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Silas (parte 2)

Equipe Ludopédio

Paulo Silas do Prado Pereira foi um dos principais jogadores brasileiros entre as décadas de 1980 e 90, atuando em vários clubes: São Paulo, Sporting de Portugal, Sampdoria-ITA, Internacional (RS), Vasco da Gama e San Lorenzo-ARG. Fez parte da equipe conhecida como “Menudos do Morumbi”, comandada pelo treinador Cilinho. Silas fez parte da seleção brasileira campeã da Copa América de 1989 e foi o camisa 10 do Brasil na Copa do Mundo da Itália, em 1990. Após encerrar a carreira como jogador, atuou empresário de jogadores e treinador de futebol (Grêmio, Flamengo, Avaí, Ceará).

Foto: Sérgio Giglio

Silas. Foto: Sérgio Settani Giglio.

PARTE 2

Silas, pensando um pouco essa questão dos treinadores. O Telê tinha uma proposta de um jogo bonito, mas que não ganhou. E o Lazaroni, com um jogo feio, sendo massacrado pela imprensa. Antes dele, o Falcão ficou pouco tempo no comando da seleção, também sendo muito criticado pela falta de resultados. O Leão também. Teve uma série de treinadores nesse período entre 1986 e 1990. Como você avalia, pensando nos dois que vão ser os treinadores em Copas, o Telê e o Lazaroni, a proposta de jogo deles? Como eles desenvolveram isso com o grupo? Era algo compartilhado ou eram ideias de jogo pessoais deles? Eles escutavam vocês? Se escutavam, quem eram esses jogadores com quem conversavam?

Com o Telê, ainda se utilizava aquele 4-4-2, aquele quarteto no meio de campo com dois volantes e dois meias, e dois atacantes, que eram o Müller e o Careca. No começo, tinha sido o Careca e o Casagrande.

Já o Lazaroni optou pelo zagueiro. Eram três zagueiros para dar uma consistência maior para o miolo da zaga. Abriu o Jorginho em uma ala e o Branco na outra. Um volante só, que era o Dunga. Com três zagueiros, você não precisa de dois volantes. E usou o Alemão como um meia. Eu acho que a gente sofreu um pouco mais, porque o Alemão, sendo um volante, não tinha aquelas características de um meia. Se bem que, naquele jogo em que caímos fora contra a Argentina, ele jogou muito bem! Deu uma bola na trave. O Alemão tinha uma ida e volta muito boa, era um dos melhores fisicamente na parte atlética.

Então, foram sistemas diferentes, mas, em se tratando de seleção brasileira, a gente costuma dizer que qualquer sistema funciona bem se você tem bons jogadores. Se você não os tem, pode ser o sistema que for, que não funciona. Você vê um sistema funcionando, o sistema, mas, quando precisa da individualidade, ela não aparece. Quando um cara chega cara a cara com o goleiro, perde o gol.

Eu fui técnico do Novorizontino, em 2017, no Campeonato Paulista. Nós nos classificamos para as quartas de final e pegamos o Palmeiras, que era o melhor elenco do Brasil. Nós saímos na frente em Novo Horizonte. Tivemos cinco chances de gol e fizemos um. O Palmeiras teve três e fez três. Quer dizer, aí aparece a qualidade. O Tite, quando esteve o Corinthians, falava muito isto: “A qualquer momento vai aparecer o gênio: o Rodriguinho, o Jadson…”. Num momento em que ninguém espera, ele aparece. Por exemplo, no jogo do Real Madrid contra o Liverpool, equilibradíssimo, o Bale dá uma bicicleta daquela. Aquilo ali é fora da curva. Juventus e Real Madrid, o Cristiano Ronaldo faz um gol de bicicleta daquele. Quer dizer, fora to-tal-men-te daquilo que se imagina.

Em seleção brasileira, o Telê optou por qualquer momento aparecer o gênio, e o Lazaroni optou por um jogo um pouco mais defensivo, mas ainda assim com jogadores de muita qualidade. E era o caso mesmo do Careca, do Müller, do Romário, do Bebeto, da maioria. Mas não deu certo.

Mas eles eram abertos ao diálogo com vocês no sentido de interferirem no modo de jogar da equipe?

