como um professor, um preparador. E assim aconteceu. Fui assistente de preparador físico, fui assistente técnico e depois, por uma naturalidade da vida, acabou acontecendo a oportunidade de dirigir e a fixação como treinador.

Em que momento que você teve a primeira oportunidade como treinador?

Fui preparador físico no profissional da Portuguesa, do Rio, fui preparador físico assistente do América, do Rio também, depois fui para o Flamengo. De lá saí de preparador e de assistente para ser treinador nos Emirados Árabes para as categorias de base. Depois voltei como assistente técnico para o Flamengo. Aí no Flamengo, em duas, três vezes assumi interinamente, até que uma hora me fixaram como treinador, me deram a chance e aí prossegui na carreira.

Nessas suas idas e vindas, antes de entrar no profissional do Flamengo, como surgiu essa oportunidade de você ir para o mundo árabe?

Eu trabalhava no Flamengo, na base e no profissional. Primeiro fui para a base, depois fui para o profissional, aí voltei novamente para a base. Havia uma importação muito de jovens para os Emirados Árabes, Arábia Saudita… Aí um clube nos Emirados, com nome homônimo, levou um treinador para a equipe principal e para a base. E eu fui como treinador para a base e depois também auxiliava os profissionais. Quando terminava o treino das categorias de base, eu me juntava à comissão técnica dos profissionais desse clube. E assim aconteceu. Quando eu retornei ao Brasil, surgiu uma oportunidade no Flamengo. Era para preparador, mas aí eu já disse: “Eu gostaria de ser auxiliar técnico, podendo até exercer essa função durante um período até que vocês contratem um preparador físico. Como já venho há três ou quatro anos investindo nisso, gostaria e me sinto mais confortável como assistente ou auxiliar técnico.”.

Isso foi em que ano mais ou menos, Lazaroni?

Isso foi em 1985, quando eu retornei para o Flamengo. Eu me formei em 1972. Essa caminhada de preparador e auxiliar se deu até 1985, quando fiquei como assistente técnico. Aí houve uma mudança de direção duas ou três vezes. No segundo semestre de 1985, eu acabei assumindo interinamente a equipe de profissionais do Flamengo. Chegamos a decidir ainda o Campeonato Carioca, que acabou com o Fluminense sendo tricampeão. Inclusive, pra mim, o jogo marcante da minha carreira é um Fla-Flu, numa quinta-feira, 1 a 1, com o gol de empate do Leandro saindo aos 45 do segundo tempo, praticamente. Ele pegou uma bola de bate-pronto e empatou o jogo. É marcante.

Já em 1986, eu assumi como treinador mesmo, não mais interino. Aí fomos campeões cariocas e se desenvolveu toda a carreira em cima disso… Esse sucesso inicial num clube de ponta como o Flamengo é que foi importante para mim. Depois houve uma mudança. Em 1987, eu fui para o Vasco e acabei batendo novamente campeão. Em 1988, novamente campeão. Aí saí para o Al-Ahli, de Jeddah, e de lá recebi o convite para a seleção brasileira.

Como foi para você esse sucesso tão rápido de 1985 para 1989, você retorna do mundo árabe e em quatro anos você está na seleção brasileira? Como você experimentou tudo isso?

É… Vou até usar uma frase que o Taffarel uma vez disse quando o convoquei para a seleção: “Pô, por que você não vai lá para o Internacional? Onde você coloca a mão vira ouro! Lá nós estamos vivendo uma grande dificuldade…”. Então, era um momento muito feliz, fértil, em grandes clubes, Flamengo, Vasco, com potencial, qualidade de jogadores. Isso proporciona a você a possibilidade de sucesso grande.

Voltando para essa experiência no exterior, era muito gritante a diferença desses futebóis, pensando do ponto de vista do treinamento, dos jogadores?

Sim. Bem relevante a questão porque um futebol amador, engatinhando, começando, e o outro, a paixão maior do brasileiro, um país vencedor, exportador, de ponta no futebol mundial. Mas servia também de experiência, convivência, construir e manter um nível alto de competitividade. Do início, da base à exigência máxima, que são os campeonatos no Brasil.

Sebastião Lazaroni. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Nessa estrutura brasileira, era possível ter essa questão com a base?

Como eu vinha da base, ela é sempre muito marcante para mim! Ao longo da minha carreira, na base estão os garotos que eu passei a fazer parte da vida deles, e eles da minha também, sendo jovens de talento. E tenho por… sucesso disso acreditar nas qualidades dos jovens. Acho que, se é bom jogador, independente de idade, tem que jogar, porque é o jogo que vai dar a possibilidade de crescimento, amadurecimento e de desabrochar toda uma qualidade. Muitas vezes, na base, você fica com dificuldade de medir até que ponto aquele potencial vai, se tem margem de crescimento ou não. Só o jogo que te dá essa resposta! É onde esse jogador tem as barreiras, as dificuldades, e tem que se superar, mostrar, amadurecer… Muitas vezes, cuidar de bem precoce mostra no jogo um amadurecimento de adulto, uma resposta de segurança em suas qualidades. Isso é importante. E valorizar isso, incentivar, dar a chance acho que é um dos baratos, uma das coisas mais gratificantes do futebol.

Mas nesse cenário atual, dando um salto para pensar hoje a estrutura do futebol brasileiro, você acha que essa ideia ainda se mantém em grande parte dos clubes ou ela é muito mais exceção, sendo alguns clubes que pontualmente apostam em um menino e botam ele para jogar? Ou eles preferem um jogador mais experiente que talvez não mude tanto o jogo?

Depende da política do clube. Alguns clubes já têm um histórico de ter na base as soluções de muitos problemas, do aspecto técnico, do aspecto econômico, financeiro, da possibilidade de uma venda, de uma saída. Agora, se a política de um clube for de grandes contratações, são portas que se fecham de oportunidades para os jovens da casa. Quando há uma saída, ou voluntária, ou por venda do clube, ou uma saída de decréscimo de produção aí aparece o jovem desde que haja investimento na base, dando oportunidades. Então, é muito decorrente da intenção do clube. Alguns clubes contratam muitos jogadores e ficam na obrigação de colocar esses jogadores para jogar. Então, a porta da oportunidade aos da base fica muito fechada. Quando, repito, se dá essa carência, aí a chance aflora.

Graças a Deus, o Brasil tem nos clubes uma célula de produção de valores importantes. Infelizmente, o Brasil enquanto país não tem uma política de esporte, ou de desporto. Até mesmo nas escolas públicas não há hoje uma obrigatoriedade, o que é uma lástima, da Educação Física. É uma lástima… Porque o povo precisa de exercício, se exercitar, de oportunidades para desenvolvimento físico e crescimento como ser humano total.

Voltando lá para os anos 1980, pensando em Flamengo e Vasco, em sua trajetória, você percebia diferenças em relação à essa valorização desses jogadores mais jovens? Ou eles pensavam muito parecido?

Era muito parecido esses dois grandes clubes. Como eu iniciei no Flamengo, na base, eu conhecia um pouco a ideia do clube e da própria torcida, e dos próprios jogadores daquele momento do Flamengo, que já eram consagrados, mas eram oriundos da base do clube. No Vasco, acontecia a mesma coisa. Então, era fácil, porque esses já consagrados davam a mão, protegiam e auxiliavam na transição do amador para o profissional, e isso facilitou muito. Isto é importante você ter no clube: jogadores consagrados, com qualidade e carinho para aqueles que poderão até sucedê-los.

Pensando ainda nessa dupla, quem eram os presidentes e dirigentes de Flamengo e Vasco?

Nesse Flamengo, inicialmente, era o Hélio Maurício e o diretor de futebol, Ivan Drumond. No Vasco, o Antônio Soares Calçada, presidente, e o Eurico Miranda, vice de futebol.

O Eurico é um grande personagem do futebol e do Vasco, especialmente, e também muito controverso. Muitos falam que ele interfere diretamente nas ações dos treinadores. Como foi sua relação de trabalho e de concepção com o Eurico?

Maravilhosa! Porque… assim como ele, eu também estava iniciando. A busca de um grande trabalho era importante para o prosseguimento de minha carreira. Para ele, como dirigente também. E isso, também no Flamengo, quando assumi interinamente, era final de mandato de uma gestão, a do George Helal. Ele que me deu a oportunidade no profissional. Ele, que sempre ajudou e contribuiu, até economicamente, dentro do seu particular para o Flamengo, ia sair como presidente sem títulos. Acabamos eu com ele conquistando o título de 1986. Depois entrou o Márcio Braga, em 87. No Vasco, não. O Calçada já era um homem consagrado, vitorioso em outras passagens, mas o Eurico, não. Isso acabou acontecendo também. Então, naquele momento, posso dizer, tanto com o Eurico quanto com o Helal, que foi tranquilo trabalhar com eles. Eles me davam apoio, suporte em alguns momentos.

Isso é fundamental para o treinador. A possibilidade de sucesso está aí: esse trabalho conjunto, protegendo, blindando em determinados momentos e situações. Apesar de hoje ter uma pressão muito grande, muito maior do que anteriormente. Poderia dizer que havia, assim, um pouquinho mais de paciência para o desenvolvimento do trabalho. Hoje a exigência é… grande demais. E a cobrança… nem se fala. Muitas vezes, você não tem tempo. Se você analisar hoje o futebol brasileiro, com a sequência do campeonato nacional é difícil treinar uma equipe. Você recupera uma equipe entre um jogo e outro, porque quarta-domingo, quarta-domingo… Muitas vezes em um mês você faz oito jogos. Às vezes num espaço de dez dias, você faz quatro jogos. Isso é… difícil para o treinador. E vida de treinador não é fácil.

Nessa passagem de um clube para o outro, como foi visto isso entre as direções? E os jogadores, te apoiaram, mesmo sendo um treinador que veio da base?

Em todo trabalho, é fundamental que uma base de jogadores e todo o grupo – tem núcleos importantes nas decisões, nos caminhos – comprem a tua ideia e passem também a abraçar essa ideia e caminhar juntos. Sem caminhar juntos é difícil ter sucesso. Muitas vezes, trocas e trocas, e convencimento… Muitas vezes a dificuldade do futebol mexe com um número grande de pessoas, muitas vezes com problemas particulares, problemas pessoais da própria atividade, ou seja, desgaste, rodagem, lesões, contusões ou não produção momentaneamente, o que gera um turbilhão de pressões midiáticas, pressões por mal resultados… Isso mostra quão complexo é o mundo do futebol.

Em breve a segunda parte da entrevista estará disponível.