O Telê, menos. Até por já ter dirigido uma seleção. Os jogadores já sabiam mais ou menos o estilo, o que ele pensava. O Laza era mais aberto, já dava maior liberdade para a gente dialogar, conversava mais. Ele vinha de uma conquista importante que era a Copa América. Então, ele também estava com prestígio. Quando foi para a Copa, foi com prestígio, as pessoas estavam confiando no trabalho dele. É que a gente esbarrou numa Argentina mais sortuda do que merecedora por mérito.

Depois disso, você teve outras chances nas Eliminatórias de 1994?

Eu fui até 93, com o Parreira, quando nós jogamos contra a Argentina, em Buenos Aires. Empatamos em 1 a 1, um gol do Mancuso e outro do Luís Henrique. Mas ali eu já estava com problema no púbis. Foi quando o Zagallo veio conversar comigo, perguntou como eu estava e tal. Ali foi meu último jogo. Nós jogamos contra a Alemanha, no Beira Rio, ganhamos de 3 a 1. Eu joguei muito bem, fui o melhor em campo, mas aguentava 45 minutos ou um pouquinho mais. Então, eu também não podia ser desonesto com ele, trazer para mim, ir de qualquer jeito só por ir. Ali foi quando encerrei meu ciclo pela seleção brasileira.

Você já não tinha tanta expectativa de ir para a Copa do Mundo de 1994?

Para a de 94, já não. Em 94, tinham surgido outros jogadores que estavam muito bem. O Giovanni estava muito cotado. Inclusive, acho que ele foi e depois foi cortado. O Raí estava muito bem. O Mazinho estava jogando no meio e estava muito bem também. Então, ali já apareceram outros atletas… Brasil não tem como, né?! Tem muita gente.

Silas, os anos 1980 marcam a ida dos grandes jogadores brasileiros para fora, para a Europa. No começo mais com esses jogadores de seleção mesmo, depois qualquer promessa que surgia já ia para fora. Como foi para você? Como surgiu a proposta de ir para Portugal para jogar pelo Sporting? Complementando, tem uma fala do Carlos Alberto Silva, falecido treinador, em 1988, quando estava na seleção olímpica, em que disse: “Não tem sentido algum convocar uma seleção brasileira com jogadores que atuam no exterior.”. Isso chegou até vocês que estavam nesse processo de saída? “Se eu saio, sumo da seleção?” Era uma questão colocada ou era só uma frase perdida num jornal lá nos anos 80?

Na verdade, o treinador não tem esse poder, mesmo se quisesse. Porque envolve CBF, envolve… respeito. Jogador que está jogando na Europa tem muito mais respeito da arbitragem, da FIFA. Então, se você leva só jogadores que estão jogando no Brasil, a representatividade fica muito pequena. Numa falta, numa disputa, infelizmente. Ronaldinho Gaúcho, Barcelona. Paulinho e Philippe Coutinho, Barcelona. Casemiro, Real Madrid. Pesa muito isso diante de uma arbitragem. Não é que o cara vai favorecer o Brasil, mas um jogador desses tem um peso muito grande e é muito respeitado também.

No nosso caso, tinha a ver também a parte financeira. Não era uma questão só da nossa vontade. O clube também queria que a gente saísse para poder receber o dinheiro… No meu caso, o Juan Figer, que era meu procurador na época, falou:

— Silas, eu acho mais interessante a gente ir para o Sporting.

Porque o Torino queria o Müller e eu, tanto que eles levaram o Müller. Mas o Torino tinha quatro estrangeiros. Um ia ter que ficar de fora, só podia três. Então, comigo iam ser cinco. O Juan Figer argumentou:

— Se você for para lá e de repente não jogar, vai ser um ano perdido. Ao contrário que, se você for para o Sporting, além de jogar a Copa UEFA, vai ser titular, vai entrar na Europa por um país de fala portuguesa e a culinária portuguesa-brasileira. Então, sua adaptação na Europa vai ser muito mais fácil!

— Eu – falei – acho também. Quero jogar a Copa UEFA!

Aí fui para o Sporting e fiquei um ano só. No ano seguinte, já fui para o Cesena, na Itália. Assim, o Juan Figer, com sua experiência, acabou facilitando muito o caminho para mim.

Você jogou Liga dos Campeões tanto pelo Sporting quanto pela Sampdoria depois, não foi?

Joguei, joguei. Pelo Sporting, nós caímos fora para um time da Espanha… Naquela época, era UEFA Champions League. Depois ficou só Champions League e UEFA Cup. Jogavam a UEFA Cup o terceiro, o quarto e o quinto colocado de cada país, enquanto que a Champions League jogavam o primeiro e o segundo, mais uma vaga caso um time do país fosse campeão. Para mim, foi uma experiência muito… Eliminamos o Ajax! Que era o Real Madrid de hoje. O Ajax era o grande time copeiro de Champions League, UEFA Cup e tudo. Pelo Sporting, nós eliminamos o Ajax.

Teve um fato muito interessante que o dono de uma marisquería em Portugal me chamou e falou:

— Ó, se ganharem do Ajax, pode vir todo mundo aqui!

Nós éramos em nove brasileiros mais o Rodolfo Rodríguez, goleiro uruguaio.

— Como assim “todo mundo”? – perguntei.

—Todo mundo com as esposas. Vocês podem vir comer lagosta, camarão…

Tinha uns aquários gigantescos na marisquería com as lagostas gigantes. Falei:

— Você tem certeza que não vai cobrar nada?

— Não.

E nós eliminamos o Ajax. Nunca passou pela cabeça dele que a gente fosse eliminar o Ajax. Rapaz, acho que ele fechou o restaurante dele depois que nós fomos lá! O que os caras beberam de champanhe, uísque, comeram lagosta e não sei quê… Se ele não fechou, não apostou nunca mais com algum brasileiro. Para nós, brasileiros, pode ser Ajax, pode ser Barcelona, a gente pode ganhar e pode perder, mas nunca tivemos medo de nada disso. A gente ia jogar! Eliminamos o Ajax com um gol que eu fiz de cobertura, que foi um golaço. O Menzo era o goleiro do Ajax, goleiro da seleção holandesa. Então, teve uma repercussão bem grande aquela vitória.

Foto: Sérgio Giglio

Silas durante palestra na Unicamp. Foto: Marcel Diego Tonini.

No fim, você acabou ficando pouco no futebol italiano, que na época era a grande vitrine do futebol mundial.

Essa foi assim… Se você me perguntar “Você tem alguma amargura?”, vou responder “Essa foi uma.”. Porque, se eu tivesse na Itália a mesma cabeça que eu tinha quando fui para a Argentina, talvez teria ficado na Itália a minha vida toda. Só que, também, não seria campeão com o San Lorenzo, né?!, como fui… Na Itália, eu aceitei muito a reserva, o sistema italiano. Mesmo tendo sido campeão da Supercopa, tendo ido à final da Champions com a Sampdoria jogando muitos jogos, poderia ter sido melhor ali, poderia ter sido melhor… Mas ali acho que faltou um pouco mais de… de querer vingar lá e não aceitar tanto, sabe?, as coisas que aconteceram lá. Eu estava vivendo lá na Europa, mas não estava com aquele pensamento: “Meu objetivo aqui é vencer. Vou vencer e ponto final!”, como foi na Argentina.

E a vida fora de campo? Como foi sua integração social? Já era casado? Foi com sua esposa para lá? Como foi essa lado?

Quando fui para Portugal, eu já estava casado. Eu me casei com 22 anos, a Eliane, 20. A gente foi muito jovem para lá… Foi o melhor que aconteceu, porque, quando você está com a família, tudo fica muito mais fácil. Ela aguentou uma barra bem pesada, porque imagina uma menina de 20 anos sair do Brasil e ir para Portugal, Itália, Japão, Argentina, para todos os lugares que a gente foi. Hoje eu falo que… mais do que 70% do sucesso que a gente tem como família é devido a ela ter sido pai, mãe, ter aguentado a barra. No fim de semana, eu ia jogar, e os casais iam para os lugares juntos, marido e mulher. Ela não, ela ia sozinha com as crianças. Então, ela suportou uma barra… que pouca gente suportaria. Mas hoje ela está feliz e colhendo os frutos de todos esses sacrifícios. Eu, também, não menti para ela. Quando a gente começou a namorar e viu que ia casar, falei:

— Olha, meu objetivo é ir para a Europa. Você quer ir comigo?

— Quero. – respondeu.

— Você vai aguentar uma barra lá, que vai ficar sozinha.

Ela reafirmou:

— Quero.

E aguentou mesmo. É filha de italiano, né?! Hoje, os meninos todos têm passaporte italiano, ela tem também, eu estou tirando o meu, e a minha nora também… Ela é bem parecida com a mãe, que tem 90 anos e faz tudo. É uma máquina de comandar uma família! O pai é falecido, mas a mãe é… Por conta de ter ido ao programa ontem, estou até levando uma camisa do Raul Gil autografada para ela. Ha ha ha… Uma camisa da seleção brasileira autografada pelo Raul Gil!

Na Itália, você esteve em que ano mesmo?

1990 e 1991. Depois da Copa do Mundo, na Itália, eu já fiquei para jogar no Cesena. Fiquei, 90, 91 e praticamente 92. Deu uns dois anos e meio que eu fiquei na Itália.

Quando veio o caso Bosman em 1995, você estava em que lugar do planeta?

Estava no San Lorenzo.

Então, não afetou tanto essa questão?

Não, não. Teve uma repercussão muito grande lá na Europa, mas a gente na Argentina não. Quando aconteceu a situação do Bosman, a gente tinha sido campeão argentino depois de 22 anos! Para mim, aquilo ali foi… Quase nenhum brasileiro teve sucesso na Argentina! Então, o fato de eu ir à Argentina, ser campeão depois de 22 anos… Recusei uma proposta do Japão de muita grana! O Kashiwa Reysol queria formar lá no Japão o ex-trio do São Paulo: Careca, Müller e Silas. Eu recusei porque o presidente do San Lorenzo falou para mim:

— Silas, se você for embora, a gente não vai ser campeão argentino! Aí o Ruggeri também vai ter que ir embora. E eu estou reforçando o time para ser campeão. Então, fica!

— Vou ficar.

E fiquei, e a gente realmente foi campeão. Eu jogo pelo máster do San Lorenzo até hoje! Quando eu vou à Argentina… Faz vinte anos que saí de lá, e está louco! Parece que saí de lá há uma semana.

Como você analisa esse trânsito por Portugal, Uruguai, Itália, Argentina, Japão? Como pensa isso sendo um brasileiro no exterior, um jogador de futebol? Como essa dimensão interfere de algum modo na relação com sua esposa, na sua vida fora do futebol? Sobretudo, talvez, na Argentina, pelo fato de ser brasileiro e receber o apelido de “El negro” por parte dos torcedores do San Lorenzo?

Eu acho que o primeiro lugar que afeta é na autoestima. Quando você consegue falar no idioma da pessoa, quando você consegue se adaptar à comida deles, ao clima deles, quando você se veste como eles, os caras falam: “Pô! Esse cara não veio aqui levar nosso dinheiro embora somente. Está desfrutando de estar aqui.”. E você passa a entender que consegue se comunicar em qualquer lugar do mundo em que for! Porque você fala o idioma dos caras.

O Alex Dias Ribeiro, que sempre foi um mentor para mim, falava: “Silas, se você tocar um violão, se falar inglês e se jogar futebol, você não ficará a pé em lugar nenhum do planeta! Se você subir num banquinho, pegar uma bola de futebol e petecar essa bola, abrirá uma escolinha de futebol em quinze minutos. Se você pegar um violão e cantar uma música dos Beatles, em qualquer lugar do planeta os caras vão saber o que você está falando. E se conseguir falar inglês, então…”. Por isso meus filhos foram alfabetizados em inglês. Em inglês e em espanhol! Hoje falam três, quatro idiomas. A questão da cultura lá fora… de música. Os três tocam piano! O mais novo toca piano muito bem, canta.

Quer dizer, isso daí para filhos de brasileiros, por saber de onde eu venho, por ver como a minha vida se desenvolveu, com perda de mãe, bronquite, poucas possibilidades, e de repente ver minha estudando na quarta melhor universidade do mundo, que é Cambridge, você fala: “Pô! Que que é isso!”. Além de, logicamente, ser muito presente de Deus, é muito você saber subir no trem e não descer dele. É o que a gente costuma dizer aqui: “Cavalo arreado passa uma vez só!”. Então, é saber aproveitar essas oportunidades e encarar. E o brasileiro tem muito disso, né?! Você vê brasileiro em qualquer lugar do planeta! E os caras se adaptam mesmo, vivem, não tem muito tempo ruim. É o Ayrton Senna que dizia: “Eu sou brasileiro.”. O Ronaldo Fenômeno também: “Eu sou brasileiro.”. Eu acho que essa coisa de brasileiro ser casca grossa ajudou muita gente.

Hoje é até comum na imprensa vermos casos de racismo e xenofobia serem noticiados, diferentemente da sua época, até por outras entrevistas que nós fizemos. Você dentro de campo e seus familiares fora vivenciaram algo desse tipo tanto lá na Europa quanto na Argentina, onde você atuou por mais tempo?

Nunca, nunca. Eu, particularmente, sempre fui muito bem resolvido com relação a isso. Então, nunca me incomodou de maneira nenhuma. Ah, nunca sofri, de nenhum tipo. Uma vez na Itália eles fizeram uma pesquisa com italianos para saber se eram a favor ou não dos estrangeiros, e deu lá 80% contra. Mas não eram estrangeiros brasileiros, eram estrangeiros. Eles eram contra os estrangeiros lá na Itália, mas o futebol italiano sem os estrangeiros não ia vingar, não tinha como, eles não iam chegar a esse patamar que chegaram. Mas nem isso!… Porque eu aprendi que o lugar quem faz é a gente. Então, se você se adaptar ao idioma, ao país, à comida, rapidamente você entra no coração das pessoas. E o futebol acaba sendo sempre uma ilha em qualquer lugar do mundo.

Você vai à Alemanha, por exemplo, que é um país mais frio, um país em que o próprio alemão, por conta do que sofreram com o nazismo e aquela coisa toda, eu não sei se eles têm um pouco de vergonha do Hitler ter sido um austríaco que conseguiu entrar no país e convencer os caras de uma coisa que no fim deu tudo muito errado, mas eles quando você fala de futebol… Basta ver a Alemanha aqui na Copa do Mundo de 2014, com o Neuer sambando na praia, eles foram para a Bahia, fizeram da Bahia um lugar, assim, deles, eu acho que isso tudo… Eu não sei se todos os esportes têm, se conseguem essa abertura, se fazem um cara fechado sorrir. O futebol consegue.

Então, você conquista as pessoas com o futebol, com performances de alto nível, mas você conquista também com estilo de vida, sinceridade, honestidade, lado família. Porque família é família em qualquer lugar! Esposa de jogador e filhos sofrem todos os mesmos problemas. E elas acabam se juntando. E o brasileiro consegue abraçar melhor, consegue trazer para perto e até ajudar nos problemas de uma forma, assim, desinteressada, mas não menos eficiente.

Foto: Sérgio Giglio

Sérgio Giglio apresenta o ex-jogador e treinador Silas. Foto: Marcel Diego Tonini.

Você falou a questão da língua de ser uma porta de acesso importante nessas relações. E como foi isso no Japão, que dos países em que você passou é o mais diferente da nossa língua? Você conseguiu falar japonês? Como foi sua experiência lá?

O Japão foi muito legal. A gente ia ao McDonald’s e pedia um hambaga, um x-baga e uma Kora. Kora era Coca-Cola, x-baga era x-búrguer, hambaga era hambúrguer. O intérprete, que estava lá há muitos anos, chegou a mim e disse:

— Silas, fui ao cinema e vi um filme, mas chorei tanto, chorei tanto…

— Que filme, Jair?

— Tatanico.

— “Tatanico”, Jair? Que filme que é esse?

— Tatanico!

— Eu não sei que filme que é esse.

— Aquele lá do navio.

— Ah, o Titanic!

É Titanic em pronúncia inglesa, mas em japonês é Tatanico. Então, era muito assim… Por conta dos japoneses terem vindo em muitos para o Brasil fazer estágio, dentro do campo eles falavam português. Quando você entrava em campo, os jogadores do outro time falavam:

— E aí be-beleza?

— Beleza.

Ha ha ha… Eles falavam assim. Já havia uma interação muito grande. E o japonês nos ensina sobre civilidade, como se comportar. A gente aprende muito com o japonês. Tem a questão do kohai e do senpai. O senpai é o mestre e o kohai, o aluno. E isso funciona em todas as esferas! A questão do chefe e do empregado. Você, enquanto empregado, deve seguir o mestre. Não tem como você não gostar. Aqui no Brasil tem o ditado: “Coisa boa a gente acostuma rápido.”. Então, você vai para o Japão, onde tem tecnologia, tem tudo. Tem máquinas nas ruas a cada vinte metros, uma vendendo sopa, outra Coca-Cola, de cigarro, de filme… É só por uma moeda e pegar uma comida, um suco, um chocolate… Quer dizer, eles facilitam muito a vida. É um lugar onde você pode deixar bolsa, dinheiro, que ninguém pega. A gente lá realmente fica com vergonha das coisas que a gente vê aqui. E aprende muito, assim, que dá para melhorar.

Qual o impacto de voltar depois dessas experiências no exterior?

Até hoje em casa ninguém sobe com sapato. Todo mundo deixa o sapato lá fora, lá embaixo. Então, a gente tem sempre a casa limpa, porque todo mundo anda de meia. Aí as pessoas, ao chegarem em casa, veem aquele monte de sapatos e já tiram os calçados também. Mas nunca a gente falou nada para ninguém. E, se um ou outro entrar, a gente fala: “Pode entrar, não tem problema. Somos brasileiros.”… Acaba havendo um impacto na vida dos filhos. Por exemplo, na minha época não existia essa coisa de intercâmbio. Só filho de rico que tinha aparelho nos dentes, só filho de rico estudava inglês, só filho de rico tinha calça Fiorucci, calça da Marshall, tênis All Star. E a criançada nossa agora, não. Eles vão para os Estados Unidos como se tivessem indo como se tivessem indo de Campinas para São Paulo! Eles ficam lá seis meses e não estão nem aí, e a gente aqui roendo a unha, com o coração apertado. Antigamente, para você falar com um parente, tinha que ir ao orelhão. Colocava a ficha lá e, se acabasse a ficha, não dava para falar mais. Tinha aquele tipo de ligação, o telefax, que você pagava por letra. Hoje, não, você não somente fala como vê o filho… Você não precisa sair de casa mais para alugar um filme. Acabou. Os filhos que têm essa possibilidade de morar fora… Minha filha foi para Cambridge, ficou um mês lá e nada!

Mas em algum momento, quando crianças, eles reclamaram dessas mudanças?

Nada! Nada. Assim, o que a gente exigia deles: comer na mesa, sem telefone na hora de comer… Quando acontecia alguma coisa, eu falava assim:

— Nathan…

— Já sei, pai, já sei. Você só teve um par de tênis, só teve uma bola quando era criança. – falava tirando até sarro da gente.

A gente não permitia que eles se sentassem à mesa sem camisa. Eram aquelas coisas de educação mesmo! Porque não é a escola que educa. A escola ensina, mas é a gente que educa dentro de casa. Então, nós sempre primamos por essas coisas. E hoje a gente vê muito resultado. Quando nós vamos à casa de alguém, vê os pais falarem: “Puxa, seu filho é educado.”.

Falo para meus filhos: “Ninguém tem que ficar vendo seu sovaco ou pelo debaixo do braço! Não, põe uma camisa de manga… Não vai descer com aquela ceroulona, com o negócio balançando! Não, põe cueca e um shorts quando você estiver no quarto sozinho.”. Falo porque eu não gosto quando vem um menino em casa e… Eu não vou ficar educando os filhos dos outros. Mas eu tenho menina! Aí um menino de 14, 15, 16 é tudo homem já! Aí ele desce com ceroulão, com o negócio balançando lá?! Eu tenho filha dentro de casa. A gente brinca: “Oh, oh, você está louco?!”. Mas não deixa de ser falta de educação. Se mais pessoas fizessem o que a gente fez, facilitaria para todo mundo e acho que nós não veríamos essa dificuldade que nós vemos em várias famílias. Nós somos pai e mãe lá em casa para mais de setenta! Tem grupos que meu filho promove lá em casa, e eu vejo como eles gostam de ficar lá. Aí você vai conversando com um ou outro e vê que, de cada dez casamentos, seis terminaram no terceiro ano. Isso é um dado estatístico. Porque nós realmente estamos numa outra etapa de criação, de tudo.